Capítulo 1 — Uma casa, ou quase
A primeira coisa que Elias descobriu sobre sua nova vida foi que crianças nobres tinham camas absurdamente grandes.
A segunda foi que, aparentemente, não tinham o direito de dormir até tarde.
— Jovem mestre? Já está acordado?
Elias abriu os olhos, mas não respondeu. A voz vinha do outro lado da porta, acompanhada de duas batidas discretas. Ele permaneceu imóvel, esperando que a pessoa desistisse.
— Jovem mestre?
Talvez tivesse sido educado demais ao ficar em silêncio. A mulher bateu novamente.
— Se não responder, vou precisar entrar.
Elias considerou suas opções. Poderia responder que estava dormindo, mas isso exigiria uma mentira elaborada. Poderia continuar quieto, mas a mulher já havia anunciado suas intenções. Também poderia simplesmente levantar, embora ainda não tivesse a menor vontade de descobrir por que estava em uma cama que não reconhecia.
— Estou doente — respondeu.
Houve uma pausa.
— O que está sentindo?
Ele fechou os olhos.
— Sono.
Dessa vez, a pausa foi mais longa.
— Entendo. Vou avisar à duquesa que o jovem mestre está indisposto.
Os passos se afastaram pelo corredor. Elias esperou alguns segundos antes de se sentar.
Não sabia quem era aquela mulher, onde estava ou por que ela o chamara de jovem mestre. Sabia apenas que o teto era alto, as cortinas eram decoradas e havia uma quantidade ofensiva de madeira trabalhada nos móveis. Ao lado da cama, uma mesinha sustentava uma jarra de água, um copo e um pequeno relógio dourado.
Ele olhou para as próprias mãos.
Eram pequenas.
Virou-as, examinando os dedos curtos, as unhas limpas e a pele sem as marcas que esperava encontrar. Levou alguns segundos para aceitar o que estava vendo. Depois, afastou as cobertas e olhou para o restante do corpo. As pernas também eram pequenas. Os pés mal alcançavam o chão quando se sentou na beirada da cama.
Ficou assim por um tempo.
— Ah.
Era uma reação bastante pobre para a situação, mas Elias não encontrou outra que lhe parecesse adequada.
Lembrava-se de ter vivido uma vida inteira. Lembrava-se de seu rosto, de lugares que provavelmente não existiam naquele mundo e de coisas que agora pareciam pertencer a alguém que conhecera havia muito tempo. Também se lembrava de morrer, embora a memória fosse confusa demais para lhe oferecer uma explicação satisfatória.
Não houve nenhuma luz celestial, nenhuma voz misteriosa e, infelizmente, nenhuma instrução, quando percebeu ele apenas havia acordado na cama.
Apenas um quarto desconhecido e uma cama grande demais.
Elias se levantou, cambaleou um pouco ao apoiar os pés no chão e caminhou até a janela. Precisou puxar uma cadeira para conseguir olhar por cima do parapeito. Lá fora, um jardim se estendia até uma fileira de árvores, com caminhos de pedra, canteiros bem cuidados e uma fonte que parecia grande o suficiente para alguém se afogar nela.
Além dos jardins, havia construções menores e um estábulo.
Era uma propriedade considerável. Daquelas que, na vida anterior, ele teria achado bonitas durante uma visita e esquecido pouco depois.
A diferença era que agora aparentemente morava ali.
Elias voltou para a cama.
Talvez devesse ficar preocupado. Talvez fosse necessário procurar respostas, descobrir como havia chegado àquele lugar e entender o que acontecera com seu corpo. Todas essas coisas pareciam razoáveis, mas exigiam uma disposição que ele ainda não possuía.
Decidiu começar pelo problema mais imediato.
estava com fome.
Não demorou muito para perceber que aquela decisão talvez tivesse sido precipitada.
A mulher que retornou ao quarto trazia uma bandeja com chá, pão, manteiga e frutas. Era jovem, tinha os cabelos castanhos presos atrás da cabeça e uma expressão profissional que se desfez assim que o viu sentado na cama.
— Graças aos céus, jovem mestre! Pensei que estivesse realmente doente.
