Eu estava havia cinquenta e dois minutos diante do espelho de uma loja na Rua apertada de algum bairro de São paulo que esqueci o nome, e ainda não tinha decidido nada.
Sei que foram cinquenta e dois porque a vendedora me avisou, com toda a educação do mundo, quando passou pela terceira vez:
— Se a senhora quiser, eu deixo as peças separadas no balcão.
Ela se chamava Jéssica. Eu tinha três cabides nas mãos.
A blusa cinza combinava com tudo que eu já tinha no armário, e esse era justamente o argumento contra ela. A azul-petróleo era bonita, e bonita era o problema: se eu comprasse e me arrependesse, o arrependimento seria meu, porque eu teria escolhido. Já o blazer verde-musgo minha mãe descreveria como "ousado", naquele tom de quem não está elogiando.
Eu conseguia ouvi-la. Nítido. Numa loja do centro de São Paulo, a quase mil quilômetros da casa dela.
Eu não sou indecisa. Só acho que sempre existe uma resposta mais certa, e que qualquer pessoa sensata a encontraria se olhasse por tempo suficiente. Então eu olhava.
— Saramago!
A voz veio da porta, alta demais para uma loja tão silenciosa. Duas clientes se viraram. Tati vinha na minha direção com a bolsa batendo no quadril, o chanel preto balançando e os óculos escorregando pelo nariz.
— Combinamos às três! São três e cinco! Você ficou aí me esperando ou já entrou e ficou sofrendo sozinha?
— Cheguei mais cedo — admiti. — Para adiantar.
Tati olhou para os cabides, para mim, para o relógio na parede e, por fim, para a cara de Jéssica, que devolveu um sorriso de quem pedia socorro.
— Aham. Adiantou muito. Dá aqui.
Ela tirou os três cabides da minha mão sem nenhuma cerimônia, estendeu a blusa azul contra o meu peito e me virou de frente para o espelho segurando meus ombros. Ficou dois segundos em silêncio.
— Essa. E o blazer você leva, mas usa depois, com calma. Cinza você já tem cinco iguais. Vai provar.
— Você acha que...
— Acho. Vai.
Fui. E foi quase ridículo o alívio que senti, um peso saindo dos ombros que eu nem sabia que estava carregando. Não me perguntem por quê. Eu sempre achei que aquilo era só ser cuidadosa. Ao mesmo tempo fiquei surpresa, não estava acostumada com esse comportamento de Tati, mas fora do escritório ela aparenta ser bem menos tímida.
Tati não fez do gesto nada especial. Já tinha se virado para a Jéssica e perguntava sobre o tamanho de uma saia. Ela nunca pareceu perceber que aquilo era diferente de qualquer outra amiga ajudando a outra.
Eu percebia. Só não gostava de olhar muito para essa parte.
Quinta-feira, 15h10.
O provador tinha uma cortina pesada, cor de vinho, e um espelho que me deixava com cara de doente. A blusa azul ficava bem. Fiquei parada, ajeitando a gola, quando Tati falou do outro lado da cortina:
— Sara, posso te perguntar uma coisa do caso, sem você dar a resposta técnica?
— Impossível.
— Tenta.
Suspirei.
— Pergunta.
— Protocolamos segunda, e hoje já é quinta. Nem o juiz respondeu, nem os inquilinos. Nem um pio no sistema. Isso é bom sinal, né?
Eu sorri, mesmo sem ninguém ver.
Segunda-feira, dia da petição. Eu ainda sentia nos dedos a rigidez de ter digitado até tarde, no escritório vazio, o pedido que Veltri e eu tínhamos inventado numa mesa de bar com meia dúzia de doses na cabeça. Produção antecipada de provas. Perícia estrutural. Vício oculto de construção. Cada frase me parecera uma boia salva-vidas, uma solução possível para uma coisa impossível.
— Não é bom nem ruim, Tati — respondi. — O cartório precisa juntar a petição aos autos, depois manda concluso para o juiz, o juiz despacha, os advogados da outra parte são intimados... Tudo isso leva dias. Processo faz silêncio o tempo todo. Não quer dizer nada.
— Eu fico olhando o sistema toda hora.
— Não olha toda hora.
— Olho.
Rimos as duas. Fiquei olhando meu reflexo com a blusa azul e pensei, com uma clareza que me assustou um pouco, que aquele era o primeiro momento em três dias em que eu não tinha a imagem da parede do corredor na cabeça.
