O sol fraco de junho mal conseguia atravessar a poeira que flutuava no ar. Dentro do esconderijo, o cheiro de madeira molhada em decomposição era forte, mas Arthur já estava acostumado. Ele se sentou devagar na borda do colchão velho, ajustando a faixa que prendia seu ombro.
A dor ainda estava lá, fisgando a cada movimento, mas a placa de metal que o robô improvisara tinha salvado sua vida. Isso ele precisava admitir.
— Como estão seus níveis de energia, Mark? — perguntou Arthur, olhando para a figura alta que guardava a entrada da porta.
O robô virou a cabeça com um rangido suave. As luzes nos seus olhos piscaram em um tom amarelo claro.
— Operando com setenta por cento da capacidade total — respondeu Mark, com a voz metálica e calma. — O núcleo interno permanece estável. No entanto, recomendo que não faça esforços físicos pelas próximas vinte e quatro horas.
Arthur deu um sorriso de canto. Era engraçado ouvir uma máquina tão antiga falar como se fosse um médico de hospital.
Ele pensou, observando as garras pesadas de aço que o robô usava para segurar uma barra de ferro: Um robô antigo que não sabe lutar, não sente medo e ainda obedece ordens. Se eu souber jogar minhas cartas, o Tribunal vai ter uma surpresa muito em breve. Então aí vou poder concretizar o que eu quero.
— Não se preocupe comigo, Mark. Eu sei cuidar de mim — disse o garoto, ficando em pé com um pouco de dificuldade. — A nossa prioridade agora é sair desta área antes que o Sandman ou a patrulha decidam voltar. Pegue as ferramentas na bancada. Temos um longo caminho pela frente.
— Entendido, Arthur — disse a máquina, caminhando até a mesa quebrada. — Adicionando "fuga tática" à lista de tarefas.
O garoto olhou para a rua deserta através da janela quebrada. O mundo lá fora era perigoso e cruel, mas pela primeira vez em muito tempo, ele sentia que tinha uma chance real de mudar o jogo.
Arthur se levantou como quem não queria nada e olhou para o horizonte cinzento que cobria o setor.
— Está pronto? — perguntou Arthur, ajeitando a alça da mochila.
— Tudo está nos conformes, senhor — a máquina respondeu, checando suas articulações.
— Então vamos.
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CAPÍTULO 3: DEPOIS DAQUELE DIA
Saíram do abrigo improvisado e foram andando pela terra de ninguém. O vento seco soprava poeira contra os olhos, e o silêncio do deserto era quebrado apenas pelo rangido constante dos passos de Mark. Eles pensavam que não iam encontrar absolutamente nada por uns bons quilômetros, apenas escombros e esqueletos de ferro, isso até encontrarem um monte de vendinhas organizadas no meio do conhecido “Abrigo das Árvores Mortas”. O lugar era um ponto de encontro movimentado para negociantes, sucateiros e viajantes do submundo.
Enquanto caminhavam entre as barracas coloridas e cobertas por lonas rasgadas, Arthur reparou em uma comerciante de expressão fechada cuidando de uma banca de vegetais. Ele olhou para o robô ao seu lado e teve uma ideia maldosa para se divertir um pouco.
— Ei, Mark, vai lá naquela mulher e fala assim: “Boa tarde, gostosa, poderia me dar 5 batatas, por favor?”
O robô parou por um segundo, inclinando a cabeça quadrada.
— “Gostosa” não seria algo desrespeitoso? — Mark perguntou, consultando seus arquivos de etiqueta social.
— Não, não! “Gostosa” na nossa época é equivalente à “moça”! — exclamou Arthur, mantendo a cara mais séria e sincera do mundo.
Confiando totalmente no aliado, Mark foi até a vendinha, parou em frente ao balcão de madeira e falou para a mulher exatamente as mesmas instruções de Arthur, usando sua voz grave e robótica.
A reação foi imediata. A feirante arregalou os olhos, pegou um pedaço pesado de pau que estava encostado na banca e levantou a voz para todo mundo ouvir:
— Seu robô tarado! — a mulher urrou, ameaçando bater no chassi de metal.
Mark, sem entender a confusão, respondeu calmamente que aquelas foram instruções diretas de Arthur. O garoto não esperou a mulher olhar para trás: puxou Mark pelo braço e os dois correram por um bom e longo tempo entre os corredores do abrigo, enquanto Arthur gargalhava freneticamente da cara de surpresa do robô.
Após a fuga da mulher endurecida e de deixarem a confusão para trás, Arthur esperou a poeira baixar e voltara sozinho para comprar uma caixa de cigarros em uma banca mais afastada. Acendeu um, soltando uma nuvem de fumaça cinzenta, e seguiram caminho pela estrada poeirenta.
— De acordo com meus dados, cigarros em 87% das vezes quando usados frequentemente causam câncer — Mark consultou seu banco de dados, emitindo um pequeno apito de alerta.
— Cala a boca e me deixa fumar. Eu tô pouco me fudendo para o câncer — afirmou o jovem mecânico, dando mais uma tragada funda.
