Eu estava em casa. Não a casa atual dos meus pais, e sim a primeira, a de antes da mudança, a das discussões com a minha mãe. Aquela em que meu pai batia o pé e dizia que a casa era dele, mesmo com nós duas lá dentro.
Mas estava diferente. A luz do sol era forte demais, amarelada, e eu a sentia áspera na pele, embora isso não fizesse sentido. Ela entrava pelas frestas das persianas e queimava o que tocava. Lembro de ver os feixes cortando a sala e chamuscando o nosso quadro de família.
Eu procurava meu pai, ou minha mãe, não sei ao certo. Só sabia que estava ansiosa, talvez com medo. Rastejava e pulava entre os feixes dourados, desviando de cada um. Minha roupa era pesada, parecia feita de latão pintado de ouro. Eu ouvia o metal raspando na madeira do chão, e ele apertava meus braços e pernas.
A casa era maior do que devia, um labirinto. Até que cheguei a uma espécie de saguão com um vidro enorme, escuro, que deixava ver o lado de fora mas não deixava a luz passar. Lá, na grama, estava meu pai. Retorcido, o corpo moldado na forma de uma balança romana.
Na hora, aquilo fazia todo sentido. Ele estava perfeito. Eu queria me aproximar, mas tinha medo. Então vi pétalas rosas por todos os cantos, uma onda delas que começou a me empurrar contra o vidro, até que ele quebrou e o sol escaldante me engoliu.
Mesmo queimando, eu levantei e marchei até aquilo que meu pai tinha se tornado. O latão derretia na minha pele. Mas tudo cessou quando toquei a balança. Uma calma tomou a minha mente, uma paz, misturada com um senso de justiça, como se eu finalmente conseguisse ver.
Quando olhei para o rosto do meu pai, era o meu.
Foi isso que entreguei ao Veltri: o caderninho onde anoto sonhos e pesadelos. Já virou praxe ele ler depois de cada sonho maluco meu.
— Meu Deus, Sara. Eu nunca tive um sonho elaborado assim. Que raiva, os teus são bem mais legais que os meus.
— Que? Não foi legal. Eu odeio esses sonhos.
— Tá, na hora deve ter sido uma merda, mas tem um puta significado subconsciente aí.
— Não acredito nessas coisas.
— Então por que tu anota?
Fiquei um tempo sem saber o que responder.
— Sei lá. Mania. Dizem que ajuda a se acalmar depois de um pesadelo.
— Dizem e dizem, e nunca resolve nada. Mas se tu faz e se acalma, continua fazendo. Tenho medo de saber como tu é sem isso.
— Tá bom, Buda.
A conversa tinha um único objetivo: passar o tempo. Saímos de casa cedo demais, ansiosos como sempre, e agora esperávamos o horário combinado com os moradores ao lado do carro, estacionado em frente a uma sorveteria fechada.
Eu não queria aquela estratégia. Seguia achando que ela não resolvia o problema de verdade. Mas a gente tinha ferrado tanto o Marcos que era o necessário. Era isso, ou cometer crimes com a Beatriz e seus amigos.
— Fiquei sabendo que tu tá devendo dinheiro pra Tati — disse Veltri, com o tom provocador de sempre.
— Não é bem assim. As coisas estão tão corridas que não deu tempo de entregar. Hoje eu pago.
— Isso me parece conversa de caloteira.
— É o Diabo acusando Belzebu?
— Eu sou o Diabo ou o Belzebu?
— Cara. — Fiz a minha melhor cara de decepção. — Tu entende o que é uma metáfora?
Ele não respondeu. Foi até o carro conferindo o relógio de pulso.
— Hm… Não. Mas não vamos bater boca por causa de metáfora, tá na hora. Entra aí. — E se acomodou no banco do motorista, o que me deu um frio na espinha.
— Sério que a gente tem que ir no teu carro?
— Qual o problema com o meu carro? É melhor que o teu.
— O problema é o motorista. Veltri no volante, perigo constante.
