
O roncado metálico do motor da voadeira cortava o silêncio do igarapé, espalhando marolas na água escura enquanto Seu Moacir manobrava o barco com a perícia de quem conhecia cada curva e banco de areia daquele rio. A brisa úmida trazia o cheiro de mato e água parada, misturando-se ao movimento constante do canal: barcas carregadas de produtos, balsas lentas e pequenos barcos de turistas que transitavam pelas margens naquele horário.
João ia na proa, encostado na borda de alumínio com a jaqueta de couro aberta contra o calor abafado. Observando o fluxo de embarcações ao redor, ele tirou um cigarro do bolso e deu um sorriso seco.
— Engraçado ver esse vai e vem todo como se nada tivesse acontecendo — comentou João, acendendo o cigarro e soltando uma baforada de fumaça para o alto. — Quando o interesse dos donos do comércio local tá na reta, as autoridades fazem um trabalho impecável em esconder casos assim.
Seu Moacir soltou uma risada baixa e rouca no fundo da embarcação. Com uma das mãos firme no manche do motor, levou à boca o cigarro de palha que mantinha entre os dentes, tragando fundo antes de soltar a fumaça azulada no ar:
— Tu num tá errado não, Caçador. O dinheiro de fora fala bem mais alto do que o choro de quem perdeu parente na beira do rio. A ordem é fingir que o rio tá calmo.
O velho ajeitou o chapéu de palha, ajustando o rumo do barco, e olhou de canto de olho para João, com uma ponta de diversão no rosto calejado:
— Mas me diz uma coisa... tu num tem medo da garota ficar brava contigo por ter deixado ela pra trás não? Ela parece ter o pavio bem curto.
João soltou o ar pelo nariz numa risadinha amargurada e ajeitou a postura na proa:
— Ah, eu não tenho dúvida nenhuma sobre isso. Tenho certeza de que ela está esbravejando e jurando me matar uma hora dessas. Mas o tempo é nosso inimigo num caso como esse. Se a gente vacilar, essa coisa faz mais uma vítima antes da noite cair.
Ele cortou o assunto, estreitando os olhos para perscrutar a vegetação densa que margeava o igarapé logo à frente. A pouca distância, uma balsa grande e gasta, com a tinta descascada pelo sol e pela água, estava atracada de forma precária junto à margem, exatamente na entrada de uma trilha fechada que se embrenhava na mata fechada. João tirou o cigarro da boca e apontou com o queixo na direção da embarcação atracada.
— Ali, Seu Moacir. Vai até lá.
O velho manobrou a barca com agilidade até o mais próximo que podia da margem, Antes que pudesse dizer qualquer coisa, João saltou da embarcação em movimento e afundou até os joelhos na lama fria da margem, praguejando entredentes com o frio úmido e o cheiro denso de lodo acumulado. Alguns turistas que desciam pela prancha da balsa gesticularam com espanto ao verem o sujeito de jaqueta de couro e botas atoladas, mas logo voltaram a atenção para a trilha.
Seu Moacir manteve o motor da voadeira em marcha lenta. João virou-se para trás e disse baixinho, na direção do velho:
— Seu Moacir, pode ir andando. Isso aqui vai demorar e não é lugar seguro para ficar vacilando na margem do rio.
— Boa sorte, Caçador — respondeu Seu Moacir, ajeitando o chapéu de palha. Ele deu um aceno curto, acelerou o motor e a voadeira manobrou com maestria de volta ao canal principal, sumindo no horizonte da água escura do igarapé.
João caminhou com passos largos e pesados, puxando as pernas para fora do barro até alcançar o solo mais firme da margem. Perto da rampa de embarque, um homem com um chapéu de couro surrado gritava com os turistas, orientando o grupo a pisar com cuidado para não escorregar na lama que cobria as tábuas. Assim que notou João se aproximando com a barra da calça encharcada, o homem parou de falar e o encarou de cima a baixo, franzindo a testa:
— Opa, amigão. O que tu quer por aqui? Essa área é reservada para a travessia do passeio.
João abriu um sorriso descontraído.
— Fala, meu chefe! Rapaz, me dá uma luz. Eu estava doido para conhecer esse trecho da região, mas acabei perdendo o horário das barcas turísticas lá no porto principal. Como eu não queria perder o dia, paguei uns trocados para um pescador me trazer até essa trilha. Mas aí o homem viu essa balsa atracada, ficou com medo do movimento e me largou aqui na beira antes de ir embora correndo.
