Caelius Lucian Vandenberg, ou simplesmente Cael, nasceu em uma família nobre de pouca expressão.
Aos vinte e cinco anos, já havia aprendido uma verdade que ninguém precisou lhe ensinar: dentro da aristocracia, uma casa pequena e desprovida de influência como a sua não passava de uma família de plebeus que, por algum capricho do destino, recebera um título de nobreza.
Sua mãe morreu ao lhe dar à luz, um fardo que Cael carregou consigo por toda a vida, sobretudo pelo fato de seu pai culpá-lo por sua morte, ainda que jamais o dissesse diretamente.
Seu pai, por sua vez, em uma tentativa tola de provar seu valor à Coroa, marchou com as poucas forças que possuía para a guerra contra os homens-fera. Jamais retornou.
Suas façanhas, contudo, não passaram despercebidas. Em recompensa pelos atos de bravura do pai, o rei concedeu à família Vandenberg terras ao sul do reino: um pequeno vilarejo e as terras férteis que o cercavam, que constituíam o Baronato de Valverde. Com o domínio, veio também o título de Barão.
Com a morte do pai, o título naturalmente passou a Cael, que enxergou em tudo aquilo uma oportunidade de finalmente conquistar seu lugar no mundo — um passo de cada vez.
Reunindo as poucas economias que restavam à família, Cael partiu rumo às novas terras, acompanhado pelo fiel servo que havia servido aos Vandenberg por gerações.
Após uma semana de viagem e noites mal dormidas, finalmente avistou o vilarejo tomando forma ao longe, enquanto a velha carruagem avançava lentamente em direção àquela que seria sua nova casa.
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A carruagem avançou para além do vilarejo, seguindo uma estrada de pedras até chegar ao Solar Valverde, aquele que seria seu novo lar.
Atravessaram os portões e se depararam com uma casa de dois andares. Erguida sobre uma fundação de pedra, tinha paredes de madeira, portas maciças e um telhado de barro e palha. Embora abandonada pelo tempo, ainda conservava sua beleza.
Cael sentiu uma alegria inesperada ao vê-la. Pela primeira vez, sua família possuía um lugar que podia chamar de seu. Mas a sensação logo deu lugar à tristeza ao lembrar que tudo aquilo só fora possível graças à morte de seu pai.
Rígido e distante, ele jamais soube demonstrar afeto, mas Cael ainda o amava.
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— Chegamos, jovem Cael.
O fiel servo da família sorriu.
— Ou devo dizer... Barão de Valverde e Senhor da Casa Vandenberg, Lorde Caelius Lucian Vandenberg.

A felicidade no rosto enrugado de Bertrand era evidente enquanto abria a porta da carruagem para seu senhor. Assim como Cael, ele se alegrava ao ver que os Vandenberg finalmente recebiam o reconhecimento que mereciam.
Bertrand era um homem de estatura média e porte elegante, trajado em roupas bem cuidadas, típicas de um servo da nobreza. Já tendo passado dos sessenta anos, carregava no rosto e na pele as marcas de uma vida dedicada aos serviços prestados à família Vandenberg.
Tinha cabelos pálidos penteados para trás, um nariz fino e curvado e um delicado bigode, que cultivava com carinho desde que Cael se entendia por gente.
— Embora eu deva admitir que o título soa bem, prefiro que continuemos com nossa informalidade de sempre, ao menos quando estivermos a sós.
A pompa e a formalidade com que as famílias nobres costumavam ser tratadas nunca tiveram grande importância para Cael. Desde jovem, preferia manter uma relação mais amistosa e descontraída com seus subordinados e amigos.
— Como preferir, jovem Cael.
Levantando-se do assento interno da carruagem, Cael ficou de pé diante da entrada do solar, digerindo toda aquela mudança.
Cael era um homem alto e levemente atlético. Tinha olhos cor de céu, delicados e serenos, em contraste com os cabelos negros e ondulados que lhe caíam até o meio do pescoço.
Embora preferisse roupas simples e confortáveis, via-se obrigado a vestir trajes finos, condizentes com sua posição como nobre. À cintura, carregava sempre a pequena adaga que recebera do pai — um dos poucos presentes que lhe dera de boa vontade.
