O ar na mata parecia estagnado. João chegou a fechar os olhos por um instante na tentativa de ouvir algum barulho diferente, mas nada. Sua adrenalina começava a subir, ao ponto dele sentir o coração saltando no peito. Ele pensou um pouco no que deveria fazer, praguejando internamente por não ter simplesmente obrigado todo mundo a entrar de volta na balsa.
— O que foi, Lisa? — A voz grudenta e irritante da blogueira se fez presente, enquanto ela fincava os pés ao lado da esposa do fotógrafo; — Esse babaca está te incomodando?
— O quê? Não — respondeu Lisa, estapeando o próprio ombro para matar um mosquito. — Ele só me perguntou onde estava o Haroldo e—
Um grito rompeu o silêncio da mata como um trovão. Era o pedido de ajuda de um homem, que ecoou pelas copas das árvores, fazendo pássaros voarem dos galhos das árvores. Todos prenderam a respiração. Até os rapazes pararam com as gracinhas, com os braços arrepiados. Instintivamente, João levou a mão ao cabo do revólver dentro do casaco e se virou para o lado que o som viera.
— Haroldo!
Sem pensar duas vezes, ela fez menção de se arremessar no meio da vegetação fechada em direção à origem do som, mas o braço de João se projetou a frente dela como uma barra de ferro, segurando-a firmemente no lugar, sem tirar os olhos da mata.
— Me solta! Você tá louco?! — a mulher gritou, e ao tentar passar por debaixo do braço de João, ele agarrou o braço dela com força. — É o Haroldo! É o meu marido! Me solta, seu desgraçado!
— Silêncio. — João ordenou, a voz num tom terrivelmente calmo e baixo. Ele nem sequer olhou para ela; mantinha a cabeça levemente inclinada, os olhos fixos na penumbra densa entre os troncos. — Escuta com mais atenção.
A mulher parou de se debater por um segundo, ofegante. O grito ecoou pela segunda vez entre as árvores. Era alto, estridente, um pedido desesperado de socorro. Os rapazes voltaram correndo, perguntado que diabos era aquilo. João os ignorou e encarou a mulher:
— Tem certeza absoluta que essa é a voz do seu marido?
A mulher hesitou por um momento. Ela acreditava que aquela era a voz de Haroldo, mas uma sensação desconfortável tomou conta do seu raciocínio, sua garganta travou. Um terceiro grito ressoou, ainda mais forte e imperioso, vindo exatamente do mesmo ponto na mata fechada. O pânico cego falou mais alto que a dúvida. A mulher engoliu em seco e assentiu com a cabeça, em choque:
— É... é a voz dele! É ele, eu tenho certeza!
João não perdeu mais nenhum segundo.
— TODO MUNDO AQUI! AGORA! — o berro de João cortou a clareira como uma chicotada.
A blogueira e os três jovens encolheram os ombros com a autoridade repentina que o homem assumiu, acatando as ordens dele imediatamente. No entanto, lá na frente, o homem da mochila de alpinismo nem sequer diminuiu o passo. Ele apenas olhou por cima do ombro, ajeitando as alças do equipamento pesado e soltando um estalo de língua irritado:
— Ficou maluco, cara? — Falou um dos rapazes, de frente para João. — Tem um cara precisando de ajuda lá atrás e você tá aí gritando que nem um doido? Se você não faz nada, eu—
Antes que ele pudesse terminar a frase, João sacou seu revólver de grosso calibre. Sem hesitar um milésimo de segundo, apontou o cano para cima e puxou o gatilho.
BANG!

O estampido ensurdecedor da arma de fogo ribombou pela mata fechada, ecoando como um trovão entre as copas das árvores. Folhas secas e pequenos galhos caíram sobre o grupo. Os turistas soltaram um grito em coro, encolhendo-se e cobrindo os ouvidos em absoluto terror. Lá na frente, o homem da mochila travou no lugar como se tivesse sido atingido por um raio. Ele virou-se devagar, com os olhos arregalados de puro espanto, encarando a fumaça sutil que saía da boca do cano na mão de João.