O homem do chapéu de couro ajustou a aba da cobertura, desconfiado:
— É... mas para pisar na balsa e pegar o acesso da trilha, só entra quem paga. O bilhete do passeio é vendido lá na orla.
João deu uma batida rápida nos bolsos da jaqueta, abrindo uma expressão de puro espanto encenado:
— Poxa vida... Não me diga uma coisa dessas! Eu devo ter esquecido a carteira no escritório do doutor Augusto quando fui fechar umas documentações com ele mais cedo!
Ao ouvir o nome do doutor Augusto, o homem arregalou os olhos instantaneamente. A postura rígida do encarregado desmoronou na hora. Ele pigarreou, ajeitou a postura e deu um passo para o lado, dando passagem aberta:
— Ah... Doutor Augusto? Poxa, o senhor devia ter dito logo! Pode passar, meu patrão. Fique à vontade, a casa é sua, digo, a mata… O senhor entendeu.
João deu um sorriso satisfeito com a própria lábia, ajeitando seu revólver no coldre oculto sob o casaco enquanto subia na rampa. Ele olhou para o fluxo de pessoas que ainda descia da embarcação e perguntou:
— E aí, como é que funciona essa trilha? Vai algum guia acompanhando esse pessoal todo aí?
— Que nada — o homem respondeu, balançando a mão com desdém. — Essa trilha aqui é pequena, bem batida e super segura. A trilha vai poucos metros pra dentro da mata até uma clareira onde o pessoal alimenta uns macacos. Eu nem preciso ir atrás do grupo, os mosquitos que atacam no por só sol trazem eles de volta.
João deu meio passo para a frente, inclinando o corpo e baixando o tom de voz para um sussurro conspiratório:
— Sei... Mas e as lendas que o povo anda comentando pela orla? O papo de que tem coisa estranha rondando essa mata?
O homem do chapéu de couro soltou um riso curto e debochado, abanando a mão no ar:
— Ah, larga de bobagem! Isso aí é tudo história de pescador pra espantar concorrência e assustar turista bobo. Pode ir tranquilo que não tem nada nessa floresta, não.
— Imaginei. — João estendeu a mão para o homem. — Então, essa trilha tem fim na cidade, senhor…
— Valter Oliveira. — O homem apertou a mão de João com veemência. — Não, termina não, e viagem de ida e volta.
João respondeu com um aceno rápido de cabeça e, sem perder tempo, enfiou-se no meio do pequeno grupo de turistas que avançava em fila indiana pela trilha de terra batida. O caminho se adentrava na mata, onde a copa alta das árvores bloqueava grande parte da luz do sol, deixando o ar abafado e o ambiente imerso em uma penumbra esverdeada. João ajustou o caminhar, mantendo-se propositalmente alguns passos atrás dos outros. Enquanto o grupo conversava animadamente, ele apurou os ouvidos, filtrando o barulho dos passos e o zumbido dos insetos em busca de qualquer ruído fora de lugar na vegetação densa.
Aproveitando o ritmo lento da caminhada, João emparelhou por alguns instantes com um homem que ostentava um boné de marca e uma câmera fotográfica profissional pendurada no pescoço.
— Lugar bonito, né? — puxou João, com um tom descontraído. — Bastante vegetação por aqui.
— Bonito demais! A luz entrando pelas frestas das árvores é sensacional para fotografar — respondeu o homem, entusiasmado, ajustando o foco da lente sem parar de andar.
Ao lado dele, no entanto, a esposa não parecia compartilhar do mesmo entusiasmo. Com o rosto franzido e uma expressão de absoluto mau humor, ela estapeava os próprios braços e o pescoço a cada três segundos, tentando espantar os pernilongos que pairavam em nuvens ao redor do grupo.
— Bonito vai ser quando a gente voltar para o hotel e eu tomar outro banho de repelente — resmungou a mulher, dando mais um tapa ruidoso na própria bochecha. — Eu falei para você que essa ideia de trilha na mata fechada era furada, mas você não me ouve!
