O ar-condicionado da sala de reuniões número quatro estava no mínimo, mas o homem do outro lado da mesa não parava de suar.
O cheiro de suor frio misturado com loção pós-barba barata estava impregnando o estofado de couro da cadeira. Eu tamborilava a ponta da minha caneta Montblanc, falsa, comprada na galeria, mas que passava credibilidade. Sobre o tampo de vidro, tentava manter a expressão neutra.
Esperava nosso cliente terminar a terceira ligação do dia com mais um inquilino cheio de reclamação, confirmando seu ódio pelo síndico ladrão que rouba itens de seu apartamento.
— Veltri, você não está entendendo. — Marcos, o síndico e proprietário do edifício no centro, esfregou o rosto com um lenço amassado. — O delegado falou em indiciamento. Indiciamento por roubo! Eu nunca pisei numa delegacia na vida.
— Calma, Marcos. Primeiro: não é roubo, é furto. — Inclinei o corpo para frente, cruzando as mãos sobre o dossiê. — Roubo é quando alguém aponta uma arma para você. Furto é quando levam suas coisas escondidas. E o delegado não vai prender você hoje.
— Mas ele disse que eu sou o principal suspeito! — Retrucou Marcos, a voz tremendo. — Só porque eu sou o síndico!
— É a lógica preguiçosa da polícia — interveio Sara, sentada à minha direita. Seus olhos corriam pelas linhas de uma petição impressa, a ponta do dedo indicador acompanhando a leitura com precisão cirúrgica. — Não há portas arrombadas, as janelas estão intactas e ninguém estranho aparece nas câmeras. Para o delegado, se não houve invasão forçada, quem levou as coisas usou uma chave. E quem é a única pessoa com a cópia da chave-mestra de todos os apartamentos? O senhor.
Eu engoli em seco, arregalando os olhos em choque com a falta de tato de minha colega.
— Mas eu estava em Atibaia! Vocês têm os comprovantes do pedágio, as câmeras do posto...
— Isso prova onde você estava no momento em que os inquilinos descobriram que as coisas sumiram, não necessariamente na hora em que o furto aconteceu — Sara cortou, fria e técnica. — E a polícia nem é o nosso maior problema financeiro agora. Temos três processos cíveis nas costas.
— Processo cível? O que isso quer dizer? Mais polícia? — Marcos apertou o lenço no pescoço, parecendo já enxergar o teto preto.
Coloquei a mão sobre os documentos de Sara, impedindo sua leitura e assumindo o controle.
— Significa dinheiro, Marcos. Os inquilinos que foram furtados estão processando você. Eles querem cancelar o contrato de aluguel e exigem que você pague por tudo que sumiu de dentro dos apartamentos deles.
— Mas eu não roubei nada! Por que eu tenho que pagar?
— Porque você é o dono do prédio, e eles alegam que você não garantiu a segurança. Mas não entre em pânico — sorri, usando meu tom mais tranquilizador. — Já preparamos a sua defesa para o juiz. Vamos provar que o prédio tem portaria, fechaduras padrão e não houve negligência sua. Se alguém entrou lá como um fantasma, a culpa é de um terceiro, e os inquilinos que acionem o seguro deles. A coisa está nos trilhos. Você ainda tem 15 dias para contestar.
Suspirei, fuzilando Sara com o olhar por um décimo de segundo. Ela estava certa tecnicamente, mas eu odiava quando ela aterrorizava o cliente antes de apresentarmos a solução.
— Então... eu não vou ter que pagar as indenizações? E a cadeia? — Marcos perguntou, a respiração ainda ofegante, tentando focar em um problema de cada vez.
— Vamos pedir ao juiz para trancar a investigação do delegado logo de cara — respondi, tomando um gole de café. — Como não acharam nada com o senhor e tudo o que eles têm é a teoria da chave-mestra, não há provas reais para seguir com isso. Ele provavelmente ainda vai demorar duas semanas para indiciar.
— Está bem encaminhado, mas não garantido. — Sara finalmente ergueu o rosto, ajeitando os óculos de armação fina e deslizando um documento pela mesa. — O delegado quer seguir com o processo. Nós estamos sugerindo pedir uma perícia técnica.
— Perícia? Pra quê? — Marcos perguntou, confuso. Enquanto mexia sem parar em seu bolso, conseguia ouvir o som metálico, talvez de moedas ou de chaves.
