ㅡ Nossa... então não tinha arma química nenhuma. Eles estavam usando jovens de Rank 4 como armas. A gente foi fundo demais nesse poço.
Quem conduzia a conversa era um homem na casa dos quarenta anos.
Sua pele tinha um tom difícil de definir — não chegava a ser parda, tampouco branca. Era simplesmente... comum. Seus olhos castanhos não possuíam nada de extraordinário à primeira vista. O cabelo escuro era cortado em um undercut desconectado, enquanto um bigode Chevron ocupava boa parte do espaço acima dos lábios.
Seu corpo também não era exatamente atlético. Estava um pouco acima do peso, algo que a caneca de cerveja em sua mão às seis da manhã ajudava a explicar.
Vestia um terno preto, assim como todos os outros presentes na sala.
A quele homem era Igor Henrique, fundador e comandante da BERC.
— Temos apenas seis agentes. Oito, se contarmos com a gente — alertou Renan. — Não vamos dar conta disso.
— Então por que simplesmente não começamos a recrutar mais gente? — perguntou Klaus.
Kimiko cruzou os braços antes de responder.
— Porque não temos dinheiro suficiente para isso. E ninguém quer entrar em um grupo mercenário recém-formado. Quem quer fugir do serviço da UMI normalmente procura grupos mercenários mais consolidados.
Igor tomou um gole da cerveja e colocou a caneca sobre a mesa.
— Por isso vocês vão participar dos Jogos de Guerra.
A sala ficou em silêncio por alguns segundos.
Renan franziu a testa.
— Como vamos participar se nem temos divisões suficientes?
Igor sorriu.
— Bom...
Ele puxou uma folha de papel de dentro de uma pasta e a colocou sobre a mesa.
— Agora vocês têm.
Klaus se inclinou para frente.
— Você já tinha isso planejado?
— Mais ou menos.
— Igor, você acabou de inventar isso, não acabou? — perguntou Kimiko.
— Talvez.
Renan soltou um suspiro.
— Isso não me tranquiliza.
Igor ignorou o comentário e abriu a folha.
Nela havia seis nomes, acompanhados de suas respectivas funções.
— A BERC não pode continuar sendo apenas um grupo de mercenários jogado de um lado para o outro. Se vamos enfrentar a UMI, organizações criminosas e, principalmente, pessoas capazes de utilizar jovens de Rank 4 como armas...
Ele apontou para o primeiro nome.
— Vamos precisar de estrutura.
Klaus pegou a folha.
— Seis divisões?
— Seis.
Igor passou o dedo pelos nomes.
— Cada uma terá uma função específica. Não quero que todo mundo faça tudo. Quero especialistas trabalhando juntos.
Ele ergueu os olhos para os presentes.
— A partir de hoje, a BERC deixa de ser apenas um grupo.
Igor bateu o dedo sobre o papel.
— Vai se tornar uma força organizada.
Na folha estavam escritos os seis setores que mudariam completamente a forma como a BERC operaria.
D.C.C. — Divisão de Caça e Contenção.
D.R.B. — Divisão de Resgate e Busca.
D.A.Q. — Divisão de Ataque e Defesa Química.
D.A.B. — Divisão de Ataque e Defesa Biológica.
F.E.B. — Força Expedicionária BERC.
D.M.S. — Diretoria de Médicos e Suporte.
Klaus observou o primeiro nome.
Depois, olhou para Igor.
— E quem vai comandar isso tudo?
Igor abriu um sorriso.
— Essa é a parte divertida.
Renan imediatamente percebeu o que estava acontecendo.
— Não...
— Sim.
Kimiko levou uma mão ao rosto.
— Igor, não faça isso.
— Eu não estou fazendo nada.
Ele apontou para Klaus.
— Você vai cuidar da Caça e Contenção.
Depois apontou para Kimiko.
— Você fica com Resgate e Busca.
Em seguida, para William.
— Ataque e Defesa Química.
Depois, para Jairo.
— Ataque e Defesa Biológica.
Igor finalmente olhou para Paulo, que permanecia mais afastado dos demais.
— Força Expedicionária.
Por último, voltou-se para Jiā Lín.
— E você fica responsável pela parte médica e pelo suporte.
Jiā permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Você está distribuindo funções com base nas nossas habilidades?
— Exatamente.
Klaus deu uma pequena risada.
— E se alguém não quiser?
Igor pegou novamente a caneca de cerveja.
— Aí vocês podem reclamar.
Tomou outro gole.
— Mas continuam fazendo.
