CAPÍTULO 2 — O AÇOUGUEIRO
A travessia pela matéria escura durou apenas um segundo.
Ainda assim, a temperatura dentro do portal era fria o suficiente para queimar os pulmões de quem não estivesse acostumado.
No quinto andar do colégio, a penumbra acumulada sob o vão de uma escada de serviço começou a borbulhar.
Nenhum ruído.
Nenhum aviso.
A escuridão simplesmente se abriu.
Klaus Gutenberg emergiu primeiro, postura ereta e os óculos escuros perfeitamente alinhados.
Assim que seus sapatos tocaram o chão, a própria sombra projetada pelas lâmpadas fluorescentes ganhou volume.
A silhueta tridimensional se moveu de maneira independente, mergulhou as mãos no próprio breu e puxou duas armas massivas.
Dois cutelos.
Um deles possuía uma tonalidade vermelho-escura, quase coagulado.
O outro brilhava em um carmesim vivo.
Ambos estavam ligados por uma longa corrente de elos negros que tilintaram discretamente pelo corredor.
A réplica sombria entregou as armas ao verdadeiro Klaus e se desfez em fumaça.
— Certo — murmurou ele.
Alguns metros adiante, uma porta de sala de aula permanecia aberta.
Klaus ouviu vozes.
Choro.
E o som metálico de uma arma sendo movimentada.
Acelerou o passo.
Dentro da sala, um dos invasores de balaclava vermelha caminhava de um lado para o outro.
Um fuzil de assalto permanecia apontado para dezenas de crianças escondidas sob as mesas.
O homem estava suando.
A respiração acelerada.
Os olhos percorriam constantemente a porta.
Então veio o primeiro estrondo.
BAM!
Uma porta no corredor foi arrombada.
O terrorista virou-se.
Outro estrondo.
BAM!
Mais uma porta.
Depois outra.
Os sons se aproximavam.
O homem engatilhou a arma.
— Quem está aí?!
BAM!
A última porta foi destruída.
Klaus apareceu no batente.
Sorrindo.
— Encontrei vocês!
O terrorista reagiu por puro instinto.
Apertou o gatilho.
Uma sequência de disparos de 5.56 mm explodiu dentro da sala.
As crianças gritaram e cobriram os ouvidos.
Os projéteis atravessaram o peito, os braços e o rosto de Klaus.
Mas não houve sangue.
O corpo do mercenário ondulou.
A silhueta se desfez como fumaça e caiu no chão em uma poça de escuridão que desapareceu antes de tocar o piso.
O terrorista congelou.
— Mas que diabos...?
A voz de Klaus veio de trás do batente.
— Você parece bastante assustado para alguém que teve a coragem de usar crianças como escudo.
O verdadeiro Klaus surgiu.
O terrorista olhou para o carregador vazio.
Tarde demais.
Klaus lançou o cutelo carmesim.
A corrente negra serpenteou pelo corredor e envolveu o peito e os ombros do homem.
Com um puxão seco, Klaus o arrancou do chão e o lançou para fora da sala.
O criminoso bateu contra a parede.
Antes que pudesse reagir, Klaus acertou um soco em seu estômago e golpeou sua têmpora com o cabo da arma.
O homem rosnou.
Em vez de cair, seu corpo começou a se deformar.
Os músculos dos braços se contraíram.
A pele dos antebraços se abriu em linhas retas.
Duas estruturas ósseas começaram a crescer para fora da carne, formando lâminas presas aos pulsos.
Klaus ergueu uma sobrancelha.
— Ah.
O rapaz avançou.
A lâmina óssea passou a poucos centímetros do rosto de Klaus.
Ele recuou.
— Então é esse o seu truque.
O terrorista atacou novamente.
Klaus soltou as correntes.
Os dois cutelos começaram a cair.
Antes que tocassem o chão, a sombra aos pés do mercenário se abriu e engoliu as armas.
Klaus ficou com as mãos livres.
Adotou uma postura de combate.
O garoto avançou mais uma vez.
Klaus desviou do primeiro golpe, bloqueou o segundo e atingiu o adversário no abdômen.
O rapaz recuou.
Então arrancou uma das próprias lâminas ósseas do braço.
Klaus arregalou ligeiramente os olhos.
