Capítulo 7 — Dia de Adestramento
O dia havia começado cedo demais, o sol mal havia passado pelo horizonte quando os seis agentes da recém-formada BERC se encontraram diante de uma extensa área de floresta.
Não havia prédios.
Não havia estradas.
Não havia qualquer estrutura visível além de uma pequena clareira onde Igor e Renan aguardavam.
Para alguém que não conhecesse a BERC, aquilo poderia parecer apenas uma manhã comum de treinamento.
Para aqueles seis, era provavelmente o começo de uma péssima decisão.
Igor colocou as mãos nos bolsos do terno.
Dessa vez, para surpresa de todos, estava usando calças.
— Senhoras e senhores, vamos fazer um pequeno exercício de combate.
Os seis ficaram atentos.
— Acho que é óbvio, mas não matem uns aos outros. Por mais tentador que seja.
Jairo inclinou levemente a cabeça.
— Que pena.
— E antes que perguntem — continuou Igor —, é permitido usar qualquer um dos seus truques.
Klaus levantou a mão.
— Relíquias?
— Fique à vontade.
Paulo ergueu a mão em seguida.
— Territórios de Caça?
Igor pensou por alguns segundos.
— Até onde eu sei, só dois de vocês conseguem usar. E acho difícil cumprirem os requisitos levando em consideração o ambiente.
Paulo assentiu.
— Justo.
Jairo levantou a mão.
— Posso usar qualquer patógeno?
Igor apontou imediatamente para ele.
— Nada de Ebola, AIDS ou qualquer coisa desse nível.
Jairo pareceu decepcionado.
— E o que eu posso usar?
—Qualquer coisa que não me faça explicar para a AMI por que metade da floresta morreu.
— Certo.
Igor olhou para William.
— E você. Nada de agentes químicos pesados.
William cruzou os braços.
— Eu estava pensando em ser gentil.
— Não estava.
— Não estava mesmo.
Jiā levantou a mão.
— Tenho uma pergunta.
Igor suspirou.
— Vai continuar tendo.
— Qual é o objetivo exato?
— Excelente pergunta.
Igor apontou para a floresta.
— Existe um ponto de extração no centro da área. Há uma base improvisada onde eu e Renan estaremos esperando.
Renan acenou preguiçosamente.
— Vocês precisam chegar até lá.
Igor levantou um dedo.
— Mas precisam incapacitar pelo menos um dos outros antes de chegar.
Klaus estreitou os olhos.
— E como vamos saber onde eles estão?
— Não vão.
— Mapa?
— Não.
— Rastreamento?
— Não.
— Comunicação?
— Não.
Silêncio.
William olhou para Igor.
— Você realmente pensou em tudo para tornar isso desagradável.
— Obrigado.
Jiā cruzou os braços.
— E existe algum incentivo para não simplesmente ficarmos escondidos?
Igor sorriu.
— Os dois primeiros que chegarem poderão escolher os primeiros recrutas para suas futuras divisões.
Klaus ergueu uma sobrancelha.
— E os dois últimos?
— Limpam os banheiros da base durante um mês.
Jairo ficou alguns segundos em silêncio.
— Agora eu quero ganhar.
— Sabia que funcionaria.
Paulo olhou para a floresta.
— Quando começa?
Igor abriu um sorriso.
— Agora.
Uma força invisível envolveu os seis.
Os pés deixaram o chão simultaneamente.
— Espera, o quê—
Igor ergueu uma das mãos.
Os seis corpos foram lançados para direções diferentes.
Klaus desapareceu entre as árvores do oeste.
Kimiko foi arremessada para o norte.
William caiu próximo a uma formação rochosa.
Jairo foi lançado para o sul.
Paulo caiu perto de um rio, a leste.
Jiā desapareceu no interior de um bambuzal.
Igor abaixou a mão.
— Pronto.
Renan olhou para a floresta.
— Você poderia simplesmente ter mandado eles caminhando.
— Poderia.
— Então por que não fez?
Igor começou a caminhar até o veículo.
— Porque assim é mais engraçado.
Renan suspirou.
— Às vezes eu me pergunto por que ainda trabalho com você.
— Porque eu pago.
— Você me deve três meses.
Igor parou.
— Detalhes.
Oeste
Klaus caiu de costas sobre uma camada de folhas.