No pescoço, trazia um pingente prateado que pertencera à sua falecida mãe. Era a única lembrança dela que lhe restara.
— Uma bela casa, jovem Cael.
Bertrand já havia descarregado as poucas bagagens que trouxeram e estava no processo de levá-las até a porta.
Cael tomou uma das malas pesadas na mão direita e acompanhou o velho servo até a entrada.
— Precisa de alguns cuidados, mas é, sim, uma bela casa. Que os deuses tenham piedade da alma conturbada de meu pai... Mesmo em sua morte, ele me proveu uma dádiva como esta.
O servo assentiu, com pesar.
— A morte de sua mãe o feriu profundamente. Talvez ele nunca tenha aprendido a lidar com a própria dor... mas, no fundo, sempre amou o senhor, jovem mestre.
— Eu sei disso, Bertrand. Eu sei...
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Algumas horas se passaram enquanto Cael se situava no interior da casa e Bertrand cuidava dos trabalhos mais imediatos, como preparar os quartos e organizar os alimentos que trouxeram, na despensa da cozinha.
O jovem barão estava em seu novo escritório, organizando alguns de seus livros na prateleira, quando o elegante serviçal adentrou o cômodo, chamando sua atenção.
— Jovem mestre, há uma pequena comitiva vinda do vilarejo para lhe ver.
— Uma comitiva? Muito bem... Receba-os no salão principal.
O servo se curvou em entendimento e partiu para cumprir o que lhe fora dito.
Cael levou um minuto para garantir que estava apresentável. Não queria passar um ar de inexperiência, levando em consideração sua idade.
Tomou o pingente de sua mãe entre os dedos e, com uma breve prece por seu auxílio, deixou o escritório e rumou para o salão principal.
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O salão principal era uma longa e espaçosa sala, que se estendia desde a entrada da casa até os fundos da construção. Ao final, uma ampla porta conduzia a uma varanda de pedra, de onde se podia contemplar o jardim que começava a se formar adiante.
Logo após atravessar a porta de entrada, um lance de escadas conduzia ao andar superior. Ao centro do cômodo, encontrava-se uma longa mesa de reuniões, com assentos para até cinco pessoas de cada lado e mais uma em cada extremidade.
O ambiente era adornado pelo piso de madeira escura, pelos quadros antigos pendurados nas paredes e pelas lamparinas a óleo, cuja luz suave iluminava o cômodo e conferia um charme acolhedor àquele solar.
Os visitantes se curvaram de forma respeitosa ao verem Cael adentrar o salão. Com sutileza, ele indicou que se sentassem antes de percorrer os olhos pelas figuras à sua frente.

Na extremidade mais distante da mesa, estava sentado um velho senhor, já avançado em idade, mas ainda lúcido e vigoroso. A pele marcada pelo tempo, os cabelos ralos e a barba curta e desgrenhada denunciavam seus muitos anos.
Vestia uma longa túnica em tons terrosos e mantinha as mãos calejadas apoiadas sobre a mesa, enquanto acompanhava em silêncio a aproximação de Cael.
À sua esquerda, sentava-se uma jovem de pouco mais de vinte anos. Cabelos ruivos, presos em duas longas tranças, caíam sobre seus ombros, enquanto o corpo esbelto estava envolto em roupas simples, porém bem cuidadas: um vestido acompanhado por um colete e um par de botas já bastante gastas pelo uso.
Seus olhos grandes e expressivos possuíam o mesmo tom esverdeado dos do ancião. Cael não precisou de muito para perceber que os dois tinham algum parentesco.
Do lado oposto, por sua vez, uma verdadeira montanha de mulher permanecia recostada de maneira despretensiosa na cadeira.
Uma orc pura, pôde notar.
A pele verde-musgo destacava-se imediatamente, envolvendo um corpo robusto, de músculos bem definidos. Vestia uma simples camisa de linho manchada, esticada sobre um par de seios volumosos que pouco pareciam se importar com os limites da roupa.
Os cabelos negros e espessos desciam em ondas até o meio das costas, enquanto os olhos amarelos permaneciam fixos em Cael.
Havia algo quase predatório naquele olhar.
Como se, desde o momento em que ele entrara na sala, ela estivesse avaliando cada detalhe do novo barão — julgando-o até a última gota.
