ATO 1 — O QUE SOBROU DA ISCA
O galpão não tinha corpo nenhum além dos deles.
Fazia dez minutos que Nami procurava por Jessica atrás de cada pilha de entulho, e fazia dez minutos que não encontrava nada além de poeira assentada e o eco vazio de um lugar que nunca tinha guardado ninguém. A pista de 98% de compatibilidade energética não era um rastro. Era isca, e eles tinham mordido inteira.
Foi nesse silêncio que o teto rasgou.
Vor'Gath desceu o braço como uma viga em queda livre — não rápido, só definitivo, do jeito que só coisas grandes demais para desviar precisam ser. Dante cruzou os antebraços um instante tarde demais. O impacto o arrastou dez metros de concreto e o prensou contra a parede entre caixas amassadas.
Ele caiu de joelhos. O ar saiu dele num engasgo de sangue.
— Dante!
O grupo convergiu sem combinar — Maira batendo as duas palmas no chão pra erguer lajes contra os joelhos do gigante, Kael cortando o ar em lâminas contra a nuca exposta, Nami chicoteando água sob pressão ao redor do torso, Lyra puxando raízes das fendas do piso.
Durou menos de dois segundos.
Vor'Gath nem tentou bloquear. Só deixou o calor da própria fornalha escapar.
A água de Nami virou vapor antes de tocar a pele dele. As raízes de Lyra viraram cinza no ar, sem chegar a puxar nada. A rajada de Kael se desfez contra a parede de ar quente. As lajes de Maira racharam feito casca de ovo.
Aiden atravessou o vapor e ergueu uma barreira na frente de Dante.
— Fica atrás!
O punho de Vor'Gath cruzou o escudo como se ele fosse vidro fino. Aiden voou contra uma viga; o som do ombro deslocando ficou entalado sob o assobio das brasas.
Dante rolou pro lado, puxou o que restava de ar e avançou sozinho, socando o centro da couraça duas vezes.
A blindagem não sentiu.
A mão do colosso fechou ao redor do punho dele.
ATO 2 — QUASE DERROTA
Maira se arrastou até Dante apoiada numa mureta de brita, o sangue descendo da testa até a gola.
— Apoia. A gente recua.
— Se eu recuar, ele passa por cima de todo mundo.
Kael reapareceu pela lateral, a pele dos braços vermelha do calor, e cravou três lâminas de vento na junta do pescoço do gigante. O ferro cedeu um triz, expondo magma vivo por baixo.
— A junta do cotovelo está sem blindagem — disse Ryu, da retaguarda, a voz sem inflexão nenhuma, plana como leitura de instrumento. A braçadeira de prata no antebraço esquerdo dele pulsava, sustentando o que restava do próprio corpo. — Ataquem antes que ele redistribua o núcleo.
Nami disparou o resto da própria umidade contra o visor do colosso. Lyra puxou duas raízes já carbonizadas contra o braço exposto.
— Agora! — ela gritou, as unhas sangrando no concreto.
Maira arremessou um bloco de granito contra o cotovelo aberto. A junta estalou.
Vor'Gath recuou meio passo — e então recolheu o braço com o peso morto de uma laje desabando, quebrando as raízes de Lyra feito barbante seco e a jogando contra a alvenaria. Nami caiu de joelhos, sem fôlego. Kael desabou logo atrás.
Dante viu a brecha e atacou sozinho.
A blindagem rangeu. Não partiu.
A mão de Vor'Gath fechou ao redor do punho direito dele.
Os ossos começaram a ceder, um a um, sob toneladas de ferro fundido. Dante prendeu o ar na garganta pra não gritar. Maira tentou se levantar; os joelhos desmancharam no cascalho.
Mesmo assim, quebrados, sem ar, os que ainda tinham força começaram a rastejar na direção de Dante.
Ninguém ia recuar.
Vor'Gath ergueu o outro punho.
Foi quando o metal da passarela superior estalou sob uma bota.
ATO 3 — O CLANDESTINO
Lukas nunca devia ter posto os pés naquele galpão.
Tinha seguido o grupo desde o portão da fortaleza, duas esquinas atrás o tempo todo, fora do alcance da varredura de Ryu, repetindo pra si mesmo que só ia assistir — que entrar sem nenhum controle sobre o que carregava dentro do peito era assinar a própria sentença.