Rolou uma vez, levantou-se e imediatamente começou a examinar o ambiente.
Floresta densa.
Visibilidade razoável.
Nenhum inimigo.
Nenhum companheiro.
Ele avançou.
Então ouviu um pequeno estalo.
CLIC.
Klaus parou.
Uma flecha disparou de um arbusto.
Ele inclinou a cabeça.
TCHAK!
A flecha passou raspando pela sobrancelha e acertou uma árvore.
Um filete de sangue desceu pelo rosto.
Klaus tocou o corte.
Olhou para os dedos.
— Interessante.
Sua sombra se estendeu pelo chão.
O problema era que o mecanismo estava escondido atrás de uma árvore, fora do seu campo de visão.
Klaus sorriu.
— Vamos fazer isso do jeito fácil.
A sombra deslizou pela terra, contornou a árvore e subiu pelo tronco.
Encontrou o mecanismo.
Um pequeno estalo.
A armadilha foi desmontada.
Klaus continuou.
Mais à frente, outra flecha disparou.
Dessa vez, sua sombra já estava esperando.
Uma mão negra surgiu do chão e segurou o projétil no ar.
Klaus nem diminuiu o passo.
— Melhor.
Na base, Renan observava um dos monitores.
— Ele já entendeu.
Igor continuava olhando para a tela.
— Klaus sempre entende.
— Então você fez as armadilhas especificamente para ele?
Igor sorriu.
— Algumas.
— E as outras?
— Algumas eu fiz porque tinha madeira sobrando.
Renan ficou em silêncio.
— Às vezes eu mando o Jairo para conversar com você.
Igor olhou para ele.
— Isso foi uma ameaça?
— Um aviso.
Norte
Kimiko caiu sobre um galho.
O impacto fez a madeira ranger.
Ela se segurou, desceu e observou a floresta.
Nada.
Nenhum movimento.
Nenhum som.
Avançou.
Cinco passos.
Dez.
Parou.
O ambiente estava silencioso demais.
Kimiko fechou os olhos.
Respirou.
Seu olfato captou terra úmida, folhas, madeira...
E alguma coisa forte.
Picante.
— Ah, não.
Uma pequena cápsula escondida entre as folhas estourou.
Uma nuvem irritante espalhou-se pelo ar.
Kimiko recuou imediatamente, cobrindo o nariz.
Os olhos começaram a lacrimejar.
— Filho da...
Ela tentou enxergar.
Tudo estava embaçado.
Então percebeu.
Não precisava enxergar.
A transformação percorreu seu corpo.
A audição se tornou muito mais sensível.
O mundo ganhou novos sons.
Insetos.
Folhas.
Água distante.
O mecanismo da armadilha ainda vibrava.
E havia outra coisa.
Um fio sendo puxado.
Kimiko saltou para o lado.
Uma rede passou onde ela estava.
Ela caiu rolando e levantou-se rapidamente.
— Entendi.
Seu olfato e sua audição agora trabalhavam juntos.
Ela não estava procurando as armadilhas.
Estava procurando quem as havia preparado.
Seguiu um cheiro de óleo e madeira recém-cortada.
Encontrou uma pequena caixa presa a uma árvore.
Kimiko arrancou a caixa.
Dentro havia um papel.
NÃO MATAR O COMANDANTE.
Ela amassou o papel.
— Pena.
Na base, Renan viu a cena.
— Você escreveu isso?
— Escrevi.
— Ela vai descobrir que você fez.
Igor deu de ombros.
— Já descobriu.
— E não está preocupado?
— Não.
— Por quê?
Igor apontou para o monitor.
Kimiko acabara de encontrar outra armadilha.
— Porque ainda faltam quarenta e três.
Renan encarou Igor.
— Você realmente fez quarenta e três?
— Quarenta e quatro.
— Por quê?
— Eu errei a conta.
O outro lado da floresta
Enquanto Klaus e Kimiko avançavam, os outros agentes espalhados pela floresta não estavam tendo uma manhã particularmente agradável.
Jairo descobriu rapidamente que o pântano não precisava de nenhuma armadilha adicional.
A própria natureza já fazia um trabalho excelente.
Em determinado momento, seu pé afundou até a cintura.
Ele ficou parado.
