— Shadown...
A voz ecoou no vazio.
— Shadown Nero.
Ele abriu os olhos.
Não havia céu.
Não havia chão.
Não havia vento.
Não havia sequer uma direção para onde olhar.
Shadown estava flutuando.
Ou talvez estivesse simplesmente existindo.
Ao seu redor havia uma escuridão absoluta, tão profunda que parecia não possuir fim. Não conseguia enxergar sequer alguns centímetros à frente do próprio rosto.
— Onde... eu estou?
Sua voz ecoou.
Shadown tentou se mover.
Seu corpo respondeu.
Mas havia algo estranho.
Ele olhou para as próprias mãos.
E congelou.
Seus dedos eram translúcidos.
Uma espécie de energia escura e avermelhada percorria seus braços, como pequenas correntes de mana atravessando um corpo que já não era feito de carne.
— O que...
Ele virou as mãos.
Podia enxergar através delas.
Seu peito também estava parcialmente transparente.
Não havia coração.
Não havia sangue.
Não havia ossos.
Apenas uma forma humanoide composta por uma energia espectral.
Shadown começou a respirar rapidamente, embora nem soubesse se ainda precisava respirar.
— Isso não pode ser...
— É exatamente o que parece.
A voz surgiu atrás dele.
Shadown se virou.
Emilia estava ali.
Flutuando tranquilamente naquele espaço vazio.
Ela parecia completamente confortável naquele lugar.
Shadown arregalou os olhos.
— Emilia...
— Finalmente acordou.
— O que aconteceu comigo?
Emilia aproximou-se.
— Seu corpo morreu.
Shadown olhou novamente para suas mãos.
— Então isso...
— É a sua alma.
Ele ficou em silêncio.
— A calamidade que você carregava durante todos esses anos destruiu seu corpo físico por completo. Não sobrou nada que pudesse ser recuperado.
Shadown abaixou a cabeça.
Estranhamente, não sentia dor.
Mas sentia algo pior.
Vazio.
— Então eu estou morto.
— Sim.
A resposta foi simples.
Crua.
Sem qualquer tentativa de suavizá-la.
Shadown começou a flutuar de um lado para o outro.
— Então o que acontece agora?
Emilia permaneceu observando.
— Não sei.
Shadown parou.
— Como assim não sabe?!
— Eu sei o que acontecerá com você.
Ela sorriu.
— Mas quero saber o que você fará.
— Isso não faz sentido.
Shadown passou a mão pelos cabelos, ou tentou.
— Eu morri. Meu corpo foi destruído. Minha família ficou para trás. Meu reino ficou para trás. Lucky...
Ele parou.
O nome do filho provocou uma sensação estranha.
Mesmo sem possuir um coração físico, sentiu um aperto no peito.
— Lucky...
Emilia levantou uma sobrancelha.
— Não pense.
— O quê?
— É melhor você não pensar.
Shadown ficou confuso.
— Por quê?
— Porque consigo ouvir seus pensamentos.
Ele ficou completamente imóvel.
— Você está brincando.
— Não.
Emilia cruzou os braços.
— Desde que sua alma chegou aqui, seus pensamentos estão tão altos quanto sua voz.
Shadown fechou os olhos.
— Então você sabe tudo?
— Não tudo.
Ela deu um pequeno sorriso.
— Mas sei o suficiente.
Shadown ficou alguns segundos em silêncio.
— Isso é assustador.
— Para você, talvez.
Emilia estendeu a mão.
Uma pequena luz surgiu.
Dentro dela havia um objeto.
Um bracelete.
Era escuro, quase negro, com pequenos símbolos avermelhados gravados em sua superfície.
— Coloque isso.
Shadown pegou o bracelete.
— O que é?
— Sua passagem.
— Passagem para onde?
— Para o que vem depois.
Shadown olhou para o objeto.
Então o colocou no braço.
No instante em que o bracelete tocou sua alma, uma explosão de energia percorreu seu corpo.
— O que está acontecendo?!
A energia espectral começou a se condensar.
Primeiro vieram os ossos.
Depois os músculos.
