ATO 1 — A PERGUNTA QUE NINGUÉM RESPONDE
HOSPITAL CENTRAL DE SOLARION — MESMA NOITE
Enquanto o pai de Lukas dirigia para a mata, Lyra abriu os olhos na enfermaria.
A lâmpada branca incomodava sua vista.
Cheiro de remédio, carne queimada e ozônio. Os aparelhos apitavam ao longo das paredes.
Lyra se sentou de repente na maca. A pontada nas costelas trincadas cortou sua respiração.
— Lukas...
O enfermeiro correu até a maca e liberou uma névoa verde sobre o peito dela.
— Fique quieta. Puxe o ar devagar pelo nariz. Seu corpo ainda está sofrendo o tranco da técnica.
— Cadê o Lukas? Ele segurou a perna daquele bicho tempo suficiente para a gente preparar o ataque. Depois, o monstro o pegou e usou como escudo... Eu vi o teto ceder. Depois não vi mais nada!
O homem se virou para a tela na parede.
— Nome completo.
— Lukas Dreon.
Ele passou o dedo pelas listas de resgate do Setor Sul.
— Ele fazia parte da equipe autorizada?
— Não. É aluno da Academia. Entrou porque Dante ia morrer.
— Qual foi a assinatura de Raken dele?
Lyra travou.
Lembrou da luz fraca que havia piscado no peito dele, dos pelos do próprio braço se eriçando e do estalo seco no ar, um instante antes de Lukas travar o pé do gigante.
— Teve uma luz. Fraca, quase nada. E o ar ficou carregado, tipo antes de uma tempestade. — Ela hesitou, procurando um nome para algo que não parecia ter nome. — Eu não sei dizer com certeza. Nunca vi nada assim antes.
O dedo do enfermeiro parou na tela. Digitou um código rápido.
A tela acendeu em vermelho:
STATUS DE CONSULTA: PROTOCOLO NÍVEL 1
REGISTRO RESTRITO — JURISDIÇÃO: CÍRCULO DO PODER
ACESSO NEGADO
O comunicador do enfermeiro vibrou.
Ele leu a mensagem e voltou os olhos para o registro restrito na tela.
— Fique com ela.
Entregou a prancheta ao colega e saiu sem explicar o motivo.
Pouco depois, um oficial da Guarda entrou sem olhar diretamente para Lyra.
— A operação de resgate no Setor Sul foi encerrada — disse, lendo um bloco de dados. — Sete alunos recolhidos. A varredura não registrou outra assinatura na frequência padrão.
— Ele pode ter ficado lá dentro! Alguém precisa voltar e olhar direito!
— Esse nome está sob jurisdição do Círculo.
— Então vocês vão voltar lá?
O oficial demorou um instante antes de responder.
— A Guarda não tem autorização para agir sobre esse registro.
O oficial puxou a cortina e saiu.
Lyra fechou os olhos.
Ainda ouvia Lukas mandando que disparassem.
*Não esperem por mim.*
Depois, o teto caiu.
Tentou respirar fundo, mas a dor nas costelas interrompeu o movimento. Não sabia se Lukas tivera tempo de escapar. E a Guarda acabara de deixar claro que não pretendia descobrir.
Já tinha visto o Círculo intervir uma vez. Agora, o nome de Lukas estava nas mãos dele.
ATO 2 — A CONTA DO CORPO
Uma porta trancada isolava aquela ala do resto do hospital. Na parede, uma placa de acrílico trazia letras brancas: ALA C — OCORRÊNCIAS ESPECIAIS · CONVÊNIO COM A DEFESA CIVIL. ACESSO RESTRITO A PESSOAL AUTORIZADO.
Dante estava desacordado no leito central, respirando com dificuldade sob a máscara de vapor frio. O braço direito estava envolto em faixas grossas; os ossos da mão, esmagados por Vor’Gath, haviam sido realinhados e imobilizados durante a cirurgia.
Ryu ocupava o leito da esquerda.
Aiden, o da direita, estava encostado na cabeceira, com o ombro esquerdo imobilizado e o pulso direito preso a uma tala translúcida. A pancada contra a viga e o recuo da técnica haviam agravado as lesões.
Na baia ao lado, separada por uma cortina, Lyra continuava deitada, ainda sob observação.
Kael e Maira estavam na baia do fundo, sedados.
Ryu tentou se levantar da cama. A visão escureceu antes que conseguisse apoiar os pés no chão.
— Fique sentado — avisou o enfermeiro. — Seu núcleo queimou quase toda a reserva de Raken. E o corpo gastou energia vital para continuar funcionando.