João baixou a arma ligeiramente, mantendo a postura firme e os olhos cravados no sujeito:
— Volta aqui. Agora — a voz de João veio num tom baixo, sem alteração de tom, mas carregada de uma autoridade inquestionável. — Todo mundo colado. Menos de dois passos de distância um do outro. Se alguém der mais um passo pra longe do grupo, o próximo tiro não vai ser pro alto.
O alpinista engoliu em seco, pálido como um cadáver. Sem ousar dar um piado, ele deu meia-volta imediatamente e caminhou a passos rápidos até o resto do grupo, colando-se aos outros turistas traumatizados, que agora tremiam como folhas ao redor do Caçador.
A cabeça de João virou um turbilhão em fração de segundos, travada em um dilema mortal. Deixar o grupo sozinho na trilha significava entregar seis civis indefesos de bandeja caso a criatura decidisse flanquear a trilha e atacar. Mas deixar o fotógrafo para trás significava condená-lo a morte. Ele olhou para o revólver pesado em sua mão, sentindo o metal frio contra a pele, e tomou sua decisão.
— Mantenham os olhos bem abertos na mata — ordenou João, a voz firme e cortante como uma lâmina. — Qualquer folha se mexendo, qualquer sombra fora do lugar... avisem os outros na hora. Entenderam?
Ele varreu os rostos apavorados e fez a pergunta de forma direta:
— Algum de vocês sabe operar uma arma de fogo?
O silêncio do pavor caiu sobre o grupo. O alpinista encolheu os ombros, a blogueira tremeu e a mulher do fotógrafo continuava em choque. Finalmente, um dos três jovens que antes brincavam na lama deu um passo hesitante à frente, gaguejando:
— E-eu... eu já joguei airsoft... umas duas vezes.
João revirou os olhos com um suspiro. Sem perder mais tempo, agarrou o pulso do garoto com força e bateu a armação pesada de aço do revólver na palmada da mão dele. Posicionou os dedos trêmulos do rapaz ao redor do cabo de madeira e guiou o indicador direito diretamente para o protetor do gatilho.
— Presta atenção, moleque — disse João, encarando o jovem no fundo dos olhos. — Ela tá engatilhada. Se qualquer coisa surgir do meio dessa vegetação que não pareça humana... aperta esse gatilho e só solta quando parar de sair fogo do cano.
O pavor instaurou-se de vez no pequeno grupo. A blogueira cobriu a boca, soltando um grito abafado, e o alpinista deu um passo para trás: — O que?! Como assim 'não parecer humana'?! O que diabo tá acontecendo aqui?! Que porra de lugar é esse?!
João não se deu ao trabalho de responder. Ignorando o desespero e as perguntas sobrepostas dos civis, ele levou a mão às costas, por baixo da jaqueta de couro, e sacou uma pesada faca de caça. O aço escuro da lâmina refletia a pouca luz que filtrava pelas copas das árvores.
— Fiquem juntos — reforçou João, a voz ecoando como uma ordem absoluta antes que virasse as costas. — Sigam devagar até a clareira e não deem um único passo pra fora dessa trilha. Eu já volto.
Sem esperar por concordância ou mais gritos, João girou sobre os calcanhares e arremessou-se contra a parede verde de folhagem fechada, sumindo na escuridão da mata na direção de onde os gritos continuavam a ressoar.

Victória engoliu em seco. O nome incomum ressoou na maloca como um eco desconfortável; ela repassou rapidamente na memória os manuais e relatórios da Associação que haviam passado por suas mãos, mas nunca tinha lido nenhuma linha sobre aquilo.
— Abuhukku? — perguntou ela, vacilando por um instante na postura séria que tentava sustentar. — Eu... nunca ouvi falar de nada com esse nome. O que exatamente são eles?