— Ainda posso estar.
Ela colocou a bandeja sobre a mesa.
— A duquesa ficará aliviada em saber que o senhor está bem.
— Não estou bem. Estou com fome.
A criada olhou para ele, depois para a bandeja, como se tentasse decidir se aquilo era uma reclamação ou um pedido. Por fim, soltou uma risada curta.
— Então coma antes que esfrie.
Elias obedeceu. O pão era macio, a manteiga tinha um sabor que ele não reconheceu e o chá estava quente o bastante para obrigá-lo a esperar antes de beber. Comeu em silêncio, enquanto a mulher organizava as roupas sobre uma poltrona.
— Qual é o meu nome? — perguntou.
Ela parou.
— Como, senhor?
— Meu nome.
A criada se aproximou, agora visivelmente preocupada.
— Elias Vaelmont. O senhor está se sentindo bem mesmo?
Ele repetiu o nome mentalmente. Elias Vaelmont. Não significava nada para ele, mas, ao menos, agora sabia como deveria ser chamado.
— E quem é você?
— Marta, senhor. Estou encarregada dos aposentos das crianças.
Crianças. A palavra o fez olhar novamente para as próprias mãos.
— Quantos anos tenho?
Marta deixou a roupa que segurava sobre a poltrona.
— Sete, senhor.
Elias mastigou devagar.
Sete anos.
Não precisava de um espelho para saber que aquilo explicava bastante coisa. Ainda assim, a ideia de ter passado de adulto a criança não parecia mais razoável só porque alguém havia lhe fornecido um número.
— Entendo.
Marta esperou que ele dissesse alguma coisa. Quando percebeu que não diria, voltou a organizar as roupas.
— A duquesa pediu que o senhor descesse para o café da manhã com a família. Seu irmão já está à mesa, e a senhorita Rosalie acordou especialmente animada hoje.
Elias não gostou da maneira como ela pronunciou a última frase.
— Animada com o quê?
— Não faço ideia, senhor. Mas ontem ela passou a tarde inteira falando sobre uma apresentação que pretende fazer.
Ele pousou o pão no prato.
— Posso continuar doente?
Marta riu novamente.
— O senhor tem um senso de humor curioso.
Não era humor. Era uma tentativa legítima de evitar problemas futuros.
Infelizmente, a mulher parecia ter interpretado sua resposta como uma brincadeira, e logo começou a ajudá-lo a se vestir. Elias não gostou particularmente de precisar de ajuda para colocar uma camisa, mas gostou ainda menos de descobrir que as roupas de uma criança nobre possuíam tantos botões.
Quando finalmente deixou o quarto, estava usando uma camisa branca, um colete azul-escuro e calças que lhe pareciam formais demais para alguém que ainda precisava de uma cadeira para olhar pela janela.
O corredor era comprido, com retratos de pessoas que provavelmente pertenciam à família. Algumas tinham expressões severas, outras pareciam simplesmente entediadas. Elias parou diante de um quadro de um homem de cabelos grisalhos.
— Esse é o antigo duque — explicou Marta, percebendo seu interesse. — O avô do jovem mestre.
— Ele parece irritado.
— Era um homem muito respeitado.
— Não perguntei isso.
Marta apertou os lábios, contendo um sorriso.
— É melhor não fazer esse tipo de comentário perto do duque.
— Por quê? Ele vai ficar irritado também?
— Jovem mestre!
Ela disse aquilo num tom tão repreensivo que Elias concluiu que a resposta provavelmente era sim.
Desceram as escadas e atravessaram um salão onde alguns empregados preparavam flores para os vasos. A mansão estava longe de ser silenciosa. Havia passos nos corredores, vozes vindas de outras salas e o ruído distante de utensílios na cozinha. Era um lugar em pleno funcionamento, como uma pequena cidade na qual todos pareciam saber exatamente para onde deveriam ir.
Todos, exceto ele.
A sala de jantar ficava no fim de um corredor. Quando Marta abriu a porta, Elias encontrou uma mesa comprida, janelas altas e três pessoas já sentadas.