O celular vibrou dentro da bolsa, pendurada no gancho.
Eu ia ignorar. Mas vibrou de novo, e de novo, com aquela insistência de quem não vai desistir. Peguei o aparelho.
Veltri.
— Alô?
— Sara. — A voz dele estava seca, sem nenhum humor. Isso, por si só, já me deu um frio na barriga. — O Santana me ligou.
— O delegado?
— Ele leu a petição.
Fiquei parada, com a mão ainda na gola da blusa.
— Como assim leu? Ela está no cível. Ele não tem...
— Não interessa como. Ele leu. Me mandou ir na delegacia agora, e eu estou indo. — Escutei o barulho de trânsito, buzina, alguém gritando. — Sara, escuta. Vou deixar a ligação aberta. Vai ficar no bolso do meu paletó. Tu só escuta e não fala nada.
— Veltri, isso é...
— Eu sou parte da conversa, não é grampo. É gravar a mim mesmo. Depois a gente discute ética. Fica na linha.
Não deu tempo de responder. Ouvi um farfalhar de tecido, um som abafado, passos, uma porta. Fiquei ali, no provador, com o celular colado no ouvido, sem saber se devia me sentar.
Pela cortina, a voz de Tati:
— Tudo bem aí?
— Tudo — menti. — Já vou.
Escutar através do bolso de um paletó é como ouvir uma conversa debaixo d'água. Mas algumas frases chegaram inteiras.
Cadeira arrastando. Não conseguia ver obviamente, mas imaginava o delegado com uma postura imponente.
— Doutor Veltri. Senta.
— Delegado, se o senhor me permitir explicar...
— Explicar o quê? Eu li. — Barulho de papel. — Chegou ontem à noite na minha mesa, mandado pelo Doutor Bragança. Advogado dos três moradores. Muito educado. Achou que eu ia me interessar.
— É uma peça cível. Tem outro objetivo...
— Página quatro. — A voz do Santana era tranquila, e isso era pior do que se ele estivesse gritando. — "A fim de verificar a existência de vício oculto de construção ou vão livre não mapeado, por onde terceiro poderia acessar as unidades sem o emprego de portas ou janelas." Li certo?
Silêncio, eu sentia um suor frio descer pelas minhas mãos, minhas pernas bambearam.
— É uma tese de defesa — Veltri disse, e eu conhecia aquele tom, o da lábia começando a rodar. — Se existe outra forma de entrar, o senhor não pode dizer que só o Marcos tinha acesso...
— Doutor. Semana passada o senhor me ligou às oito da noite, durante meu jantar, pedindo que eu segurasse o indiciamento. O senhor e o seu cliente me garantiram a segurança do prédio. Portaria, fechadura padrão, câmeras. Tá no depoimento. — Um estalo, provavelmente uma caneta na mesa. — Agora os senhores dizem, por escrito, à Justiça, que o prédio tem buraco na parede. Ou os senhores mentiram para mim, ou estão mentindo para o juiz.
— Nós não...
— O prédio é de 1982 e o seu cliente é dono desde os anos noventa. Ele tem a chave de todas as portas e, segundo os senhores, existe um caminho escondido que ninguém enxerga. Quem conhece esse prédio melhor do que o dono? — Ele fez uma pausa. — Vocês mesmos me entregaram a segunda chave.
Eu tinha parado de respirar.
Ouvi um ruído baixo, Veltri tentando dizer alguma coisa e desistindo no meio.
— No mínimo negligência — Santana continuou. — Um síndico que sabe de falha estrutural e não conserta. No máximo, é quem usa a falha. Eu ainda não decidi. Mas vou fechar o relatório semana que vem. E vou chamar o Marcos segunda de manhã, agora como investigado.
— Delegado, uma perícia leva tempo, se o senhor esperar o laudo...
— Perícia? Seis meses? Os senhores pediram perícia para ganhar seis meses? — Ele riu, curto. — Eu não trabalho para ganhar tempo de advogado, doutor. E tem mais uma coisa. Diz para o seu cliente trazer segunda o boletim de ocorrência da chave perdida.
Foi como se alguém tivesse abaixado a temperatura do provador.
— O... o quê?