A água subiu até o peito.
Jairo olhou para a máscara.
— Se eu morrer aqui, vou assombrar o Igor.
Na outra extremidade, William encontrou uma formação rochosa repleta de mecanismos.
Uma tora passou raspando por seu ombro.
Depois uma corda tentou prendê-lo pelo tornozelo.
Depois uma pequena cápsula liberou um composto que irritou seus olhos.
William limpou o rosto, analisou o ar e suspirou.
— Pelo menos ele está tentando ser educativo.
Ele neutralizou o composto e continuou.
— Idiota.
Leste
Paulo caiu ao lado do rio.
Levantou-se, verificou braços, pernas e costelas.
Tudo inteiro.
— Beleza.
Olhou para a correnteza.
O centro da floresta provavelmente ficava naquela direção.
Paulo começou a caminhar pela margem.
Então ouviu um estalo.
Uma rede disparou.
Ele saltou.
A rede passou por baixo de seus pés e atingiu uma árvore.
Paulo olhou para ela.
— Tá.
Continuou.
Poucos metros depois, outra armadilha.
Uma estrutura de madeira lançou uma segunda rede.
Paulo ergueu a mão.
O vento mudou de direção.
A rede desviou alguns centímetros e caiu na água.
Paulo sorriu.
— Isso já está ficando mais interessante.
Seguiu pelo rio.
Então parou.
Havia uma pequena placa presa a uma árvore.
CAMINHO MAIS RÁPIDO.
Paulo olhou para a placa.
Depois para o caminho.
Depois novamente para a placa.
— Isso é obviamente uma armadilha.
Na base, Renan olhou para Igor.
— Ele vai pelo caminho?
Igor sorriu.
— Bombeiros são curiosos.
Paulo suspirou.
— Eu devia confiar no meu instinto.
E entrou.
A floresta fechou-se atrás dele.
Norte-Nordeste
Jiā avançava pelo bambuzal.
Não havia armadilhas óbvias.
Isso era justamente o problema.
Ela parou.
Observou o chão.
Nada.
Os bambus.
Nada.
Então viu uma gota de sangue.
Uma única gota.
No bambu à sua esquerda.
Jiā tocou.
— Não é minha.
Ela olhou ao redor.
Outra gota.
Mais à frente.
Outra.
Um rastro.
Jiā começou a seguir.
Não demorou para perceber que aquilo não era uma armadilha.
Era uma pista.
O sangue havia sido colocado propositalmente para conduzir alguém por aquela região.
Jiā continuou.
Até encontrar uma pequena bolsa pendurada em uma árvore.
Ela abriu.
Farinha.
Jiā ficou imóvel.
— Não.
O comunicador chiou.
— Surpresa — disse Igor.
Ela fechou os olhos.
— Você jogou farinha em mim?
— Sim.
— Por quê?
— Porque parecia engraçado.
Jiā respirou fundo.
— Você é o pior comandante que eu já conheci.
— Obrigado.
— Não foi um elogio.
— Eu sei.
A comunicação foi encerrada.
Jiā olhou para a farinha.
Depois para a trilha de sangue.
Um pequeno sorriso apareceu.
— Muito bem.
Ela retirou uma quantidade de sangue da própria mão e formou uma pequena lâmina.
— Se é um jogo...
Cravou a lâmina em um bambu.
— ...eu também sei jogar.
A base improvisada estava silenciosa.
Igor observava os monitores.
Renan estava sentado ao lado, com os braços cruzados.
Klaus já havia deixado para trás a região oeste.
Kimiko avançava usando os sentidos bestiais para encontrar os mecanismos escondidos.
William havia começado a desmontar algumas das armadilhas químicas.
Jairo ainda lutava contra o pântano.
Paulo seguia o caminho que claramente parecia uma armadilha.
E Jiā havia descoberto que algumas das pistas eram deliberadamente falsas.
Renan apontou para a tela.
— Você percebeu que eles estão começando a entender?
Igor abriu o notebook.
— Era essa a ideia.
— Então agora eles vão começar a se procurar.
— Exatamente.
Igor colocou o headset.
— Agora começa a parte que interessa.
Renan olhou para ele.
— Você não vai jogar World of Warcraft?
Igor abriu o jogo.
— Claro que vou.