Cael se aproximou da extremidade oposta da mesa, onde Bertrand puxou a cadeira para que ele se sentasse.
Com um aceno de cabeça a Bertrand, voltou sua atenção aos visitantes do outro lado da sala.
— Sejam bem-vindos à minha residência. Meu nome é Caelius Lucian Vandenberg e fui nomeado pelo rei como o novo barão das terras de Valverde.
O homem de cabelos ralos limpou a garganta antes de começar:
— Agradecemos as boas-vindas, Lorde Vandenberg. É uma honra tê-lo entre nós. Meu nome é Eldric e fui escolhido para ser a voz entre o povo do vilarejo e o senhor, nosso lorde.
Com um gesto simples, indicou as mulheres:
— A jovem garota de cabelos ardentes é minha neta, Ariadne. Ela cuida, junto à família, do armazém local, onde ocorre a maior parte do comércio interno.
A jovem deu um sorriso recatado antes de se curvar levemente.
— Nossa companheira orc é Krusha Presa-Curta, a chefe da guarda local... Ou melhor dizendo, da milícia local.
A orc assentiu com a cabeça, visivelmente pouco interessada na pompa de falar com um nobre.
Bertrand, que havia se retirado para a cozinha, retornou com uma bandeja de biscoitos recém-assados e uma garrafa de vinho. Serviu os visitantes e seu senhor com a precisão de quem executara aquela tarefa inúmeras vezes.
Cael apontou para os alimentos sobre a mesa e sorriu de forma gentil aos seus novos súditos.
— Por favor, fiquem à vontade. E digam-me, o que os traz aqui?
Eldric tomou um gole do vinho encorpado, arrumando a postura na cadeira.
— Meu lorde, acreditamos que seria adequado nos apresentarmos e, ao mesmo tempo, esclarecermos como passarão a funcionar as responsabilidades do vilarejo sob seu domínio, incluindo questões como impostos e proteção.
Os visitantes aguardaram a resposta de Cael, que terminou de tomar um gole do vinho servido antes de falar.
— Pelo que soube, o antigo barão foi destituído após alguns problemas com a Coroa. Desde então, o Visconde assumiu as responsabilidades sobre o vilarejo. É isso?
A orc soltou um grunhido e cruzou os braços.
— Tá mais pra ele ter abandonado a gente aqui. Não fazemos nem ideia da cor das botas desse Visconde. A única coisa que ele sabe fazer é mandar seus coletores de impostos para arrancar de nós o pouco que ainda temos.
A garota de cabelos ruivos interveio, aflita.
— Krusha! Pelos deuses... Se comporte!
— Tsk. Estou mentindo?
Cael ergueu a mão, indicando para que a garota se acalmasse.
— Está tudo bem, senhorita Ariadne. Eu entendo o descontentamento da senhorita Krusha.
— Apenas Krusha. Essa coisa de "senhorita" é pra dondocas.
Cael riu.
— Muito bem, Krusha. Quanto à sua pergunta, senhor Eldric... A partir de hoje, cabe a mim a responsabilidade de proteger o vilarejo e as terras ao redor, bem como administrar a cobrança dos impostos e o tributo sobre as colheitas.
O ancião assentiu em concordância antes de continuar:
— Desde que o antigo barão foi destituído, nosso vilarejo ficou às traças. Não temos uma guarda fixa e dependemos de voluntários, como nossa valente amiga Krusha, para manter uma milícia e proteger nosso povo.
Seu olhar se tornou enevoado, perdido em pensamentos.
— A mina que produzia ferro, e que era uma parte importante da economia deste pequeno vale, sucumbiu à falta de estrutura. Mais recentemente, tornou-se o abrigo de um grupo de goblins, com os quais julgamos ser melhor não interferir.
Bertrand olhou para Cael com certa preocupação, mas o jovem apenas lhe devolveu um sorriso tranquilo.
— Fico triste em saber das condições deploráveis às quais foram submetidos. Posso ser jovem e não ter vivido uma vida de dificuldades comparáveis às suas, mas me solidarizo verdadeiramente com vocês.
Cael se levantou e se aproximou do grupo.