João deu um risinho simpático de canto de boca e diminuiu o passo, deixando que o casal avançasse um pouco. Dali, ele tinha uma visão privilegiada de cada pessoa no grupo. O homem do boné era uma presa perfeita para esse tipo de monstro. A cada dois metros, ele parava de andar, agachava-se ou se inclinava para fora do caminho principal para tirar foto de tudo o que via pela frente: o cogumelo nascendo em um tronco podre, uma orquídea silvestre, ou o reflexo da água acumulada nas folhas.
— Haroldo, pelo amor de Deus, anda logo! — a esposa gritava, virando-se para trás e puxando-o pelo pano da camisa para arrastá-lo de volta para junto das outras pessoas. — Você vai se perder desse jeito, para de palhaçada!
— Calma, amor, é só mais um take rápido! Olha a textura dessa casca de árvore! — protestava o sujeito, tirando a mão da mulher e dando mais dois passos para dentro da vegetação sombria antes de disparar o obturador da câmera.
João observava a cena em silêncio, de mãos nos bolsos e olhos atentos. O barulho do clique contínuo da máquina cortava o ar, mas, lá no fundo da mata, entre o farfalhar das folhas secas e o canto dos pássaros,
Um pouco à frente do casal com a câmera, um grupo de três amigos jovens andava aos tropeços entre risadas altas. Eles trocavam empurrões brincalhões na lama, gravando vídeos curtos com o celular e zombando uns dos outros a cada escorregão. Logo atrás deles caminhava um sujeito obstinado, vestindo roupas técnicas de aventura, carregando uma mochila cargueira absurdamente pesada para uma caminhada curta e empunhando uma bengala de alpinismo, cravando a ponta metálica na terra úmida a cada passo firme, como se estivesse escalando uma montanha e não uma trilha batida na baixada do igarapé.
E, flutuando entre os dois ritmos, estava uma jovem de top e calça de ginástica, segurando um suporte com iluminação acoplada ao celular.
— Gente, a trilha é um espetáculo, a natureza é surreal, mas assim... zero sinal de internet! — a garota protestava para a tela do aparelho, bufando com o rosto franzido em uma careta dramática. — Vou ter que esperar até voltar para o hotel para postar meus vídeos! Isso é um absurdo absoluto, juro!
João soltou um suspiro imperceptível e continuou andando. Mas, de repente, ele parou no meio do caminho, sentindo uma sensação de que algo estava errado. A sinfonia contínua da floresta — o zumbido ensurdecedor das cigarras, o coaxar dos sapos, o chilrear dos pássaros nas copas altas e até o farfalhar das folhas com o vento — cortou abruptamente. Em questão de dois segundos, um silêncio pesado e sufocante caiu sobre a mata.
Antes que João pudesse voltar a andar em direção ao grupo, uma figura surgiu ao seu lado. A blogueira, percebendo que o sujeito de jaqueta de couro e olhar sério havia ficado para trás, aproveitou para se aproximar. Ela jogou o cabelo para o lado, exibindo um sorriso ensaiado enquanto inclinava o corpo na direção dele:
— Nossa... Você tá tão quieto aí no fundo — disse ela, mantendo a voz aveludada e um brilho provocativo nos olhos. — Tá fazendo o estilo misterioso ou só tá me acompanhando de longe? Me diz uma coisa, você acha que a iluminação aqui tá valorizando meu rosto ou fico melhor lá na clareira?
João nem sequer olhou nos olhos dela. Sua atenção continuava fixa na penumbra entre os galhos grossos da sumaúma a alguns metros de distância.
— Tanto faz.
A garota piscou, surpresa com a grosseria, mas tentou rir, achando que era apenas charminho:
— Apenas 'tanto faz'? Poxa, que simpático! Qual é o seu nome, hein? Não vai nem me dar uma mãozinha se eu acidentalmente tropeçar nessa lama?
— Não sou guia — João respondeu, a voz num tom baixo e estéril, sem mover um único músculo do rosto. Ele deu um passo para o lado, desvencilhando-se da aproximação dela de forma direta. — Anda mais rápido pra alcançar o grupo. Agora.
A garota fechou a cara na hora, indignada com o fora seco.
— Que cara grosso! Estúpido! — resmungou ela, batendo o pé e acelerando o passo para voltar para perto do grupo.
