Passos...
O som ecoava do lado de fora de uma pequena casa isolada entre as fronteiras do Reino da Escuridão e do Reino Elétrico.
O lugar era silencioso.
Estranhamente silencioso.
Então...
Toc. Toc. Toc.
A mulher sentada diante da lareira abriu os olhos.
— Ah?
Ela se levantou lentamente.
Seu rosto demonstrava curiosidade, mas sua presença fazia o próprio ar parecer pesado. Uma energia invisível escapava de seu corpo, tão poderosa que qualquer pessoa comum provavelmente cairia de joelhos apenas por permanecer perto dela.
Emilia caminhou até a porta.
— Quem bate na minha porta a essa hora?
Ela abriu.
Do lado de fora havia apenas um garoto.
Magro.
Ferido.
Sujo.
E completamente exausto.
O menino levantou os olhos com dificuldade.
— Por favor...
Seu corpo cambaleou.
— Me treine...
Antes que Emilia pudesse responder, ele caiu.
Seu pequeno corpo atingiu o chão.
E seus olhos se fecharam.
Emilia permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então olhou para aquele garoto como se já soubesse que aquele encontro mudaria muitas coisas.
— Interessante...
Ela se abaixou.
— Quem é você?
O garoto não respondeu.
Já estava desacordado.
Alguns anos antes...
O vento gelado soprava sobre o palácio do Reino de Gelo.
Shadown Nero permanecia parado diante de uma janela, observando a neve cair sobre as casas da vila.
Seus braços estavam cruzados.
Sua expressão era séria.
— Inacreditável...
Cecília, que estava sentada próxima à lareira, levantou os olhos.
— O que aconteceu agora?
— Felicia tem apenas três anos e já está quase no Nível B em magia.
Shadown virou-se.
— Ela aprende rápido demais. Sua mana cresce a cada dia.
Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Cecília.
— Ela puxou à mãe.
Shadown quase sorriu.
Quase.
Mas sua expressão voltou a ficar pesada.
— Já Lucky...
Cecília percebeu imediatamente a mudança em seu tom.
— Shadown.
— Ele tem magia ofensiva e defensiva, sim. Mas são tão fracas que é quase como se não tivesse magia alguma.
O silêncio tomou conta do ambiente.
Cecília abaixou os olhos.
— Ele ainda tem quatro anos.
— Eu sei.
— Talvez precise apenas de mais tempo. Quando completar seis anos, pode chegar pelo menos ao Nível C.
Shadown voltou a olhar para a neve.
— Tomara.
Mas, em seu coração, havia algo que ele não conseguia dizer.
Medo.
Shadown Nero havia enfrentado guerras.
Monstros.
Reis.
Elementares.
A própria morte mais vezes do que conseguia contar.
Porém, nada o assustava tanto quanto olhar para o próprio filho e perceber que não sabia como ajudá-lo.
Ele havia aprendido a lutar sozinho.
Tornara-se um herói sozinho.
Mas nunca havia aprendido a ser pai.
Quatro anos depois...
— Vamos, Lucky! Vamos nos atrasar!
Felicia gritava enquanto esperava do lado de fora da residência.
Lucky permanecia sentado.
— Pode ir sem mim.
— Não estou muito a fim de ir hoje.
Felicia colocou as mãos na cintura.
— Você não consegue ficar forte e ainda quer ser preguiçoso?
Lucky levantou uma sobrancelha.
— Ei.
— Talvez seja melhor você ser exilado logo.
— Ahn?!
Felicia desviou o olhar.
— Não falei nada.
Ela se aproximou.
— Vamos logo. Antes que eu solte uma magia de vento em você.
Lucky levantou-se imediatamente.
— Tudo menos isso!
Os dois seguiram para a escola.
Apesar de Lucky ser um ano mais velho, Felicia já havia ultrapassado o irmão em praticamente todos os aspectos.
Eles estudavam em salas diferentes.
E Lucky odiava isso.
Porque significava que teria de passar mais um dia sozinho.
— Ora, ora...
Wendek apareceu no corredor.
— Se não é o fracasso do clã.
Ao seu lado, Jiki começou a rir.
— Esse moleque é um ano mais velho que Felicia e continua no Nível F em magia e espada!
— Uma vergonha para o Clã dos Heróis.
Lucky apertou os punhos.
Mas não respondeu.
Ele escutava aquelas palavras todos os dias.
Na escola.
Na vila.
Durante os treinamentos.
Até dentro de casa.
E o pior...
Era que uma parte dele acreditava nelas.
Shadown continuava exigindo mais.
Sempre mais.
Lucky precisava dominar uma magia melhor.
Precisava aprender a lutar.
Precisava se tornar digno do nome Nero.
Precisava se tornar forte.
Mas, para Lucky, cada tentativa parecia terminar da mesma forma.
Fracasso.
Até que completou oito anos.
Naquele dia, depois da escola, Shadown o chamou.
— Lucky.
