Detestava esse calor, em plena manhã de segunda, mesmo com as janelas fechadas, impedindo qualquer raio de sol de tocar em mim ou em minha cama, o calor passava excruciante, me fazendo suar como um porco, mesmo sem cobertor e com um pijama bem menor que o meu tamanho.
O som do ventilador era relaxante, mas já estava na hora de admitir que não era o suficiente para esfriar esse pequeno quarto que eu entregava meu corpo todas as noites.
Iniciei uma desejada sequência de movimentos para me levantar, ao apoiar minhas mãos no colchão senti o lençol encharcado e nojento. Não seria só eu que precisaria de um banho.
A mescla do calor e os movimentos rápidos, junto da bebedeira noturna de ontem, não estavam fazendo bem para minha barriga, nada que me fizesse vomitar, mas não me agradava ver meu rosto acabado. Pelo menos minha barba seguia impecável. O banho foi rápido, eficiente, finalizei passando uma cera no cabelo, pronto para o trabalho.
Todo dia me frustrava com essa kitnet universitária barata, para a faculdade foi um ótimo local, mas recentemente tinha se tornado insuportável, tudo era muito colado e quente, os vizinhos eram barulhentos, precisava logo de um caso bom, uma boa grana pra sair daqui.
Minha falta de noção só piorava as coisas, nem lembrava direito, mas ontem ao entrar provavelmente bem alterado saí batendo em tudo, senti uma dor forte no joelho, e vi alguns porta-retratos caídos em cima da escrivaninha do lado do meu sofá, eu com certeza não os derrubei de propósito, esperava não ter quebrado eles.
Não me considerava muito sentimental, mas dava bastante valor às minhas lembranças. Os dois porta-retratos caídos, senti um frio na espinha, sabia que esses porta-retratos tinham sido caros, um deles foi presente da Sara, ela ia me matar se descobrisse que eu quebrei… Mas para minha sorte, o dela estava intacto.
A data amarela era a coisa que mais chamava atenção, a câmera dela marcava a data de forma comicamente grande na foto, a foto de nós dois à frente de uma árvore de natal seria fofa, se não fosse “25/12/2006” ENORME no canto da foto, o último natal tinha sido divertido, mas estava ainda mais quente que hoje, detestava verões.
Percebi para minha tristeza que na segunda foto não tive a mesma sorte, bom, ossos do ofício, esse porta-retrato e essa foto eram ancestrais, então me surpreendia não terem quebrado até hoje, o vidro ficou bem rachado, mas via uma certa riqueza poética em como ficou, o vidro separou exatamente cada um dos meus irmãos da foto, 5 era muita gente, mas a rachadura ficou bem conceitual.
Tiramos essa foto quando o pai construiu uma casa na árvore, ia bem pouco lá, não brincava muito com eles, por isso eles eram bem mais morenos que eu… só por isso. Uma das poucas vezes que fui na casa da árvore ela caiu, todos meus irmãos se machucaram bastante, menos eu.
Menos eu. Sorte é… eu sou um cara sortudo.
Chega, coloquei o porta-retrato em cima da mesa, depois eu concordaria com isso. Coloquei meu paletó sem perder tempo, perdi mais tempo que gostaria procurando minhas chaves em uma bagunça que deixei ontem à noite, enfim, ainda estava atrasado quando saí dessa kitnet calorenta.
Atravessar o maldito trânsito de São Paulo sempre era uma tarefa hercúlea, mas eu já me considerava profissional nisso, agradecia a todos os deuses que eu lembrasse o nome pelo estacionamento exclusivo da firma.
Desliguei o motor e me dei cinco segundos antes de abrir a porta e encarar o choque térmico. A fachada da Forenom & Aster se erguia como um monólito de vidro fumê e aço escovado, cortando o céu abafado de São Paulo. Era o tipo de arquitetura feita para lembrar quem estava do lado de fora de que lá dentro corria dinheiro de verdade.
Subi os degraus do subsolo no piloto automático. Meus pés conheciam a distância exata entre as placas de granito da entrada. A porta automática deslizou sem emitir um único ruído, e o ar-condicionado central me atingiu no peito como uma lâmina congelante. O choque de temperatura fez minha pele suada arder sob o paletó, mas o alívio foi imediato.
Aproximei o crachá do leitor. Bip. A luz verde acendeu, a catraca metálica girou suave e o segurança do turno da manhã só fez aquele aceno rápido de cabeça que trocávamos todos os dias. Nenhuma palavra necessária.
