Capítulo 5 — O Anjo, a Peste e o Santo
A noite havia caído sobre Hanôver.
Três figuras caminhavam por uma rua quase deserta, seguindo o endereço obtido pela inteligência do BERC.
Jairo Mikhail Ivanov ia à frente, usando sua máscara de gás. A shashka permanecia presa à cintura.
William Speak caminhava ao lado dele, apoiado em sua bengala.
Jiā Lín vinha logo atrás, observando cada janela e cada esquina.
— Você nasceu na Rússia, mora no Brasil e agora trabalha para uma organização internacional de mercenários — comentou William. — Como exatamente isso aconteceu?
Jairo não olhou para trás.
— Longa história.
— Imaginei.
Jiā suspirou.
— Vocês dois conseguem ficar cinco minutos sem conversar?
— Não — responderam os dois ao mesmo tempo.
Jiā balançou a cabeça.
O endereço os havia levado até um estabelecimento discreto.
Por fora, parecia apenas mais um clube noturno.
Por dentro, o cheiro denunciava outra coisa: álcool barato, suor, perfume doce demais usado para tentar esconder odores que não deveriam existir.
E sangue.
Jairo parou diante da entrada.
— Tem muita gente.
William ajustou a posição da bengala.
— Criminosos?
— Alguns.
Jairo inclinou levemente a cabeça.
— Outros não.
Jiā entendeu.
— Então entramos.
A porta foi aberta.
O primeiro segurança avançou.
Era um homem enorme, quase dois metros de altura, vestindo um terno escuro que mal escondia a musculatura.
— Vous n'êtes pas invités.
William olhou para Jiā.
— Francês.
— Percebi.
O segurança ergueu um bastão.
Jairo desembainhou a shashka.
O movimento foi tão rápido que o homem sequer conseguiu reagir.
A lâmina passou.
O bastão caiu.
O segurança caiu logo depois.
Jairo limpou a lâmina na roupa do homem.
— Agora somos convidados?
— Tecnicamente — disse William —, acho que não.
Jiā passou pelos dois.
— Continuem andando.
O interior do estabelecimento era muito maior do que aparentava.
Havia homens armados nos corredores.
Alguns tentaram reagir.
Não tiveram tempo.
Jairo avançava como uma máquina.
A shashka cortava o ar em movimentos curtos e precisos, derrubando um homem atrás do outro.
Um capanga tentou disparar contra William.
Jiā surgiu na frente.
O tiro passou por ela.
A mão da Taumaturga se abriu.
Seu próprio sangue atravessou a pele e formou uma lâmina.
Um golpe.
O homem caiu.
William olhou para ela.
— Eu estava começando a gostar da bengala.
— Você ainda pode usar.
— Depois de tomar um tiro?
— Sim.
William sorriu.
— Excelente.
Eles continuaram.
No segundo andar, encontraram o verdadeiro motivo pelo qual aquele lugar existia.
Havia quartos, corredores e portas trancadas.
E pessoas que não deveriam estar ali.
Jiā abriu uma das portas.
Parou.
Garotas muito jovens estavam amontoadas no interior.
Algumas estavam desacordadas.
Outras permaneciam sentadas, imóveis, sob efeito de sedativos.
Jiā entrou devagar.
— Acabou.
Uma das meninas recuou.
— Não...
Jiā se ajoelhou.
— Nós não somos eles.
A menina continuou tremendo.
Jiā estendeu a mão.
— Você está segura agora.
A garota hesitou.
Então segurou seus dedos.
Jiā não sorriu.
Mas também não soltou.
— William.
— Já estou cuidando disso.
Ele começou a abrir as portas restantes.
Enquanto libertava as vítimas, seu olhar percorria o lugar: as marcas nas paredes, as correntes, os medicamentos, os quartos preparados para receber mais pessoas.
William fechou os dedos ao redor da bengala.
Fechou os olhos.
Respirou uma vez.
Duas.
Não é Atlanta.
Abriu os olhos.
O olhar estava novamente frio.
— Vamos tirar todas daqui.
Mais adiante, Jiā encontrou uma sala diferente.
As meninas estavam separadas das demais.
Havia uma mesa, documentos, fotografias e uma lista.
No topo, uma palavra:
LOTE ESPECIAL.
Jiā começou a ler.
Nomes.
Idades.
Características físicas.
Registros médicos.
Ela virou a página.
E parou.
Havia uma fotografia.
Uma garota muito jovem.
Os olhos haviam sido riscados da imagem.
Ao lado, uma anotação:
Mina.
Jiā franziu a testa.
Virou outra página.
Encontrou outra fotografia.