O garoto virou-se.
— Sim?
— Depois da escola, vá até o centro da vila.
Cecília, que estava próxima, derramou uma lágrima silenciosa.
Lucky não percebeu.
— Por quê?
Shadown não respondeu.
— Apenas vá.
Quando Lucky chegou ao centro da vila, percebeu que algo estava errado.
Todos estavam lá.
Membros do Clã dos Heróis.
Guerreiros.
Magos.
Moradores.
No centro da praça, Shadown o esperava.
— Hoje é o seu dia, Lucky.
— Meu dia?
— Se vencer Felicia, seu Rank será elevado. Você deixará o Rank F e irá diretamente para o Rank C.
Os olhos de Lucky se iluminaram.
— Sério?!
— Sim.
Shadown apontou para a filha.
— Você enfrentará nossa prodígio.
Felicia arregalou os olhos.
— Pai! O senhor realmente vai dar a ele uma chance?
— Por que não?
Lucky sorriu.
Talvez fosse a primeira vez em muito tempo que acreditava que seu pai confiava nele.
— Então vou com tudo, irmã!
Felicia sorriu.
— Sou um ano mais nova e você quer lutar com tudo contra sua irmãzinha?
Ela ergueu as mãos.
— Por mim, tudo bem.
Shadown deu um passo para trás.
— Comecem!
A luta teve início.
Felicia fechou os olhos.
Quando os abriu novamente, suas pupilas haviam mudado.
Uma energia ardente surgiu ao redor de seus olhos.
Os Olhos de Fênix.
Uma habilidade rara, capaz de perceber o fluxo de mana e interferir diretamente nos sentidos de um adversário.
Lucky ficou assustado.
Mesmo assim, estendeu a mão.
Mana se reuniu diante dele.
Uma espada começou a surgir.
Era a primeira vez.
Uma espada completamente materializada.
Porém, a lâmina era fina, instável e coberta por rachaduras de mana.
Lucky segurou-a.
— Eu consegui...
Seu coração acelerou.
— Só preciso chegar perto dela e atacar com tudo.
— Felicia! Eu vou...
Seu corpo paralisou.
Lucky arregalou os olhos.
Não conseguia mover um único músculo.
Felicia aproximou-se.
— O que foi?
Ela sorriu.
— Por que parou?
Lucky tentou falar.
— O-o que você...
— Esse é um dos poderes dos meus Olhos de Fênix.
Ela tocou o próprio rosto.
— Paralisia.
Felicia inclinou a cabeça.
— Ainda não consigo usar perfeitamente. Mesmo assim, você ficou parado como uma estátua.
A expressão dela mudou.
— Você realmente é fraco.
Lucky sentiu aquelas palavras atravessarem seu coração.
— Por que eu tenho que ter um inútil como irmão mais velho?
— O combate terminou!
A voz de Shadown ecoou pela praça.
— Não! Espera!
Lucky finalmente conseguiu mover o corpo.
— Eu ainda posso lutar!
— Silêncio!
A praça inteira ficou em silêncio.
Até Felicia.
Shadown olhou para o filho.
E, durante alguns segundos, Cecília acreditou que ele desistiria.
Que abraçaria Lucky.
Que diria que aquilo era apenas um teste.
Mas Shadown não era aquele homem.
— Sua punição por perder será perder seus direitos como filho mais velho.
Lucky ficou imóvel.
— O quê?
— Você não fará mais parte do Clã dos Heróis.
Cecília fechou os olhos.
— Shadown...
Ele continuou.
— Não terá direito a liderar qualquer grupo, exército ou organização ligada ao clã.
Lucky começou a chorar.
— Pai...
— Você tem oito anos.
A voz de Shadown permanecia fria.
— E sua irmã de sete anos é muito mais forte que você.
Lucky sentiu o mundo desaparecer ao seu redor.
— Você realmente é um fracasso como membro deste clã.
Cecília apertou os punhos.
Shadown olhou para Lucky pela última vez.
— Você está banido desta vila.
A respiração do garoto parou.
— Nunca mais viverá entre nós.
— Pai...
— Nunca mais pise neste lugar.
Shadown fechou os olhos.
— Seu destino foi selado no momento em que escolheu não se tornar forte.
Lucky levantou-se lentamente.
Ele não respondeu.
Atravessou a multidão enquanto as lágrimas caíam de seus olhos.
Algumas pessoas riam.
Outras o insultavam.
Pedras foram jogadas em sua direção.
Lucky não olhou para trás.
— Essas são as pessoas que um dia se tornaram heróis?
Ele continuou caminhando.
— Essas são as pessoas que se autoproclamam heróis?
Ao atravessar os portões da vila, ouviu fogos de artifício.
Estavam comemorando.
Comemorando sua partida.
Lucky fechou os olhos.
— Eu não quero ser como eles.
E desapareceu entre as estradas cobertas pela neve.
Anos se passaram.
O palácio do Reino de Gelo estava silencioso.