— Um cidadão que perde a chave-mestra de um prédio inteiro registra ocorrência. Troca as fechaduras. Chama chaveiro. Eu quero o BO, quero a nota do chaveiro e quero o livro de portaria dos últimos trinta dias. E as filmagens de todos os andares, não só a da quinta-feira. — O barulho de cadeira. — Boa tarde, doutor. Vai para casa, come alguma coisa.
Passos, uma porta, o barulho abafado do corredor. Vários segundos de nada.
Então, muito baixo, quase para dentro do próprio peito, a voz do Veltri:
— Porra.
E depois, mais baixo ainda:
— Sara, tu ouviu?
— Ouvi — sussurrei.
Foi a primeira vez que ouvi Veltri sem resposta pronta.
— A gente fez uma corda pra ele — ele disse. — E entregou.
— Vem para o... — comecei, mas a cortina se abriu de repente.
Tati estava lá, pálida, o celular na mão, o sistema do tribunal aberto na tela.
— Sara. Saiu uma coisa no cível.
Peguei o celular dela. Li com o meu ainda no ouvido, sem me lembrar de desligar.
Havia duas movimentações. A primeira era de quarta-feira, às 16h47: Petição juntada — Aditamento ao pedido de tutela de urgência. Autor: Cecília Braga e outros. A segunda, de meia hora antes, dizia apenas: Conclusos para decisão.
Abri a primeira. Eram quatro páginas. Na segunda, cortada e colada, com destaque em negrito, estava a frase que eu mesma tinha escrito segunda-feira à noite.
"...vício oculto de construção ou vão livre não mapeado..."
Por baixo, o advogado dos inquilinos tinha escrito com toda a serenidade de quem encontrou ouro:
"Ou seja, a própria parte ré admite, em petição própria, que o imóvel pode apresentar falhas estruturais de segurança. Há risco concreto de novos furtos e risco concreto de a parte ré se ver incapaz de arcar com os danos. Requer-se o bloqueio imediato de valores até o limite de R$ 180.000,00, correspondente à soma das rescisões e danos materiais pleiteados."
Li duas vezes, porque da primeira vez as palavras escorregaram. Por pouco o próprio celular não escorregou.
Eu não conseguia entender nada como uma sequência. Só via a ordem dos dias em fila, uma atrás da outra, e cada elo ficava claro demais, agora que tinha acontecido.
Segunda: eu protocolo. Terça: o cartório junta a petição aos autos, sem ninguém prestar atenção. Quarta: o advogado dos inquilinos lê, acha, usa. À noite, manda cópia ao delegado, pelo mesmo motivo, porque quer ver o síndico preso. Quinta: os dois lados, ao mesmo tempo.
Quatro dias. Processo é lento, isso todo mundo repete. O que ninguém diz é que, de vez em quando, alguém decide que não dá mais para esperar, e então tudo anda de uma vez.
— Conclusos para decisão — repeti, em voz alta.
— É ruim? — Tati perguntou.
— Significa que o juiz está com o processo na mesa. Agora. Nesse momento.
Tirei a blusa azul, enfiei a minha de volta, joguei a nova em cima da cadeirinha.
— Tati, eu preciso ir. Você pega o metrô, vai para o escritório e abre a minuta de um pedido de reconsideração. Só o esqueleto, eu termino quando chegar.
— Eu pago a blusa!
— Eu pago depois!
— Sara!
Já estava na porta.
Quinta-feira, 15h48.
Meu carro estava numa garagem a duas quadras. Corri de salto, o que nunca deveria ser feito, com a bolsa batendo nas costelas.
O celular tocou no caminho. Marcos. Recusei. Tocou de novo. Recusei. Na terceira vez, fui obrigada a parar, porque o número que apareceu foi WW.
Fiquei olhando a tela, com o dedo suspenso.
Não atendi. Não consegui. Deixei tocar até morrer e enfiei o telefone no bolso do casaco, com a sensação de ter deixado uma coisa importante cair no chão.
No carro, liguei o motor e o pé afundou no acelerador antes de eu pensar. Eu conhecia o caminho de olhos fechados, mas não era o trânsito de quinta à tarde que eu conhecia. Era só o meu plano: chegar ao fórum, procurar o assessor do juiz, pedir para despachar com ele.
Advogado pode fazer isso, entrar no gabinete e falar com o juiz, ou com quem trabalha com ele, antes de uma decisão. É a última carta de quem perdeu todas as outras. E a explicação que eu ia dar era simples: a perícia não é confissão. A defesa continua a mesma. O pedido é só para provar que outra pessoa entrou.