— Como o senhor começou a fumar? Gostaria de adicionar esses dados no meu registro pessoal — Mark perguntara com um brilho azulado em seus sensores oculares.
— Meu tio Mike me deu meu primeiro cigarro quando eu tinha 15 anos. Mesmo com isso e também com uns papos estranhos dele sobre o mundo antigo, ele ainda era um cara bem legal — Arthur respondeu apático, encarando a ponta acesa do cigarro.
— Como assim “era”, senhor? — o robô indagou, ajustando o passo.
— Ele morreu. O mesmo era professor de biologia e ralou muito para conseguir um emprego dentro da cúpula, onde achava que estaria seguro. No final, morreu por criminosos da área periférica que começaram um tiroteio na escola em que ele trabalhava. Pura falta de sorte — o garoto explicou, dando de ombros.
— Sinto muito por pedir esses dados — o robô falou em um tom de pena pré-programado, reduzindo a velocidade dos passos.
— Relaxa, eu nem ligo mais. Mortes são tão recorrentes hoje em dia que a gente acaba se acostumando — o jovem mecânico confirmou, jogando a bituca no chão.
O cigarro de Arthur apagou com o vento, então ele acendeu outro sem hesitar. Seguiram caminho até uma grande represa desativada, um lugar cinzento e monumental onde Arthur queria ir sem explicar o porquê desde o início da jornada.
Chegando na estrutura maciça da represa, Arthur se encostou no muro de contenção e esclareceu para Mark:
— Se nos verem aqui, tentarão nos matar sem nem perguntar nada.
— Poderia me explicar o motivo de tal risco? — Mark perguntou, entrando em modo de alerta.
— Eu sou uma “barata”, e esta represa faz parte do domínio direto do Tribunal, mesmo estando do lado de fora da cúpula — explicou o garoto.
— Então por que viemos aqui se o perigo é iminente? — o robô perguntou, girando os sensores para monitorar os arredores.
— Simples: essa é uma das únicas fontes de água limpa do setor todo, e diferente de você, que funciona com óleo e energia, eu sinto sede de verdade — o jovem mecânico argumentou, batendo no próprio peito.
— Sinto que está escondendo algo mais, senhor Arthur.
— Também tem mais um motivo — Arthur deu um sorriso de canto.
Enquanto conversavam na sombra da muralha, ouviram gritos ásperos de uma discussão vindo da parte alta do reservatório. Quando foram averiguar por trás de um bloco de concreto, viram dois guardas armados vociferando para um homem jovem que estava sentado calmamente em um muro da represa, balançando as pernas no ar.
— VOCÊ ESTÁ AQUI DE NOVO?! — um guarda gritou com raiva, apontando o cassetete de contenção.
— Calma, pessoal. Eu não sou uma barata, eu já disse e vocês me veem passar por aqui todo dia — o homem respondeu calmamente, sem se abalar com os gritos.
— MAS VOCÊ É FILHO DE UMA! NÃO SABEMOS O QUE VOCÊ PLANEJA AQUI DENTRO!
— Nossa, é assim que vocês tratam um cidadão de bem? — debochou o rapaz.
— Já estamos cansados dessa sua enrolação! Estamos levando você para a delegacia agora mesmo!
Os patrulheiros já estavam prestes a avançar e levar o homem à força. De repente, Arthur sai de trás do esconderijo e corta a conversa com a maior naturalidade do mundo.
— E aí, Oliver! — Arthur exclamou sem demonstrar pingo de medo.
Os guardas viraram assustados.
— Uma barata!
Antes que pudessem reagir ou erguer suas armas, Arthur sacou a pistola da cintura e derrubou os dois guardas com dois disparos precisos e fatais. Os corpos caíram pesadamente na poeira.
— Recebi sua carta ontem de manhã — Arthur falou para o homem, caminhando até ele e entregando um facão e uma pistola a laser que havia retirado dos guardas.
— Obrigado, Arthur. Até que chegou logo em uma hora boa. Pelo menos uma vez na vida você não se atrasa, né? — o homem retrucou, pegando o armamento com um sorriso no rosto.
— Mark, esse é o principal motivo de virmos para cá: o filho do meu falecido tio Mike, chamado de Oliver — apresentou o mecânico.
Oliver desceu do muro e olhou para a máquina de cima a baixo com o olhar meio apertado.
— Quem é esse robô maracutaia das ideias? — falou Oliver de forma arrastada.
— Tu bebeu de novo, Oliver? — Arthur perguntou, encarando o primo — Da última vez que encheu a cara, dançou só de cueca rasgada no meio da feira! — Arthur começou a rir com a lembrança — De qualquer forma, esse é o Mark-187, um robô antiquado que eu achei em uma fábrica antiga da Mark Robotics. Eu revivi ele do zero.
— Maneiro demais! Prazer, sou Oliver — disse ele, virando-se para a máquina — Parece que você não sabe por que o Arthur veio aqui por mim, então vou explicar. Eu mandei uma carta pro Arthur pedindo para me juntar à organização dele, já que eu já tô bem cansado de viver como um cidadão controlado. Contudo, acho que tem algo além acontecendo por aqui.