— Sara, eu… — Ele podia espernear, mas sabia que era verdade. — Nunca me acidentei, tá?
— E o que tu considera "acidente"?
Ele fez uma baliza torta para sair da vaga e partiu, visivelmente ofendido. Aproveitei a distração para pegar o porta-CDs e achar algo do meu gosto antes que ele se metesse. Coloquei uma coletânea de MPB, estilo música de churrasco.
— Sara, sério? Não é o clima.
— Eu não quero ouvir Craft Punk e esses rocks todos que tu escuta. Não às nove da manhã.
— Isso é porque tu não conhece o Sbelffet rock.
— Tu acabou de inventar essa palavra.
— Será?
A música leve me acalmava. A última coisa que eu queria naquele momento era um som agressivo, ou minimamente violento, nos ouvidos.
O caminho foi lento e tedioso, como sempre naquela região: ruas cheias, semáforos que não abriam. O prédio nem era longe, mas demoramos uma eternidade. No meio do trajeto passamos por um cruzamento que eu reconheci antes de querer. O cruzamento de quinta. Me encolhi no banco sem perceber. Veltri, claro, percebeu.
— Sara? Viu alguém?
Virei o rosto para a janela. Se ele visse a minha cara, ia saber. No fundo, ele já sabia, de qualquer jeito.
— O que houve, hein? — Ele deu uma risada seca.
— Hm… Na quinta, quando tudo aquilo aconteceu, eu peguei o carro e saí com tudo para o fórum. — Engoli. — Quase me matei aqui. Quase entrei num ônibus.
— O QUÊ? Sara? MEU DEUS.
Junto do choque, ele soltou uma risada honesta demais, não sei se de desespero ou de incredulidade.
— Que bom que tu tá bem, mas puta que pariu. Imagina a merda se tu vira patê antes de chegar no fórum.
— Do jeito que tava, talvez tivesse sido até melhor.
— Ei. Para. Não fala isso. A gente vai resolver. E presta atenção na rua, depois eu que sou perigo constante.
— Só cala a boca e dirige.
Quase como uma piada do universo, quando chegamos ao subsolo do prédio, Veltri não conseguiu fazer uma simples baliza. Trocamos de lugar e eu terminei o serviço. Ele ficou calado, e nós ficamos quites.
O Edifício Germânia era um complexo de classe média, com alguns blocos mais chamativos. Curiosamente, os do sétimo e do oitavo andar. Pelo que lemos no processo, boa parte dos moradores dali era de aposentados ou gente mais velha. Parecia ter sido um foco estratégico do Marcos para atrair moradores. Isso poderia até ser usado contra ele num futuro processo, mas não valia a pena gastar tempo com estratégias hipotéticas contra o nosso próprio cliente.
Pegamos o elevador até o sétimo. Quatro apartamentos por andar, separados em duplas por alas. A maioria dos furtos tinha sido no oitavo, onde havia três apartamentos ocupados. Mas dois desses moradores estavam no processo contra o Marcos, e a gente não podia falar com eles. Então começamos pelo sétimo, onde falaríamos com três inquilinos. O quarto também estava no processo.
O Marcos tinha avisado todos os moradores de que iríamos.
Veltri tomou a frente e bateu na porta do 701. Ali morava a pessoa mais jovem do andar, uma mulher de uns 35 anos que perdeu um par de botas. Não demorou para uma moça de roupão rosa, escandalosamente rosa, abrir a porta.
— Bom dia! — Ela parecia animada, talvez achando que a gente ia resolver tudo. Mas era uma animação forçada, meio estranha. — Podem entrar! Fiz café, se quiserem!
— Obrigada, Senhora Mendes, mas são só algumas perguntas.
— Ai, por favor, me chamem de Andreia! Entrem, não liguem para a bagunça.
O apartamento brilhava.
Sentamos numa mesinha de café. Eu abri o meu caderninho de trabalho. Não ia sair muita coisa dali, só algumas dúvidas e uma ou outra fala que valesse registrar. Veltri já tinha começado.