João não se importou. Levou a mão discretamente para o interior da jaqueta de couro, onde o cabo de sua arma descansava, e apurou os ouvidos. A mata continuava em um silêncio sepulcral. João voltou a caminhar, mas ao erguer os olhos para mapear o grupo novamente, um nó se apertou em seu estômago. Bastaram poucos segundos de distração para o grupo se pulverizar completamente na mata.
O sujeito da mochila cargueira e bengala de alpinismo ia lá na frente, num ritmo acelerado e egoísta, abrindo uma distância perigosa do resto do pessoal. À esquerda, longe da segurança da rota batida, os três jovens haviam se enfurnado entre as árvores baixas; um deles curvava as costas e balançava os braços imitando um gorila, enquanto os outros dois riam alto e gravavam a palhaçada.
E, no meio do caminho, parada e completamente sozinha, estava a esposa do fotógrafo.
— Merda... — praguejou João entre os dentes, a raiva fervendo no peito.
João varreu o perímetro com o olhar afiado, procurando por qualquer sinal da camisa do homem ou do reflexo da lente da câmera entre os troncos e folhagens, mas não viu nada. O fotógrafo tinha simplesmente evaporado da trilha. Apressando o passo com passadas largas e pesadas, João aproximou-se rapidamente da mulher. Ela estava de braços cruzados, bufando e dando tapas furiosos no próprio pescoço, com uma cara ainda pior do que antes.
— Cadê o seu marido? — perguntou João de estalo, sem rodeios, a voz grave e dura rompendo o silêncio pesado da floresta.
A mulher deu um pulo de susto, encarando João com irritação antes de soltar um estalo de língua desdenhoso e apontar com o queixo para um adensamento de vegetação fechada à direita:
— Aquele imbecil? Cismou de se enfiar no meio do mato fechado porque disse que ouviu o canto de um passarinho raro! — disparou ela, transbordando veneno e amargura. — Ficou lá para trás tirando foto de um bicho que eu tô pouco me fudendo para saber qual era! Falei para ele andar, mas parece que eu tô falando com uma árvore! Se ele se perder aí no meio, eu volto para o hotel sozinha!
João não esperou ela terminar de reclamar. Ele virou a cabeça exatamente para a direção que ela apontara, encarando a mancha de sombra densa sob a copa de uma árvore gigantesca.
Nenhum passarinho cantava naquela mata desde que o silêncio caíra.

O sol das três da tarde castigava impiedosamente enquanto Victória e Iara caminhavam para a fronteira da cidade com a mata fechada, exatamente onde o asfalto cedia lugar à lama e a civilização encontrava a floresta em sua vastidão. O calor sufocante e a umidade faziam as roupas de Victória grudarem no corpo.
— Como alguém consegue viver nesse forno? — Victória reclamou, bufando enquanto tentava afastar o suor da testa. — Eu tô derretendo aqui, e você não derrama nem uma gota de suor, sua esquisita.
— Se você gastasse menos saliva reclamando e mais fôlego andando, a gente já tinha chegado — rebateu a jovem, sem nem olhar para trás. — A culpa não é minha se o seu veterano deixou a donzela pra trás.
— Dobre a língua quando for falar do João! Ele com certeza deve estar querendo acelerar a investigação, só isso.
Iara riu e acelerou o passo, e Victória bufou, deixando a mais nova ir na frente. Após mais alguns passos silenciosos e tensos, o cenário mudou. Elas chegaram a um local que destoava completamente das construções tradicionais da cidade e do movimento dos mercadinhos e hotéis. Era um barracão rústico de palha e madeira cravado nas margens de um igarapé isolado. Grandes folhas de coqueiro serviam improvisadamente como porta e, por um buraco no teto, saía uma fumaça contínua, formada pela fumaça de ervas medicinais e defumadores. O forte aroma de fumo de rolo, guiné e terra molhada impregnava o ar, anunciando o terreiro antes mesmo que elas chegassem perto da entrada.
Victória respirou fundo, absorvendo o ambiente, e ajustou a alça de sua espingarda no ombro, preparando-se para atravessar as folhas de coqueiro. Iara afastou as pesadas folhas de coqueiro e entrou primeiro, com Victória em seu encalço. Ao cruzar a soleira, a Caçadora sentiu como se tivesse pisado em outro mundo. O ambiente interno da maloca era amplo e acolhedor, tomado por um aroma denso de fumo de rolo, resina e ervas secas. Paredes de madeira sustentavam instrumentos musicais tradicionais pendurados, cocares de penas coloridas e um altar adornado com estátuas de guerreiros e guerreiras de pele bronzeada, enfeitados com colares de sementes e miçangas.