— Sei que a resposta é meio óbvia, mas qual é a função de cada divisão? E o que faz você pensar que temos competência para isso? — questionou William, enquanto cobria parte do rosto com uma das mãos e olhava para o teto.
Igor apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Começando pela D.C.C., a Divisão de Caça e Contenção. Ela será responsável por localizar, capturar e interrogar criminosos de guerra, líderes de organizações criminosas e, quando necessário, figuras políticas e militares envolvidas em crimes.
Klaus ergueu uma sobrancelha.
— Isso parece bastante específico.
— É porque eu pensei em você.
Igor apontou para ele.
— Você fez parte da GSG 9. Tem treinamento, experiência operacional e já está acostumado a lidar com situações em que o alvo não exatamente coopera com a prisão.
Klaus deu de ombros.
— Faz sentido.
— Além disso — continuou Igor —, se alguém fugir, você provavelmente vai ser o primeiro a pensar em como encontrar o sujeito.
— E se ele for mais rápido que eu?
— Então atira nele.
Klaus ficou em silêncio por alguns segundos.
— Essa é sua solução para tudo?
— Não. Às vezes eu mando o Jairo.
Jairo, ainda usando a máscara de gás, levantou lentamente a cabeça.
— Eu gostei dessa divisão.
William soltou uma risada.
Igor voltou para a folha.
— A segunda é a D.R.B., Divisão de Resgate e Busca. Terrorismo, situações com reféns, localização de armas, negociações, resgate de vítimas e operações em desastres ou acidentes. Quando não houver outra opção, também será responsável pela eliminação dos invasores.
William apontou para Kimiko.
— E por que a Kimiko?
— Porque ela vai liderar.
— Eu sei. Estou perguntando por quê. Ela é uma Bestial.
Igor olhou para ele.
— E daí?
— O Paulo é literalmente bombeiro militar no Brasil. Ele tem treinamento de extração, resgate e combate. Em várias das nossas missões, é ele quem acaba tirando os reféns de lá. Por que não colocar ele no comando?
Paulo, que até então estava quieto, olhou para William.
— Obrigado pela confiança.
— Não se acostume.
Igor deu uma risada.
— O Paulo realmente tem experiência nisso. Mas a Kimiko se preparou durante anos para entrar na SAT.
Kimiko cruzou os braços.
— Eu quase consegui.
— Por sorte, nós pegamos ela antes — completou Igor, rindo. — E, sinceramente, acredito que ela lidaria melhor com a parte de negociação e resgate do que o Paulo.
Paulo franziu a testa.
— Por quê?
Igor apontou para ele.
— Porque você provavelmente entraria pela janela, quebraria três paredes e carregaria todo mundo nas costas.
Paulo pensou por alguns segundos.
— ...É uma possibilidade.
— Viu?
Kimiko segurou o riso.
— Além disso — continuou Igor —, você não precisa ser o comandante de tudo em que é bom. Às vezes é melhor colocar a pessoa certa no lugar certo.
William assentiu lentamente.
— Tá. Essa eu aceito.
Igor virou a folha.
— Agora chegamos às duas divisões mais óbvias.
William já parecia desconfiado.
— Isso nunca é um bom sinal.
— D.A.Q., Divisão de Ataque e Defesa Química. Responsável por contenção, defesa e operações envolvendo agentes químicos.
Igor apontou para William.
— Você.
William suspirou.
— Pelo menos essa eu não vou questionar.
— Ótimo.
Igor continuou.
— D.A.B., Divisão de Ataque e Defesa Biológica. Responsável por ameaças biológicas, contenção de agentes infecciosos, operações contra bioterrorismo e apoio à população em situações envolvendo doenças, contaminação de água e outros riscos biológicos.
Jairo inclinou a cabeça.
— Essa é minha.
— Exatamente.
William olhou para Jairo.
— Então, resumindo, se alguma coisa explodir, eu resolvo.
Jairo levantou um dedo.
— E se alguma coisa começar a crescer dentro de alguém, eu resolvo.
— Que reconfortante.
Igor continuou como se aquela conversa fosse completamente normal.
— Vocês dois foram escolhidos porque são os únicos Alquimista e Patológico da equipe. Não tem muito mistério.
William abriu os braços.
— Então nossa qualificação é literalmente sermos os únicos dois malucos com essas manifestações?
Igor tomou outro gole de cerveja.
— Tecnicamente, sim.
— Excelente processo seletivo.
— Obrigado.
— Não foi um elogio.
— Eu sei.