— Andreia, pode especificar o que foi levado? Em que horário? Notou alguma coisa?
— Nossa, não sabia que vocês eram investigadores. Um delegado esteve aqui essa semana e perguntou a mesma coisa.
— Haha, não somos, não. É só para auxiliar no caso. A gente acredita que tem um terceiro e quer montar um padrão. Para proteger o síndico e chegar ao verdadeiro culpado.
— Claro, faz sentido. — Ela não pareceu convencida, mas continuou. — Foi um par de botas. Sumiram de um dia para o outro. Eu deixei perto da cama porque ia usar no dia seguinte. Acordei, puff. Procurei em tudo.
— Então foi de madrugada. Notou algo estranho na porta? Nas janelas?
— Nada. Só que tentaram abrir a minha gaveta, a trancada, e não conseguiram.
— A senhora tem certeza de que alguém entrou?
— Não exatamente. Isso me deixa preocupada. Parece que sim, mas também não tem por onde. Quando os vizinhos comentaram, eu cheguei a suspeitar do síndico. Só que, se fosse ele, eu teria ouvido. Alguém teria visto. Eu fiquei mal mesmo foi por causa das botas.
— Eram caras?
— Sabe que não? Não eram baratas, mas eu paguei a mais porque eram personalizadas. Tinham a assinatura em relevo de uma artista que eu adoro. Não vou achar outra igual tão cedo. — A frustração estava nos olhos dela. — Só espero não perder mais nada. Estou com tudo trancado, mas se isso continuar, eu troco de apartamento.
— Claro, totalmente justo.
Ficamos mais alguns minutos juntando detalhes, mas nada que mudasse o caso. Andreia genuinamente não suspeitava do Marcos. Para ela, não fazia sentido. E realmente não fazia.
Saber que ela tinha perdido algo importante, e que isso provavelmente ia se repetir, me embrulhava o estômago. Mas seguimos.
O casal do 703 estava fora, ou desistiu de nos receber na última hora. Não conseguimos falar com eles. Sobrou o 704.
Dessa vez eu bati. A porta foi aberta por dois homens na faixa dos 60, 65 anos, ainda com cara de sono. Leandro, o mais extrovertido, nos chamou para dentro, enquanto o marido, Edgar, fazia algo na cozinha. Sentamos na sala. O roteiro das perguntas foi o mesmo, as respostas também.
— Uma mala de couro — disse Leandro, apontando para o canto vazio ao lado do sofá. — Com o meu nome gravado. Ficava bem ali. E do Edgar levaram uma fivela de cinto. Prêmio de rodeio, o último que ele ganhou, antes de parar de montar.
— Ele guardava com muito carinho… — completou Edgar, da cozinha, referindo a si mesmo, sem aparecer.
— Vocês desconfiaram do Marcos em algum momento? — perguntei.
— Ai, filha. — Leandro riu, balançando a mão. — O Marcos? Mora aqui há vinte anos, já jantou nessa mesa. O homem não tem malandragem nem para pedir desconto na padaria. E roubar uma fivela? Uma mala velha? Se ele quisesse roubar, levava a televisão.
— Essas coisas valem pouco para quem não conhece a história delas — disse Edgar, finalmente aparecendo com a bandeja de café. — Mas você tem que ver uma coisa.
Ele tirou do bolso do cardigã uma fivela grande, de metal escurecido, com um cavalo em relevo.
— Era o par. Eu tinha duas. Achamos essa no meio da sala na mesma manhã do sumiço. Bem aqui, no tapete, como se alguém tivesse derrubado.
— Como se tivesse escapado da mão dele — disse Leandro.
Veltri estendeu a palma.
— Posso?
Edgar entregou.
Veltri girou a fivela entre os dedos, observando o relevo, como um advogado interessado no laudo. Mas a mão esquerda, a que ficou meio escondida ao lado do joelho, fez algo estranho: os dedos fecharam como quem puxa um fio invisível, e o movimento subiu, devagar, até o pulso. Ao mesmo tempo, ele piscou.
