ATO 1 — OS DIAS DEPOIS
Lukas apoiou as duas mãos na cerca e esperou a respiração voltar ao normal.
Fazia uma semana que o galpão tinha caído em cima dele, e o corpo ainda cobrava cada metro. Já conseguia cruzar a cabana sem apoio, mas a corrida até a cerca terminara com as pernas bambas.
O pai observava da varanda, os braços cruzados.
— Quando conseguir ir até a cerca e voltar sem parar, a gente sai daqui.
Lukas soltou a cerca.
— Pra onde?
— Primeiro consegue voltar.
Desde a noite em que as marcas nas vigas tinham acendido, o pai conferia as janelas antes de dormir. A caminhonete continuava atrás da cabana, virada para a estrada. Nada ficava espalhado pela sala.
Lukas ergueu os punhos e desferiu dois golpes curtos no ar. O ombro repuxou no segundo. Baixou o braço, irritado.
— Ainda não — disse o pai.
— Eu sei.
Não sabia. Ou não queria admitir.
Lukas passou a mão pelo centro do peito. Sob a camisa, a pele ainda guardava uma sensibilidade estranha. Às vezes, quando respirava fundo, sentia um pulso frio sob as costelas.
— Eu preciso voltar pra cidade.
— Desse jeito?
— A gente ainda não encontrou a Jessica.
O pai descruzou os braços, mas não respondeu.
— A gente foi até aquele galpão por causa dela — continuou Lukas. — Não tinha ninguém lá.
Olhou para o caminho de volta.
Lembrou da mão do gigante fechada no peito dele. Do fogo negro se reunindo na frente de Dante e vindo na sua direção. Do ombro estalando. Depois, o teto.
Lukas flexionou a mão direita até os tendões doerem. Sabia quem tinha atirado. Ainda não estava pronto para falar sobre aquilo.
— E seus amigos? — perguntou o pai.
Lukas demorou a responder.
— Não sei onde estão.
— Você quer procurá-los?
— Quero saber o que aconteceu.
O pai sustentou o olhar.
— Quando conseguir sair daqui sem cair — disse o pai —, a gente conversa sobre voltar.
— Você vai ficar aí me olhando até eu melhorar?
— Vou.
Lukas soltou o ar pelo nariz e entrou.
Naquela noite, o pai segurava uma caneca de café junto à janela. Não bebia. Mantinha os olhos na floresta.
Lukas estava sentado à mesa quando percebeu a mudança. Os ombros do pai ficaram rígidos. A caneca parou antes de chegar à boca.
— O ar não está obedecendo.
Lukas olhou para a janela.
Nada.
O pai pousou a caneca.
— Eles estão perto.
ATO 2 — A CONTENÇÃO
Lukas foi até a janela e afastou a cortina com dois dedos.
Três figuras saíram da névoa entre os pinheiros. Armaduras escuras sob mantos curtos. Máscaras prateadas, lisas, sem insígnia. Avançavam sem pressa, ocupando três pontos ao redor da clareira: um diante da varanda, outro à esquerda da cabana e o terceiro mais distante, à direita, com cristais de gelo girando ao redor dos punhos.
Uma voz metálica chegou abafada através do vidro.
— Âncora ativa.
O chão tremeu sob os pés de Lukas. Pela fresta, viu o cascalho afundar diante da varanda e um sulco correr até os degraus.
— Fluxo estabilizado.
Cristais de gelo surgiram no ar e ficaram suspensos, como se a umidade da mata tivesse sido puxada de uma vez.
— Pressão aplicada.
Uma luz avermelhada acendeu nas juntas de uma das armaduras. O vidro vibrou contra o caixilho. A chama da lareira se achatou, e o ar quente ficou preso junto ao chão.
O pai abriu a porta.
— Fica dentro.
Lukas abriu a boca para responder, mas o homem já atravessava a varanda. A porta ficou encostada atrás dele.
Da janela, Lukas via o pai diante dos degraus e os três mascarados na borda do pátio.
— Achei que fossem demorar mais — disse o pai.
— Leitura conhecida — anunciou o mascarado à frente.
Uma linha branca correu pelo visor da máscara.
NÍVEL DE AMEAÇA: ALTO.
— Meu filho não vai com vocês.
— Ele é um ativo — respondeu o mascarado do gelo.
— É meu filho.
O mascarado do gelo ficou imóvel por um segundo.
O mascarado do solo se agachou, tocou o cascalho e avançou.
O pai fechou o punho.
Lá fora, a porta do depósito bateu contra a parede. Duas chapas de aço dispararam para o pátio, arrancadas de dentro do depósito pela força magnética.
Uma descarga branca saltou entre os dedos do pai. As chapas vibraram e se ergueram, formando uma barreira diante dele.
