Na segunda-feira seguinte, Rafael acordou antes do despertador.
Não estava ansioso.
Estava preparado.
Passara o fim de semana organizando sua estratégia, estudando os ativos que acompanhava e definindo os próximos passos para a Monteiro Capital. Também havia revisado suas anotações sobre o poder, procurando padrões que permitissem distinguir visões precisas de imagens ambíguas.
Às 7h48, sentou-se diante do computador.
Sua conta pessoal registrava R$ 947.850.
Faltavam R$ 52.150 para o primeiro milhão.
Ele não estabeleceu que precisaria ganhar exatamente aquela quantia naquele dia. Seria um erro transformar uma meta patrimonial em obrigação de assumir riscos.
Em vez disso, observou as próximas 24 horas.
A primeira visão mostrou um dia relativamente tranquilo.
A segunda revelou uma oportunidade em um mercado internacional.
A terceira mostrou uma sequência de movimentos que permitia identificar uma entrada mais favorável e uma saída posterior.
Rafael repetiu a visão, conferiu os horários que conseguia observar e comparou as informações com os dados disponíveis.
Dessa vez, a sequência parecia excepcionalmente clara.
Às 9h18, executou a primeira operação.
O mercado começou a se mover.
Rafael acompanhou a posição, mas não ficou hipnotizado pelas oscilações. Conferia os dados, comparava o comportamento observado com o cenário previsto e respeitava os limites estabelecidos.
Às 10h06, encerrou a operação.
Lucro líquido: R$ 31.400.
Patrimônio: R$ 979.250.
Faltavam R$ 20.750.
Rafael não comemorou.
Havia aprendido algo importante durante os últimos dias: o mercado não lhe devia um resultado apenas porque ele estava perto de uma meta.
Às 10h42, encontrou outra oportunidade.
A visão indicava um movimento favorável, mas havia menos detalhes do que na operação anterior. Ele aguardou uma confirmação e reduziu a exposição.
Às 11h17, encerrou a posição.
Lucro líquido: R$ 12.650.
Patrimônio: R$ 991.900.
Faltavam R$ 8.100.
Rafael respirou fundo.
A diferença era pequena em relação ao patrimônio, mas o significado psicológico era enorme.
O primeiro milhão estava a uma operação bem-sucedida de distância.
Ele decidiu não forçar nada.
Almoçou, voltou ao escritório e passou a tarde revisando os acontecimentos. Uma nova oportunidade surgiu perto do encerramento do pregão, mas a visão não oferecia clareza suficiente.
Rafael deixou passar.
Às 17h30, fechou o computador.
Ainda não havia alcançado o milhão.
E estava perfeitamente satisfeito com isso.
O patrimônio continuava próximo da meta, e ele não havia sacrificado sua disciplina para atingir um número simbólico.
Naquela noite, em casa, Rafael preparou o jantar e abriu o notebook.
Precisava analisar o mercado internacional e planejar o dia seguinte.
Às 21h14, uma visão surgiu.
Dessa vez, ele viu um anúncio corporativo que ainda não havia sido publicado. A informação era suficientemente específica para que pudesse identificar a empresa e pesquisar os dados públicos relevantes.
Em seguida, observou o provável efeito inicial sobre a cotação.
Rafael não tentou adivinhar quanto ganharia.
Calculou os custos, avaliou a liquidez e definiu os limites de risco.
Depois fechou o notebook.
— Amanhã.
Foi dormir cedo.
Na terça-feira, Rafael chegou ao escritório às 8h.
A notícia prevista foi confirmada durante a manhã.
Ele executou a operação planejada, acompanhou a movimentação e encerrou a posição quando o objetivo definido foi atingido.
Lucro líquido: R$ 14.280.
Abriu a planilha.
Patrimônio: R$ 1.006.180.
Rafael ficou em silêncio.
Leu o número novamente.
Um milhão, seis mil e cento e oitenta reais.
O primeiro milhão estava conquistado.
Não havia fogos de artifício, música triunfal ou uma multidão aplaudindo. Havia apenas uma tela, uma planilha e o homem que sabia exatamente o que aquele número representava.
Ele se levantou e foi até a janela.
Durante anos, imaginara que alcançar o primeiro milhão mudaria sua vida de maneira imediata. Agora, percebia que a verdadeira mudança não estava no saldo bancário.
Estava na velocidade com que conseguia transformar conhecimento em capital.
E o poder que possuía ainda estava longe de ter sido explorado por completo.
Rafael voltou à mesa, abriu o documento da futura empresa e acrescentou uma nova linha:
Capital próprio: primeiro milhão alcançado.
Depois escreveu a meta seguinte.
R$ 10 milhões.
Ficou observando a tela.
Não parecia uma fantasia.
Parecia uma questão de planejamento, execução e tempo.
Seu telefone vibrou.
Era uma mensagem de Marcelo:
Rafael, preciso conversar com você hoje. Temos uma proposta interessante para o próximo trimestre.
Rafael sorriu.
— Vamos conversar, Marcelo.
Mas, pela primeira vez, não tinha certeza de que continuaria interessado em construir o futuro de outra empresa.
Porque agora ele estava começando a construir o próprio.