Não a pálpebra. A outra. A membrana.
Eu vi as pupilas dele se alongarem na horizontal, como as de uma cabra.
Meu estômago apertou. Pensei em dizer algo, em tossir, em derrubar o café, qualquer coisa. Mas Leandro e Edgar olhavam para a mesa, distraídos com o açúcar, e Veltri estava com um rosto que eu conhecia bem. O rosto de quem precisava saber.
Deixei.
Em três segundos as pupilas voltaram ao normal. Ele devolveu a fivela com um sorriso treinado.
— Obrigado. É uma bela peça.
— Se quiser, leva emprestada — brincou Edgar. — Desde que a gente ficou com medo de perder, ela só sai da gaveta quando a gente dorme com a porta trancada.
Novamente tudo caminhava para o mesmo resultado. Um beco sem saída, ótimo para o Marcos. Cada vez mais eu acreditava que seria impossível o delegado ganhar qualquer coisa com isso, se a gente consertasse a nossa petição. Culpar o síndico por essas coisas era completamente inviável.
Ainda assim, faltava uma conversa. Um homem que morava sozinho no 801. O único morador do oitavo com quem podíamos falar. Subimos com cautela, sem querer chamar atenção.
Veltri bateu. Nada. Bateu de novo. Parecia outro 703. Até que ouvimos uma porta se abrir, mas atrás de nós.
O 803. Casa da Dona Cecília e do marido, um dos casais que processavam o Marcos. Uma senhora baixinha, num roupão rosa-claro volumoso, apareceu na fresta e disse, baixinho:
— O Sérgio passou mal hoje cedo. Foi para o hospital. O que os senhores precisavam falar com ele?
— Nada urgente, dona Cecília. Desculpa o incômodo — Veltri começou.
— Dona Cecília — eu disse. — A senhora sabe que somos os advogados do síndico, não sabe? O melhor é não conversarmos sem o doutor Bragança presente.
— Eu sei quem vocês são. — Ela saiu de vez para o corredor, ajeitando a gola do roupão com as duas mãos. — O Marcos ajudou a gente quando o Sérgio teve pneumonia, ano passado. Trouxe sopa. Eu nunca acreditei que foi ele. Mas o Sérgio e o doutor Bragança dizem que alguém tem que pagar. Então eu assinei.
— Dona Cecília…
— Eu tinha dois — ela disse, e a voz dela mudou. — Dois relógios. Iguais. O Tiago que fez, meu filho. Ele tinha mão boa para essas coisas, desde pequeno. Fez um para usar e um de reserva. — Ela tocou o próprio pulso esquerdo, cobrindo um relógio simples com a outra mão. — Eu nunca usei o reserva. Só que agora é o único.
Ninguém respondeu. O corredor estava quieto demais.
— Eu durmo com ele. Tomo banho com ele. Não tiro nem para lavar a louça. Tenho medo de que venham buscar o que sobrou.
Personalizado, pensei. De novo.
— Se foi o Marcos — ela continuou, e os olhos dela finalmente procuraram os meus —, se por algum motivo foi ele, os senhores dizem para ele devolver. Só isso. Eu retiro o processo. Eu retiro tudo. Não preciso do dinheiro. Só preciso do relógio.
— Dona Cecília, eu não posso prometer…
— Eu sei que não pode. — Ela sorriu, um sorriso pequeno e cansado. — Eu só queria que alguém ouvisse.
O elevador apitou atrás de nós. Um senhor saiu, o braço dobrado, um algodão preso com esparadrapo na dobra do cotovelo. Sérgio. Ele olhou para nós, depois para a esposa, e entendeu tudo em um segundo.
— Cecília. Esses são os advogados do Marcos.
— Eu sei, Sérgio.
— Entra.
— Sérgio…
— Entra, Cecília.
Ele a conduziu pelos ombros, sem brutalidade, mas sem abrir espaço para recusa. A porta fechou com um clique seco.