Renan fechou os olhos.
— Eu odeio trabalhar aqui.
Igor sorriu.
— Mas admite que está divertido.
Renan observou os monitores.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então um deles mudou.
Paulo havia deixado o rio.
Outro monitor mudou.
Jiā também havia encontrado uma saída do bambuzal.
As duas trajetórias estavam convergindo.
Renan percebeu primeiro.
— Igor.
— Hm?
— Olha isso.
Igor tirou os olhos do computador.
Na tela, Paulo caminhava entre as árvores.
Do outro lado da mesma região, Jiā avançava na direção oposta.
Nenhum dos dois sabia.
Mais alguns metros.
Paulo parou.
Jiā também.
Um som atravessou a floresta.
Passos.
Paulo colocou a mão próxima ao equipamento.
Jiā ergueu a cabeça.
Os passos ficaram mais próximos.
Então uma silhueta surgiu entre as árvores.
Paulo estreitou os olhos.
Jiā também.
Os dois se reconheceram.
Silêncio.
Paulo foi o primeiro a falar.
— Ah.
Jiā segurou a lâmina de sangue.
— Então é assim que começa.
Na base, Igor abriu um sorriso.
— Agora sim.
Renan olhou para ele.
— O quê?
Igor apontou para o monitor.
— o verdadeiro adestramento
Por um segundo, nenhum dos dois se moveu.
Paulo avaliou a distância.
Jiā avaliou o terreno.
O rio estava atrás de Paulo.
Árvores dos dois lados.
E, entre eles, alguns metros de chão aberto.
Paulo apertou os olhos.
Jiā ajustou a postura.
Então ela avançou.
Jiā partiu para cima dele em uma velocidade fora do normal.
Paulo mal teve tempo de reagir.
Bateu o pé contra o chão.
A terra tremeu.
Uma parede de solo ergueu-se ao seu redor, fechando-o dentro de uma pequena barreira.
Jiā não diminuiu.
A lâmina de sangue em sua mão se alongou.
CRAAASH!
O golpe abriu uma enorme rachadura na parede.
Outro golpe.
A defesa se partiu.
Paulo saiu pelo lado no instante em que os pedaços de terra desabaram.
Jiā já estava atrás dele.
Paulo girou e ergueu a escopeta.
BOOM!
As balas de borracha atingiram seu tórax.
Jiā foi arremessada vários metros para trás, atravessou um arbusto e caiu sobre a terra.
Ficou alguns segundos parada.
Então se levantou.
Olhou para o próprio peito.
Depois para Paulo.
— Tá ficando maluco?!
Paulo manteve a escopeta abaixada.
— São balas de borracha. Não precisa de tanto drama.
— Você atirou com uma escopeta no meu peito!
— E você atravessou uma parede de terra para tentar me acertar.
Jiā abriu a boca.
Pensou.
— Isso é diferente.
— Como?
— Não importa.
Paulo guardou a escopeta.
— A propósito, você é perigosa. Mas temos problemas piores espalhados pelo ambiente. Tipo o Klaus e o Jairo.
Jiā estreitou os olhos.
— Vai tentar fugir como um covarde?
— Prefiro chamar de retirada tática.
— Não vou deixar.
A lâmina de sangue cresceu novamente.
Dessa vez, transformou-se em uma lança.
Jiā arremessou.
Paulo desviou.
A lança passou por ele.
Então se fragmentou ainda no ar.
Centenas de pequenas lâminas de sangue cristalizado espalharam-se pelo espaço.
Paulo bateu o pé no chão.
A escuridão surgiu sob seus pés.
Seu corpo afundou nela.
As lâminas atingiram apenas árvores e terra.
Jiā ficou olhando para o ponto onde ele havia desaparecido.
— Ele fugiu mesmo...
Ela respirou fundo.
— Provavelmente ele ainda não conhece o ambiente. Se conhecesse, já teria usado aquela técnica para chegar ao ponto de extração.
Jiā lambeu o lábio inferior.
Um sorriso surgiu.
— Na próxima, eu corto os pés dele.
E desapareceu entre as árvores.
---
Oeste
A alguns metros dali, Klaus e Kimiko continuavam lutando.
Klaus bloqueou uma garra com a lateral da lâmina.
Kimiko girou o corpo e acertou um golpe no abdômen.