— Ainda estou terminando de me situar em meu novo lar, e teremos muito trabalho pela frente, isso é fato. Mas garanto que darei o meu melhor. A contratação de uma guarda fixa é, sem dúvida, uma prioridade. Sem falar na reabertura da mina. Além de proporcionar trabalho aos moradores, ela pode se tornar uma das principais fontes de renda de Valverde.
O velho assentiu.
— Há também a questão dos goblins, infelizmente.
Cael fitou Krusha e sorriu.
— Tenho certeza de que nossa amiga orc pode nos ajudar a lidar com isso, não é mesmo?
Krusha soltou um grunhido convencido.
— Obviamente. Só não lidamos com esse problema até agora porque o povo decidiu que seria mais astuto ignorá-los, desde que não nos causassem problemas de verdade.
— Pois bem. Por que não fazemos uma visita a essa mina?
Krusha ergueu uma sobrancelha.
— Você?
— Eu.
A orc soltou uma risada curta.
— Heh. Pelo menos não parece ter medo de sujar as botas.
— Ainda não tive oportunidade de fazê-lo.
— Então talvez Valverde seja um bom lugar para começar.
Bertrand se aproximou, parando ao lado de Cael.
— Está sugerindo que irá junto à milícia ao encontro dos goblins, meu senhor?
— Relaxe, Bertrand. Eu sei me cuidar. Além do mais, todas aquelas nossas aulas de esgrima serviram para alguma coisa, não?
— Sim, mas não pensei que chegaria a usá-las para combater goblins, meu senhor.
— Ah, Bertrand... Ficar sentado aqui enquanto a ação acontece do outro lado do vale não faria de mim um bom barão, não acha?
— Talvez não um bom barão, mas certamente um barão seguro e vivo.
Cael riu e segurou o ombro do velho serviçal com ternura.
— Olhe para nossa chefe da milícia, Krusha. Com toda certeza, ela lidará com os goblins sem problemas. Eu estarei lá apenas para observar, no fim das contas.
A orc apenas soltou um grunhido desinteressado.
Bertrand bufou, finalmente vencido.
— Como desejar, meu senhor... Irei buscar sua espada.
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Pouco depois, Cael já avançava floresta adentro, acompanhado por Krusha e outros dois milicianos, Jorg e Mateu.

A espada longa, de lâmina fina, que recebera como prêmio por vencer uma competição de esgrima anos atrás, pendia do lado direito de seu cinto, oposta à mão dominante.
Bertrand sempre dizia que seu estilo de luta, por ser canhoto, o tornava imprevisível aos olhos dos adversários.
— Meu lorde, tem certeza de que é inteligente avançar conosco contra esses goblins?
Mateu era um pouco mais baixo que Cael, de pele bronzeada e cabelos cor de palha. Vestia uma simples armadura de couro e carregava espada e escudo.
— Não se preocupem comigo. Sei cuidar do meu próprio pescoço. Apenas certifiquem-se de cuidar dos seus também.
— Claro, senhor.
Krusha, que seguia à frente como uma verdadeira muralha, parou e se virou para o grupo, levando as mãos ao par de machados de batalha presos ao cinto.
— A mina fica logo ali, vossa majestade. Tente não morrer. Não estou a fim de carregar um nobre ensanguentado.
Cael riu.
— Como desejar, vossa senhoria. Vou garantir que não ficarei no caminho da grandiosa guerreira orc, Krusha.
Ela soltou uma risada profunda.
— Bom, você não é tão pomposo quanto os outros nobres. Continue assim e nos daremos bem, barão.
— Disponha. Agora, vamos indo?
— Sim. Vocês dois, olhos abertos. Barão, fique por perto.
Os olhos de Cael percorreram por um instante as costas musculosas da orc, demorando-se brevemente nas fartas nádegas marcadas pelo tecido grosso da calça. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— Com prazer.
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A entrada da mina revelava o abandono que sofrera. Os pilares de madeira estavam apodrecendo, enquanto o mato alto e descuidado tomava conta dos arredores.
Krusha entrou primeiro, seguida por Cael, enquanto Jorg e Mateu cobriam a retaguarda. Todos empunhavam suas armas, avançando com cautela e preparados para o combate.
Logo chegaram a uma bifurcação. Um dos caminhos havia desmoronado, obrigando-os a seguir pelo outro. Não demorou para ouvirem sons de movimentação e vozes vindos dos túneis, aumentando imediatamente a tensão do grupo.