— Para quebrar as paredes, basicamente — Sara disse num tom perfeitamente plano. — Precisamos provar que não existem dutos escondidos, fundos falsos ou falhas na estrutura do prédio. Se provarmos que não tem passagem secreta, quebramos a teoria deles.
Encarei o papel que ela empurrara. Uma requisição de perícia estrutural.
— Sara, pedir isso vai levar uns quatro meses pro juiz aprovar e mandar alguém lá — falei, contendo a irritação. — O Marcos não tem quatro meses. Ele vira réu em duas semanas. Você quer um doido quebrando a parede dele por semanas enquanto nosso cliente passa fome?
— Estou pedindo para esgotar as vias físicas. E agora você está assustando o cliente — ela retrucou, o tom perfeitamente plano.
— Você está teorizando. Precisamos agir logo — disse, ignorando o choque no rosto de Marcos. Conseguia sentir o calor de sua testa à distância. Parecia prestes a ter um infarto.
Da ponta da mesa, uma xícara de porcelana tocou o pires com um tinido suave. Beatriz.
Até aquele momento, ela não tinha dito uma palavra. Vestia um terninho impecável, a postura relaxada de quem estava assistindo a uma peça de teatro amadora, bebericando seu chá.
— Jovens — a voz de Beatriz era aveludada e calma, evidenciando sua idade avançada, mas carregando o peso de uma âncora. — O cliente está cansado. Marcos, nós vamos cuidar do inquérito hoje. Vá para casa. Não fale com inquilinos, não atenda números desconhecidos. Deixe a burocracia conosco.
— O senhor só precisa manter a calma e não dar declarações sem a gente — eu dizia, já ajustando a postura para encerrar a reunião. — Eu vou lá na delegacia e...
— Eu não contei uma coisa pro delegado — Marcos soltou, baixo.
Sua voz quase sumiu no barulho do ar-condicionado. Sara travou a caneta no ar. Eu fechei a pasta devagar.
— O que o senhor não contou, Marcos? — perguntei, sentindo o estômago pesar.
Marcos engoliu em seco, olhando para a mesa como se quisesse ser engolido pelo couro.
— Quando o policial perguntou da chave-mestra... fiquei com medo. Achei que se falasse que eu tinha acesso a todos os apartamentos, eles iam me levar preso na hora. Daí eu disse que tinha perdido a minha cópia no mês passado. Falei que não tinha chave nenhuma.
— Você mentiu num depoimento oficial? — Sara ergueu a voz, a calmaria técnica caindo por terra. Ela se esticou sobre a mesa. — Marcos, o relatório da perícia da porta do apartamento 804 diz expressamente que o tambor da fechadura não tem marcas de Micha ou arrombamento forçado. Se o delegado puxar a fita de segurança da semana passada e ver você abrindo a porta da manutenção com a porra do chaveiro...
— Eu fiquei com vergonha! — Marcos desesperou-se, com os olhos vermelhos. — Eu sou um homem de bem, doutora! Se isso vai pra imprensa, minha família...
— Se isso vai pro processo, é Falso Testemunho e Fraude Processual! — Sara apertou as mãos na cabeça com força, os óculos quase escorregando. — Você não destruiu só a sua defesa criminal, Marcos. Você acabou de entregar no cível o motivo perfeito para a juíza dar a liminar pros inquilinos. Mente sobre a chave e quer que a gente jure que o senhor é confiável?
Eu passei as duas mãos no rosto, praguejando em silêncio. As linhas vermelhas no peito do Marcos se contorciam tanto que pareciam nós de arame farpado.
— Marcos — falei, a voz mortalmente séria. — Você vai levantar dessa cadeira, vai pra sua casa e não vai dar nem 'bom dia' pro seu porteiro. Se a polícia ligar, você tá passando mal. Não abre a boca sem a Sara ou eu do lado. Entendeu?
Ele assentiu, pálido como um defunto, e praticamente correu pra fora da sala.
Assim que a porta fechou, joguei a caneta na mesa, querendo nem chegar perto de pensar no caos que Marcos acabara de causar.
— Perícia estrutural, Sara? Sério? — Esfreguei as têmporas. — Nós não somos engenheiros. Somos advogados. Isso é perda de tempo, desiste dessa ideia e vamos investir na minha tese. Não precisa disso.
Sara recolheu os papéis, batendo-os contra a mesa para alinhá-los.