Três garotos.
Os mesmos rostos que haviam enfrentado o BERC naquela noite.
Os irmãos.
Ela voltou à ficha.
— Não...
William se aproximou.
— O que foi?
Jiā mostrou a fotografia.
— Eles estavam tentando encontrar essa garota.
William observou a imagem.
— A irmã.
Jairo chegou logo depois.
— Encontraram?
Jiā levantou os olhos.
— Ainda não.
Uma voz surgiu no corredor.
— Procurando alguém?
Os três se viraram.
Um homem de meia-idade estava parado diante da porta.
Terno impecável.
Arma na mão.
— O patrão vai ficar muito irritado.
Jairo puxou a shashka.
O homem disparou.
Jairo desviou.
A lâmina atravessou o braço do criminoso.
Ele gritou.
— Onde está o patrão?
O homem tentou responder.
Jairo pressionou a lâmina contra seu pescoço.
— Onde?
— No... salão.
Jairo o soltou.
O homem caiu.
O salão principal ficava no fundo do estabelecimento.
Era maior do que os outros cômodos.
Ali estavam dezenas de pessoas: homens, mulheres e crianças, todas organizadas em fileiras.
Como mercadoria.
No centro estava um velho.
Cabelos grisalhos.
Terno caro.
Mãos apoiadas sobre uma bengala ornamentada.
Ele observava os recém-chegados com uma expressão tranquila.
— Vocês chegaram cedo.
Jiā encarou as pessoas enfileiradas.
— Solte todos.
O velho sorriu.
— Você não entende o que está vendo.
Ele apontou para uma das meninas.
— Aquela tem uma excelente compatibilidade.
Apontou para outra.
— Aquela também.
William apertou a bengala.
— Você fala delas como se fossem objetos.
— Porque é isso que são.
Jairo permaneceu imóvel.
O velho percebeu a máscara.
— E você?
Jairo não respondeu.
— Interessante.
O homem caminhou até uma pequena mesa.
Sobre ela havia diversos frascos.
Dentro deles, líquidos transparentes.
E pequenas estruturas flutuando.
Jairo se aproximou.
Um dos frascos continha dois olhos humanos.
Ele encarou o recipiente.
— O que são?
O velho sorriu.
— Decoração.
Jiā encarou o homem.
— Você arrancou os olhos delas.
— Algumas não eram obedientes.
William permaneceu em silêncio.
A bengala rangeu sob a força de sua mão.
O velho continuou sorrindo.
— Querem saber qual é a melhor parte?
Ninguém respondeu.
— Elas continuam vivas.
Jairo finalmente falou:
— Andreie.
O velho ergueu uma sobrancelha.
— Conhecem meu nome?
— Conheço.
Andreie sorriu.
— Então sabem que não vão sair daqui tão facilmente.
Sua mana começou a se manifestar.
O ambiente pareceu ficar mais pesado.
Algumas das vítimas começaram a desmaiar.
Jiā avançou.
Mas Andreie recuou.
Uma porta se fechou atrás dele.
— O bunker — disse William.
Jairo olhou para a porta.
— Vamos.
Os três libertaram as vítimas restantes antes de seguir.
Jiā ajudou uma das meninas a caminhar.
William cuidou dos ferimentos mais graves.
Jairo permaneceu no corredor.
A shashka ainda estava em sua mão.
— Ele fugiu — disse William.
— Não muito longe.
Jiā parou.
Sentiu uma corrente de ar frio passar pelo piso.
— Esperem.
Ela olhou para baixo.
O ar vinha de algum ponto sob as tábuas.
William também percebeu.
— Isso não vem da ventilação.
Ele bateu a ponta da bengala no chão.
Toc.
Um som metálico respondeu.
Jairo se aproximou.
— Tem alguma coisa embaixo.
Eles afastaram os móveis.
Uma das placas do piso estava ligeiramente deslocada.
William a removeu.
Uma escada apareceu.
— Encontramos.
O corredor subterrâneo era estreito.
Quanto mais desciam, mais frio ficava.
No final havia uma porta de aço.
Jairo examinou a superfície.
— Isso não estava nas plantas.
— Então alguém queria esconder.
William observou a porta.
— Posso abrir.
— Quanto tempo?
— Alguns minutos.
Jiā estendeu o braço.
— Use o meu sangue.
William fez um pequeno corte.
Algumas gotas caíram sobre sua mão.
Sua mana percorreu o líquido.
O sangue tremeu.
Partículas metálicas começaram a se separar dele, reunindo-se em uma massa escura entre seus dedos.
Jiā observou.
— Isso vai funcionar?