— Tem um detalhe que eu esqueci de falar — disse Igor. — A D.C.C., a D.R.B. e a F.E.B. serão as únicas divisões que poderão aceitar qualquer classe de mana. E acho que o motivo é meio óbvio.
Renan ergueu os olhos do celular.
— Qual seria exatamente? Eu não prestei muita atenção. Tava jogando Pokémon.
Kimiko virou lentamente a cabeça para ele.
— Por conta da porra das funções, subcomandante.
Renan olhou para ela.
— Ah.
Voltou para o celular.
— Hum-hum. Continuando.
Kimiko fechou os olhos por alguns segundos, claramente questionando as próprias escolhas de vida.
Igor fingiu não ter visto.
— F.E.B., Força Expedicionária BERC. Será a divisão mais versátil de todas. Os agentes poderão desempenhar funções das outras cinco divisões, dependendo da situação.
Ele apontou para Paulo.
— Mas a principal função será tomada de território, proteção de áreas estratégicas e proteção de civis. E, considerando que você vai ficar no comando...
Igor fez uma pausa.
— Talvez você morra em um mês.
Paulo encarou Igor.
— Primeiramente, vou aproveitar as siglas. O símbolo da divisão vai ser uma cobra fumando.
Klaus levantou uma sobrancelha.
— Uma cobra fumando?
— Puta homenagem, na visão de quem manja da história do meu país.
William começou a rir.
Paulo apontou para Igor.
— Segundamente, por que eu fico com o esquadrão suicida?
— Infelizmente, foi o que sobrou, filhote.
— ...
Igor deu de ombros.
— Você já foi militar. Não é possível que não dê conta.
Paulo respirou fundo.
— Comandante, eu era bombeiro militar. Não policial, não membro do Exército. Inclusive, eu era soldado. Não tinha patente alta nenhuma.
— Tecnicamente, você ainda é bombeiro no seu país.
Igor apoiou o queixo na mão.
— Mesmo estando em um grupo mercenário, você ainda está guerreando pela AMI, da qual o Brasil faz parte. Quando essa guerra acabar, você vai voltar normalmente ao seu trabalho e, provavelmente, com uma patente maior.
Paulo abriu a boca para responder.
Igor levantou a mão.
— E se vai chorar, manda áudio. Tenho coisas muito importantes para fazer depois daqui.
Jiā, que até então permanecia em silêncio, finalmente resolveu participar da conversa.
— Tipo passar o dia inteiro jogando na Steam?
Igor olhou para ela.
Um sorriso surgiu em seu rosto.
— Que bom que finalmente decidiu participar, Jiā.
Ele puxou novamente a folha sobre a mesa.
— Como você é uma ótima médica-cirurgiã, sua divisão será a D.M.S., Diretoria de Médicos e Suporte.
Jiā inclinou levemente a cabeça.
— Eu não sou da classe Médica.
— Eu sei. Você se formou em Medicina enquanto morava na China, então deve dar conta.
Jiā ficou alguns segundos em silêncio.
— Justo.
Igor apontou para os demais.
— E antes que alguém pergunte: sim, a D.M.S. também vai cuidar de suporte médico para as outras divisões.
Renan levantou a mão.
— Posso perguntar uma coisa?
— Não.
— Nem perguntei ainda.
— Justamente.
Renan abaixou a mão.
— Entendido.
Igor se levantou da cadeira.
— Os Jogos de Guerra começam daqui a alguns dias. Preparem-se. Vamos fazer um treinamento tático antes disso.
Ele começou a caminhar em direção à saída.
— Vejo vocês lá fora.
Os outros se levantaram logo depois.
Foi então que Paulo percebeu uma coisa.
Igor estava usando terno.
Só na parte de cima.
Da cintura para baixo, o comandante da BERC vestia uma bermuda simples e chinelos.
Paulo ficou olhando por alguns segundos.
— ...
William também percebeu.
— Você tá de sacanagem.
Igor olhou para baixo.
Depois para os outros.
— O quê?
Kimiko apontou para as pernas dele.
— Você passou a reunião inteira vestido de terno em cima e de bermuda embaixo?
Igor deu uma olhada rápida para a própria roupa.
— Economia de tecido.
Jiā cruzou os braços.
— E você quer que a gente leve os Jogos de Guerra a sério?
Igor abriu a porta.
— Exatamente.
E saiu de chinelo, como se aquela fosse a coisa mais normal do mundo.
Renan voltou a olhar para o celular.
— Pelo menos eu não sou o único irresponsável nessa organização.
Kimiko suspirou.
— Deus nos ajude.