Bem no centro da estrutura, uma fogueira crepitava suavemente, fazendo sombras sinuosas dançarem pelas paredes de palha. Em um canto mais escuro, um homem usando uma regata branca encardida e calças marrons macerava ritmicamente algo dentro de um pesado pilão de madeira. Iara deu alguns passos, dobrou os joelhos e se ajoelhou com respeito no chão de terra batida.
— Sua bênção e licença para entrar, Pai Raoni — pediu a jovem, baixando a cabeça.
O homem interrompeu a batida do pilão. Ele ergueu o rosto marcado pelo tempo e fez um gesto sereno com a mão.
— Que a Jurema e os Caboclos cubram seus passos, minha filha. Podem entrar — respondeu ele, com uma voz grave, profunda e rouca que parecia ressoar do próprio chão.
Victória avançou, mantendo a postura rígida e ereta. Ela pigarreou e o cumprimentou de forma mecânica, tentando transparecer a mesma autoridade:
— Sou Victória, Caçadora profissional da Associação — apresentou-se, ajustando a alça do equipamento no ombro. — Preciso fazer algumas perguntas ao senhor.
Pai Raoni a observou em silêncio por alguns longos segundos, medindo a jovem de cima a baixo. Sem dizer uma palavra imediata, ele mergulhou a mão no pilão e pegou um punhado generoso de um pó vermelho-escuro.
— Você veio por causa das mortes que ocorreram nos últimos tempos na beira do rio, não é? — perguntou o ancião, fixando os olhos escuros em Victória.
— Confirmado — respondeu Victória, erguendo o queixo e sustentando a postura firme e altiva.
Pai Raoni soltou um longo suspiro pelas narinas e caminhou devagar até a fogueira central. Com um movimento calmo, jogou o pó vermelho direto nas chamas. O fogo estalou alto, e uma fumaça densa e incrivelmente ardida espalhou-se instantaneamente pelo ar. Victória tentou manter a pose de durona, trancando a respiração para não demonstrar fraqueza. Contudo, o ardor impregnou suas narinas e rasgou sua garganta; no segundo seguinte, ela não aguentou e irrompeu em uma crise de tosse involuntária, cobrindo o nariz e a boca com a manga da jaqueta. Ao lado, Iara soltou uma risadinha debochada. Victória imediatamente disparou um olhar fuzilante na direção da garota, com os olhos lacrimejando pelo vapor de ervas.
Impassível, Pai Raoni virou-se para o altar. Enquanto pegava um cachimbo de madeira e um pote com fumo preparado, indicou um banco baixo perto do fogo.
— Sente-se, Caçadora — pediu ele.
Iara deu um passo à frente, tencionando se acomodar ao lado de Victória para acompanhar a conversa, mas Raoni parou o que estava fazendo e olhou para a jovem.
— Deixe-nos a sós, minha filha — pediu o ancião, com paciência na voz.
— Mas, pai... — Iara protestou, usando aquele tom manhoso e defensivo típico de filha.
Pai Raoni, entretanto, sustentou um olhar firme e autoritário, sem alterar a feição. A autoridade do líder espiritual do terreiro era inquestionável. Iara soltou um suspiro frustrado, cedendo à ordem. Ela curvou-se em sinal de respeito ao pai e às entidades do recinto e afastou as folhas de coqueiro, saindo da maloca e deixando Victória a sós com o dirigente daquele lugar.
Raoni acomodou-se lentamente no chão de terra batida, em frente à fogueira, que agora se interpunha entre ele e Victória. A fumaça ardida já havia se dissipado o suficiente para que a Victória pudesse finalmente afastar a mão do nariz, embora seus olhos ainda estivessem levemente lacrimejantes e avermelhados.
