CAPÍTULO 1 — BERC
Hanôver, Alemanha.
Grupos de policiais e bombeiros se amontoavam do lado de fora do prédio escolar. O frio daquela manhã tornava a respiração visível, mas ninguém parecia prestar atenção.
Todos olhavam para o mesmo lugar.
A escola.
Havia crianças de ensino fundamental e jardim de infância presas lá dentro.
— Senhor! — um policial aproximou-se do comandante, quase correndo. — A unidade da GSG 9 iniciou a invasão, mas perdemos contato assim que alcançaram o segundo andar. Os homens que tentaram a entrada pelo teto também pararam de responder.
O comandante olhou para o prédio.
— Quantos?
— Todos.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Que malditos...
O policial hesitou.
— Senhor?
— Por que uma escola?
O subordinado não respondeu.
Nenhum dos dois precisava dizer em voz alta.
Aquelas crianças eram novas demais para sequer terem despertado suas manifestações de mana.
Antes que o comandante pudesse dar outra ordem, alguém atravessou o cordão de isolamento.
Sem pressa.
Sem pedir autorização.
Um homem alto, de pele clara e olhos azuis, aproximou-se com as mãos nos bolsos. Tinha barba cheia, cabelos escuros alinhados em um corte levemente espetado e vestia um terno azul bem cortado, camisa branca e gravata escura.
Nos pés, porém, usava tênis esportivo.
O oficial imediatamente levou a mão ao coldre.
— Parado aí.
O homem ergueu as mãos.
— Calma, senhores. Vim resolver essa dor de cabeça para vocês.
— E quem seria você?
— Meu nome é Renan Elifas. Sou vice-comandante do Batalhão de Extermínio, Resgate e Contenção.
Ele sorriu.
— BERC, para os mais íntimos.
O comandante estreitou os olhos.
— Vocês são um braço tático da AMI?
Renan soltou uma risada nasalada.
— Isso é quase uma ofensa aos meus ouvidos. Nós não somos incompetentes. Somos mercenários.
O comandante deu um passo à frente.
— Vocês são carniceiros que lucram com a desgraça alheia.
Renan inclinou a cabeça.
— Carniceiros?
Ele olhou para a escola.
— Não temos culpa se vocês fazem mal o trabalho pelo qual são pagos com os impostos dos pais daquelas crianças.
Seu sorriso desapareceu.
— Se pararmos para pensar, os verdadeiros carniceiros aqui são vocês.
— Ora, seu insolente!
Tomado pela raiva, o policial sacou a arma e apontou diretamente para a cabeça de Renan.
Ninguém teve tempo de impedir.
O dedo começou a apertar o gatilho.
Renan apenas sorriu.
No instante seguinte, a mão do oficial começou a se desfazer.
A pele abriu-se como cera diante de uma chama invisível. O homem soltou um grito e caiu de joelhos, largando a arma enquanto segurava o próprio braço.
Os policiais ao redor recuaram.
Um bombeiro deixou uma maca cair.
Outro levou a mão ao rádio, mas não conseguiu dizer uma palavra.
Renan sequer se moveu.
Apenas observou o homem no chão.
— Oficial...
Seus olhos desceram até a identificação presa ao uniforme.
— Otto.
Renan voltou a encará-lo.
— Lembre-se de nunca atacar alguém sem antes conhecer a natureza do poder dele.
O homem respirava com dificuldade.
— Curandeiros e médicos não servem apenas para ficar na retaguarda dando suporte.
Renan ajeitou a gravata.
— Se os seus homens tivessem pensado nisso antes, talvez o grupo que entrou lá dentro ainda estivesse respirando.
Ninguém respondeu.
Renan acionou o comunicador preso ao ouvido.
— Equipe, hora do show.
Uma voz masculina respondeu imediatamente.
— Finalmente.
— Klaus está no comando de campo. Minha única exigência é simples: não morram.
Renan olhou para a escola.
— Se alguém se complicar, peça apoio meu ou do Jairo.
Fez uma pausa.
— Mas fiquem sabendo que haverá punição por incompetência.
— Entendido — respondeu Klaus.
Renan sorriu.
— E tentem não destruir a escola inteira.
Ele desligou o comunicador.
— Tenho um jantar com meu marido mais tarde.
Renan começou a caminhar em direção ao prédio.
— Não quero chegar atrasado.
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Telhado adjacente
Deitado em posição de tiro sobre um prédio vizinho, Jairo observava a escola através da mira de um Sako TRG 22.
Seus cabelos brancos, cortados em um moicano agressivo, destacavam-se contra a neve fina que caía sobre a cidade.
A máscara de gás cobria completamente seu rosto.
Apenas os olhos permaneciam visíveis.
— Ei, Jairo. Está avistando algum movimento? — perguntou Klaus pelo comunicador.
Jairo ajustou a mira.
— Sim. Três deles.
Seu dedo permaneceu próximo ao gatilho.
— Balaclavas vermelhas. Segundo, quarto e quinto andares.
— Identificou armamento?
— Sim.
Jairo fez uma pausa.
— E estão todos na minha linha de tiro.
— Não atire.
Jairo suspirou.
— Por quê?
Outra voz entrou na frequência.
— Porque estamos lidando com uma escola.