Klaus recuou.
Sua sombra imediatamente se espalhou pelo chão.
Kimiko saltou.
Uma lâmina negra surgiu exatamente onde ela estava.
— Você está começando a prever meus ataques — disse Klaus.
Kimiko pousou.
— Você também.
Ela avançou novamente.
Os dois se chocaram.
Garras contra metal.
CLANG!
Klaus tentou atingir o ombro dela.
Kimiko desviou e segurou seu braço.
Por um instante, ficaram presos um ao outro.
Kimiko mostrou os dentes.
— Posso continuar o dia inteiro.
Klaus empurrou-a.
— Eu também.
Um estrondo ecoou pela floresta.
BOOM!
Os dois pararam.
Outro som veio alguns segundos depois.
Um disparo.
TCHAK!
Klaus virou o rosto na direção do barulho.
Kimiko fez o mesmo.
Nenhum dos dois disse nada.
Aquele som não parecia uma das armadilhas de Igor.
Klaus abaixou lentamente a lâmina.
— Isso não veio daqui.
Kimiko desfez parcialmente a transformação.
— Jairo?
— Talvez.
Outro estrondo.
Mais distante.
Kimiko olhou para Klaus.
— Depois terminamos.
Klaus guardou a lâmina na sombra.
— Depois.
Os dois começaram a correr na direção do som.
---
Sul
Jairo finalmente conseguiu sair do pântano.
Estava coberto de lama até a cintura.
A máscara de gás permanecia intacta.
Ele olhou para a própria roupa.
— Excelente.
Deu dois passos.
Uma pequena criatura saiu correndo da vegetação.
Jairo ergueu a shashka imediatamente.
A criatura desapareceu entre as árvores.
Ele baixou a arma.
— Eu odeio essa floresta.
Continuou andando.
Então ouviu um som.
TCHAK!
Jairo parou.
Outro.
TCHAK!
Olhou para a direção dos disparos.
— Não fui eu.
Seguiu o barulho.
---
Região rochosa
William também havia ouvido.
Ele estava sentado atrás de uma formação rochosa, analisando um pequeno recipiente que encontrara entre as armadilhas.
— Isso é interessante.
Uma sombra surgiu atrás dele.
William virou rapidamente.
Jairo estava parado do outro lado da pedra.
Os dois se encararam.
— Você também encontrou isso? — perguntou William.
Jairo olhou para o recipiente.
— Encontrei.
William ergueu o objeto.
— Parece que Igor colocou algumas substâncias espalhadas pela floresta.
— E?
— E algumas delas reagem quando misturadas.
Jairo ficou em silêncio.
— Você está pensando no que eu estou pensando?
William olhou para ele.
— Provavelmente.
Jairo guardou a shashka.
— Então vamos fazer isso.
Os dois seguiram juntos.
Nenhum deles mencionou o banheiro.
Nenhum precisava.
---
Base improvisada
Igor continuava diante dos monitores.
Renan observava a movimentação.
Klaus e Kimiko haviam mudado de direção.
Jairo e William estavam juntos.
Paulo havia desaparecido de um dos pontos de observação.
Jiā também havia deixado sua região.
Renan apontou para uma das telas.
— Está vendo?
— O quê?
— Eles começaram a cooperar.
Igor sorriu.
— Eu sabia que aconteceria.
— Você parecia preocupado há pouco.
— Eu estava fingindo.
Renan ficou alguns segundos olhando para ele.
— Você é péssimo comandante.
— Mas sou divertido.
— Isso não é uma qualidade militar.
— É uma qualidade importante na BERC.
Renan ia responder.
Um pequeno bip veio de um dos monitores.
Igor olhou de relance.
Uma das leituras havia oscilado.
Por menos de dois segundos, um ponto apareceu no mapa.
Então desapareceu.
Renan franziu a testa.
— Isso foi...
Igor apertou um botão.
A leitura já havia voltado ao normal.
— Provavelmente interferência.
— Você tem certeza?
Igor deu de ombros.
— Se for outra armadilha minha, eu esqueci dela.
Renan soltou um suspiro.
— Isso não me tranquiliza.
Igor voltou a olhar para as telas.
— Nem era para tranquilizar.
Alguns segundos se passaram.
Então um dos monitores apagou.