Ensaiei em voz alta. Na terceira vez, a minha voz saiu rachada.
Na esquina da Avenida Rio Branco, o farol fechou.
Eu vi. Juro que vi. Mas estava tão concentrada no ensaio, nos dedos apertando o volante, na blusa azul deixada no provador, que meu pé só entendeu tarde demais. O carro cruzou dois metros da faixa quando o ônibus surgiu pela direita, enorme, amarelo e branco, a buzina como uma marreta na cabeça.
Freei com as duas mãos e os dois pés.
Os pneus gritaram. Meu corpo foi para frente, o cinto travou no peito e me deixou sem ar. O ônibus passou tão perto que vi o rosto do motorista na janela, boca aberta, uma palavra que eu não escutei e que não precisava escutar.
Silêncio.
Meu Gol prata tremia sozinho, parado no meio do cruzamento, o motor ronronando como se nada tivesse acontecido.
Um motoboy passou e bateu duas vezes na minha janela. "Acorda, moça!" Não consegui responder.
Ali, com as mãos ainda grudadas no volante, entendi que aquilo não era só medo. Era uma imagem que insistia em voltar: eu no meio de uma rua, sem saber para qual lado ir, esperando que alguém dissesse.
Ninguém disse. O farol abriu, e alguém atrás buzinou. Engatei a primeira.
Fui devagar.
Quinta-feira, 16h50.
O fórum tinha aquele cheiro que só fórum tem: carpete velho, café requentado e papel. Corri pelos corredores com o crachá da OAB balançando no pescoço, e o segurança do detector de metais nem tentou me parar.
O cartório da vara ficava no terceiro andar. Uma escrevente de cabelo preso num coque perfeito levantou os olhos do computador quando entrei com o peito subindo e descendo.
— Boa tarde. Sou a Doutora Saramago, advogada do réu no processo do Condomínio... — Dei o número. Minha voz falhava. — Preciso despachar com o Excelentíssimo agora. É urgente.
A escrevente digitou alguma coisa. Olhou a tela por um tempo que me pareceu séculos.
— Doutora — ela disse, com uma delicadeza que eu não pedi. — O juiz assinou agora há pouco. A decisão foi disponibilizada faz uns dez minutos.
— Assinou o quê?
— Tutela de urgência. Deferida.
Senti uma coisa fria na barriga.
— Posso ver?
Ela virou o monitor. Eu li em pé, sem nem me sentar. A decisão era curta, e por isso mesmo brutal.
O juiz dizia que "a própria parte ré, em manifestação recente, reconhece a possibilidade de falhas estruturais de segurança", o que reforçava a "probabilidade do direito" dos autores. Dizia que havia "risco de dano irreparável, considerando a ameaça de indiciamento e o receio de dilapidação patrimonial". Por isso, determinava o bloqueio de até R$ 180 mil nas contas do réu, pelo sistema de bloqueio eletrônico, e a suspensão de novos contratos de locação no edifício "até a conclusão da perícia".
Eu lia e não entendia como uma coisa daquele tamanho cabia em tão poucas linhas.
— Ele decidiu sem ouvir o Marcos — murmurei.
— A lei permite quando a demora pode piorar tudo — a escrevente explicou, sem ironia. — É o que dá o nome de urgência.
Eu sabia. Eu sabia, claro que sabia. Era exatamente o tipo de coisa que eu explicaria a um cliente com voz calma. O nome do sistema é Sisbajud, mas ninguém precisa decorar: é o botão que o juiz aperta para todos os bancos do país travarem o dinheiro da pessoa ao mesmo tempo. Nem o cliente precisa saber quando foi apertado. Só descobre quando tenta pagar alguma coisa.
— Já foi enviada a ordem aos bancos?
— Foi às 16h58, Doutora.
Olhei o relógio da parede. Eram 17h04.
Tarde. Seis minutos. Nem sei se doeu mais saber que eu tinha chegado atrasada ou saber que, em qualquer uma das versões, eu não teria conseguido nada. A decisão dizia o que a minha própria petição tinha ensinado o juiz a dizer.
O celular tocou no bolso. Marcos.
Dessa vez, atendi.
