Capítulo 4 — O Caótico
Dentro de uma das últimas salas de aula, o terceiro e último invasor caminhava de um lado para o outro, mantendo o fuzil apontado para as quase trinta crianças encolhidas nos cantos.
Os disparos vindos dos andares superiores não paravam.
Ele conhecia os sons.
Seus irmãos estavam perdendo.
O rapaz respirou fundo e se posicionou atrás do batente da porta. Quando o próximo agente entrasse, ele transformaria o corredor em uma zona de execução.
Mas ninguém entrou.
O chão sob as carteiras começou a escurecer.
Uma poça de sombras se espalhou silenciosamente pela sala, profunda demais para ser apenas uma mancha. As crianças mal tiveram tempo de reagir antes que seus pés fossem envolvidos pelo breu.
Uma por uma, desapareceram.
O terrorista arregalou os olhos.
— Seus fedelhos!
A última criança foi engolida pela sombra.
Ele apontou o fuzil para o chão.
— Parem ou eu mat—
A poça explodiu para cima.
Paulo surgiu do breu como um espectro, segurando uma Remington 870 e apontando o cano diretamente para o rosto do terrorista.
— Oi.
BOOM!
O disparo de calibre 12 atingiu o rosto em cheio.
A balaclava foi destruída. A mandíbula se despedaçou e o rapaz foi lançado contra a parede.
Paulo avançou um passo.
CLAC.
A bomba da escopeta recuou e ejetou o cartucho vazio.
BOOM!
O segundo disparo atingiu o peito.
O impacto arrancou a porta das dobradiças e arremessou o terrorista para o corredor.
Paulo saiu da sala atrás dele.
— Isso deve ter doído.
O rapaz se mexeu.
A mandíbula pendia por alguns fios de carne. Metade do rosto havia sido transformada em uma massa ensanguentada, deixando à mostra um único olho azul-turquesa.
Paulo observou por um instante.
A semelhança com os outros dois era evidente.
— Vocês realmente são irmãos.
O terrorista tentou falar, mas só conseguiu emitir sons distorcidos.
A carne começou a se recompor.
O maxilar se encaixou novamente.
— Você não vai conseguir consertar esse rosto tão cedo — comentou Paulo. — A situação está feia. E o segundo tiro provavelmente transformou seus órgãos internos em mingau.
O rapaz rosnou.
Seu corpo começou a crescer.
Músculos se expandiram sob a pele. Ossos estalaram. O tórax aumentou, os braços engrossaram e as roupas começaram a rasgar.
Em poucos segundos, o homem havia se transformado em um colosso.
Paulo suspirou.
— Ah, ótimo.
A escopeta afundou na sombra aos seus pés.
Quando sua mão voltou a emergir do breu, segurava uma AA-12.
O dedo apertou o gatilho.
A rajada explodiu pelo corredor.
Os disparos abriram crateras no peito e no abdômen do gigante, quebrando costelas e rasgando músculos.
Ele cambaleou.
Mas continuou avançando.
— Você é persistente, hein?
O gigante fechou o punho.
O soco atingiu o ombro de Paulo e o lançou contra uma fileira de carteiras.
O agente atravessou duas delas.
Antes de tocar o chão, porém, seu corpo afundou em uma fenda de sombras.
O terrorista olhou ao redor.
— Onde...?
Paulo surgiu de um portal aberto no teto.
Caindo de cabeça, sacou um revólver.
BANG!
Um projétil envolto por chamas azuladas atravessou o ombro do gigante.
BANG!
Outro atingiu o abdômen.
BANG!
O terceiro atravessou o peito.
As chamas se espalharam internamente, queimando tecidos e células.
O gigante caiu sobre um joelho.
Sua regeneração começou a desacelerar.
Paulo pousou à frente dele e apontou o revólver para sua cabeça.
— Agora a conversa acabou.
O rapaz ergueu os olhos.
Foi quando percebeu as queimaduras no braço de Paulo, exposto pela manga rasgada.
— Você... tem afinidade com mais de um elemento?
Paulo olhou para o próprio braço.
— Tenho problemas com autocontrole. É diferente.
O terrorista soltou uma risada rouca.
Paulo apertou o gatilho.
CLIC.
Nada.