Enquanto o ancião começava a preparar seu cachimbo de madeira com uma paciência monumental, Victória se remexia inquieta no assento. Ela batia os dedos ritmicamente sobre as pernas, corria os olhos pela maloca observando os instrumentos e imagens do altar, e pigarreava na tentativa impaciente de puxar assunto, mas Raoni parecia completamente alheio ao seu nervosismo. Com movimentos calmos e pausados, ele levou o cachimbo à boca, inclinou o corpo para a frente, pegou um fino galho em brasa na fogueira e o usou para acender o fumo.

Depois de soltar uma longa e relaxante tragada, observando a fumaça subir em espirais em direção ao buraco no teto, ele comentou:
— O antigo padre da cidade costumava ajudar bastante este terreiro.
Victória se remexeu no banco, ajeitando o corpo e dizendo com cautela:
— Com todo o respeito, Pai Raoni... mas não é bem sobre isso que eu preciso saber agora.
Raoni ignorou o comentário e continuou, mantendo o olhar fixo no fogo:
— Padre José era um grande amigo meu. Um verdadeiro homem de fé.
Ele levou o cachimbo à boca e tragou novamente. Quando Victória abriu a boca para insistir na investigação das mortes no rio, o ancião a cortou antes que ela dissesse uma única palavra:
— Com certeza, ele está hoje no céu de que tanto falava e com o qual tanto sonhava.
Victória travou no lugar. A postura firme que ela tentava sustentar fraquejou. Ela baixou o olhar para o chão de terra batida e murmurou num tom mais brando:
— Meus pêsames...
Raoni deu mais uma tragada serena e retrucou sem qualquer amargor na voz:
— Não há por que lamentar, minha filha. O fim da jornada é o mesmo para todos nós. Padre José lutou a boa batalha e, agora, descansa na companhia de seu Deus.
O silêncio reinou na maloca por alguns instantes pesados, quebrado apenas pelo estalar suave da lenha na fogueira e pelas baforadas lentas e ritmadas do cachimbo de Raoni. Victória respirou fundo, ajustou a postura e tentou recuperar o aprumo profissional de Caçadora.
— O Padre José tinha algum envolvimento direto com este caso ou com as mortes?
Pai Raoni soltou mais uma espiral de fumaça, respondendo com sua voz grave, paciente e firme:
— Tenho certeza que não.
Victória franziu o cenho, a impaciência transparecendo no olhar. — Então me diga de uma vez: o que o senhor sabe sobre as mortes que estão acontecendo na mata?
— Toda a ajuda financeira que Padre José nos dava era inteiramente revertida para manter os nossos assentamentos e firmezas espirituais ao redor da cidade, principalmente nas trilhas que levam os turistas para dentro da mata. Também usávamos o recurso para comprar ervas medicinais, sementes e as oferendas necessárias para manter a proteção do nosso povo.
— Com todo o respeito, Pai Raoni, mas eu não estou entendendo onde o senhor quer chegar com tudo isso.
Pai Raoni parou o cachimbo no ar e encarou Victória fixamente, seus olhos escuros refletindo as chamas da fogueira central.
— O que quero dizer, Caçadora, é que logo após a morte do Padre José e a chegada do novo pároco na igreja, esses mesmos assentamentos de proteção foram vandalizados e depredados por fiéis à paróquia. E eu tenho testemunhas que viram os marcos serem destruídos.
O homem fez uma pausa, deu mais uma tragada profunda e contemplativa em seu cachimbo antes de prosseguir:
— Para completar, o novo pároco, Padre Antônio, culpa abertamente o nosso terreiro e os nossos rituais por atrair essas desgraças para a cidade.
Victória ficou em silêncio. Ela abriu a boca para dizer algo, para questionar o papel da igreja ou tentar defender a lógica da investigação, mas foi cortada imediatamente pela voz imponente do ancião:
— Meu filho, Jurandir, não suportou ver a proteção da nossa terra ruir. Sem a minha permissão, ele se embrenhou sozinho na floresta para refazer um dos assentamentos destruídos. Jurandir tinha todo o preparo e a capacidade para realizar os rituais, mas cometeu o erro da imprudência. E essa imprudência fez com que as criatura o atacasse e tirasse sua vida.
Victória franziu o cenho.
— Que criatura?
Pela primeira vez desde o início da conversa, a serenidade de Raoni pareceu vacilar. Ele apertou o cachimbo entre os dedos e fitou as chamas da fogueira.
— Aqueles malditos Abuhukkus.