Descemos em silêncio, e o silêncio pesava mais do que o elevador. Quando chegamos ao subsolo, Veltri abriu o carro e nos sentamos lado a lado. Ele não deu a partida. Só ficou olhando o estacionamento pelo vidro.
— Puta que pariu, Veltri.
— Ei. Calma. Vai dar certo. Vamos focar em acabar logo com o caso.
— Eu sei, mas… e o resto?
— A gente tem que focar no principal.
— Não é isso que eu quero. Não é isso que eu preciso.
— A gente tentou de outro jeito e deu tudo errado. Não dá pra fazer milagre. A gente tem que fazer o simples agora.
— Mas… — Eu queria dizer. Sempre quis. Mas faltava a chama. Até que, de repente, senti uma faísca pequena e fulgaz que queimou a minha garganta e empurrou as palavras para fora. — E o que o WW disse? Isso não é o que o meu orgulho quer, Veltri. Se eu deixar assim, eu vou estar apagando ele.
— Hm. — Ele suspirou, ganhando tempo. — Tu acha que é isso que eu quero? Mas temos que ser realistas. Não dá pra causar um incêndio. E tu sabe: a ÚNICA alternativa é o jeito da Beatriz. Tu mesma disse que odiava.
— Eu sei. Mas aquelas pessoas… Não é que eu queira ser heroína. É que elas são vítimas de algo que nem entendem, e eu entendo, e eu…
— Nós. — Ele me interrompeu, mais sério. — Nós que poderíamos fazer algo e não vamos. Eu também tô pensando nisso. É cruel. Mas tu tá disposta a queimar a tua ética por essa justiça? A Beatriz não vai perdoar.
— Me queimar, né. Quem sabe foi um sonho profético.
— Que?
— Nada. Só… vamos falar com ela.
— Nossa, Sara. Tem certeza? Tu sabe o que isso significa.
— Sei. Só vamos para o escritório.
— Isso que faltava em ti, Sara. Iniciativa. Assim que eu gosto.
No fundo, eu sabia que ele era a onda me levando para aquele caminho.
O trânsito da volta estava menos truncado. O clima dentro do carro não estava agradável, e eu nem me atrevi a ligar o som. Só pensava naquilo.
— Veltri.
— Sara.
— Tu acha que pode ser verdade?
— O quê?
— Tu sabe. É ridículo até dizer a palavra.
— Semideuses?
— É. Eu não acredito que a minha vida virou isso. Discutir se eu sou a porra de uma semideusa. Eu só queria ficar na minha, tranquila.
— Pois é. Mas me deixa curioso. E se for verdade mesmo? Quanta coisa a gente não sabe. — A frase dele era tudo menos reconfortante.
— Não. Eu prefiro viver na ignorância. — Não era verdade.
— Sara, fala sério.
— Tá. Talvez eu esteja curiosa. Mas é uma mudança de trezentos e sessenta graus, é demais. Eu não nasci pra lidar com isso.
— Tudo bem. Mas o que muda, de fato?
— Como assim?
— Se a gente for essa porra de semideus, a gente continua sendo a Sara e o Veltri. Isso não muda. A gente continua sendo advogado. Eu tenho pensado muito nisso.
— Pensei que tu seria mais contra, pelo jeito que falou com o Kessler e a Beatriz.
— Eu era. Mas não deixa de ser verdade. E quem sabe é bom. Eu posso finalmente entender as coisas sobre mim. Os mistérios da minha vida. Por que a gente consegue fazer essas maluquices.
— Eu vi o que tu fez com a fivela daquele casal…
— Achei que podia ser útil. Depois a gente conversa sobre isso, tá?
— Tá.
— Vai ser bom, Sara. A gente pode entender mais sobre a gente, sobre a nossa família. E no pior dos casos, se eles estiverem mentindo, os loucos são eles. Além disso, a gente continua sendo a Sara e o Veltri. Sara e Veltri.