Ele olhou para a arma.
— Ah.
Uma mão gigantesca agarrou seu calcanhar.
— Você está morto.
Paulo foi erguido do chão.
O gigante sorriu.
O agente simplesmente deixou o revólver desaparecer entre seus dedos.
— Dá para me soltar?
O terrorista aproximou o rosto deformado.
— O quê?
Paulo sorriu.
— Eu só gosto de ser dominado assim por mulheres.
Por um segundo, o terrorista ficou genuinamente confuso.
Então sentiu o calor.
A pele de seu braço começou a borbulhar.
— O que...?
Paulo havia concentrado energia térmica na mão que segurava seu pulso.
O líquido dentro do braço começou a aquecer.
O gigante urrou.
— AAAAAH!
A mão se abriu.
Paulo caiu.
O terrorista recuou cambaleando, segurando o braço enquanto vapor escapava de sua pele.
Paulo aterrissou de joelhos.
Suas próprias mãos estavam queimadas.
Ele respirou fundo.
— Médicos não são deuses.
Levantou-se com dificuldade.
— Seu corpo é cheio de água. Eu também vou sofrer com isso, mas, se continuar...
Paulo ergueu a mão.
— ...vou começar a cozinhar você de dentro para fora.
O gigante encarou o próprio braço.
A pele estava avermelhada.
A regeneração lutava para acompanhar o dano.
Ele entendeu.
Força bruta não seria suficiente.
O rapaz começou a reduzir o próprio tamanho.
O excesso de massa desapareceu. O corpo ficou menor, mais seco e mais leve. As unhas cresceram, transformando-se em garras.
Paulo levantou a guarda.
— Finalmente entendeu.
Os dois avançaram.
O primeiro golpe de Paulo passou raspando.
O contra-ataque atingiu seu abdômen.
CRACK.
Paulo cuspiu sangue.
As costelas haviam quebrado.
Ele agarrou a nuca do adversário antes que pudesse recuar.
Uma joelhada.
Depois outra.
O calor percorreu suas pernas e penetrou no corpo do terrorista.
O rapaz rugiu.
Tentou derrubar Paulo pelas pernas.
Paulo saltou e envolveu o pescoço dele com as pernas, prendendo também um dos braços.
O terrorista não desistiu.
Ergueu Paulo do chão e o lançou contra o corredor.
BOOM!
Paulo rolou.
O rapaz avançou para finalizar.
Paulo esperou.
No último instante, desviou o corpo e usou o próprio peso do adversário contra ele.
O braço do terrorista bateu contra o piso.
CRACK.
O membro dobrou em um ângulo impossível.
O rapaz gritou.
Paulo se levantou, cambaleando.
Antes que pudesse respirar, um soco atingiu seu rosto.
Seu nariz quebrou.
A visão ficou turva.
O terrorista tentou avançar novamente.
Paulo segurou o braço ferido.
Girou.
CRACK.
O segundo braço também foi quebrado.
Os dois se afastaram.
Por alguns segundos, nenhum deles atacou.
O corredor estava destruído.
Sangue cobria o chão.
Paulo respirava com dificuldade.
O terrorista também.
Mas os braços do rapaz já começavam a se alinhar.
Paulo limpou o sangue do nariz.
— Claro.
As unhas do adversário se alongaram ainda mais.
Ele as disparou.
Pequenas lâminas cortaram o ar.
Paulo fechou o punho.
Uma rajada de ar explodiu à frente dele e desviou os projéteis.
Mesmo assim, a própria pressão abriu novos cortes em seu peito.
Paulo fez uma careta.
— Isso também dói.
A rajada atingiu o terrorista em cheio e o lançou até o fim do corredor.
O rapaz bateu contra a parede.
Tentou se levantar.
As pernas falharam.
Paulo concentrou energia nas pernas.
Seu corpo inteiro tremia.
Ele já estava no limite.
Mas ainda conseguia lutar.
Avançou.
O punho encontrou o abdômen do terrorista.
Uma descarga elétrica atravessou o corpo do rapaz.
Os músculos travaram.
Ele caiu de joelhos.
Paulo também cambaleou.
A eletricidade havia queimado parte de seus próprios nervos.
Ele respirou fundo.
— Eu estou acabado...