A primeira era uma mulher de cabelos castanhos, vestida com simplicidade apesar da elegância das roupas. Ela conversava com um homem de cabelos escuros, cuja postura fazia parecer que até mesmo tomar café da manhã era uma responsabilidade importante.
O terceiro ocupava uma cadeira perto da janela. Tinha cabelos escuros, um rosto semelhante ao de Elias e a expressão de alguém que já havia encontrado motivos para se irritar antes das oito da manhã.
Uma menina estava de pé ao lado dele, tentando alcançar alguma coisa sobre a mesa.
— Elias! — exclamou a mulher assim que o viu. — Finalmente. Como está se sentindo, querido?
Ele parou na entrada.
Aquela pergunta, por algum motivo, era mais difícil de responder do que as outras.
— Estou melhor.
— Que bom. Fiquei preocupada quando Marta disse que você estava indisposto.
Marta, que permanecia atrás dele, pareceu bastante satisfeita com a própria eficiência.
A mulher se levantou e veio até ele. Abaixou-se um pouco para ajeitar o colarinho de sua camisa e tocou sua testa com a mão.
Elias ficou imóvel.
O gesto era simples. Não havia nada de extraordinário nele, nenhuma razão evidente para que lhe causasse estranheza. Ainda assim, fazia tanto tempo que não recebia um carinho espontâneo que, por um instante, não soube o que fazer.
— Não está com febre — concluiu ela. — Talvez só tenha dormido mal.
— Mãe, ele está bem — disse o rapaz sentado à mesa. — Só está fazendo aquela cara de novo.
A mulher lançou-lhe um olhar.
— Lucien, não comece.
— Não comecei nada.
— Você acabou de começar.
O rapaz abriu a boca, pensou melhor e voltou ao pão.
Elias observou a troca. A mulher era sua mãe, aparentemente. O rapaz era Lucien, seu irmão mais velho. O homem de cabelos escuros devia ser o pai, e a menina que finalmente conseguira alcançar um pequeno pote de geleia agora o encarava com uma curiosidade indisfarçável.
— Tu estás estranho — declarou ela.
Elias olhou para a menina.
— Bom dia para ti também.
Ela franziu a testa.
— Tu nunca falas assim.
— Assim como?
— Como um velho.
Lucien soltou uma risada pelo nariz. O pai ergueu os olhos do jornal.
— Rosalie, não se fala assim com o seu irmão.
— Mas ele parece um velho.
— E tu pareces uma criança — respondeu Elias.
Rosalie ficou em silêncio, processando a informação. Então puxou uma cadeira e se sentou com uma dignidade que não combinava em nada com seu vestido cor-de-rosa.
— Sou uma criança. Tenho cinco anos.
— Nesse caso, estamos de acordo.
— Mas tu tens sete. És mais velho.
— Infelizmente.
Lucien voltou a rir. Dessa vez, o pai abaixou o jornal por completo.
— Elias.
Apenas o nome. Ainda assim, o tom foi suficiente para que o menino se sentasse.
— Sim?
— Espero que esteja se sentindo melhor. Sua mãe ficou preocupada.
Elias olhou para a mulher ao seu lado. Ela já havia retornado à própria cadeira, mas continuava observando-o discretamente.
— Estou bem — respondeu, depois de uma pausa. — Obrigado.
O pai pareceu satisfeito com a resposta e voltou ao jornal. A conversa seguiu adiante como se nada de especial tivesse acontecido.
Foi então que Elias percebeu o verdadeiro problema daquela família.
Eles conversavam demais.
Lucien reclamou que o professor havia marcado uma avaliação para a semana seguinte. Rosalie contou uma história sobre um pássaro que pousara no jardim, embora a história tivesse começado com o pássaro e terminado com uma discussão sobre a cor das flores do jardim não estarem tão boas. A mãe perguntou ao pai sobre uma visita que ele receberia naquela tarde, e ele respondeu entre uma garfada e outra.
Ninguém parecia se incomodar com o fato de que o café da manhã era apenas uma refeição. Falavam como se estar juntos fosse motivo suficiente para conversar.