Ryu não reclamou. A mão esquerda repousava sobre a braçadeira de prata, que soltava faíscas fracas.
— Quanto tempo até eu andar direito? — perguntou, com a voz reta, sem alterar o tom.
— Três dias de cama, pelo menos, até os danos internos começarem a fechar — respondeu o enfermeiro. — O Raken volta antes de os tecidos se recuperarem.
Nami permanecia em pé no canto, pressionando um pano contra o nariz ensanguentado.
— O Dante atirou sozinho — disse, olhando o peito dele subir e descer devagar. — Aquele monstro ia passar por cima da gente.
— Ele atirou no Lukas — falou Aiden, do leito da direita, rouco. Não conseguia sequer erguer o braço para limpar o suor do rosto. — O gigante usou Lukas como escudo. Dante viu e atirou mesmo assim.
Ninguém respondeu. Só os aparelhos de suporte continuaram apitando.
Ryu virou lentamente a cabeça na direção do leito de Dante.
— Se ele não tivesse atirado, nós não teríamos sobrevivido. Era a única saída. O erro não foi o tiro. O erro foi o garoto descer da passarela sem fazer parte da equipe.
A cortina da baia de Lyra estava entreaberta. Ela havia ouvido tudo.
Lyra apertou o lençol até os dedos doerem. A conta de Ryu fechava. A dela não: ninguém naquela sala sabia dizer se Lukas tinha saído da frente a tempo.
Nami desviou o rosto.
A braçadeira de prata no braço de Ryu disparou um alarme. Pequenos estalos percorreram o metal enquanto filamentos de fumaça negra escapavam dos curativos de Dante.
No corredor, os comunicadores dos guardas estalaram ao mesmo tempo:
— Alerta da Academia! Subnível Três! A blindagem principal parou de responder!
O alarme da braçadeira mudou de frequência. Ryu levou a mão ao metal, mas o sinal cessou antes que pudesse examiná-lo.
O enfermeiro olhou para o próprio comunicador. Antes que pudesse dizer alguma coisa, as lâmpadas do teto piscaram.
Por um segundo, os números dos monitores de Dante desapareceram.
As linhas não zeraram.
Simplesmente deixaram de existir.
Nami se inclinou para conferir a tela. Os números voltaram antes que ela conseguisse chamar alguém.
Ryu apoiou a mão na lateral do leito e tentou erguer o corpo mais uma vez. As pernas cederam antes que ele conseguisse ficar de pé. Nami correu e amparou sua cabeça antes que atingisse o piso. Um choque atravessou as mãos dela.
Na parede, o painel da Guarda mostrava:
DIVISÃO DE COMBATE — RELATÓRIO PÓS-RESGATE
SETOR SUL: ÁREA ISOLADA PELA DEFESA CIVIL
SITUAÇÃO DO GRUPO: 7 ALUNOS RECOLHIDOS / FERIMENTOS GRAVES
ORDEM DO COMANDO: NADA DE ENTREVISTAS OU VAZAMENTOS
Lá fora, a chuva caía forte sobre o asfalto sujo de fuligem.
ATO 3 — O OITAVO SINAL
SALA DE CONTROLE DA FORTALEZA — MADRUGADA
O técnico fechou o relatório do Setor Sul.
Sete ativos autorizados. Sete resgatados.
— Encerrado — disse ao oficial.
O oficial já vestia o casaco.
— Só um detalhe — disse o técnico, hesitando. — Os sensores de perímetro registraram uma entrada que não aparece na frequência padrão. O sinal surgiu quatro minutos depois da equipe, pela passarela leste.
— De quem?
— Nenhum ativo identificado. Não há ordem nem missão vinculada ao sinal. — O técnico consultou outra tela. — Pesquisei o nome informado pela aluna: Lukas Dreon. O cadastro está bloqueado.
O oficial parou.
— E a saída?
— Não aparece.
O técnico ampliou o mapa. A trilha descia da passarela e terminava no centro do galpão, onde o teto cedeu.
— Então ele ainda pode estar lá.
— A varredura foi encerrada.
— Mas o registro não foi.
O oficial olhou para os sete nomes em verde.
— Envie pelo canal restrito.
O oficial saiu.
O técnico olhou para o painel mais uma vez.
Sete nomes em verde.
E, embaixo, uma linha de entrada sem saída.
Em algum outro ponto da cidade, uma tela sem identificação recebeu o relatório.
O arquivo abriu sozinho.
LUKAS DREON — LOCALIZAÇÃO PARCIAL CONFIRMADA
A tela fechou.