Atravessei o saguão principal, onde o som dos meus sapatos ecoava seco contra o mármore polido. Entrei no elevador social da ala leste — o painel espelhado me devolveu a imagem do meu rosto e, felizmente, a cera segurou o cabelo no lugar certo. O trajeto era uma coreografia que decorei no meu primeiro mês.
As portas se abriram rápido no terceiro andar: Direito Tributário e Societário. Um mar de divisórias baixas, luzes brancas de LED e dezenas de estagiários de gravata frouxa digitando freneticamente sob a vigilância de monitores duplos. Um moedor de burocracia silencioso.
No quarto andar, o cenário mudou. Contencioso Cível. Era o andar mais barulhento, a engrenagem bruta da firma: telefones tocando em surdina, advogados juniores andando rápido demais pelas alamedas com pastas pesadas debaixo do braço e o cheiro inconfundível de café queimado flutuando no ar. Cumprimentei um associado qualquer com um gesto vago e continuei o trajeto.
As portas se abriram finalmente no quinto andar. Os carpetes se tornaram escuros, o cheiro de café era quase nauseante. O andar era amplo, dominado por uma área movimentada de consultoria corporativa, mas no fundo, dobrando à esquerda após uma divisória de vidro fosco, ficava o nosso canto, a placa preta com dourada já estava basicamente tatuada na minha mente: “Sucessões, Trusts e Patrimônios Especiais.”
Abri a porta, zero surpresa, isolados como sempre, espremido e com pouco espaço, a equipe seguia sendo minúscula, era engraçado, mas me agradava, era confortável. O que me incomodava era ver apenas Kessler e Tati em suas mesas, nada contra Tati, mas não lidava bem com Kessler, principalmente sozinho…
— Bom dia, queridos. Cadê a Sara? — Espero que minha simulação de animação tenha sido convincente, mas pela expressão de Kessler já sabia que não foi.
— Não vi a Saramago nem a Trasthe. Não costuma atrasar, logo estão aí — Kessler me respondeu sem nem olhar em meu rosto, enquanto tirava uma mecha negra de seu cabelo da frente dos óculos. Ele mexia em um colar dourado que usa desde que eu o conheci. Ele sempre guarda quando alguém se aproxima dele. Ele fez exatamente isso.
— Vocês estão bem? Saíram bem tarde ontem, e a Sara nunca atrasou — Tati, como sempre gentil, foi a primeira a girar a cadeira na direção de qualquer um que entrasse no escritório. — Inclusive queria conversar contigo e com ela sobre algumas coisas que não entendi bem do caso do Marcos.
Não lembrava se eu era assim ano passado, mas Tati era uma júnior muito empenhada, tinha até medo de como ela ficaria quando terminasse a faculdade esse ano. Se bem que não mudei muito do ano passado pra esse.
— Fala o que quer saber, até elas chegarem eu te dou um auxílio — disse, me sentando ao lado da mesa da novata.
— Eu tava revisando a tese que você e a Sara deixaram ontem — Tati começou, virando um pouco a tela do monitor para mim. — Entendi a parte do cível, mas e a mentira da chave? Se o delegado usar que o Marcos mentiu sobre ter perdido a chave-mestra, isso não abre margem pra acusação?
Antes que eu pudesse responder, a voz arrastada do Kessler veio lá do fundo, acompanhada pelo ritmo pausado e pedante das teclas dele.
— Obviamente não — Kessler disse, sem nem tirar os olhos da tela. — O fato de a chave ter ficado retida é apenas uma falha administrativa do condomínio. Isso não se confunde com um crime. Não há nenhuma relação de causa e efeito entre essa retenção e o furto, até porque não há sequer provas materiais da infração dentro do imóvel. — Enquanto falava dava para ver ele cutucando seu colar por baixo do paletó.
Tati piscou duas vezes, tentando processar a sopa de letrinhas. Olhei para ela e dei um meio-sorriso, balançando a cabeça.
— Caralho, Kessler, escolheram bem, deu nome hein, fala português, cara. Tati, a mentira da chave é só uma mancada de síndico, não uma prova de roubo. O Marcos mentiu por pressão e medo, e também nem necessariamente ele mentiu, às vezes o medo e o interrogatório só fizeram ele confundir as coisas. Em termos simples, sem prova material de que ele usou a chave pra roubar, a mentira dele não vale nada no processo. O inquérito é fraco, a acusação é furada e a nossa tese tá blindada.