— Doutora! — A voz dele veio quebrada, meio soluço e meio ar. — Doutora Sara, o aplicativo do banco. Diz "saldo indisponível". Tentei pagar o seu Osvaldo, o porteiro, e não passa. Tentei a empresa do elevador, e não passa. Minha conta corrente, a da poupança, tudo. O gerente me ligou, Doutora. O gerente disse que é ordem judicial.
— Marcos, respira.
— Eu tinha... tinha uns cento e noventa mil. — Ele soltou uma risada horrível. — Sobrou dez. Eu tenho uma folha para pagar dia cinco. Tem luz da garagem, o síndico que sou eu, a caixa d'água... Doutora, eu não sei nem se consigo comprar comida.
Encostei na parede do corredor, senti a tinta fria contra as costas e deslizei até o chão. Fiquei com o celular ao ouvido, olhando os sapatos de quem passava.
— Estou a caminho — menti. — Vamos resolver. Vai para casa, não fala com ninguém.
— E o Veltri? Ele não atende!
— Ele está em uma reunião. Eu falo com ele.
Desliguei antes que ele percebesse que a minha voz estava desmanchando.
Eu tinha pedido a perícia. Fui eu que digitei vício oculto. E foi essa expressão que deu ao juiz a razão de que ele precisava para travar tudo.
Não importava que a minha intenção fosse boa. Importava que a frase estava lá.
Quinta-feira, 18h40.
Praça da República, fim de tarde. O céu estava daquela cor de alumínio suja que São Paulo assume antes de acender as luzes. Havia gente vendendo pipoca, gente vendendo pulseira, gente correndo para o metrô. Todo mundo com pressa de ir para casa.
Sentei num banco de cimento, com a bolsa no colo, e foi ali que vi Veltri chegar.
Ele vinha do lado da Avenida Ipiranga, sem gravata, o paletó no braço e os cabelos, sempre jogados para trás com cera, desta vez, provavelmente pelo suor bem bagunçado. Andava como se cada passo tivesse um custo.
Ele se sentou ao meu lado. Ficamos um tempo sem falar, olhando um grupo de pombos disputando uma pipoca caída.
— Tu ouviu tudo — ele disse, por fim.
— Ouvi.
— E eu não ouvi o que tu fez.
Contei. Falei do fórum, da decisão, do horário, dos seis minutos. Falei do Marcos. Foi tudo em voz baixa, sem drama, a voz técnica de quem lê uma sentença. Veltri escutou de olhos fechados.
— Fizemos merda — ele disse.
— Fizemos.
— Muita.
— Muita.
Ele riu, uma risada seca e curta, sem alegria.
— A gente ia cercar o ladrão com a burocracia. Deu tudo certo, em teoria. Só esquecemos que a burocracia também cerca quem pediu.
— Fui eu que digitei — falei.
— Fui eu que completei a ideia.
— Foi o nosso plano.
— Foi.
O silêncio caiu de novo. Eu olhava as mãos: os dedos ainda tremiam um pouco, e não era só do susto do ônibus.
— Segunda, o Santana quer o Marcos lá com o BO da chave — falei. — Não existe BO. Ele vai perguntar por quê. Vai pedir o livro de portaria, as câmeras de trinta dias. Se ele encontrar a fita da porta da manutenção...
— Vai ver o Marcos abrindo com a chave. Eu sei. — Ele passou a mão pelo rosto. — Esses dias a gente tava rindo num bar, Sara.
O celular dele vibrou.
Veltri olhou a tela. Eu vi o nome antes dele. WW.
Ele engoliu em seco, ajeitou a postura, como se o sócio pudesse enxergá-lo, e atendeu.
— Boa noite, Doutor.
Silêncio. Alguma coisa foi dita do outro lado, curta, baixa.
— Sim, senhor. Ele falou isso mesmo. — Veltri ouviu. — Não, senhor. Ainda não. — Ouviu mais. Vi o pomo de Adão dele subir e descer. — Entendido. Amanhã. Às oito. Sim, senhor.
Desligou. Ficou com o aparelho na mão por uns segundos.
— O que ele disse? — perguntei.
— Que o Santana ligou pra recepção da firma e pediu pra falar com "o sócio responsável". — Veltri olhou para frente. — Educado, o delegado. Disse que tinha muito respeito pela F&A e que esperava que os associados soubessem o que estavam fazendo.
— E o WW?
— Perguntou se a gente sabia. — Ele deu de ombros, cansado. — Sala dele, amanhã, oito horas.