Elias tentou comer em paz.
— Elias, tu vais assistir à minha apresentação hoje? — perguntou Rosalie.
Ele continuou cortando o pão.
— Que apresentação?
— A minha apresentação.
— Isso esclarece bastante coisa.
— Vou dançar no jardim.
— Por quê?
Rosalie olhou para a mãe, ofendida pela pergunta.
— Porque quero.
— Entendo.
Ela esperou que ele acrescentasse alguma coisa. Como não acrescentou, voltou-se para Lucien.
— Lucien, tu vais assistir?
— Tenho treino depois do almoço.
— Então podes assistir antes.
— Tenho outras coisas para fazer.
— Podes fazer depois.
Lucien pousou os talheres.
— Rosalie, nem tudo no mundo precisa acontecer quando tu queres.
A menina abaixou os olhos. Não chorou, mas perdeu um pouco da animação que demonstrara até então.
Elias percebeu isso enquanto levava o copo à boca. Era uma mudança pequena, fácil de ignorar. Lucien já voltara a comer, aparentemente satisfeito por ter encerrado a conversa.
Rosalie mexeu na geleia com a colher.
— Eu só queria que vocês assistissem.
A mãe começou a dizer alguma coisa, mas Elias falou primeiro.
— A que horas?
Rosalie ergueu a cabeça.
— O quê?
— A apresentação. A que horas vai ser?
— Depois do almoço!
— Então verei se tenho alguma coisa para fazer.
Não era uma promessa. Ele fizera questão de escolher as palavras com cuidado. Mesmo assim, Rosalie sorriu como se tivesse recebido um presente.
— Vou guardar um lugar para ti!
Ela voltou à refeição, agora ocupada em decidir qual dos irmãos deveria sentar mais perto da fonte. Lucien olhou para Elias por alguns segundos, com uma expressão difícil de interpretar, mas não comentou nada.
O café da manhã terminou pouco depois. O pai foi chamado para resolver um assunto de trabalho, a mãe saiu acompanhada de uma criada e Lucien recebeu uma mensagem de seu instrutor. Rosalie, por sua vez, anunciou que precisava preparar os figurinos da apresentação e desapareceu antes que alguém pudesse perguntar o que exatamente isso significava.
Elias ficou sozinho à mesa por alguns instantes.
A primeira refeição com sua nova família havia sido muito mais cansativa do que ele esperava. Descobrira quatro nomes, duas idades, uma quantidade razoável de informações inúteis e o fato de que uma menina de cinco anos era capaz de organizar a agenda de todos os habitantes da mansão.
Ainda não sabia como havia chegado ali, se existia alguma maneira de voltar ou o que deveria fazer com a vida que lhe fora entregue. Não tinha respostas para nenhuma dessas perguntas.
Mas tinha uma apresentação no jardim depois do almoço.
E, pelo visto, não comparecer não era uma opção tão simples quanto gostaria.
— Jovem mestre?
Elias ergueu os olhos. Marta estava à porta, esperando por ele.
— Sim?
— A duquesa pediu que eu o acompanhasse até a biblioteca. Seu novo tutor virá na próxima semana, mas ela gostaria que o senhor começasse a se familiarizar com os livros da propriedade.
Ele olhou para a porta, depois para a janela. Lá fora, dois jardineiros carregavam vasos enquanto uma criada atravessava o caminho com um cesto de roupas. Ao longe, ouviu a voz de Rosalie, provavelmente explicando a alguém que sua apresentação seria o maior acontecimento da história da família Vaelmont.
Elias se levantou.
— Onde fica a biblioteca?
Marta sorriu.
— Vou mostrar ao senhor.
Ele a seguiu pelo corredor, passando novamente pelos retratos dos antepassados. O homem grisalho continuava com a mesma expressão irritada.
Talvez aquela vida não fosse ser tão ruim, pensou.
Mas era cedo demais para chegar a uma conclusão.
Por enquanto, só queria encontrar um lugar tranquilo, abrir um livro e aproveitar o silêncio da biblioteca.
Mal sabia ele que a biblioteca também era o lugar preferido de seu irmão mais velho.