Então, um grito agudo e rouco ecoou pela mina.
Um goblin saltou de um dos corredores por onde haviam passado e se lançou contra Jorg. O miliciano aparou o golpe com o escudo e empurrou a criatura para trás no mesmo movimento.
Em questão de segundos, estavam cercados.
Dois goblins de um lado e três do outro. Todos vestiam roupas simples e gastas e empunhavam armas enferrujadas, com lâminas dentadas e malcuidadas.
Jorg e Mateu tomaram posição na retaguarda, enquanto Krusha e Cael se preparavam para enfrentar os três à frente.
Um dos goblins urrou e avançou contra Cael, desferindo um golpe amplo na direção de seu tronco.
Cael viu o ataque com facilidade. A criatura claramente não possuía experiência em combate.
Um passo para trás.
Outro para o lado.
A lâmina passou pelo vazio.
No instante seguinte, Cael ergueu a espada de baixo para cima, cortando o braço verde do goblin do punho ao bíceps. A criatura largou a arma e levou a outra mão ao ferimento por puro instinto.
Atrás deles, os outros goblins atacaram os milicianos. Apesar do treinamento limitado, Jorg e Mateu eram guerreiros muito superiores àquelas pequenas criaturas, ferindo e desarmando ambas com facilidade.
Quando Mateu se preparava para desferir o golpe final contra o goblin mais próximo, um grito estridente ecoou pelas paredes da mina.
— Não! Pare, por favor!
Uma pequena goblin surgiu diante deles. Falava o idioma comum com dificuldade, mas ainda era compreensível.
— Não matar nós! Por favor, não matar nós! Nós fugir. Nós não ser inimigo!
Cael ergueu a mão, e seus companheiros cessaram o ataque imediatamente.
Ele embainhou a espada e fitou a pequena criatura, que lutava para conter as lágrimas.

Era mais jovem que os outros, mas claramente não era uma criança. Talvez uma jovem adulta. Cael nunca tivera contato suficiente com goblins para distinguir suas idades.
Seus cabelos grossos e desgrenhados desciam quase até os pés. Vestia uma túnica surrada, presa à cintura por uma corda, e simples sandálias de couro.
As longas orelhas pontudas estavam baixas, enquanto seus olhos brilhavam com lágrimas contidas. A boca tremia enquanto observava os companheiros feridos.
— Parem.
Cael avançou alguns passos, pensativo.
Aqueles goblins claramente não eram guerreiros. Tampouco pareciam fazer parte de uma grande tribo.
Então, o que estavam fazendo ali?
— Fale, pequena.
Os goblins ilesos aproveitaram a pausa para correr até os companheiros, envolvendo seus ferimentos com trapos velhos enquanto lançavam olhares preocupados para Cael e os demais.
— Você disse que estão fugindo. Fugindo de quem?
A goblin se aproximou com as mãos trêmulas e estendeu um colar para Cael. Amarrada a ele estava uma presa familiar.
Por um instante, Cael ficou em silêncio.
Em seguida, suas suspeitas foram confirmadas, quando a pequena goblin falou:
— Gnolls.
Cael engoliu em seco.
— Gnolls? Aqui?
A garota assentiu freneticamente e apontou para os outros goblins.
— Nós fugir de gnolls. Gnolls atacar tribo e matar. Nós escapar e correr. Achar caverna e esconder. Mas gnolls vir. Gnolls chegar logo.
Cael trocou um olhar com Krusha.
A expressão da orc havia perdido qualquer traço de diversão.
Goblins eram um problema, quase sempre, especialmente as tribos mais selvagens.
Mas gnolls?
Esses eram problema sempre.
Criaturas bestiais, sem compaixão e movidas por uma sede insaciável de sangue e conquista. Humanoides de traços animalescos, semelhantes a uma mistura de homens e hienas.
Se havia uma matilha próxima, aquilo se tornava uma ameaça séria.
E se atacassem o vilarejo despreparado...
Seria uma chacina.
Cael respirou fundo e apertou o cabo da espada.
— Krusha...
— Sim?
Ele fitou a orc.
— Temos que nos preparar para a batalha.
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