— O inquérito não se sustenta em provas, Veltri, se sustenta na impossibilidade de haver outra explicação. Se não tem arrombamento, como os objetos somem? Mágica? Como se quer que a gente assuma o risco de acusar 3 inquilinos sem provas? É muito arriscado e levaria muito tempo.
— Isso não importa. Importa o que eu consigo provar na vara criminal.
Pegamos o dossiê e saímos da sala 4. O corredor principal da F&A era silencioso, forrado com carpete espesso que engolia o som dos passos.
Caminhamos até o nosso setor. Ou caminhávamos, Sara visivelmente frustrada, quando parou no meio do caminho, cortando um corredor em busca de café.
Parei na porta, observando ela falhar miseravelmente na complexa ação de segurar um copo plástico, derrubando-o, por sorte ainda vazio, no carpete. Sempre assim, qualquer coisa que a questionasse a deixava tremendo, mal conseguindo segurar qualquer coisa.
Demorando mais tempo que deveria, ela voltou segurando um copo de café, provavelmente recheado de açúcar.
— Sara, você sabe, tu vai ceder, tu vai adotar minha tese, tu sempre questiona e no final tu percebe que eu tô sempre certo.
— Não complica mais as coisas, Veltri, eu já tô suando de nervosa nesse caso besta. A gente não é mais estagiário, a gente tem que levar isso a sério.
— Eu estou levando a sério, mas a gente não pode ficar preso em 6 meses em um caso como esse, a gente não pode ficar preso nesse setor com casos desse tipo.
— Eu estou satisfeita aqui — disse Sara, virando o olhar para baixo. Perdi seus olhos de vista por conta de sua franja e altura. Seguimos em direção ao setor, aproximando-nos da porta que estampava “Sucessões, Trusts e Patrimônios Especiais”.
Diferente da recepção ostensiva, nossa área era mais isolada, iluminada por uma luz amarelada que dava um ar quase atemporal ao ambiente. Joguei meu paletó na cadeira.
— O que eu não entendo — Sara murmurou, sentando-se de frente para o monitor e abrindo o arquivo digital do caso — é por que o Dr. WW mandou isso para nós.
Parei com o copo de água na mão.
— Como assim?
— É um caso de polícia e inquilinato comum. Furto de apartamento. Briga de síndico. — Ela apontou para a tela. — A F&A não faz assessoria de condomínio. O nosso setor é para gerenciar herança de velho rico. Por que o WW empurrou essa burocracia de furto pra nossa mesa?
Beatriz entrou logo atrás de nós, carregando sua xícara. Ela parou perto da janela, observando o trânsito lá embaixo.
— O Dr. WW não é burro — Beatriz disse, sem se virar. O tom dela tinha aquela causalidade ensaiada que sempre me deixava em alerta. — Se ele botou esse inquérito na mesa de vocês deve ter algum motivo, façam valer, ele confiou esse caso a vocês.
Franzi a testa. Troquei um olhar com Sara. Ela já estava digitando, abrindo o player de vídeo com as filmagens do circuito interno de segurança que a polícia anexara ao processo.
— Câmera do corredor do oitavo andar — Sara relatou, os olhos pregados na tela. — A única via de acesso para a unidade 804. Quinta-feira, três da manhã. O horário estimado do furto.
Fui para trás da cadeira dela, debruçando-me sobre seu ombro para ver a tela.
O vídeo era em preto e branco, granulado, típico de câmera de segurança barata. Mostrava um corredor longo, portas fechadas, uma luz fluorescente piscando fraca no fundo. Nada acontecia. O relógio no canto inferior direito corria: 03:13:58... 03:13:59... 03:14:00.
— Zero movimentação — apontei. — A polícia assistiu isso mil vezes — disse enquanto colocava a mão na gaveta da mesa de Sara e roubava uma bala.
— Espere. E tira a mão da minha gaveta — Ela recuou a barra de progresso. — Presta atenção no canto esquerdo. Perto do corrimão da escada.
Ela deu play de novo.
03:14:01... 03:14:02...
Houve um pequeno salto na tela. Uma distorção quase imperceptível nos pixels, como se a imagem tivesse "engasgado" por uma fração de segundo.
— Viu? — eu disse, me afastando. — É um erro de compressão. Um glitch de arquivo, sei lá. A polícia já deve ter mandado isso para a TI.
