Não faço ideia do que seria algo apropriado para se usar pra treinar... Deve ser bom usar algo que não seja pesado, ou que faça suar muito. Liguei para o Reizan para confirmar o lugar que iríamos.
Minha mão ainda dói um pouco, mas, por incrível que pareça, o machucado já cicatrizou.
— Ah, vem naquela praça lá do centro.
Ele sabe que tem mais de uma praça do centro, né?...
Eu encarei a tela do celular por um longo minuto; indignado, eu diria.
Eu vou mesmo passar o dia fora do meu quarto?... Eu preciso ir mesmo?
— Pai, posso sair por um tempo? Devo voltar mais à noite.
Será que deu para ele escutar? Gritei do outro lado da casa, vou procurar meu pai e dizer na frente dele logo.
Procurei pelos cômodos da casa, e ele estava na área dos fundos.
— Pai, posso sair por um tempinho? Te aviso se for demorar.
O olho dele até brilhou, ou foi só impressão minha.
— Você vai sair com amigos? Mas, pode sim.
Faz sentido agora.
— Acho que dá pra considerar, sim. Obrigado.
Peguei meu celular e uma garrafa d’água cheia, já que não tenho certeza do que aquele sujeito quis dizer com “bagunçada“.
Com passos lentos, cheguei a uma das praças que dá para considerar “do centro“, mas não tinha ninguém lá. Continuei andando por aí.
Até que senti um toque no ombro.
— E aí, cara. Que demora pra sair de casa, Hikari.
Susto do cacete.
— Pois é, né. Poderia ter especificado melhor onde a gente iria, já que, caso você não saiba, existem pelo menos três "praças do centro".
Reizan ficou com uma expressão impagável... Eu fui muito rude?
— Ehh... Ignorando isso, me segue aí. Vou explicar umas coisas no caminho.
— Tá.
Eu respondi curto demais? Além do mais, ainda não confio totalmente nele, mas é melhor do que nada.
— O que você queria, andando por aí?
Reizan demorou um bom tempo pra responder.
— ...Bom, eu queria te mostrar um pouco do que eu faço no tempo livre. Nós temos capacidades super-humanas, então eu acredito que o certo era ajudarmos aqueles que não conseguem se ajudar.
...não entendi nada.
— Pode explicar melhor?
Ele soltou um suspiro bem grande.
— O que eu tô tentando dizer é, sabe em um assalto? É um cara armado contra alguém indefeso, na maioria das vezes. Eu gosto de ajudar pessoas que passam por situações que não conseguiriam fazer nada a respeito, parece mais certo.
Tá...
— E-Entendi, eu acho. Você quer que a gente ande por aí procurando alguma situação assim?
— Não exatamente, mas se acharmos eu te mostro do que estou falando.
Assim que ele terminou de falar, um carro em alta velocidade descia a rua. Uma criança atravessava a mesma.
— Re-!
Quando me dei conta, ele já havia desaparecido.
Reizan apareceu na frente do carro, fechou a mão e, o ar na frente dele se distorceu. Quando o carro acertou aquele espaço aparentemente pesado de ar, ele começou a desacelerar à força e, diante dele, parou.
Meu corpo travou, em choque. Ele não encostou no carro em nenhuma hora e, ainda assim, o carro parou violentamente. E, estranhamente, o carro estava vazio.
Bizarro.
— Reizan! O menino está bem? O que aconteceu?
— Não aconteceu nada de ruim, pode relaxar.
Reizan estendeu a mão ao garoto, perguntando se ele estava bem. Felizmente, o menino continuou seu caminho sem problemas.
— Então.. Reizan-san, o que aconteceu naquela hora? Como o carro desacelerou rapidamente?
Novamente ele levou um tempo para responder, mas acho que deve ser ele pensando como explicar essa aptidão Fearer diferente dele.
— Eu densifiquei o ar que estava na minha frente, e quando o carro acertou ele, ele foi perdendo velocidade antes de chegar em mim. O cara que tava no carro também está bem.
Caraca... Ele parece ser muito mais poderoso do que eu imaginava.
— Isso é sua habilidade Fearer? Densificar o ar? Legal.
— Bom, não. Ela se estende muito além disso, mas é uma das coisas que consigo fazer.
Será que ele pode controlar o ar, ou algo parecido?
— Entendi... Parece ser bem forte.
— Aham.
E então, o tempo passou sem que eu percebesse, ficamos a tarde toda caminhando por aí e ajudando quando necessário.
— Chegamos, Hikari.
— Chegamos onde?
Reizan fechou a mão, e depois tirou o que parecia ser uma cortina invisível, dali surgiu algo que se assemelhava a uma casa, mas era totalmente quadrada e não tinha uma aparência muito boa.
— Que lugar é esse?