A pele.
Os cabelos.
As roupas.
Shadown caiu de joelhos.
Tossiu.
Respirou profundamente.
Seu coração batia.
Seu sangue corria.
Ele levou a mão ao peito.
— Eu...
Levantou-se lentamente.
Olhou para os próprios braços.
Não eram os braços envelhecidos que possuía antes de morrer.
Eram jovens.
Seu rosto também havia mudado.
Ele tocou os cabelos.
— Eu voltei?
Emilia observou.
— Não exatamente.
Shadown olhou para ela.
— Então por que estou jovem?
— Porque seu corpo agora é uma manifestação da sua alma.
Ela apontou para o bracelete.
— Ele reconstruirá sua aparência física sempre que necessário.
— Sempre que necessário?
— Conforme você atravessar as dimensões, sua aparência poderá mudar.
Shadown franziu a testa.
— Eu não estou entendendo absolutamente nada.
— Não precisa entender tudo agora.
Emilia caminhou ao redor dele.
— Apenas aceite uma coisa.
Ela parou diante de Shadown.
— Sua vida naquela dimensão acabou.
Shadown permaneceu em silêncio.
— Mas sua existência não.
Emilia estendeu a mão.
O espaço escuro diante deles começou a se transformar.
Uma enorme imagem apareceu.
Como uma janela aberta para outro universo.
Shadown viu uma cidade.
Montanhas.
Reinos.
Pessoas.
Uma realidade inteira.
— Existem incontáveis linhas temporais — explicou Emilia. — Cada uma possui sua própria história. Seus próprios acontecimentos. Seus próprios destinos.
A imagem se multiplicou.
Dezenas.
Centenas.
Milhares de mundos.
— Durante eras, essas linhas permaneceram separadas.
Shadown observava tudo maravilhado.
— Mas alguma coisa está acontecendo.
As imagens começaram a tremer.
Algumas desapareceram.
Outras se sobrepuseram.
— As linhas temporais estão começando a entrar em colapso.
Shadown franziu a testa.
— E o que eu tenho a ver com isso?
Emilia olhou diretamente para ele.
— Você vai impedir.
— Eu?
— Você.
Shadown soltou uma risada nervosa.
— Emilia, eu acabei de morrer.
— Exatamente.
Ela sorriu.
— Por isso você é perfeito.
A expressão de Shadown mudou.
— O que eu preciso fazer?
— Viajar entre as dimensões.
O bracelete brilhou.
— Encontrar os pontos onde o equilíbrio está sendo rompido.
— E corrigir essas anomalias.
Shadown ficou sério.
— Corrigir como?
Emilia respondeu sem hesitar.
— Não importa o que precise fazer.
Shadown estreitou os olhos.
— Como assim?
— Não importa quem precise morrer.
O silêncio tomou conta do vazio.
— Se uma pessoa precisar morrer para que uma dimensão sobreviva, ela morrerá.
Shadown ficou incomodado.
— E se for uma criança?
Emilia não respondeu imediatamente.
— E se for alguém inocente?
Silêncio.
— E se for alguém que eu conheça?
Emilia finalmente respondeu:
— Ainda assim.
Shadown apertou os punhos.
— Por quê?
Emilia fez um gesto.
A imagem diante deles mudou.
Surgiu uma identificação.
TERRA F5378
Shadown sentiu seu corpo inteiro congelar.
— Essa...
Ele conhecia aquele mundo.
Era praticamente igual ao seu.
O mesmo Reino de Gelo.
O mesmo Reino da Escuridão.
O mesmo Reino Elétrico.
E, então...
A imagem mostrou um pequeno vilarejo.
Uma residência.
Uma família.
Shadown viu rostos que conhecia.
Seu coração acelerou.
— Não...
Emilia permaneceu séria.
— Esta dimensão está fadada à destruição.
A imagem avançou.
O Clã dos Demônios Carmesins.
Shadown viu seus pais.
Viu suas irmãs.
Viu pessoas que, em sua realidade, estavam mortas.
Ele não conseguia respirar.
— Eu vou encontrar eles?