— Não, não concordo contigo. — Sara disse, visivelmente sem expectativa e com objetivo apenas de me contrariar. Pausou o vídeo exatamente no frame do salto. Ela aplicou um filtro de contraste rápido no software. — Olha a sombra do corrimão no chão.
Estreitei os olhos. A sombra do corrimão de metal continuava estática, perfeita.
— MEU DEUS ALI!
— O QUÊ? AONDE?
— Ih, nada, pensei que fosse um gnomo, esquece.
Beatriz deu um longo suspiro de desaprovação.
— Cala boca, imbecil, e presta atenção — disse Sara enquanto me dava uma leve cotovelada na barriga. — Se fosse um erro de arquivo, a tela inteira corrompe, ou pelo menos os elementos adjacentes — Sara explicou, a voz baixando de volume de raiva assim que disse “Adjacentes”, imitando as palavras difíceis que ela sempre dizia. Ignorando isso, ela continuou. — Mas a sombra do corrimão não pisca. O brilho da lâmpada no teto não pisca. Só a textura da parede do fundo sofre um desvio. Um deslocamento de uns três milissegundos.
Senti um formigamento frio descer pela minha nuca. Era um detalhe minúsculo. Absurdo. O tipo de coisa que sempre apontaria como paranoia da Sara, que, acredite, não era nada raro, mas algo dessa vez me prendia no vídeo.
Virei o rosto para Beatriz. Ela estava de costas para nós, o reflexo dela no vidro da janela parecia sorrir discretamente.
— O delegado vai fechar o inquérito em umas duas semanas e indiciar o nosso cliente — ela falou para o vidro. — Se a resposta não está no Código de Processo Penal, jovens, qual vai ser a estratégia de vocês?
Eu odiava delegados de bairro. Odiava a prepotência de burocratas que preenchiam formulários e destruíam vidas sem olhar para os lados. Perder um caso por falta de provas, tudo bem. Perder um caso para a cegueira de um investigador, meu orgulho não permitia.
— Sara — eu disse, a voz subitamente firme. — A unidade 802, no final do corredor, está vazia, não está? Em reforma.
Ela virou a cadeira devagar.
— Está. Marcos mencionou na reunião.
— O cliente tem a chave. Nós somos os representantes legais dele. O imóvel é dele.
— Veltri… Não inventa, cara — O tom de Sara tinha aquele aviso de quem sabia que eu estava prestes a sugerir algo que flertava com a quebra da ética. — O que você está pensando?
— Não vamos pedir autorização judicial para perícia, porque isso vai demorar seis meses. E não vamos deixar o delegado indiciar o cara amanhã de manhã. Nós vamos lá. Hoje à noite.
Sara suspirou, tirando os óculos e massageando a ponte do nariz.
— Campana? Nós somos advogados, Veltri, tu é louco? Se a polícia pegar a gente lá dentro, o Ministério Público alega contaminação da cena do crime e fraude processual e a gente — desculpa a palavra — se fode.
— Cuidado com os modos, Saramago — disse Beatriz, visivelmente cansada.
— Só é crime se alterarmos algo. — Apoiei as mãos nos braços da cadeira dela. — Nós só vamos observar. O padrão de salto no vídeo acontece sempre entre 02h00 e 04h00 da manhã. Vamos usar a autorização do Marcos para entrar na unidade vazia. Ficamos no escuro. Se a parede daquele corredor tem um fundo falso, nós vamos ver com os nossos próprios olhos, tirar uma foto e empurrar na garganta do delegado amanhã.
Sara me encarou. Eu sabia que ela odiava a falta de estrutura legal do plano. Mas eu também sabia que a inteligência dela era curiosa demais para deixar um mistério passar.
— Eu até tenho uma câmera digital, mas essa ideia é uma merda, com todo respeito — ela quase cedeu, recolocando os óculos. — Entramos à uma da manhã.
Ela cedeu.
Beatriz finalmente se virou da janela. Ela caminhou até a mesa e recolheu sua xícara vazia.
— Vou com vocês — ela disse, de forma simples.
— Não precisa, Beatriz. É só uma verificação estrutural chata. — Tentei desconversar. Levar a supervisora sênior para uma infiltração no meio da madrugada soava como uma péssima ideia.
— Eu vou — ela repetiu, o sorriso polido não alcançando os olhos. — Para garantir que os estagiários não pisem onde não devem.