— Lembra aquele meu grupo de Fearers que mencionei um tempinho atrás? Então, aqui é onde a gente se reúne, mas todo mundo tá espalhado esses dias, já que não teve nada de importante ultimamente. Pensa nisso como uma "base".
Não me recordo muito bem do que ele disse. Vou só fingir que entendi que é mais fácil.
— Ah, sim... Vocês treinam aqui, ou algo parecido?
— Às vezes.
Após terminar a conversa desse jeito meio seco, ele abriu a porta (ou o que parecia ser uma porta) e me chamou para entrar. Era um espaço razoavelmente grande e bem vazio.
A construção era totalmente quadrada com um teto, não havia nada ali além de latas e coisas aleatórias. As paredes eram metálicas, e tinham algum tipo de marca nelas, além de em uma delas ter um “Z“ gigante.
— Você disse que sua habilidade era relacionada à objetos, certo?
Ele pegou uma lata vazia de refrigerante e a arremessou em minha direção.
— Sim.
Ele se aproximou de outra lata, antes de falar algo novamente.
— Tenta usar nessas latas vazias, eu quero ver como ela funciona.
Fiquei segurando a lata por uns minutos, mas nada aconteceu, então a arremessei de volta.
— Nada.
Ao terminar minha frase, percebi aquela ondulação esquisita de novo, dessa vez na lata que acabei de arremessar.
Você me escuta?
— Depende.
— Acho que agora funcionou. Você consegue escutar também?
— Escutar o que?
Eu deveria imaginar que outras pessoas não conseguiriam escutar.
— Bom, eu consigo escutar a voz da lata, tecnicamente...
— Pra que você me chamou?
Estou tentando aprender a usar meu poder.
— Interessante, o que mais você faz além de escutar objetos?
— Eh... Não sei.
Reizan riu levemente, e então começou a andar em minha direção.
— Vamos tentar outro método, então.
Diferentes objetos foram arremessados em minha direção dessa vez, e ele continuava andando, dessa vez com uma postura similar à de um lutador de boxe.
— ...Reizan-san?
— Prepare-se.
Oi?
As palavras que ele disse já foram um golpe para mim. Como eu ia lutar com um cara desse?
— Não se preocupe, eu vou pegar leve. Só foque em tentar me derrubar.
Desesperado, agarrei um pedaço pequeno de ferro que ele arremessou junto de outras coisas, e joguei de volta nele. Consequentemente, o objeto foi submetido à minha habilidade Fearer.
— ...
Me ajuda contra esse cara alto aí, por favor.
— ...
Ele avançou, rápido demais para eu acompanhar. O impacto seco no meu braço esquerdo fez meu corpo quase girar, e perdi o equilíbrio.
Droga, droga. Eu não sou desse nível.
Essa habilidade minha não me ajuda... Não consigo confiar nisso.
Fingi um soco de esquerda e dei um gancho de direita nele. Ele não pareceu sentir nada, só teve a cabeça jogada para trás, quando de repente...
— Vou te dar uma mãozinha.
O pedaço de metal, estático no ar, acertou a cabeça de Reizan em cheio, me dando tempo para acertar outro golpe, e foi o que eu fiz.
— Nada mal!
— Mas agora é minha vez.
O que eu temia aconteceu, Reizan fechou a mão.
O pedaço de metal que estava ali tentou acertá-lo novamente. Mas, dessa vez, falhou.
Uma parede invisível em volta de Reizan impediu "meu" ataque.
— Não consigo atacá-lo. É contigo aí.
Tenta seguir meu punho da próxima vez, por favor.
Senti uma mudança no ar em minha volta, parecia que tudo ficou pesado, e mal me aguentei em pé.
— Acho que é o suficiente.
E o ar voltou ao normal.
Obrigado pela ajuda.
A ondulação ao redor do pedaço de metal também sumiu.
— O que você achou?
— Da minha habilidade? Achei meio estranha.
Ele riu.
— Perdão, perdão. Eu digo desse "treino".
— Ah, tá... Inesperado, eu diria.
— É bem sua cara falar isso mesmo. Mas, conseguiu usar sua aptidão, né?
— Aptidão?
— Uai, já esqueceu do termo?
— Consegui usar a minha habilidade, sim. Digo, aptidão.
— Não esquenta em acertar o termo, no fim do dia é a mesma coisa.
Falando no fim do dia, já estava escurecendo e eu esqueci de avisar meus pais que eu iria demorar.
— Me dá um momento aqui, rapidinho.
Pego meu celular do bolso, que, surpreendentemente, não caiu na hora da luta, e liguei para meu pai avisando que eu talvez chegue tarde.
Talvez foi impressão minha, mas ele pareceu contente. Devo estar "vivendo do jeito certo" como todos dizem.
De qualquer forma, esse dia já foi o bastante pela semana.
— Acho que é melhor eu ir indo, Reizan-san. Está ficando tar-
Uma explosão do lado de fora da base.