— Ah... entendi! — Tati assentiu, parecendo aliviada. — Então é um caso ganho?
— Um passeio — respondi, tentando parecer relaxado. — O Marcos sai limpo e o juiz tranca o processo antes do meio-dia.
E o pior é que era verdade. Pela lei, a estratégia inicial que nós montamos — e que o Kessler tanto se orgulhava de ter ajudado a estruturar — era absolutamente impecável. Era uma vitória garantida, fácil, do jeito que o escritório gostava.
O que tava me corroendo por dentro, fazendo meu estômago dar nós enquanto olhava pra cara presunçosa do Kessler, era o que vinha a seguir.
Aquela tese perfeitinha ia pro lixo. Depois do que eu e a Sara tínhamos visto às três da manhã, mesmo ganhando o caso aquele cara bizarro da parede ia seguir roubando, a gente não ia mais seguir o plano fácil. A Sara ia querer mexer no processo para tentar provar a existência de um terceiro invadindo o prédio por meios "invisíveis", tudo para fechar o cerco para o ladrão. Vai dar certo, mesmo sendo arriscado é o necessário, tá bem estruturado, vamos vencer isso.
Levantei da mesa de Tati, enquanto ela freneticamente começava a anotar tudo que disse, enquanto observava isso com um certo orgulho da novata, a porta do escritório se abriu, com duas figuras, finalmente Beatriz e Sara.
— Tá fácil agora, né, dá para chegar o horário que quiser — ver a cara da Sara com esse tipo de provocação era sempre incrível, principalmente quando não fazia sentido, afinal elas estavam no máximo 5 minutos atrasadas.
— Ai, cala boca, Veltri. Bom dia, gente. — Sara fez um sinal atencioso com a mão, o mesmo que Beatriz fez logo em seguida, sem dizer nenhuma palavra.
— Sara, vem à minha mesa, preciso falar contigo do caso.
Se mantendo quieta, ela apenas se sentou na frente da minha mesa, era visível que estava apreensiva. Via por cima dos ombros dela Beatriz sentando em sua mesa, enquanto conversava algo com Kessler.
— Minha querida, vai falar para eles, né? Não sei se vão engolir bem essa coisa da mudança de estratégia.
— Alguma coisa eles têm que aceitar, acho… Fala tu, você fala melhor que eu. Além disso, a Beatriz viu a mesma coisa que a gente, ela sabe que não dá para seguir com a mesma estratégia. — Isso era fato, Beatriz não era idiota, ela sabia que se a gente só vencesse o caso ele seguiria roubando normalmente, mas acho que ainda não era a melhor hora de falar.
— Seguinte, vamo juntar com eles, e dar uma revisada nos documentos dos objetos roubados, li bem por cima só, quem sabe montar um padrão. Isso ajuda a pedir uma vistoria urgente na Justiça Cível e mostra que o jeito que o crime aconteceu no processo criminal é diferente do normal. Se a gente provar que os objetos não têm relação com o uso de uma chave-mestra, fica muito mais fácil mostrar que o Marcos não tem culpa.
— Claro… Claro, vamos lá, enquanto isso vou preparando a petição.
Bati o paletó, apenas pelo hábito, e me levantei, querendo chamar atenção do resto dos afiliados.
— Queridos, a gente gostaria de revisar alguns documentos com todo mundo, vamos pra mesa de centro?
As reações eram padrões, Beatriz e Kessler apenas iam, com concordâncias sutis, Tati meio desajeitada ia mais rápida, querendo mostrar serviço, enquanto eu e Sara levávamos os documentos.
Eu particularmente adorava nossa mesa de centro, era uma mesa de reuniões reduzida, ela ocupava quase todo espaço do escritório, mas ainda assim era carismática, com mais lugares vazios que ocupados, nos preparamos, Sara tomou a frente.
— A gente gostaria de revisar os itens roubados, talvez montar um padrão, pode ser importante. — Percebi uma expressão confusa de Kessler.
— Isso é mesmo necessário? Isso é pro criminal com o delegado? Isso ajuda em alguma coisa? Não tem prova de nada, acho que isso não é necessário, nem pros processos civis — Antes que ele continuasse Beatriz calmamente tocou em seu braço, quase que pedindo para que ele ouvisse. Ele apenas se calou, arrumando seu coque que estava solto.