— Olha — olhei dramaticamente minha supervisora de cima a baixo — só cuida para não cair e quebrar a bacia, tem muitas escadas…
Beatriz apenas pegou seu material e sentou, preparando alguma documentação paralela. Enquanto Sara me olhava prestes a pular em meu pescoço.
— Se você tentar acusar esses coitados de golpe em juízo, Veltri, eu juro que peço transferência de setor — ela resmungou, desligando o monitor de tubo com um estalo seco.
— Calma, calma. O importante é que a gente ganhou tempo — pisquei para ela, pegando meu paletó no encosto da cadeira. — Vamos embora. O ar-condicionado daqui tá me dando dor de cabeça.
O sol de fim de tarde de São Paulo já estava caindo quando cruzamos as portas de vidro da F&A. O trânsito da calçada estava barulhento, cheio de ônibus antigos e pessoas correndo para o metrô. Caminhamos lado a lado em direção ao ponto de táxi, o barulho do salto da Sara estalando no concreto.
Ela passou uns dois minutos em silêncio, ajeitando a alça da bolsa no ombro, até soltar um suspiro pesado.
— Eu vi seus olhos na reunião, Veltri.
Parei por um segundo antes de continuar andando.
— Do que você tá falando?
— Não se faz de idiota. Quando o Marcos começou a chorar sobre o indiciamento. — Sara olhou para mim de lado, os olhos atentos por trás das lentes. — Você ficou encarando o peito dele por uns dez segundos sem piscar. A sua pupila sabe… “béh”. — Ela fez uma péssima imitação de cabra. Eu odiava quando ela fazia isso falando dos meus olhos.
Ajeitei o colar do paletó, meio sem jeito, por ter sido pego no pulo e levemente incomodado.
— Eu fiquei com só, sabe? O Marcos tá totalmente endividado. As linhas dele... estavam todas emaranhadas.
Sara desacelerou o passo, me encarando com uma mistura de curiosidade e genuína preocupação.
— Você acredita mesmo nisso? Sei lá, quando a gente conversa sobre isso fico me sentindo uma criança imaginando bobagens.
— É difícil de explicar, Sara. Eu… Acredito? Acho. Não sei, não dá pra lutar contra o que a gente vê, acho. Tipo… tu vê, né? Tipo... — Comecei a vergonhosamente engolir as palavras. — Não dá para negar o seu, eu literalmente vi, algumas vezes…
Sara ficou me olhando por um momento, a rigidez defensiva dela cedendo um pouco, dando espaço a uma vergonha e talvez dó. Sempre percebi que Sara tentava me levar para “o bom caminho”. Ela não entendia que meu “bom caminho” era diferente do dela.
— Você devia tomar cuidado com isso — ela disse, com a voz bem mais suave do que na sala de reunião. — Ficar olhando para as "linhas" das pessoas não vai te dar as respostas. E… Os papéis que você viu, eu não consigo acreditar, esse tipo de coisa não existe.
— Claro que não, acreditar nisso é tipo acreditar em fada do dente… Até os 15 anos…
— CALA BOCA! — Sara me empurrou de forma leve, usando desse artifício junto de uma risada para esconder o rubor que surgiu em seu rosto.
Ela acenou para um táxi amarelo que se aproximava da guia. Combinamos de nos reencontrar no centro velho às duas da manhã, com o tempo exato para a cidade esfriar e o prédio ficar deserto.
—
Antes de cogitarmos a loucura de acampar no prédio, nós tentamos o caminho certo. Ou o que a lei chamava de certo.
Às seis da tarde, Sara e eu estávamos espremidos numa sala abafada do Arquivo Público Municipal. O cheiro de mofo e papel velho era quase alucinógeno. Conseguimos a planta baixa original do edifício — um projeto de 1982, amarelado e com as bordas comidas por traça.
— Nada — Sara resmungou, com uma lupa na mão e uma lâmpada de mesa iluminando o papel. — Tubulação de água passa pelo shaft central. A fiação elétrica é externa nos corredores. Não tem vão livre entre as kitnets do oitavo andar. A parede é tijolo baiano com massa grossa.
— Não tem como alguém passar por trás da alvenaria? — perguntei, debruçado sobre a mesa de madeira gasta.
— Só se a pessoa medir dez centímetros de largura e virar fumaça — ela rebateu, jogando a lupa de lado. — Fisicamente, o prédio é um bloco sólido.
Às sete e meia, de volta à minha mesa na F&A, tentei a última cartada institucional. Puxei o fone do telefone fixo bege e liguei direto para o celular do Delegado Santana.