O mascarado do solo veio com o punho fechado. A primeira chapa desviou o impacto. O pai entrou por dentro do braço estendido e tocou a lateral da armadura, descarregando a energia acumulada no metal.
O metal estalou. O braço do atacante caiu junto ao corpo.
O ozônio chegou até a janela. Lukas recuou um passo. Era o mesmo cheiro que sentira depois do estalo sob as costelas, no galpão.
O mascarado tentou fechar a mão do braço inutilizado. A luva respondeu com pequenos estalos, mas o cotovelo continuou baixo. Ele abandonou a tentativa e passou a lutar apenas com o outro braço.
Socou o chão.
Correntes de metal líquido romperam o cascalho. Da janela, Lukas viu uma se fechar no antebraço do pai e outra prender sua perna ao chão. Uma terceira se ergueu diante da porta, a poucos passos da janela.
O pai lançou uma descarga pelo elo preso ao braço.
O mascarado do gelo abriu as mãos. A umidade condensada nas chapas escorreu até as correntes, conectando as peças metálicas. Em seguida, congelou os pontos de contato com o solo e desviou a descarga pelo metal, de volta ao braço do pai. Os músculos dele se contraíram com o choque.
Uma rajada de calor atingiu o escudo. O vapor encheu o espaço entre as chapas e escondeu o pai por um instante. Quando a névoa se dissipou, o pai havia rompido a corrente do antebraço com uma descarga concentrada. A que prendia sua perna continuava firme.
Lukas ouviu a respiração curta e chiada do pai entre um estalo e outro.
Mesmo assim, o pai não deixava a entrada descoberta.
Lukas se afastou da janela e foi até a porta. Dali, via a varanda e o pai, ainda preso pela perna, entre as chapas suspensas.
Os três mascarados recuaram e fecharam o triângulo outra vez. O pai ergueu as duas mãos.
Lukas entendeu a aposta antes de ele fazê-la: puxar os três de uma vez custaria o escudo; esperar custaria a porta.
Lukas levou a mão ao peito. O pulso frio bateu duas vezes.
Ele prendeu o ar.
As batidas vieram no mesmo intervalo dos estalos lá fora.
Os sensores das máscaras acenderam juntos. Uma delas virou-se para a cabana.
— Segunda assinatura confirmada.
O pai olhou por cima do ombro.
Lukas tirou a mão do peito.
— Ignorar o adulto — ordenou o mascarado do solo. — Captura imediata do alvo.
O pai tentou se virar para a porta, mas a perna continuava presa.
— Não sai.
O mascarado do solo se impulsionou em direção à janela lateral, buscando uma entrada. As botas arrancaram pedras do chão, e o braço bom veio à frente, pronto para atravessar a madeira.
— Não!
O pai abriu as mãos de golpe.
As chapas dispararam em direções opostas, e o campo magnético se contraiu entre elas. O puxão alcançou as armaduras dos três mascarados.
O mascarado do solo tentou cravar a mão no chão para se ancorar, mas o cascalho cedeu antes que o sulco o prendesse. Ele foi arrancado da trajetória e arrastado de lado. O mascarado do gelo perdeu o apoio, enquanto o de juntas vermelhas foi puxado para a frente.
O pai concentrou o campo na corrente que prendia sua perna. O metal estremeceu sob a disputa de forças até o elo ceder. Em seguida, ele inverteu o puxão magnético e arrancou as demais correntes dos pontos de ancoragem.
O campo perdeu estabilidade. As chapas escaparam do controle e continuaram girando por inércia. Uma se enterrou no chão; outra bateu contra a parede da cabana.
O pai tentou recuperar as chapas, mas não conseguiu a tempo. Sem as chapas entre ele e os adversários, ficou exposto.
O mascarado do gelo torceu o corpo no ar e aproveitou o impulso. O chute atingiu o ombro do pai antes que ele recuperasse a postura. A articulação saiu do lugar com um estalo que Lukas ouviu da porta.
Antes que o pai recuperasse a base, o mascarado de juntas vermelhas avançou por baixo do braço e golpeou seu torso com a palma aberta. Uma onda de choque, envolta em calor intenso, explodiu no ponto de contato e arremessou o pai contra os degraus da varanda.
Ele bateu contra a madeira e caiu sobre um joelho. Tentou se apoiar com o braço deslocado, mas a articulação cedeu. Firmou a outra mão no chão e puxou o ar em goles curtos.
Cuspiu sangue na madeira.
Lukas atravessou a porta e avançou até a varanda.
Os três mascarados recuperaram o equilíbrio. As máscaras se voltaram para Lukas.
Ele desceu o primeiro degrau. O ombro esquerdo latejou, e a perna tremeu sob o peso do corpo.
O pai tentou se erguer.
— Fica… dentro — ofegou.
Lukas parou ao lado dele e levantou a mão direita.
— Fica você atrás de mim.