— E tem mesmo — Arthur respondeu, ficando sério — Fui embora de lá sem dar explicação alguma para os chefes. Vazei.
— Moleque, você é completamente maluco! Hahaha! — Oliver gargalhou alto.
Mark ainda tentava processar todas as informações que recebia, mas deu um passo à frente e tentou cumprimentar Oliver com cortesia.
— Também é um prazer conhecê-lo, senhor Oliver. Amigos do senhor Arthur são automaticamente meus amigos. Estou a dispor caso seja necessário — Mark falou, com sua voz monocórdica, antes de ser cortado por Arthur.
— Eu vim aqui também por conta daquele plano antigo que nós bolamos há um tempo atrás. A lata velha aqui irá nos ajudar a executar tudo — falou enquanto batia com a palma da mão na carcaça blindada de Mark.
Oliver olhou para os guardas mortos no chão e depois para o grande reservatório que abastecia a cidade.
— Ei, só de sacanagem, bora jogar os corpos desses mortos na água que vai direto pra cúpula? — Oliver questionou, animado com a ideia de aprontar.
— Isso é estritamente errado e viola normas básicas, senhor Oliver — Mark alertou imediatamente.
— Foda-se, Mark! Bora jogar eles agora mesmo! — Arthur afirmou, sem pensar duas vezes.
Os dois puxaram os dois corpos pelos braços e os jogaram no fundo da represa como um grande ato de rebeldia contra o sistema. Sem demonstrar arrependimento nenhum, Arthur simplesmente riu da cena e acendeu mais um cigarro para comemorar.
Os dois bateram papo por um longo tempo ali perto, discutindo os detalhes do que fariam nos próximos dias, enquanto Mark ficava de guarda no topo do muro observando o horizonte. Após algumas horas de conversa, Arthur pegou água limpa do reservatório e engarrafou em mais de doze garrafas plásticas que trazia na mochila, enquanto fazia o sinal para Mark de que já poderiam ir embora dali.
No caminho de volta, Arthur e Oliver caçam vários pássaros selvagens usando a pistola a laser e roubam algumas colheitas de plantações da área periférica, tudo isso para conseguir recursos suficientes para a viagem. Tudo estava correndo de forma tranquila e sem sobressaltos.
— Aliás, Arthur, tenho uma pergunta — Oliver falou enquanto ajustava a fita do facão na cintura — Por que demorou tanto para vir me encontrar? Você não é homem de dormir no meio da viagem.
— Tivemos um pequeno imprevisto. Eu e Mark encontramos o Sandman no meio do caminho. Ele queria o robô a todo custo, então brigamos — Arthur respondeu calmamente — Foi uma briga bem equilibrada: uma hora o Sandman batia e na outra hora a gente apanhava! Haha!
— Sério?! O Sandman em pessoa?! Como é que você ainda tá vivo depois disso?! — Oliver perguntou, impressionado.
— A polícia chegou bem na hora que ele iria matar nós dois, fazendo aquele barulho todo, então ele partiu em retirada para não ser preso.
— Cara, vocês tiveram uma sorte absurda — Oliver balançou a cabeça.
— Não precisa ficar esfregando isso na minha cara — resmungou Arthur.
Continuaram tranquilamente andando pelas trilhas de terra enquanto Mark usava o tempo para analisar e conhecer melhor o novo parceiro.
— Sujeito “Oliver” adicionado com sucesso na lista de amigos — o robô anunciou para si mesmo.
Papo vem, papo vai. Continuaram andando pela imensidão da terra de ninguém até não encontrarem mais nada além de poeira e cactos secos. Em algum momento do dia que já não estava mais nas contas de ninguém, encontraram um bar de beira de estrada construído com chapas de metal, onde sentaram-se em uma mesa dos fundos para discutir os assuntos importantes enquanto bebiam algumas cervejas e Mark bebia um frasco de óleo de motor para lubrificar seus circuitos.
— Muito bem, Arthur. Eu vou me juntar a vocês dois a partir de agora, porém tenho uma pergunta séria para fazer: como é que nós vamos fazer exatamente aquilo que planejamos? — Oliver perguntou, ficando com o rosto sério.
— Muito bem, eu tenho vários planos na minha cabeça. Porém, o principal deles é o d—
De repente, a fala de Arthur é cortada por um estrondo absurdo na porta de entrada do bar. A madeira cedeu e três homens altos e robustos entraram pisando fundo no recinto. Dois deles seguravam metralhadoras pesadas de fabricação artesanal.
— Arthur! Sabemos que você está aí dentro! Queremos conversar com você sobre a sua saída não autorizada da nossa organização! — os homens falaram em um tom malicioso e ameaçador, apontando as armas na direção da mesa.
Arthur olhou para a garrafa de cerveja, soltou um suspiro pesado e resmungou:
— Ah, merda!... — Resmungou Arthur — Não aguento mais ter que enfiar bala na testa dos outros. — Falou enquanto se levantava junto com seus aliados.
[FIM DO CAPÍTULO 3]