— Dr. Veltri? Eu tô jantando — a voz do delegado veio ruidosa, com barulho de pratos ao fundo.
— Doutor, dez segundos. É sobre o inquérito do Marcos. A gente tá levantando os laudos da estrutura do prédio. Preciso que o senhor segure o indiciamento por quarenta e oito horas pra juntarmos uma petição de diligência.
— Diligência? Veltri, você e seu cliente me passaram garantias da estrutura do prédio e agora vem com essa? Ele era o único com acesso a chave-mestra.
Pressionei as têmporas.
— O homem é um idoso assustado, Santana...
— Não deixa de ser um homem. O inquérito sobe pro Ministério Público em no máximo 15 dias com o relatório de indiciamento. Se quiserem reclamar, pedem Habeas Corpus pro juiz. Boa noite.
A ligação caiu com um bipe seco. Desliguei o fone devagar. Sara me olhava do outro lado da mesa, com os braços cruzados.
— Levei um 'não' — admiti.
— Um 'não' bem dado — Beatriz comentou da mesa dela, fechando sua bolsa de couro. Ela nem parecia trabalhar ali, de tão alheia, mas parou ao lado da minha mesa e jogou um pedaço de papel rasgado de bloco de notas. — Um conhecido meu. Trabalha no cartório de registro de imóveis da região do centro.
Olhei para o papel. Tinha apenas um número de telefone fixo e uma anotação em caneta azul: Nestor.
— Quem é Nestor? — perguntei.
— Um homem. Um contato, pode ser útil no futuro, sabe, se as coisas complicarem. — Beatriz respondeu com um tom neutro, quase entediado. — Liguei pra ele antes de ir ao banheiro. O Nestor deu uma olhada nos livros antigos do arquivo morto. O terreno daquele edifício pertencia a uma ordem familiar antes de ser loteado nos anos setenta. Ele disse que, se tem algo errado no oitavo andar, vocês não vão achar em planta baixa municipal.
Honestamente, não me senti confiante em ouvir “Um contato que pode ser útil no futuro”. Todos os meus alarmes pareciam gritar “Ilegal” e, pela expressão de Sara, ela parecia pensar o mesmo.
— E como a gente acha? — Sara perguntou, franzindo a testa.
Beatriz ajeitou o casaco.
— Entrando lá. Antes que o delegado feche a porta pro seu cliente.
—
Às duas e trinta da manhã, o silêncio do edifício no centro velho era sufocante. Entrar não foi difícil, o desespero de Marcos era tão palpável que quase conseguimos usar de escada até o oitavo andar.
O apartamento 802 cheirava a cimento seco, poeira e cera de assoalho barata. Não havia móveis, apenas lonas plásticas cobrindo o chão. A única luz vinha da rua, filtrada pelas frestas da persiana quebrada na janela da sala, desenhando faixas alaranjadas na parede.
Eu estava sentado no chão, escorado na parede próxima à porta de entrada. A porta estava entreaberta apenas uma fresta, dando visão direta para o corredor mal iluminado. Sara estava ao meu lado, ajoelhada, os olhos grudados na tela do monitor térmico que ela conectara a uma lente posicionada no vão da porta.
Beatriz estava de pé, encostada na parede oposta, no escuro. Ela não tinha olhado para a porta uma única vez.
Meus músculos estavam tensos. Minha respiração soava alta demais na minha própria cabeça. Havia algo no ar daquele lugar. Uma espécie de "pressão" que eu não sabia explicar, como a estática que precede uma tempestade forte, mas que fazia meus dentes de trás doerem.
Olhei para Sara. Ela também parecia incomodada. Mexia os ombros constantemente, como se a jaqueta estivesse apertada.
— Nada — Sara sussurrou, a voz quase inaudível. O relógio do monitor marcava 03:10 AM. — Não acredito que tu me arrastou para essa bobagem.
— Deve ter um duto no vão do elevador. — Ajustei minha postura no chão frio, falando qualquer teoria para manter elas acreditando em mim. — O delegado nem conferiu a planta baixa.
03:13.
O ar pareceu pesar. Literalmente pesar. Minha respiração travou no peito, como se o oxigênio tivesse ficado subitamente rarefeito. Uma pontada aguda atingiu a base da minha nuca, e minha visão periférica oscilou. Não era cansaço. Era puramente físico.
