Capítulo 3 — A Predadora
No quarto andar, a atmosfera era ditada pelo cheiro putrefato de carne queimada misturado ao sangue.
Kimiko enfrentava o segundo irmão.
Assim como o garoto do andar superior, ele tinha a pele retinta, os lábios carnudos e os cabelos crespos e volumosos. A diferença mais marcante estava nos olhos: íris de um azul gélido e profundo, brilhando como safiras por trás do rasgo da balaclava vermelha.
Ele avançou.
Kimiko desviou do soco com um giro curto de quadril, fazendo o punho passar a centímetros de seu abdômen.
Foi quando as veias do braço dele começaram a inflar.
Kimiko recuou.
Um borbulhar úmido percorreu o membro do rapaz.
Então veio a explosão.
A carne do braço se abriu em uma sequência de detonações, lançando sangue, fumaça e fragmentos pelo corredor. A onda de choque atingiu Kimiko em cheio e a arremessou contra a parede.
Ela bateu as costas na alvenaria e caiu de joelhos.
O ouvido direito zunia.
A fumaça ardia em seus pulmões.
À frente, o braço mutilado do terrorista já se reconstruía. Fibras musculares se uniam, vasos se fechavam e a pele se recompunha sobre a carne recém-formada.
Em poucos segundos, o membro estava inteiro novamente.
— Não adianta tentar se proteger — disse ele, cuspindo sangue. — Quando meus irmãos terminarem o trabalho, vão encontrar apenas nossos pedaços misturados.
Kimiko ergueu os olhos.
— Você fala como se já tivesse aceitado morrer.
O rapaz ficou em silêncio por um instante.
— Se for preciso, sim.
Kimiko se levantou.
— Por quê?
Os olhos azuis se estreitaram.
— Minha irmã está aqui.
A resposta veio seca.
— Eu vou tirar ela daqui.
Kimiko não respondeu.
Apenas sacou a pistola e disparou.
Os projéteis de 9 mm atravessaram o peito do rapaz. Ele cambaleou, mas permaneceu de pé.
Regeneração.
Kimiko avançou enquanto ele ainda tentava recuperar o equilíbrio.
O terrorista fechou a mão.
As veias de seu antebraço incharam novamente.
Kimiko percebeu o padrão.
Afastou-se.
A explosão veio.
Dessa vez, ela conseguiu escapar da maior parte da onda de choque, mas o impacto ainda fez os vidros restantes do corredor vibrarem.
O rapaz sorriu por baixo da balaclava.
— Entendeu agora?
Kimiko estreitou os olhos.
— Entendi.
Ela avançou.
Ele também.
Os dois colidiram no centro do corredor.
Kimiko desviou de um soco e agarrou o braço do rapaz, usando o próprio impulso dele para girá-lo e derrubá-lo. Antes que pudesse recuperar a posição, ela fechou os braços ao redor de seu pescoço e aplicou uma guilhotina.
O terrorista tentou escapar.
Kimiko apertou.
Ele bateu os pés contra o chão.
— Solta!
Ela não soltou.
O rapaz levou as mãos ao próprio pescoço.
As palmas começaram a inchar.
Kimiko percebeu.
Soltou imediatamente e recuou.
A explosão destruiu parte do piso onde os dois estavam.
O terrorista levantou-se entre a fumaça, respirando com dificuldade.
Kimiko observou o sangue escorrendo de sua boca.
Então sentiu o cheiro.
Ácido.
O rapaz cuspiu no chão.
A superfície do concreto começou a fumegar.
— Então você também tem truques — disse Kimiko.
Ele avançou novamente.
Kimiko desviou do primeiro golpe, depois do segundo.
No terceiro, o rapaz agarrou seu ombro.
Ela tentou escapar, mas ele abriu a boca e regurgitou uma quantidade de ácido diretamente em seu rosto.
Kimiko virou a cabeça no último instante.
Mesmo assim, parte do líquido atingiu sua bochecha.
A dor foi imediata.
Ela recuou, levando a mão ao rosto.
A pele queimava.
O terrorista avançou para aproveitar a abertura.
Kimiko baixou a guarda.
E sorriu.
— Finalmente.
O rapaz hesitou.
Kimiko deixou o corpo mudar.
Sua pele escureceu e engrossou, assumindo uma textura áspera e resistente. Pelos rígidos romperam o tecido do paletó, enquanto suas mãos se transformavam em garras.
Seu rosto assumiu traços mais animalescos.
A postura mudou.
O terrorista recuou um passo.
— Que porra é essa?
Kimiko avançou.
— Minha herança.
Ele tentou explodir a própria mão contra o rosto dela.
Kimiko agarrou seu pulso.
A explosão veio à queima-roupa.
A força do impacto a fez deslizar vários metros pelo corredor, mas ela permaneceu de pé.
O rapaz também foi lançado para trás.
Kimiko correu.
Ele tentou levantar.
Tarde demais.
Ela o atingiu no peito, derrubando-o contra o chão, e imediatamente fechou a mandíbula sobre a lateral de seu pescoço.
Os dentes perfuraram a carne.
O rapaz gritou.
Kimiko recuou apenas o suficiente para respirar.
A toxina já havia entrado.
Ela conhecia aquele momento.
Agora precisava apenas esperar.
O terrorista levou a mão ao ferimento.
— Desgraçada...
Ele tentou se levantar.
As pernas falharam.
— O que...?
Kimiko não respondeu.
O rapaz tentou mover o braço.
Nada.
Os dedos tremularam, mas não obedeceram.
— O que você fez comigo?
Kimiko caminhou lentamente em sua direção.
A transformação começou a desaparecer. Os pelos recuaram, a pele voltou ao normal e suas feições reassumiram a aparência humana.
— Existe uma toxina na natureza capaz de paralisar o sistema nervoso de uma presa quase instantaneamente.
Ela limpou o sangue da boca com o polegar.
— Minha linhagem consegue reproduzir esse efeito.
O rapaz tentou rastejar.
Não conseguiu.
— Quando eu te mordi, a toxina entrou na sua corrente sanguínea.
Kimiko se agachou diante dele.
— Sua regeneração consegue reconstruir carne, músculos e órgãos. Mas não consegue fazer seus nervos obedecerem enquanto as sinapses estiverem bloqueadas.
O rapaz arregalou os olhos.
Pela primeira vez desde o início da luta, o medo substituiu a agressividade.
— Minha irmã...
Kimiko ficou em silêncio por um instante.
Então o rádio em seu ouvido chiou.
— Kimiko — disse Jairo. — Paulo está saindo com os últimos civis. Não deixe esse andar explodir.
Ela olhou para o rapaz.
— Você não vai morrer.
Ele tentou responder.
Nenhuma palavra saiu.
Kimiko se levantou.
Caminhou até a janela destruída e olhou para o prédio comercial do outro lado da rua.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel.
Então levantou a mão e acenou.
No alto do edifício, quase invisível entre as sombras, Jairo ergueu dois dedos em resposta.
Kimiko voltou os olhos para o terrorista paralisado.
O andar estava limpo.