Paulo.
— Se você disparar e liberar algum agente químico, os reféns podem ser contaminados. E se um projétil não derrubar o alvo imediatamente, alguém inocente pode acabar pagando o preço.
Jairo afastou ligeiramente o rosto da mira.
— Que droga...
Voltou a observar o prédio.
— Paulo, já é irritante ficar aqui apenas assistindo.
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Beco lateral
Três figuras permaneciam escondidas na penumbra.
Todas vestiam ternos pretos.
Paulo observava a escola com os punhos cerrados.
Era jovem, de pele parda e cabelos ondulados cortados em degradê nas laterais.
— Se algum refém morrer, perdemos nossa recompensa — murmurou.
Ele continuou olhando para o prédio.
— E eu não pretendo deixar isso acontecer.
Ao seu lado, Klaus Gutenberg ajeitou os óculos escuros redondos.
Seu corpo robusto fazia o terno parecer ligeiramente apertado nos ombros.
— Também existe outro detalhe.
Klaus acendeu um cigarro.
— Eu estou no comando desta operação. Então façam o favor de confiar em mim.
Kimiko cruzou os braços.
— Esse setor deveria ser meu.
Klaus soltou fumaça pelo nariz.
— Você sequer concluiu seu treinamento.
— Isso não significa que eu não saiba o que estou fazendo.
— Significa que ainda não deveria estar dando ordens.
Kimiko lançou um olhar irritado para ele.
Klaus ignorou.
Ajeitou os óculos e observou a escola.
— GSG 9.
Paulo olhou para ele.
— O quê?
— Foram eles que entraram primeiro.
Klaus deu outra tragada.
— Conheço o protocolo. Entrada tática, avanço por setores, formação fechada.
Seu tom ficou mais sério.
— Eu treinei esses homens.
Por um instante, ninguém disse nada.
— E agora eles estão lá dentro — completou Paulo.
Klaus apagou o cigarro contra a parede.
— Por isso não vamos cometer o mesmo erro.
Kimiko olhou para a escola.
— Há mais terroristas espalhados por Hanôver.
— Sim — respondeu Klaus.
— E uma arma química.
— William e Jiā Lín estão rastreando a origem dos compostos.
Paulo assentiu.
— Então nosso trabalho é entrar, neutralizar os responsáveis e tirar todo mundo de lá.
Klaus fez que sim.
— Exatamente.
Ele olhou para os dois.
— Se conseguirmos manter pelo menos um deles vivo, melhor. Precisamos descobrir quem está por trás disso.
Paulo voltou a encarar o prédio.
Por alguns segundos, permaneceu em silêncio.
Então fechou os olhos.
Respirou fundo.
A mana começou a percorrer seu corpo.
A escuridão do beco se alterou.
As sombras projetadas pelas paredes começaram a se mover de maneira antinatural, engrossando e se acumulando diante de Paulo.
Kimiko observou.
— Ainda acho impressionante.
Paulo estendeu a mão.
A sombra à sua frente se expandiu.
Sua superfície pareceu rasgar.
— Técnica de Trevas: Passagem Umbral.
Um estalo abafado ecoou.
O breu ganhou forma.
Um portal oval surgiu diante dos três, suas bordas escorrendo como matéria líquida. Do outro lado, era possível enxergar um corredor escuro da escola.
Klaus jogou o cigarro no chão e o esmagou com a ponta do sapato.
— Vamos.
Entrou primeiro.
Kimiko o seguiu.
Paulo foi o último.
Antes de atravessar, olhou uma última vez para o beco.
Então desapareceu dentro da passagem.
A sombra se fechou atrás dele.
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Interior da escola
O silêncio era estranho.
O corredor estava quase completamente escuro.
Nenhuma sirene.
Nenhuma voz.
Nenhum choro.
Paulo saiu da passagem e imediatamente levou a mão à parede.
Klaus apareceu logo atrás.
Kimiko veio em seguida.
O portal se fechou.
Os três ficaram imóveis.
Jairo continuava no telhado.
Renan estava entrando pela outra ala.
William e Jiā Lín ainda rastreavam os compostos.
E, naquele momento, apenas os três estavam dentro da escola.
Klaus levantou a mão.
Todos pararam.
Ele apontou para o chão.
Havia marcas de sangue.
Recentes.
Paulo se agachou.
— GSG 9?
Klaus observou as marcas.
— Provavelmente.
Kimiko olhou para o corredor.
— E os terroristas?
Klaus ergueu os olhos.
Ao longe, alguma coisa caiu.
CLANG.
Os três ficaram imóveis.
Outro barulho.
Dessa vez, mais próximo.
CLANG.
Paulo cerrou os punhos.
Klaus levou a mão à arma.
Kimiko assumiu uma postura de combate.
Então uma voz ecoou pelo corredor.
— Tem alguém aí?
Os três se entreolharam.
A voz parecia infantil.
Paulo deu um passo à frente.
Klaus segurou seu braço.
— Espera.
Do outro lado do corredor, uma pequena sombra apareceu.
Uma criança.
Ela estava parada sozinha.
E atrás dela havia algo se movendo no escuro.
Klaus estreitou os olhos.
— Formação.
Os três se posicionaram.
A BERC finalmente havia entrado na guerra.