Emilia não respondeu.
— Emilia...
— Sim.
Shadown se aproximou da imagem.
— Eu vou encontrar minhas irmãs?
Silêncio.
— Meus pais?
Emilia fechou os olhos.
— Isso não importa.
Shadown virou-se.
— Como pode não importar?!
— Porque você não está indo até lá para reencontrá-los.
A voz de Emilia ficou mais firme.
— Está indo para impedir que o Clã dos Demônios Carmesins seja atacado no momento errado.
Shadown sentiu um aperto no peito.
— No momento errado?
— O ataque acontecerá.
— Então não posso simplesmente impedir?
— Não.
Emilia aproximou-se.
— Você precisa entender isso antes de atravessar aquela porta.
Ela apontou para o bracelete.
— Uma interferência pequena pode alterar milhares de acontecimentos.
— Uma pessoa salva pode causar a morte de outras.
— Uma conversa pode iniciar uma guerra.
— Um sentimento pode destruir uma linha temporal inteira.
Shadown ficou em silêncio.
Emilia então acrescentou:
— E existe outro problema.
A imagem de vários guerreiros apareceu.
— Os Guardiões.
Shadown observou.
— Cada dimensão possui seus próprios Guardiões. Eles existem para proteger aquela realidade contra interferências externas.
— E se descobrirem que eu sou de outra dimensão...
— Farão tudo para apagar sua existência daquele mundo.
Shadown engoliu em seco.
— Então eu serei um invasor.
— Exatamente.
Ele olhou novamente para Terra F5378.
Uma realidade onde sua família ainda existia.
Uma realidade que ele poderia destruir apenas por tentar salvá-la.
— E meus poderes?
Emilia interrompeu antes que ele terminasse.
— Sim.
Shadown olhou para ela.
— Seus poderes, suas habilidades, sua experiência, sua mentalidade e suas estratégias continuam com você.
Ela apontou para o bracelete.
— Sua aparência pode mudar.
— Sua idade pode mudar.
— Mas você continuará sendo Shadown Nero.
Shadown respirou fundo.
— Então eu ainda posso usar meu elemento...
— Pode.
Emilia ficou séria.
— Mas existe um que você deve evitar.
Uma energia azulada surgiu entre eles.
— Espaço-Tempo.
Shadown reconheceu imediatamente.
Era seu elemento mais perigoso.
Aquele que permitia criar dimensões separadas.
Abrir caminhos entre realidades.
E até enxergar fragmentos da história de alguém através de um simples toque.
— Por quê?
— Porque ele pode revelar você.
Emilia fechou a mão.
A energia desapareceu.
— Quanto mais você usar o Espaço-Tempo, mais a realidade perceberá que você não pertence a ela.
Shadown olhou para o bracelete.
— Então devo esconder quem sou.
— Não apenas quem você é.
Emilia sorriu.
— Você precisa esconder de si mesmo o motivo pelo qual está lá.
Uma porta surgiu diante deles.
Do outro lado havia luz.
Shadown caminhou até ela.
Antes de atravessar, parou.
— Emilia.
— Sim?
— Se eu fizer tudo isso...
Ele olhou para trás.
— Existe alguma chance de eu voltar para minha dimensão?
Emilia ficou em silêncio.
Então respondeu:
— Sua dimensão não precisa mais de você.
Shadown abaixou os olhos.
A imagem de Cecília apareceu por um instante em sua mente.
Depois Felicia.
E, por último...
Lucky.
Ele fechou os olhos.
— Entendi.
Mas não tinha entendido.
Ainda não.
Shadown atravessou a porta.
A luz o engoliu.
E, pela primeira vez desde sua morte...
ele sentiu medo.
Porque sua próxima parada não seria apenas outra dimensão.
Seria uma realidade onde as pessoas que ele havia perdido ainda estavam vivas.
Uma realidade onde seu irmão mais novo ainda poderia estar morto.
Uma realidade onde ele poderia olhar para o próprio passado...
e não ter o direito de mudá-lo.
Terra F5378.
O primeiro mundo além do tempo.