Shadown permanecia deitado.
Seu corpo havia envelhecido.
A Calamidade estava finalmente cobrando o preço.
Marcas negras cobriam seu peito e seus braços.
A energia de seu contrato estava destruindo sua vida pouco a pouco.
Cecília segurava sua mão.
Felicia permanecia do outro lado da cama.
Agora adulta.
Agora forte.
Mas naquele momento, ainda era apenas uma filha prestes a perder o pai.
— Você sabia que isso aconteceria.
A voz de Cecília tremia.
Shadown sorriu fracamente.
— Sabia.
— Então por que aceitou o contrato?
— Porque alguém precisava aceitar.
Cecília apertou sua mão.
— Sempre alguém precisava, não é?
Shadown permaneceu em silêncio.
Ela chorou.
— Você salvou o mundo tantas vezes... mas nunca conseguiu salvar sua própria família.
As palavras atingiram Shadown mais profundamente que qualquer espada.
Ele fechou os olhos.
Por um instante, viu Lucky.
Com oito anos.
Chorando.
Indo embora.
E percebeu algo tarde demais.
— Eu falhei...
Felicia aproximou-se.
— Pai?
Shadown olhou para a filha.
— Felicia.
— Sim?
— Cuide de sua mãe.
Ela começou a chorar.
— Você mesmo pode cuidar dela.
Shadown sorriu.
— Não desta vez.
Ele voltou os olhos para Cecília.
— Eu nunca fui um bom pai.
Cecília não respondeu.
— E também não fui um bom marido.
— Não diga isso.
— Expulsei meu próprio filho acreditando que estava protegendo-o.
Sua respiração ficou pesada.
— Mas a verdade...
Ele fechou os olhos.
— Era que eu não sabia como ser pai dele.
Cecília abaixou a cabeça.
— Você ainda pode pedir perdão.
— Não sei onde ele está.
— Então encontre-o.
Shadown sorriu com tristeza.
— Acho que já não tenho tempo.
Sua mana começou a desaparecer.
Felicia segurou a mão dele.
— Pai!
Shadown sentiu o corpo ficando frio.
Mas, naquele instante, não sentiu medo.
— Cecília...
— Estou aqui.
— Se algum dia Lucky voltar...
Sua voz quase desapareceu.
— Diga a ele que...
Shadown tentou continuar.
Mas não conseguiu.
Seus olhos se fecharam.
Cecília esperou.
— Shadown?
Nenhuma resposta.
Felicia caiu de joelhos.
E o homem que havia sido chamado de herói...
Morreu.
Muito longe dali, uma jovem voz acordou.
— Ai... minha cabeça...
Lucky abriu os olhos.
— Onde eu estou?
Então se lembrou.
A pequena casa.
A mulher.
A energia absurda que havia sentido anos atrás.
A porta se abriu.
— Então você acordou.
Lucky pulou da cama.
— Quem é você?!
A mulher suspirou.
— Se eu quisesse matar você, já teria feito isso.
Lucky finalmente reconheceu aquela voz.
— Ah... é só você, Sensei.
Emilia aproximou-se.
— Teve outro sonho daqueles?
Lucky ficou em silêncio.
— Sim.
Ele olhou para o teto.
— Sonhei com o dia em que fui expulso.
Emilia sentou-se diante dele.
— Já faz muito tempo.
— Eu sei.
— Você tinha oito anos quando chegou aqui.
Ela o observou.
— Agora tem quinze.
Lucky sorriu.
— Pois é.
Emilia ficou séria.
— Tenho uma notícia.
Lucky virou-se.
— O quê?
— Seu pai morreu.
O silêncio tomou conta da casa.
Lucky ficou imóvel.
Então...
sorriu.
— Então finalmente aquele velho morreu.
Emilia observou aquele sorriso.
Mas não havia felicidade nele.
Havia dor.
Ódio.
E algo muito mais perigoso.
— Você ainda está determinado a conseguir sua vingança?
Lucky levantou-se.
— Claro.
Seus olhos perderam qualquer traço de inocência.
— Agora eles estão sem a proteção do meu pai.
Ele apertou os punhos.
— Minha mãe terá que governar o Reino de Gelo.
— E Felicia provavelmente será escolhida como nova líder do Clã dos Heróis.
Emilia perguntou:
— O que você pretende fazer?
Lucky caminhou até a porta.
— Vou visitar o lugar onde um dia soltaram fogos de artifício porque eu fui expulso.
Emilia o observou partir.
Mas, antes que Lucky abrisse a porta, ela falou:
— Lucky.
Ele parou.
— Bem e mal são conceitos perigosos.
Lucky não olhou para trás.
— Para mim, é simples.
Emilia sorriu.
— É mesmo?
Do lado de fora, o vento começou a soprar.
E, em algum lugar além daquele mundo...
a alma de Shadown Nero abriu os olhos.
Sua morte havia encerrado uma vida.
Mas estava prestes a iniciar uma história.