Pai Raoni soltou um suspiro pesado. Ele fez uma longa e calculada pausa, levando o cachimbo aos lábios para dar mais uma tragada lenta, recompondo aos poucos sua feição serena e solene. Quando a fumaça subiu em direção ao teto de palha, o pajé voltou a falar:
— Para o nosso povo e para os que vieram antes de nós, os Abuhukku são a própria personificação da doença, da peste e da praga. Criaturas da escuridão que carregam a podridão em sua carne e em seus atos.
O ancião inclinou o corpo para a frente, o brilho da fogueira refletindo em seus olhos escuros e profundos.
— Mas eles são, acima de tudo, seres covardes. Não têm a coragem dos grandes predadores da floresta. Eles agem na surdina, espreitando nas sombras da mata fechada para atacar apenas as pessoas que se perdem, os fracos, os isolados e os desavisados. Em tempos normais, eles jamais se aproximam de grupos de três ou mais pessoas, pois temem a força dos homens reunidos.
Victória ouvia em silêncio, a mente trabalhando rápido enquanto assimilava a descrição da criatura.
— Se eles são covardes e sempre evitaram a cidade — Victória interveio, franzindo o cenho —, o que mudou? Por que de repente um bando deles resolveu avançar sobre o perímetro urbano e matar as pessoas tão perto da cidade?
Pai Raoni balançou a cabeça de um lado para o outro, soltando um suspiro desaprovador enquanto a fumaça do cachimbo subia em direção ao teto.
— Você é muito desatenta aos detalhes, menina — comentou, a voz calma, mas cortante. Ele inclinou a cabeça ligeiramente, fixando os olhos escuros em Victória. — Me diga uma coisa: você é realmente uma Caçadora?
Victória vacilou. Sob o olhar penetrante e pesado do homem, a carcaça de durona e a postura inflada ruiu por completo. Ela engoliu em seco, encolhendo levemente os ombros no banco de madeira.
— Eu... ainda estou em treinamento — confessou ela, baixando o tom de voz antes de encarar o homem com sinceridade. — Por favor, Pai Raoni... continue. Eu preciso entender.
O ancião assentiu devagar, uma leve suavidade surgindo nas linhas de seu rosto marcado pelo tempo.
— Agora sim — disse Raoni, dando mais uma tragada pausada. — Agora você está agindo conforme o que é de verdade. A honestidade atrai a clareza.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, aproximando-se da fogueira, e recomeçou a explicação:
— Os Abuhukkus odeiam pimenta. Não suportam nem o cheiro da fruta queimada. Os nossos assentamentos ao redor da mata são um agrado à ancestralidade e aos espíritos da floresta, sim. Mas o que mantinha aquelas criaturas verdadeiramente afastadas da cidade eram as fogueiras que nós acendíamos de tempos em tempos, logo após fazermos a limpeza de cada marco de proteção. Nós deixávamos recipientes de barro com ervas e pimenta queimando em brasa viva nesses locais. A fumaça e o movimento de várias pessoas criava uma barreira invisível que as feras jamais ousavam cruzar.
Pai Raoni parou de falar por um instante, levando o cachimbo aos lábios e saboreando a fumaça de ervas enquanto o silêncio preenchia a maloca. Victória acompanhou o raciocínio em silêncio, juntando as peças rapidamente na mente. Os olhos dela se arregalaram levemente ao perceber a tragédia da situação.
— Então... a culpa é do Padre Antônio e dos fiéis dele?! — concluiu Victória, o tom indignado voltando à sua voz. — Eles destruíram os assentamentos, apagaram a fumaça que mantinha essas criaturas afastadas e abriram o caminho para elas entrarem!
Antes que ela pudesse continuar o desabafo, Raoni ergueu a mão e a interrompeu com firmeza autoritária:
— O inimigo não é o padre, minha filha. O inimigo é a fé cega.
O velho pajé olhou profundamente nos olhos de Victória, as brasas da fogueira refletindo no fundo de suas pupilas.
— — Quando a fé deixa de ouvir a razão, minha filha, qualquer coisa pode virar inimigo. E quando o medo começa a decidir por nós, são sempre os inocentes que pagam o preço.