O estalo dos dedos de Dante quebrando atravessou o galpão inteiro.
Ele desceu a escada de emergência aos saltos, bateu a canela no corrimão, quase foi de cara no chão e continuou correndo mesmo assim.
— LARGA ELE!
A voz saiu rasgada. Cortou o ar do mesmo jeito.
Vor'Gath deteve o punho no ar. As fendas do visor giraram devagar na direção daquela figura pequena demais para importar.
— Lukas?! — Dante ergueu o rosto inchado. — Foge, seu idiota!
Lukas não parou.
— Mandei soltar.
O gigante soltou fuligem pelas juntas da armadura. O chão entre os dois abriu uma fenda avermelhada, e o peso daquela presença caiu sobre Lukas como um teto prestes a ruir.
Cada músculo do corpo dele pedia recuo.
Mas alguma coisa esquecida sob as costelas respondeu primeiro.
Veio uma luz fraca. Uma pequena faísca. O ar ao redor dele só ficou carregado de estática, e a poeira que ainda pairava assentou de uma vez, como se o espaço inteiro tivesse ganhado peso.
Vor'Gath travou a bota no chão.
— Você carrega algo que cobrará um preço alto demais.
O medo subiu pela garganta de Lukas antes de virar palavra — puro, sem disfarce de coragem.
— Deixa cobrar.
ATO 4 — A TRAVA
Vor'Gath soltou Dante, que desabou de joelhos, segurando o próprio punho amassado contra o peito, os dedos já inúteis demais pra fechar.
O gigante girou o quadril e desceu o outro punho reto contra o crânio de Lukas — um golpe que rasgou o ar antes mesmo de chegar.
Lukas não bloqueou de frente. Não tinha peso suficiente pra isso, e sabia.
No último instante, deslizou por baixo do braço estendido, sentindo o calor da couraça raspar a nuca. O impacto que devia tê-lo esmagado varreu o vazio onde ele estivera um segundo antes e arrancou uma cratera do chão.
Ele já estava subindo pelas costas do próprio impulso — um pé na borda de uma caixa amassada, o outro empurrando contra os destroços — quando o joelho encontrou o visor do colosso.
O vidro rachou em teia, de um canto ao outro.
Vor'Gath recuou um passo de verdade — o primeiro da noite que não era manobra, era reação.
— A base! — berrou Ryu, ainda plano, ainda sem emoção nenhuma na voz, só cálculo puro. — Ele está redistribuindo o peso pro lado esquerdo. Quebrem o apoio antes que se estabilize.
Kael cortou o ar atrás dos calcanhares do gigante. Maira rachou o piso sob a bota de apoio. Nami jogou o resto da própria água sobre o concreto partido, transformando cascalho em lama escorregadia.
Vor'Gath vacilou — não caiu, mas vacilou, ancorando a perna direita pra não tombar.
Lukas mergulhou de joelhos por baixo do alcance dos braços, travou a perna atrás do calcanhar exposto e fechou os dois braços ao redor do ferro em brasa, ancorando a junta contra o próprio peso.
A jaqueta grudou na pele fervendo por baixo.
Dante se ergueu com a mão esquerda, a única que ainda respondia, o braço direito preso contra o próprio corpo. As chamas subiram fracas, incompletas, mas subiram.
Vor'Gath sentiu o cerco fechar — as pernas presas, a couraça rachada, o fogo se reunindo de novo apesar de tudo — e olhou para baixo, para o garoto pendurado na própria perna como uma âncora que se recusava a soltar.
— Você é o ponto de resolução deste cenário.
Não era pergunta. Era leitura de um resultado que ele acabara de calcular.
Lukas cravou os joelhos mais fundo no pó de concreto, sentindo a própria carne colar no metal, e gritou com tudo o que ainda tinha:
— AGORA! ATIREM ESSA MERDA! NÃO ESPEREM POR MIM!
Atrás dele, os cinco que ainda ficavam de pé se ergueram ao mesmo tempo, tirando força de um lugar que já devia estar vazio há muito tempo.
E o galpão inteiro começou a uivar.