— É. Gosto disso. Sara e Veltri.
Pela primeira vez em dias, o meu coração pareceu bater na frequência certa. Talvez tudo aquilo tivesse um lado bom. Mesmo sabendo que nunca era tão simples.
O carro parou. A visão do prédio da Forenoon & Aster ainda me impressionava.
Subimos juntos até o quinto andar. Marchamos até o setor. Abrimos a porta e encontramos Beatriz na mesa de centro ensinando algo para Tati, enquanto Kessler se afogava em um mar de papelada, provavelmente por nossa culpa.
— Beatriz, Kessler, podemos falar em particular? — Veltri disse, menos de um segundo depois de abrir a porta.
Beatriz virou o rosto para Tati.
— Senhorita Andrade. Poderia nos dar licença?
— De novo? — A pergunta não tinha tom de reclamação. Era um pouco triste, e eu não podia culpá-la. — Claro.
No caminho da porta, deslizei o envelope que trazia na bolsa para a mão dela, discretamente. O dinheiro da blusa.
— Desculpa — sussurrei.
Ela olhou para o envelope, depois para mim, e deu um sorriso que não chegou a ser completo.
— Depois você me conta tudo, hein.
Quando a porta fechou, nós quatro nos reunimos na mesa. Os dois nos observavam em silêncio. Kessler parecia aliviado. Beatriz servia um chá para si.
— Então — Veltri começou. — Se por acaso, e não tô confirmando nada, essa bobagem de semideus for verdade… — Beatriz soltou um sorriso rápido no meio da frase. — Como isso funciona?
— Finalmente, hein. — Kessler, ácido como sempre. — Como assim, como funciona? Um deus aparece, tem um filho com uma humana e nasce um semideus. Não tem muito mistério.
Beatriz lançou a ele um olhar afiado e tomou o assunto para si.
— Na prática, é mais bagunçado. Não sabemos exatamente como, nem por quê. Mas sim. Nós quatro somos semideuses. Filhos de algum deus, ou deusa, por aí.
— Deuses gregos? — Era o que mais me incomodava, então precisei perguntar. — Ou algo parecido?
— Todos. — Ela deu o primeiro gole de chá, nos dando tempo de respirar. — Gregos, egípcios, maias, mesopotâmicos, Guaranis. Qualquer mitologia que você conheça. Esta firma lida com esses casos há décadas. Eu já peguei um culto de corretores de imóveis que rezavam a um deus maia cujo nome eu não lembro. Um homem que fraudava seguradoras com o dom que herdou, filho de Ísis, pelo menos é o que ele dizia. O último grande foi com o Kessler: uma moça que matou a própria irmã, apadrinhada por um demônio. Amon, se não me falha a memória.
Eu e Veltri estávamos com a mesma cara: a de quem espera o fim da piada. Mas ninguém ria.
— Ei, eu quero mesmo ouvir o que vocês têm a dizer — Veltri falou, devagar — mas isso não pode ser sério.
— No começo nunca parece.
— No meio também não — Kessler completou.
— Mas faz sentido quando se entende as regras. — Beatriz pousou a xícara. — Eu e o Kessler nunca fomos muito atrás da nossa origem divina. Mas há coisas que só alguns sabem, e por acaso nós somos esses. Usamos ou não.
— Pera, pera. — A voz do Veltri começou a subir. — Dons? Demônios? ÍSIS?
— Veltri. Não precisa responder. Só pense. — A voz dela era baixa, mas não havia espaço para fuga. — Uma diferença na família. Algo que vocês sempre fizeram de um jeito que as outras crianças não faziam. Algo sem explicação, que vocês esconderam ou ignoraram a vida inteira. Esse é o dom.
Eu odiei como aquilo me descrevia. Algo inexplicável. As coisas pareciam se encaixar, e eu só queria desmontar tudo.
— Hm. Talvez. — Veltri seguia na defensiva. — E vocês? Tem algum desses "dons"?
Beatriz virou para mim.