O fragmento foi lançado como uma lança.
A sombra atrás de Klaus se ergueu.
Dois braços negros interceptaram o projétil a poucos centímetros de seu peito.
A réplica girou o corpo e devolveu o osso.
O garoto se esquivou.
O projétil se despedaçou contra a parede.
Foi o suficiente.
Klaus surgiu diante dele e agarrou seu pescoço.
Ergueu-o do chão.
O garoto tentou golpear seu rosto.
Klaus segurou o braço.
— Você está começando a me irritar.
O rapaz apontou dois dedos para o rosto dele.
As falanges começaram a estalar.
Klaus percebeu o movimento.
Sua sombra reagiu antes dele.
Um dos cutelos surgiu em sua mão.
Corte.
A mão do garoto caiu no chão.
O sangue começou a escorrer.
Mas, antes que o membro atingisse completamente o piso, a regeneração já havia começado.
Klaus observou.
— Regeneração celular.
O garoto tentou recuperar o equilíbrio.
— Você pode fechar ferimentos comuns.
Klaus ergueu o cutelo.
— Mas não consegue manipular o sangue quando ele é corrompido.
A lâmina absorveu parte da sombra ao redor.
— Essa relíquia sabota seu fluxo sanguíneo.
O braço do garoto começou a inchar.
Veias arroxeadas surgiram sob a pele.
Ele gritou.
Klaus se aproximou.
— Diga o que quero saber.
O garoto caiu de joelhos.
— E garanto que você não morre afogado no próprio sangue.
O rapaz arrancou a balaclava.
Respirava com dificuldade.
Foi então que Klaus viu seu rosto.
Jovem.
Muito jovem.
As bochechas ainda carregavam traços infantis.
Klaus ficou imóvel por um instante.
Ele é só um menino.
Fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
Quando voltou a falar, sua voz permanecia controlada.
— Onde está a arma química?
O garoto apertou os dentes.
Então olhou para o próprio braço.
A regeneração estava falhando.
Ele tomou uma decisão.
Com a lâmina óssea do braço direito, atingiu o próprio ombro.
O membro contaminado caiu.
O garoto gritou.
Mas não parou.
A carne começou a se reconstruir quase imediatamente.
O braço perdido voltou a crescer.
Klaus observou em silêncio.
— Isso vai ser irritante.
O garoto se levantou.
— Cansei de você, velho.
— Velho?
Klaus soltou uma risada curta.
— Eu vou lembrar disso.
O rapaz avançou.
Klaus lançou o cutelo.
O garoto se abaixou.
A arma passou sobre sua cabeça.
Ele deslizou pelo chão e acertou um soco no estômago de Klaus.
O impacto fez o paletó do mercenário estalar.
Klaus recuou.
A sombra sob seus pés reagiu.
Uma perna negra surgiu do chão e atingiu o peito do garoto, lançando-o contra a parede.
O rapaz se levantou novamente.
Estendeu as duas mãos.
As falanges começaram a crescer.
— Morre!
Uma sequência de projéteis ósseos atravessou o corredor.
Klaus mergulhou para dentro de uma sala vazia.
Os disparos destruíram quadros, armários e parte da parede.
Silêncio.
O garoto respirou pesadamente.
Esperou.
Nada.
— Cadê você?!
Uma sombra surgiu atrás dele.
Klaus apareceu.
Na mão, segurava dois punhais feitos de escuridão condensada.
O primeiro foi lançado.
O garoto ergueu o braço.
Uma armadura de cálcio surgiu sobre seu corpo.
O punhal explodiu antes de atingi-lo.
Fragmentos negros atravessaram as brechas da proteção.
O garoto sorriu.
— Só isso?
Então caiu de joelhos.
As áreas atingidas começaram a inchar.
Veias roxas se espalharam pelo corpo.
A regeneração entrou em conflito com a maldição.
O sorriso desapareceu.
Klaus caminhou lentamente em sua direção.
— A principal diferença entre um manipulador de sombras comum e um especialista é simples.
Ele girou o segundo punhal entre os dedos.
— Nós não usamos a sombra apenas como um cofre.
Klaus apontou para os pequenos fragmentos espalhados pelo corpo do rapaz.
— Podemos fundi-la às nossas relíquias.