— Bom — disse depois de uma tosse para chamar atenção — Os itens roubados foram os seguintes: Dois Notebooks, de apartamentos diferentes, 6 relógios, todos mecânicos, nenhum digital. Duas malas, as duas de couro, 4 fivelas, todas “Ornamentadas” sabe, fivelas com desenhos, tem fotos nos documentos, dois pares de sapatos e duas botas, todas de couro, por fim uma pulseira de ouro.
Era difícil ver um padrão logo de primeira, desde a primeira vez que vi sempre me pareceram apenas itens caros.
— Pelo o que li foram roubados de apartamentos apenas do sétimo e oitavo andar, curioso, se fosse o síndico ele poderia roubar do prédio inteiro em teoria, além que a câmera desses dois andares funciona, então não tem muita desculpa — Kessler falou lentamente, medindo as palavras para ser entendível.
Enquanto isso Tati tentava falar, mas saía com uma voz baixa e tímida:
— São itens bem caros, né? Os notebooks são por padrão, mas até os relógios e as fivelas ele parece escolher as mais caras que conseguiu achar.
— Bem ornamentados — Beatriz adicionou, serena como sempre.
— Curiosamente — eu e Sara dissemos em uníssono, logo me calei e deixei ela tomar a frente — Os relógios eram bem baratos até, os apartamentos que tiveram os relógios roubados tinham itens mais caros, inclusive outros notebooks. Os relógios eram personalizados, mas bem baratos.
Me irritava o visível desinteresse de Kessler, que olhava para os documentos por cima de qualquer jeito, e ainda dizia com ar de superioridade:
— Quem sabe ele não conseguia levar os notebooks, os relógios são menores, mais fácil que ficar levando notebooks, e mais fácil de esconder.
— Acho que esconder não é um problema para ele — digo sem pensar, tendo o pé pisado por Sara.
— Conhece ele, Veltri? — provocou Kessler antes de ser interrompido por Beatriz.
— Quem quer que tenha roubado parece realmente ter um padrão, claro, valor parece ser uma prioridade, mas as fivelas e relógios eram bem baratas, e ignorou itens mais caros nos apartamentos, parece um gosto por coisas personalizadas ou ornamentadas… Curioso — Beatriz parou, respirou e deu um gole em um chá que nem vi quando ela se serviu, e continuou — Mas qual motivo de trazer esse tópico? Talvez tenha algo que queiram compartilhar com a mesa?
Detestava quando Beatriz agia assim, seguia com raiva dela desde ontem, essa idosa fria me colocando em uma saia justa, de novo.
Via que Sara estava tão nervosa quanto eu, e ia novamente sobrar para mim tomar a frente e dizer o que tinha que ser dito.
— Não sei, Beatriz… Tem? — Talvez eu tivesse me acovardado.
Kessler e Tati observavam confusos, bem confusos.
— Saramago, Veltri, por que não contam a nossos colegas sobre nossa visita ao prédio ontem.
Eu quase pulei da cadeira, enquanto Sara instintivamente cerrou os punhos, e fez uma expressão que conhecia bem, algo que queria se tornar indignação, mas por vergonha parava no meio do caminho, se tornando desespero.
— Pera, pera aí, vocês… Vocês FORAM NO PRÉDIO? — Mesmo querendo enterrar minha cabeça, a expressão de Kessler era hilária.
— Anh… Isso é legal? Tipo, na lei…
— Calma, Tati, o síndico permitiu, a gente só queria ver se descobria algo — Tentei segurar a bomba antes de explodir, já que ficou claro que Sara não diria nada tão cedo.
— E descobriram? A Investigaçãozinha de vocês descobriu algo? Isso tem a ver com essa revisão de documentos?
Me mantive em silêncio, olhando firme para Beatriz, que apenas fez um sinal para todos se acalmarem. Respirando fundo, eu e Sara nos ajeitamos na cadeira, respiramos fundo, e encaramos Kessler e Tati. Antes da primeira palavra, Beatriz tomou a frente.
— Sabe, Senhorita Andrade — Olhei para Tati de cima a baixo — Nesse momento gostaria que esperasse lá fora para essa conversa.
Tati, assustada, sem saber como reagir, apenas saiu do escritório deixando nós quatro.
— Vamos, podem falar — Afiada como sempre, Beatriz.
— Bom… — Sara tentou, realmente tentou, mas vi que não ia sair nada de esperasse ela falar.