Meu estômago revirou.
O celular dele tocou de novo. Dessa vez, o nome foi outro. Veltri fechou os olhos e atendeu com o viva-voz desligado, mas a voz do outro lado era tão fraca, tão sem força, que eu ouvi, quase inteira, mesmo sentada ao lado.
— ...doutor... — Marcos disse. — Doutor Veltri. O senhor pode... o senhor pode falar comigo?
Não havia desespero na voz. Havia outra coisa. Uma falta, como se o homem tivesse chegado ao fim de um corredor e descoberto que não tinha mais porta.
— Marcos. — Veltri suavizou a voz de um jeito que eu não ouvia desde os tempos de faculdade. — Onde o senhor está?
— Em casa. Sentado. Estou sentado. Minha esposa perguntou se eu quero jantar e eu disse que sim, mas eu não quero.
— Fica aí. A gente vai para o escritório e o senhor vem. Ainda hoje.
— Vocês conseguem tirar isso? — ele perguntou. — Conseguem... tirar isso?
Veltri abriu a boca. Eu vi o esforço dele.
— Vem para o escritório, Marcos — foi a única coisa que saiu.
Desligou. Fez uma coisa que eu nunca tinha visto: apoiou os cotovelos nos joelhos, escondeu o rosto entre as mãos e ficou assim, respirando fundo.
Encostei a mão no ombro dele. Só isso.
— Vamos — falei.
Quinta-feira, 20h15.
A F&A à noite tinha outro cheiro. Menos café, mais carpete. Nosso setor, no canto do quinto andar, mantinha a luz amarelada ligada, e Beatriz estava sentada à mesa dela, sozinha, com uma xícara fumegando.
Ela não perguntou nada quando entramos. Levantou o rosto, olhou primeiro para mim, depois para Veltri, e por fim indicou a mesa de centro com o queixo.
— Sentem.
Sentamos.
— O Dr. WW me ligou às seis — ela disse. — E o delegado ligou para ele às cinco. Ambos muito educados.
— Beatriz... — comecei.
— Deixa o Marcos chegar. Vocês vão precisar contar uma vez só.
Ela bebeu um gole do chá e ficou olhando para o vidro escuro da janela. Nenhuma censura. Nenhuma ironia. Só o mesmo rosto calmo de sempre, o que, naquele momento, me pareceu quase uma crueldade.
Marcos chegou quarenta minutos depois, guiado pela Ivone, que já tinha ido para casa mas ficou esperando na recepção só para acompanhá-lo até nós. Ela deixou uma garrafa de água na mesa, colocou uma mão no braço dele e saiu sem dizer nada.
Ele estava pior do que eu esperava. O terno amarrotado, a camisa para fora de um lado, o lenço já ensopado na mão. Havia perdido o ar de síndico tranquilo, o cara que reclamava do barulho do elevador. Parecia um velho.
— Doutora. Doutor. Dona Beatriz.
— Sente, Marcos — Beatriz disse.
Ele sentou. Tirou o celular do bolso, colocou em cima da mesa como quem apresenta prova, e a tela acesa mostrava um aplicativo de banco com a palavra indisponível em vermelho.
— Vocês têm que me explicar — ele começou, e a voz tremia. — Me disseram que a defesa estava boa. Ontem eu ainda paguei os vinte e cinco mil de vocês, graças a Deus, e me disseram que estava tudo nos trilhos.
Fiquei sem ar. Vinte e cinco mil. Era o único dinheiro do Marcos que tinha saído da conta antes do bloqueio: o nosso.
— Marcos — Veltri disse. — Vou explicar do jeito mais simples que consigo.
Ele explicou. Eu olhava a minha mão sobre o tampo de vidro e ia ouvindo o Veltri desenhar, frase por frase, o desastre.
Que a defesa dizia, desde o começo, que o prédio era seguro. Que a nossa petição nova pedia uma perícia para procurar defeitos. Que, para quem lê de fora, isso soava como se a gente mesmo desconfiasse do prédio. Que os inquilinos usaram isso. Que o juiz, lendo, entendeu que talvez o prédio não fosse seguro, e que o dono talvez não tivesse dinheiro para pagar se perdesse. Que o delegado, lendo, pensou coisa pior.
— Então foi por causa do que vocês escreveram — Marcos disse.
Não era acusação. Era só constatação, dita baixinho.