Igor parou.
O sorriso desapareceu.
Renan percebeu imediatamente.
— O que foi?
Igor não respondeu.
Olhou para a tela.
Um segundo monitor apagou.
Depois outro.
Renan se levantou.
— Alguma falha no sistema?
Igor balançou a cabeça.
— Não.
Ele pegou o controle.
Tentou acessar a câmera da região norte.
Nada.
Outra.
Nada.
— Qual sensor caiu? — perguntou Renan.
— Região norte.
Renan olhou para o mapa.
— Quem está lá?
Igor permaneceu em silêncio.
— Kimiko?
— Não sei.
— Então veja.
Igor tentou outra câmera.
Nada.
Outra.
Nada.
O mapa mostrava uma pequena área completamente sem sinal.
Renan se aproximou.
— Isso estava previsto no exercício?
Igor demorou alguns segundos para responder.
— Não.
O silêncio tomou conta da base.
Igor ficou imóvel diante dos monitores.
Renan observou seu rosto.
— Igor?
Nenhuma resposta.
Os dedos de Igor permaneciam sobre o controle, mas ele não apertava nenhum botão.
Pela primeira vez naquela manhã, não havia piada.
Não havia sorriso.
Nem comentário sobre o exercício.
Então um dos monitores voltou.
Por menos de um segundo.
Uma imagem apareceu.
Árvores.
Folhas.
Uma parte do chão.
A câmera tremeu.
A imagem avançou alguns centímetros.
E, entre duas árvores, uma silhueta atravessou o enquadramento.
Devagar.
Sem correr.
Sem tentar se esconder.
Igor se inclinou para frente.
A transmissão caiu novamente.
Renan olhou para ele.
— Quem é?
Igor permaneceu encarando a tela apagada.
— Não faço ideia.
Renan pegou imediatamente o comunicador.
— Vou chamar os agentes.
Igor finalmente levantou os olhos.
— Traga todos de volta.
Renan apertou o botão.
— E o exercício?
Igor ficou alguns segundos em silêncio.
Então tirou o headset.
O jogo continuava aberto no notebook.
Ele nem olhou para ele.
— Acabou.
Renan transmitiu pelo comunicador.
— BERC para todas as unidades. Exercício encerrado. Recolham-se à base imediatamente.
---
Floresta
Klaus parou no meio da corrida.
O comunicador chiou.
— BERC para todas as unidades. Exercício encerrado. Recolham-se à base imediatamente.
Kimiko também havia recebido a mensagem.
Ela olhou para Klaus.
— Você ouviu?
— Ouvi.
— Alguma ideia do que aconteceu?
Klaus olhou na direção do estrondo que haviam seguido.
— Não.
O comunicador chiou novamente.
A voz de Igor veio diretamente no canal.
— Não tentem continuar o exercício. Voltem para a base.
Klaus estreitou os olhos.
— Igor?
— Apenas voltem.
A transmissão foi encerrada.
Kimiko ficou em silêncio por alguns segundos.
— Isso não é boa coisa.
Klaus olhou para a floresta.
— Não.
Os dois mudaram de direção.
Dessa vez, correram para a base.
Em outros pontos da floresta, os demais agentes também começaram a retornar.
Paulo emergiu de uma sombra.
Jiā interrompeu seu avanço.
Jairo e William deixaram de seguir as pistas das armadilhas.
Nenhum deles sabia exatamente o que havia acontecido.
Mas todos entenderam uma coisa:
O exercício tinha acabado.
---
A alguns quilômetros dali, entre as árvores, uma figura caminhava lentamente.
Sem pressa.
Sem se esconder.
Como se conhecesse perfeitamente o caminho.
Em uma das mãos, carregava um pequeno objeto escuro.
A figura parou.
Ergueu os olhos na direção da base.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel.
Então continuou caminhando.
Direto para lá.
Não parecia perdida.
Não parecia estar procurando o caminho.
Parecia saber exatamente onde queria chegar.
E, pela primeira vez, aquela figura olhou para o comunicador preso ao próprio pulso.
Um pequeno indicador havia acabado de acender.
A voz de Igor ainda podia ser ouvida, distante, através da transmissão interceptada.
A figura continuou andando.
O treinamento havia acabado.
O problema real estava apenas começando.