— Nós sim, fomos até o prédio, no oitavo andar, ficamos nós três lá até de madrugada e bom… Por volta das três da manhã, cara, vai parecer loucura, mas eu juro — Eu não queria mesmo reviver esse momento, principalmente porque falar isso sério para alguém era bem ridículo — Mas um homem, magro, sem camisa saiu da parede, camuflado, entrou no apartamento da frente, atravessando a parede, e voltou com um notebook e um relógio, que na mão dele também estavam meio camuflados sei lá, devia ser alguma ilusão de ótica, ou alguma tecnologia, talvez intoxica-
Kessler mudou sua expressão, e falou uma única palavra que me desmontou.
— Wow. Então é um desses casos. — A expressão serena dele me irritou profundamente. — Por isso que estão nesse setor então. Ok, já devem ter conversado com a Beatriz, qual vai ser a estratégia então. — Ele disse esse absurdo enquanto naturalmente enrolava seu colar em seus dedos.
Eu virei incrédulo para Sara. Ela estava com o rosto virado para baixo, direto nos documentos na mesa. Senti uma pressão no peito, quase como uma tontura, exatamente como aquela vez, tudo pareceu ficar escuro, azulado, estou zoando, tudo ficou lento. Muito lento, paralisado, totalmente estático. Não conseguia mover o rosto ou respirar, mas não precisava. Esse momento durou 2 ou 3 minutos, e tudo começou lentamente a voltar.
Eu dei três passos para trás, desacreditado.
— Para porra, para, de novo essa merda?! Mais um reagindo assim. UM HOMEM SAIU DA PAREDE, isso não é normal porra.
— Calma, Veltri… — Sara apertou meu braço, tentando diminuir o meu volume de voz, me acalmar.
— Não, pô, cês tão tirando sarro da minha cara — Esfreguei as mãos no meu cabelo. — Vocês não podem acreditar nisso, principalmente no que a Beatriz diz, se sabe disso, Kessler?
— Veltri. Se vocês tão aqui é por um motivo, o WW confiou em vocês para esse setor. Senta, vamos conversar sobre esse caso.
— Para… — Sara cochichou para si mesma.
— Gente, o que é isso? Isso é um culto? Eu entrei em um culto que acredita em semideuses? Vocês acham que um DEUS desceu DOS CÉUS pro interior da PORRA do Rio Grande, pra meter em minha mãe? Isso não pode ser real, eu sou um ADVOGADO, não o Perseu.
— Esse é um semideus pelo menos.
— Beatriz, não fode.
Eu me joguei na cadeira de qualquer jeito, com as mãos no rosto, Sara fez semelhante, mas encarando o chão.
— Vocês podem acreditar no que quiserem. Podem sair se quiserem, são bons advogados e vão ter recomendações incríveis da nossa firma. Mas, no fundo vocês sabem… Talvez sejam diferentes da família de vocês… talvez tenham se machucado menos na infância que amigos próprios… Ou talvez façam algo “Inexplicável” que sempre quiseram ver como mentira. Talvez seja mais fácil aceitar que isso seja o “Dom” de vocês. Vocês ainda são advogados. Mas, advogados especiais.
Um silêncio mórbido tomou o escritório, comecei a sentir um latejar na frente da testa, essa conversa era estressante, muito estressante.
Não parecer com a família… Não machucar… Dom…
A curiosidade era forte, talvez só uma vez. Eu pisquei, diferente. De repente, tudo ficou turvo por um segundo, então vi, saindo do meu corpo até Sara, uma linha verde, grossa e nova… Sempre vi essas linhas, nunca quis pensar sobre, mas…
Ligação. Favor. Afeto. Verde.
Kessler tinha uma linha laranja ligando ele a Beatriz, ele devia um favor a ela, ou ela devia a ele. Mas… Um susto, um choque, algo que nunca tinha visto. Inúmeros fios roxos, de todos os lados, saíam do corpo de Beatriz, conectando ela à estrutura do prédio da firma. O choque dessa visão era tanto que novamente pisquei. Voltei à normalidade.
— Todos temos nossos segredos — completou Beatriz.
Sara, finalmente, decidiu falar.
— Nós… Isso não pode ser explicado, mas pensamos em algo para resolver isso do caso.
— Boa, o de sempre então? Vamos fazer o que? tentar pegar o cara da parede? — Kessler disse, para minha surpresa.
— Que? Claro que não, isso é literalmente um crime.