— Saramago, me conte o que você fez desde que acordou até encontrar o Veltri para ir ao prédio. Mas invente algumas coisas. Basicamente, minta.
— Anh. Tá?
Parecia simples.
— Eu acordei, comi uma torrada com queijo e presunto, escovei os dentes, tomei um banho morno, coloquei o paletó, saí de casa e pedi um táxi até o Veltri.
— Duas.
— Duas o quê?
— Conte de novo. Mude outras coisas.
— Eu acordei, comi uma torrada com queijo e presunto, escovei os dentes, tomei banho gelado, coloquei o paletó, saí de casa e fui de ônibus até o Veltri.
— Duas de novo.
— Posso pelo menos entender?
— Uma última vez.
Veltri acompanhava aquilo mais interessado do que queria admitir.
— Eu acordei, comi uma torrada com queijo e presunto, escovei os dentes, tomei banho morno, coloquei o paletó, saí de casa e pedi um táxi até o Veltri.
— Uma. — Beatriz ficou em silêncio um segundo. — Então você acordou, comeu uma torrada só de queijo, escovou os dentes, tomou banho gelado, colocou o paletó e pediu um táxi.
Eu pisquei. Estava certo.
Era surpreendente, mas não místico. Talvez eu esperasse algo mais impressionante.
— Não entendi. Achei que fosse acontecer algo mais… wow.
— O meu não é o mais impressionante. — Beatriz deu de ombros. — Em qualquer conversa, eu sei quantas mentiras foram ditas. Não quais. Só quantas.
— Pera, sério? — Veltri franziu o rosto. — Vocês são lunáticos. É ISSO que um semideus faz? Não tem nada de impressionante.
— Talvez não tenha. — A voz dela não se alterou. — Mas em vinte e dois anos, Veltri, quantas vezes você acha que um cliente me disse a verdade logo de primeira? Isso depende de quem usa. Imagino que o de vocês seja muito mais impressionante?
Que mulher complicada.
— E o do Kessler? — Veltri perguntou, sedento de algo sólido. — O que esse cara faz?
— Na real, eu não tenho dom.
— Cara, na boa, vão se fuder. Vocês tão me zuando.
Comecei a achar que tudo aquilo realmente era uma grande piada.
— Alguns não têm. Mas eu consigo fazer isso aqui.
Kessler tirou o colar dourado do pescoço, propositalmente tapando o pingente com a mão, escondendo o formato. Fechou os olhos e aproximou o objeto do rosto. Uma luz azul leve escorreu da mão dele, como se saísse do próprio metal, e subiu devagar até cobrir o rosto inteiro. A luz se modificou, mudando o formato dele. Ou a forma como eu o percebia.
Quando cessou, no lugar do rosto do Kessler estava o rosto de Veltri.
— Aí, eu sou o Veltri e adoro estacionar torto, ocupando a vaga dos meus colegas de trabalho. — Ele tentou imitar uma voz mais grossa, mas ela seguia sendo a de Kessler. O que não a tornava menos assustadora.
— QUE PORRA É ESSA, CARA.
Veltri se levantou de um salto e recuou. A luz se dissipou e o rosto de Kessler voltou ao normal. Beatriz suspirou.
— Agora, seu energúmeno, fala.
Eu estava paralisada na cadeira. Não conseguia acreditar que aquilo era plausível.
— Bom. Senhor Veltri, Senhorita Saramago. Acho que deu para entender. Agora me digam o que vocês fazem.
O que eu faço? Eu não queria falar sobre isso com eles.
— Ai, mas que porra. — Veltri sentou de novo, derrotado. — Tá bom. Talvez isso tenha algum fundo de lógica, ainda que esse papo de semideus seja ridículo.
Ele piscou. As pupilas viraram faixas horizontais, como as de uma cabra.