Agarrei o braço de Sara. Ela de susto quase derrubou sua câmera barata.
Não houve som de fechadura. Não houve rangido de dobradiça.
O que cortou o silêncio foi um som úmido. Como o ruído de barro grosso sendo rasgado.
Olhei pelo vão da porta em direção ao corredor. Bem ao lado do apartamento 804, a parede sólida de alvenaria — tijolo, reboco e tinta velha — começou a ondular. A superfície tremia como a água de um lago quando uma pedra cai, mas não havia ondulação real. Apenas uma distorção visual.
Minha garganta secou completamente. O racional pedia para eu piscar, achar que era cansaço.
Então, algo emergiu da parede.
Era um homem. Ou a silhueta de um. Ele não tinha camisa. Onde deveria haver pele, eu vi o reboco da parede. Não era uma roupa; o corpo dele mimetizava perfeitamente o ambiente ao redor, refletindo o amarelo encardido da pintura do corredor, a textura das rachaduras, a sombra projetada do teto. Uma camuflagem biológica absurda e impossível, adaptando-se em tempo real a cada centímetro que ele se movia.
Ele andava em completo silêncio. Um predador nadando no concreto.
— Veltri... — a voz de Sara era um fiapo de pânico preso na garganta. Ela estava vendo o mesmo que eu.
O homem deslizou até a porta do apartamento vizinho. Ele não usou chave. Ele simplesmente tocou a superfície de madeira da porta e empurrou o próprio corpo contra ela. A matéria cedeu. Ele atravessou a madeira maciça como se fosse fumaça, desaparecendo para dentro da unidade 804.
De repente senti cada músculo do meu corpo enrijecer. Novamente esse sentimento, tudo parecia azular e escurecer, tudo à minha volta ficava como em câmera lenta, minha pressão cada vez mais baixa. O pior momento para esse sentimento tomar conta. Via Sara ao meu lado literalmente paralisada. Lentamente tudo voltava a se mexer. Esses malditos surtos ainda me assombravam em momentos de tensão.
Meu coração martelava contra as costelas. A câmera de Sara seguiu gravando, na esperança de captar algo.
Mais dois minutos se passaram. Dois minutos de paralisia absoluta no escuro.
A porta de madeira do vizinho ondulou novamente. O homem emergiu, recuando de costas para o corredor. Em uma das mãos, ele segurava um relógio de pulso e um notebook.
Assim que os objetos passaram pela madeira junto com ele, algo bizarro aconteceu. No segundo em que o homem firmou o passo no corredor, a camuflagem da pele dele envolveu também o notebook e o relógio. O metal e o plástico instantaneamente mudaram de cor, assumindo o mesmo tom encardido do corredor, desaparecendo visualmente nas mãos dele.
Ele virou o rosto na nossa direção. Onde deveriam estar os olhos, havia apenas o padrão repetido do papel de parede da parede oposta.
Travei a mandíbula. Senti que, se respirasse, ele saberia onde estávamos.
Ele não parou. Deu dois passos para trás e afundou de volta na parede de concreto por onde tinha vindo. A superfície ondulou uma última vez e então... nada. O reboco voltou a ser reboco. Estático. Frio. Indestrutível.
O silêncio desabou sobre nós.
Eu estava congelado no chão, encarando a parede vazia do corredor. O mundo racional, as petições, os delegados, o Código Penal — tudo aquilo havia sido estilhaçado nos últimos trinta segundos. Meu cérebro tentava desesperadamente processar um homem humano que fundia a própria biologia com o ambiente e atravessava vigas de sustentação.
Olhei para Sara. Ela estava tremendo, a mão agarrada ao próprio joelho, os olhos brilhando de terror e de uma compreensão impossível.
Ouvimos o som de tecido se movendo atrás de nós.
Beatriz deu um passo à frente, saindo das sombras do apartamento. Ela não estava pálida. Não estava suando. Seus batimentos não pareciam ter acelerado um único bpm. Ela caminhou com elegância até onde estávamos abaixados e ajeitou o vinco do próprio blazer.
Ela olhou pela fresta da porta para a parede agora vazia, depois olhou para nós dois. Soltou um suspiro calmo, quase entediado.
— Sara, rasgue o requerimento de inquilinato amanhã de manhã. Veltri, prepare a defesa preliminar.
Ela nos ofereceu um meio sorriso, iluminado debilmente pela luz da rua.
— Agora nós temos um caso.