— Talvez seja necessário… Coisas extraordinárias exigem ações extraordinárias. — Beatriz disse em sequência de Sara, colocando nela uma expressão que se aproximava de raiva, mas ainda distante.
— Não. — Disse firme — Já decidimos algo, mudamos a estratégia, para algo na lei, que vai encorajar o ladrão.
— A gente vai pela via cível — Sara assumiu o tom de voz profissional, endireitando a postura, embora as mãos ainda estivessem levemente trêmulas sobre a mesa. — Esquece a tese simples de ausência de autoria. Vamos ingressar hoje com um pedido de Produção Antecipada de Provas na Vara Cível, exigindo uma Perícia Estrutural de Alvenaria e Lajes no condomínio.
— Uma perícia de alvenaria? — Kessler franziu o cenho, nitidamente incomodado. — Pra quê?
— Pra alegar vício oculto de construção — eu completei, tomando a frente antes que o Kessler começasse a palestrar. — A nossa tese oficial pro juiz vai ser que existe um vão livre não mapeado na tubulação ou uma falha de estrutura por onde um invasor externo tá entrando sem precisar tocar em porta ou janela. Sem chave-mestra, sem cumplicidade do síndico. Se o juiz deferir a perícia judicial, a gente empurra a responsabilidade pra construtora, blinda o Marcos no cível e ainda conseguimos trancar o criminal com o delegado.
— Isso é ridículo — Kessler atalhou imediatamente, ajeitando os óculos com irritação. — Vocês estão trocando uma tese defensiva perfeita e simples por uma aventura pericial que só vai arrastar o processo por meses e—
— Kessler. — A voz de Beatriz cortou o ambiente, baixa, mas com um peso de chumbo que fez o silêncio voltar no mesmo segundo. Ela pousou a xícara de chá sobre o pires com um estalo limpo. — O caso é da Saramago e do Veltri. A estratégia é deles. Se eles acreditam que o caminho cível pela perícia estrutural é a melhor forma de proteger o cliente e expor o que precisa ser exposto... deixe que ajam.
Kessler encarou Beatriz por dois segundos, fechou a boca e apenas deu um aceno seco de cabeça, insatisfeito.
— Se der errado — ele resmungou baixinho —, o prejuízo vai ser todo na conta de vocês.
O resto do dia foi tenso. Bem tenso, Tati auxiliou eu e Sara a finalizarmos a petição e a estratégia de forma bem sólida. O dia inteiro foi apenas isso, demorado, tenso e estressante. Não queríamos pensar naquela conversa, aquilo não era verdade, não tinha como ser.
Mesmo com horas extras, o caso estava sendo montado, a petição estava preparada. Me despedi de Sara sem muito falatório, ela não parecia bem depois daquela conversa e toda essa situação.
O escritório estava bem vazio nesse horário. Organizei as coisas do setor, guardei documentos, organizei algumas planilhas. No início era solitário e lento. Até que uma figura inesperada abriu a porta.
Um homem jovem, por volta da minha idade, a pior pessoa que queria ver hoje.
— Boa noite, Sales. Precisa de alguma coisa ou esqueceu o caminho do teu setor?
— Calma, Veltri, que hostilidade, ficou até tarde hoje também? Deve ter sido tenso, Beatriz antes de ir embora pediu pra mim te ajudar, eu que não vou recusar um pedido dela.
Ele se aproximou e começou a organizar a mesa de Kessler. O silêncio era vergonhoso para os dois.
— Esse Kessler é bem metódico, não é?
— Você não acha meio errado tocar em documentos de um associado de outro setor?
— Prefere que eu deixe pra tu organizar tudo sozinho? Tu é muito mal-agradecido.
Bom, mesmo não gostando da presença de Daniel sozinho comigo à noite, não podia negar que qualquer ajuda era bem-vinda. E meio que eu queria conversar, com qualquer um que fosse, tirar coisas da minha cabeça.
— Sabe, Sales, deixa eu te perguntar. O que você acha que uma pessoa tem que ser para virar um bom advogado?
— Hm… Complexo, bem difícil, acho que a pessoa tem que ser ousada, não, não, confiante acho, ou… Hm, talvez proativa.
— Não sei porque ainda te pergunto as coisas.
— Para de ser chato, Veltri. — Disse ele finalmente terminando de organizar a mesa — Acho que a pessoa tem que ser diferente, se destacar, usar tudo que pode sempre. Ela tem que ser singular.
— Singular?
— Singular.
Singular.