— Vai.
William aproximou a massa da porta.
— Só não vai ser rápido.
A reação começou.
O metal perdeu a rigidez e se deformou lentamente.
Alguns minutos depois, uma abertura surgiu.
Jairo passou primeiro.
Os outros o seguiram.
Do outro lado, a escuridão era completa.
O bunker era muito maior do que imaginavam.
Havia computadores, documentos, equipamentos médicos, caixas e centenas de arquivos.
William abriu um deles.
Seu olhar endureceu.
— Projeto de Transferência.
Jiā pegou outro.
— Compatibilidade de mana.
Jairo abriu um terceiro.
— Localizações.
William juntou os documentos.
— Eles não estavam apenas traficando pessoas.
Jiā respondeu:
— Estavam selecionando.
Havia registros de pessoas classificadas como incompatíveis.
Outras como compatíveis.
Algumas possuíam uma marca diferente.
TRANSFERÊNCIA AUTORIZADA.
— Para onde? — perguntou Jairo.
Nenhuma resposta.
Até encontrarem uma sala isolada.
A porta estava entreaberta.
Jiā entrou.
Havia uma cama, uma cadeira e equipamentos médicos.
E uma garota sentada no canto.
Muito magra.
Os braços cobertos por marcas.
O rosto escondido atrás de curativos.
Jiā parou.
— Ei.
A garota se encolheu.
— Não precisa ter medo.
A menina não respondeu.
Jiā deu mais um passo.
Ela recuou.
Jiā parou imediatamente.
— Tudo bem.
Sentou-se no chão.
Ficou alguns segundos em silêncio.
— Meu nome é Jiā.
A menina permaneceu imóvel.
— E o seu?
Nada.
Jiā não insistiu.
Observou a mesa ao lado.
Encontrou uma ficha.
Leu.
Mina.
Ela voltou a encarar a garota.
— Mina?
A menina levantou lentamente a cabeça.
Assentiu.
Jiā aproximou a mão.
— Posso?
Mina hesitou.
Então estendeu os dedos.
Jiā segurou sua mão.
Foi quando percebeu os curativos.
Jiā ficou imóvel.
Ela entendeu.
Os olhos.
Não estavam ali.
William parou na porta.
Seu rosto endureceu.
Jairo permaneceu imóvel.
Sobre uma prateleira havia um pequeno recipiente de vidro.
Dentro dele, dois globos oculares flutuavam em líquido transparente.
Jiā encarou o frasco.
Depois, Mina.
Então voltou à fotografia encontrada no andar superior.
Os três irmãos.
A mesma família.
— Encontramos você — murmurou.
Mina segurou os dedos de Jiā com mais força.
Passos ecoaram pelo corredor.
Jiā se levantou.
Andreie surgiu novamente.
Ele havia tirado o paletó.
Sua mana voltou a envolver o ambiente.
O ar ficou pesado.
— Devolvam minha propriedade.
Jiā se colocou entre Andreie e Mina.
— Ela não é sua.
Andreie sorriu.
— Tudo o que está neste lugar pertence a mim.
Ele encarou Mina.
— Inclusive ela.
Jairo avançou.
Andreie tentou reagir.
Jairo foi mais rápido.
Sua mão tocou o rosto do velho.
A manifestação patológica atravessou o corpo de Andreie.
O velho gritou.
Tentou afastá-lo.
Jairo segurou a cabeça dele.
— Você gostava de olhar para as pessoas, não gostava?
Andreie começou a tremer.
— Espere...
Jairo inclinou a cabeça.
— Então olhe.
Andreie tentou gritar mais uma vez.
Não conseguiu.
A manifestação continuou seu trabalho.
Jairo virou as costas.
— Boa noite, senhor Andreie.
Quando tudo terminou, Jiā carregou Mina para fora do bunker.
William vinha ao lado.
Jairo fechava a marcha.
Mina mantinha o rosto baixo, os curativos cobrindo onde antes estavam seus olhos.
Jiā segurava sua mão.
— O que fazemos com ela? — perguntou William.
Jiā encarou Mina.
— Primeiro, salvamos a vida dela.
Jairo falou:
— Depois descobriremos quem está por trás disso.
William olhou para os arquivos que carregava.
— E o Projeto de Transferência.
Jiā assentiu.
Mina não soltou a mão de Jiā.
Dessa vez, não havia medo no gesto.
Era confiança.
Jiā olhou para ela.
A missão havia começado como uma operação contra traficantes.
Agora havia uma garota para proteger, três irmãos capturados e um projeto clandestino que apontava para algo muito maior.
A caçada havia mudado de alvo.