— Foi — Veltri respondeu.
— Vocês... — Ele engoliu em seco. — Eu sei que eram só cuidados. Eu sei. Mas... foi por isso.
Ninguém falou.
— Me contem o resto — ele pediu.
Foi minha vez. Expliquei o agravo: um recurso que se leva ao Tribunal para derrubar decisão de juiz. Poderia reduzir o valor bloqueado, mas levava duas, três semanas para sair, na melhor hipótese. E o desembargador ia ler, primeiro, a nossa petição. Se ela dava munição ao juiz, ia dar ao desembargador também.
— Duas semanas — Marcos repetiu.
— Na melhor das hipóteses.
— Eu tenho a folha do dia cinco.
— Eu sei.
— O elevador precisa de manutenção. O contrato vence essa semana. Sem contrato, a seguradora pode... — Ele calou. Abriu e fechou a boca. — E tem a outra coisa.
Veltri e eu nos olhamos.
— O delegado me ligou de tarde. Chamou segunda, para depor de novo. Disse que era pra levar um papel. Um boletim de ocorrência da chave.
Ele não olhou para ninguém. Olhava o próprio lenço.
— Eu não fiz boletim nenhum.
Ninguém respondeu.
— Eu disse que tinha perdido, mas... eu não fiz nada, não registrei. Achei que ninguém ia perguntar. — Ele levantou os olhos. Estavam vermelhos, cansados. — Segunda ele vai me perguntar, não vai?
— Vai — respondi, e odiei a minha voz.
— E o que eu digo?
Veltri abriu a boca. Fechou. Olhou para mim. Olhei para Beatriz, que segurava a xícara sem beber, e vi que ela também não ia dizer nada.
Marcos ficou olhando cada um de nós. Vi o instante exato em que ele entendeu que não vinha nada.
— Vocês conseguem tirar isso? — ele perguntou.
Ficamos em silêncio.
Não era um silêncio de pensar, de calcular. Era o silêncio de três pessoas que sabiam a resposta e não queriam ser as primeiras a dizer.
— Vamos trabalhar nisso — Veltri falou, por fim.
Marcos sorriu, um sorriso fraquinho, de quem já entendeu o significado daquela frase.
— Certo. Vocês vão trabalhar. — Levantou-se devagar, segurando na mesa. — Boa noite, Dona Beatriz. Doutora. Doutor.
Ele saiu, carregando o celular na mão como quem carrega um ferimento. A porta se fechou.
Ninguém se mexeu por um longo tempo.
Beatriz foi a primeira a se levantar. Pegou a xícara vazia, foi até a janela, ficou de costas.
Eu esperei o sermão, a frase seca de quem avisou, a lição de moral em três parágrafos. Ela poderia ter feito qualquer uma dessas coisas. Tinha todo o direito. Eu mesma teria feito.
Mas ela apenas disse, olhando as luzes do trânsito lá embaixo:
— Vinte e dois anos nesta firma.
Não respondemos.
— Eu não vou dizer que avisei. Nem tenho certeza de que o que eu teria feito seria melhor. — A voz dela estava calma, mas tinha um cansaço embaixo. — Só vou dizer uma coisa, porque nunca ninguém me disse. Existem resoluções para o bem que precisam passar pelo mal. Eu não disse que gosto disso. Disse que existem.
Ela se virou. Os olhos passaram por nós e pararam em mim um segundo a mais.
— O Dr. WW quer vocês às oito. Durmam. Vocês não vão dormir, mas tentem.
Pegou a bolsa, ajeitou o casaco e saiu. O barulho dos saltos dela foi diminuindo pelo corredor, e o silêncio que ficou parecia maior do que a sala.
Veltri levantou-se de um salto e começou a andar de um lado para o outro. Um passo, dois, três, virava. Batia o punho fechado na palma da outra mão.
— Aquele contato… Que Beatriz disse, será que ele pode ajudar em alguma coisa? como era o nome dele, Nestor?
— Não.
— Tu nem sabe o que eu vou dizer.
— Sei, sim.
— Quem sabe seja alguém de confiança dela, podemos seguir o jeito dela, dar um jeito nas coisas, por fora.
— Isso é adulterar prova.
— É proteger o cliente.
— É fraude processual, Veltri! — Minha voz subiu. — Eu falei disso na primeira reunião, na frente do Marcos, e você concordou. Você lembra o que eu disse? Que isso ia acabar com a defesa dele.