— Quando eu pisco assim, eu consigo ver fios coloridos entre pessoas, lugares e objetos. Nunca entendi direito. Com o tempo, fui percebendo que são dívidas. De tipos diferentes. — Ele parecia desconfortável. Sempre foi um tabu entre nós. — Eu e a Sara temos uma linha verde, grossa, de afeto. Tu e o Kessler têm uma laranja: ou tu deve um favor a ele, ou ele a ti.
— Você consegue ver de onde vêm as linhas? Interessante. — Beatriz manteve a calma. — Eu tenho alguma além dessa?
Veltri ficou um tempo encarando Beatriz.
— Não. Nada além disso, não de perto. A muita distância eu não consigo ver. — Ele parecia pensativo. — Não quero me expor muito, mas pode ser útil. Eu também consigo ligar um objeto a mim e ter um pequeno vislumbre dele. Fiz isso com uma fivela que o cara da parede derrubou em um dos apartamentos que fomos.
— Nossa. Interessante. O que você viu? — Kessler, do nada, se inclinou para a frente.
— Calma. Falta a Saramago. — Beatriz trouxe todos os olhares para mim.
Merda. Eu odiava aquilo. Não queria que ninguém visse.
— A Sara não gosta muito de falar disso — disse Veltri.
Obrigada, Veltri. Mas Beatriz não recuou.
— Pense nisso como um grupo de apoio, Sara. Ninguém aqui vai te julgar.
Talvez fosse melhor assim. Foi o que o Veltri disse. Torci para que fosse verdade.
— Beatriz. Me dá um papel que tu assinou.
Ela, curiosa, me entregou uma procuração antiga, assinada de próprio punho.
Peguei o papel e coloquei sobre a mesa. Meu coração parecia querer sair pela boca. Era bizarro, mas eu sentia o sangue correndo por cada veia, raspando por dentro. Eu odiava aquilo. Mas deixei fluir, até a ponta dos dedos, e fiz o gesto de quem vai rasgar. Sobre a mesa surgiu um papel idêntico. Mesmas palavras, mesmo timbre.
Depois, olhando a assinatura enrolada da Beatriz, peguei uma caneta e escrevi no verso da cópia. A mesma assinatura. Perfeita.
Fazer aquilo me enchia de desgosto e vergonha.
— WOW. — Kessler voltou a se animar. — Quem diria que a Sara é uma falsificadora perfeita.
Silêncio.
— Kessler, olha o que tu fala. — Veltri tentou se impor.
— Parem. Eu não sou isso. Eu não gosto de usar. É criminoso, e eu não sei por que fui amaldiçoada com isso.
— Pode ser uma bênção — Beatriz disse.
Não é. Mesmo dita por ela, a frase não convencia. Aquilo só podia trazer mal. Ao mesmo tempo, uma parte de mim, pequena e vergonhosa, gostava. Gostava de saber que só eu conseguia fazer aquilo. Pena que fosse justamente aquilo.
Nós dois voltamos a nos sentar. O silêncio encheu a sala, e foi Beatriz quem o quebrou.
— Quando for necessário, explicamos o resto. Vocês estão neste setor por algum motivo. Mas se estão perguntando, deve haver uma razão. Saramago, Veltri. Vocês pretendem agir?
— A gente não queria. — Eu ouvi a minha voz firme, e isso me assustou. — Mas só vencer o caso não é a justiça que eu quero. Mesmo que eu precise acabar com tudo em que eu acredito para isso.
Veltri ficou calado. Mas Beatriz pareceu entender algo que nem eu tinha entendido.
— Então escutem. Vocês já podem fazer coisas que quase ninguém nesse prédio pode. Não se iludam: não é só o bem pelo caminho errado. É isso. Mas também é orgulho. Se entrarem, pode não haver saída limpa. E eu preciso saber se vocês sabem disso. Estão de acordo?
Nos entreolhamos. Eu sentia a chama crescendo de novo, diferente da primeira, mas reconhecível. E sabia que Veltri sentia o mesmo.
Estou disposta a me queimar para alcançar a minha justiça.
— Sim — dissemos, em uníssono.
— Vou ligar para o Nestor.