O garoto começou a tremer.
— Cada fragmento carregava a maldição da minha lâmina.
Klaus se agachou diante dele.
— E agora ela está dentro de você.
O garoto respirava com dificuldade.
Klaus estendeu a mão.
A sombra do rapaz se moveu.
Fios negros envolveram seus braços e pernas, prendendo-o ao chão.
— Ainda posso reverter o processo e salvar sua vida.
Klaus aproximou o rosto.
— Diga onde está a arma química.
O garoto cuspiu sangue no chão.
— Vai se foder.
Klaus suspirou.
— Certo.
Ele segurou o garoto pelos cabelos e levantou sua cabeça.
— Então olhe para a sala.
O garoto tentou virar o rosto.
Seu corpo tremia.
Seus olhos alcançaram a porta.
A sala estava vazia.
Nenhuma criança.
Nenhum professor.
Nenhum refém.
O garoto arregalou os olhos.
— Vocês...
Klaus o soltou.
O rapaz caiu de lado.
— Enquanto você tentava me matar, um companheiro meu tirou todos daqui.
O garoto olhou para dentro da sala novamente.
Nada.
A expressão de ódio desapareceu por alguns segundos.
Ele havia perdido.
Klaus ficou de pé.
— Seus irmãos conhecerão o mesmo destino se forem tão teimosos quanto você.
O garoto permaneceu em silêncio.
— Poupe o sangue deles — continuou Klaus. — Diga onde está a arma química.
O rapaz respirou fundo.
Demorou alguns segundos para conseguir falar.
— Nós... não sabemos.
Klaus estreitou os olhos.
— Explique.
— Recebemos apenas parte da informação. Um grupo separado está transportando o material.
— Para onde?
O garoto hesitou.
— Disseram que ficaria escondido até a negociação terminar.
— Onde?
— Em um prostíbulo.
Klaus ficou em silêncio.
— Eu não sei o nome.
O garoto engoliu seco.
— Minha irmã mais nova está lá.
Klaus não respondeu.
— Eles a levaram depois que nossos pais morreram. Disseram que ela seria libertada se fizéssemos o trabalho.
A voz do garoto começou a falhar.
— Nós só precisávamos servir de distração.
Klaus o encarou.
— E por isso aceitaram sequestrar crianças?
O rapaz explodiu.
— Nós não tivemos escolha!
A voz ecoou pelo corredor.
— Você acha que eu queria estar aqui?!
Lágrimas misturaram-se ao sangue no rosto do garoto.
— Eles disseram que precisavam apenas de uma distração no colégio! Disseram que ninguém morreria!
Klaus permaneceu calado.
O garoto respirou fundo.
— Minha irmã está naquele lugar.
Klaus se levantou.
A sombra ao redor do garoto se transformou em uma contenção mais firme, prendendo seus braços e pernas.
— O que vai fazer comigo? — perguntou o rapaz.
Klaus olhou para ele.
— Depende.
Ajeitou os óculos.
— Você ainda é uma criança. Se continuar respirando até a ambulância chegar, já estará fazendo a sua parte.
O comunicador preso ao ouvido de Klaus chiou.
— Klaus. Situação? — perguntou Jairo.
Klaus apertou o botão.
— Um capturado vivo.
Houve alguns segundos de silêncio.
— Um milagre.
Klaus ignorou o comentário.
— E vocês?
— Kimiko encontrou resistência no quarto andar. Disse que está se divertindo.
Klaus fechou os olhos.
— Claro que está.
— Paulo está finalizando o resgate dos reféns do segundo andar.
— Entendido.
Klaus desligou o comunicador.
Então olhou para a escadaria.
O prédio ainda estava cheio de inimigos.
E, em algum lugar de Hanôver, havia uma garota sendo mantida como moeda de troca.
Klaus apertou os dedos ao redor do cabo do cutelo.
— Vamos terminar isso.
Ele começou a caminhar pelo corredor.
Atrás dele, o garoto permanecia preso pelas sombras.
Pela primeira vez desde o início da operação, Klaus não estava pensando apenas na missão.
Estava pensando na irmã daquele garoto.
E em quem quer que tivesse decidido transformar duas crianças em peças de uma guerra que elas nunca escolheram lutar.