— O que vai acabar com a defesa dele é a gente ficar sentado aqui com a mão na cabeça!
— E depois? — Levantei também. — Depois que esse Nestor “Resolver”. E o homem da parede? A gente vai atrás dele? Vai pegar? Com quê, Veltri? Com um taser? Com a lábia? Ele atravessa parede!
Enquanto eu despejava minhas frustrações, em uma reação patética de raiva puxava e derrubava documentos da mesa, mas, mesmo puxando em derrubando, os mesmos documentos seguiam na mesa. O'Que me frustrava cada vez mais. Eu seguia derrubando, enchendo o chão de papeis duplicados, sentindo minha cabeça ficar zonza e lágrimas surgirem nos meus olhos.
— Então a gente descobre como!
— A gente é advogado!
A palavra bateu na sala e voltou.
— É isso que a Beatriz quer — falei, mais baixo. — Que a gente vire outra coisa. Que a gente use o que a gente viu para fazer o que não pode. E a gente já fez um pouco, invadindo o prédio. Olha aonde a gente chegou. Eu já não dormi uma noite inteira desde então.
— Eu sei — ele disse, e a voz saiu diferente. — Eu sei, Sara.
Ele parou no meio da sala. Passou as duas mãos no cabelo, deixando-o de vez fora do lugar.
— Só que a outra opção é voltar para o plano do Kessler, e tu sabe o que isso significa. A gente retira o pedido de perícia. Vai lá, humilha, pede desculpa ao juiz pela contradição, volta pra tese do fato de terceiro, aquela que o Kessler escreveu com aquela cara de quem já ganhou. — Ele soltou uma risada nervosa. — Dá certo. Sei que dá certo. O bloqueio cai em algumas semanas, o inquérito cai em alguns meses, o Marcos sai limpo, a firma fica feliz, e o homem continua entrando na parede do oitavo andar e levando relógio e fivela e o que mais quiser.
— Nós não sabemos se ele...
— Sara.
Fiquei calada.
— A gente sabe — Veltri disse.
Sabíamos. Eu me lembrava do barulho de barro úmido rasgando. Lembrava da silhueta com a cor do reboco, dos olhos de papel de parede virados para nós.
— E a Dona Cecília? — perguntei, quase sem querer. — Os outros dois? Quem são eles, Veltri? A gente nunca falou com nenhum deles. A gente só lê os nomes nas petições. Eles perderam coisas de verdade, e a gente está do outro lado.
— Eu sei.
— Então?
— Então eu não sei — ele disse, e foi a primeira vez que ouvi essa frase saindo dele sem um "mas" depois.
Ficamos parados, um de frente para o outro, dois adultos formados e aprovados na OAB, de pé numa sala vazia, sem ter para onde ir.
— Se a gente for por fora — falei, devagar —, eu não sei mais onde termina. Já começou naquele apartamento, e olha o que aconteceu com o Marcos. A gente cria um problema e resolve com outro maior, e outro, e outro.
— E se a gente for por dentro, o Marcos afunda mais um pouco todo dia.
— Eu sei.
— E o cara continua roubando.
— Eu sei.
— Então o que tu quer fazer?
Abri a boca. Eu não tinha resposta.
Foi a pior parte de todo o dia: estar ali, com os dedos ainda manchados de tinta de caneta, no meio de uma sala onde qualquer decisão parecia errada, esperando, sem perceber, que alguém aparecesse e me dissesse qual delas era a menos errada.
Ninguém apareceu.
— Não sei — falei.
— Eu também não.
Veltri sentou-se numa cadeira, jogou a cabeça para trás e ficou olhando o teto. Eu me sentei do outro lado da mesa. O relógio na parede marcava 21h47.
O celular vibrou. Uma mensagem da Tati.
Paguei a blusa azul. Depois a gente acerta. Está tudo bem? Você sumiu.
Fiquei olhando a mensagem por muito tempo, sem responder.
Pela janela, a cidade seguia acesa. Milhares de portas se abrindo e fechando. Luzes nas janelas, gente entrando em casa, gente saindo. Tudo funcionando do jeito que sempre funcionou, com a mesma lógica simples de quem precisa de uma porta para ir de um lugar a outro.
Nenhum de nós dois disse sim. Nenhum de nós dois disse não.
Amanhã, às oito, teríamos que responder.