Olhou para o adversário.
— ...mas ainda vou parar você.
Paulo avançou.
Os golpes seguintes não foram rápidos.
Foram pesados.
Cada soco fazia a armadura biológica do terrorista se deformar. O calor acumulado dentro do corpo começava a transformar o vapor em uma névoa espessa que escapava pelas feridas.
A regeneração desacelerou.
Depois parou.
O terrorista tombou.
Paulo ergueu o punho para desferir outro golpe.
O rádio chiou.
— Paulo. Vivo — ordenou Jairo. — Klaus quer os três vivos.
Paulo parou.
Olhou para o rapaz desacordado.
— Tá bom.
Abaixou o punho.
— Que falta de consideração.
Ele agarrou o terrorista pela perna e começou a arrastá-lo pelo corredor.
Quando saiu do prédio, Paulo estava coberto de sangue, fuligem e cortes.
O pátio estava cercado por viaturas.
Klaus e Kimiko aguardavam perto de uma ambulância enquanto os paramédicos recebiam os três irmãos.
Paulo soltou o prisioneiro no chão para que a equipe médica pudesse colocá-lo na maca.
— Por que vocês não foram me ajudar?
Klaus observou as roupas destruídas do colega.
— Porque você parecia estar lidando bem com a situação.
Fez uma pausa.
— Apesar de quase ter transformado o garoto em carvão.
Kimiko cruzou os braços.
— Você está inteiro?
Paulo olhou para o próprio corpo.
— Tecnicamente.
— Então pare de ser imprudente — respondeu ela. — Você está usando elementos que sabotam o próprio corpo.
Paulo deu de ombros.
— Faz parte.
— Não. Isso tem limite.
Kimiko apontou para ele.
— Você poderia ter usado seu Território de Caça.
Paulo ficou em silêncio.
Por um instante, pensou na Zona de Contenção.
Poderia ter encerrado aquela luta muito antes.
Mas não queria mostrar aquilo.
Não ainda.
Klaus estava observando.
Kimiko também.
Paulo preferia que continuassem sem saber exatamente do que ele era capaz.
— Não precisava — respondeu finalmente.
Kimiko estreitou os olhos.
— Você está sangrando.
— Eu sei.
Ela não insistiu.
Paulo respirou fundo.
Foi quando sentiu uma pulsação no olho esquerdo.
— Droga...
O olho brilhou em um azul intenso.
Uma onda de energia percorreu seu corpo.
A pele queimada começou a se reconstruir. Os cortes se fecharam. O nariz voltou ao lugar. As costelas se alinharam.
Paulo cambaleou e apoiou uma mão na lateral da ambulância.
O processo terminou poucos segundos depois.
Ele fechou os olhos.
Uma carga a menos.
Aquele poder tinha limites.
E Paulo preferia não descobrir quantas vezes ainda conseguiria utilizá-lo.
Klaus observou em silêncio.
Então acendeu outro cigarro.
— Descobri quem eles são.
Paulo ergueu os olhos.
— O garoto do quinto andar falou.
— Os três perderam os pais durante um massacre recente — continuou Klaus. — Depois disso, a irmã mais nova foi capturada por um grupo criminoso.
Kimiko olhou para as três macas.
— E eles fizeram isso para recuperá-la?
Klaus assentiu.
— Os criminosos prometeram libertar a menina se os três participassem da operação. Eles foram enviados para sequestrar as crianças enquanto outro grupo cuidava da arma química.
O semblante de Kimiko suavizou.
Ela observou os três irmãos sendo tratados pelos paramédicos.
— Então eles eram apenas crianças tentando salvar alguém da família?
Paulo permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Olhou para os três.
Depois respondeu:
— São só crianças.
Klaus soltou uma pequena risada sem humor.
Acendeu o cigarro.
— Engraçado você dizer isso depois de quase cozinhar um deles vivo no corredor.
Paulo preferiu não responder.
Os três ficaram em silêncio enquanto as equipes de emergência trabalhavam ao redor deles.
A operação no colégio havia terminado.
Mas a arma química continuava desaparecida.
E, em algum lugar da cidade, uma garota ainda esperava que os irmãos voltassem para buscá-la.
A verdadeira caçada estava apenas começando.