— ...O que foi isso?
Uma explosão que parece ter sido de fora da base me pegou de surpresa, logo quando eu ia para casa.
— Não se preocupa, eu acho que sei o que aconteceu.
— Tá falando do quê?
— Um momento aí, Hikai.
Hikai...?
Isso foi um apelido?
Reizan colocou as mãos no bolso e foi andando até a porta da base, para confirmar o que estava lá fora. Quando ele abriu a porta, a expressão dele instantaneamente virou a de alguém desapontado, e logo colocou a mão na testa.
— Ah cara, eu sabia. De novo isso, Hashi?
Hashi? Esse é um nome meio familiar, estranhamente.
— Foi mal hahahahah, vi que você tirou a cortina de invisibilidade da base e pensei em vir dar uma bisbilhotada. Mas acabei batendo na parede de novo. Que bom que essa base é reforçada.
Eu conheço aquela voz de algum lugar.
Fui ver quem estava lá, e confesso que não esperava isso.
— Fala ae, Hikari! O Reizan-kun me falou de um recruta novo, mas não achei que fosse ser você.
— Digo, você é o Hikari, né? Espero não ter te confundido. — ele disse enquanto ria.
— Você é o... Yuu Hashiyama-san, né? Da escola-
— Sou sim.
Hashiyama continuava rindo depois de cortar o que eu estava falando. Eu não faço ideia de como me comportar aqui...
— Vocês já se conhecem, é?
— Sim, o Hikari é da minha sala lá. Bem que achei estranho aquele dia ele ter uma marca.
Não sei onde me enfio.
— É... Ele que me disse que a marca estava à mostra aquele dia em que te mandei mensagem.
— Ahhh, faz sentido. Então, o Hashi faz parte do meu grupo que te falei aquele dia.
— Entendi... E o que foi aquela explosão?
Espero não estar me metendo onde não devia.
Depois de eu terminar minha frase, o Hashiyama desviou o olhar com uma cara bem engraçada.
— Então, esse idiota aqui pelo visto gosta de fazer bagunça.
Isso não respondeu minha pergunta...
— Desculpa, cara, já falei, mas nem fez nenhum dano na parede da base. Pra quê todo esse rancor?
Ainda é bem estranho saber que um colega meu é um Fearer. Ele deve me achar estranho pelo jeito que eu ajo na escola.
Mas como alguém consegue fazer um barulho tão alto só batendo numa parede?
— Mas e aí, Hashi, o que anda fazendo? Faz um tempo que a galera não reúne. Um dia eles vão ter que conhecer o Hikai também...
É, ele me deu esse apelido mesmo. Achei que tivesse falado errado antes.
— Ah, cê sabe, eu saio andando por aí sem rumo mesmo, é divertido.
— Poooooo, faz um bom tempo já, né? Tô com mó saudade da galerinha.
Eu sei que a conversa tem um pouco a ver comigo, mas não acho que eu pertença a essa conversa.
É, faz um tempo que não me sinto assim.
Seria melhor se eu fosse embora logo.
Eles continuaram conversando sobre assuntos diferentes, eu não sabia o que fazer. Não prestei atenção em mais nada que disseram, ficou só aquele sentimento de exclusão, mesmo que eu soubesse que não fizeram por mal.
Melhor eu deixá-los aí e ir embora.
— E-Eu já vou ir pra casa, beleza? Tchau e boa noite.
— Ah, já vai? Fica pra conversar aí.
Não, obrigado...
— Foi bom te conhecer fora da escola, Hikari.
— Desculpa, mas eu já vou indo mesmo. Perdão.
Eu devo ter sido rude. Outra hora eu me desculpo...
— Ah, só uma coisa. Aquela bandana não vai te ajudar muito não, Hikari.
...?
Após escutá-lo, eu tive vontade de pedir mais informações sobre o que ele quis dizer. Mas já estava muito cansado pra isso.
Saí da base, voltei até a rua e caminhei em direção à minha casa. Foi até que divertido, eu acho.
Fazia um bom tempo que eu não saía para fazer algo além de ir à escola. O caminho de volta foi bem longo, por mais que não fosse tão longe da minha casa.
Quando cheguei, consegui ver a luz ligada na sala e pude ouvir meu pai assistindo à televisão.
Toc, toc.
— Pai! Abre a porta aqui, por favor. Esqueci minha chave.
Depois de um tempo esperando, ele veio abrir a porta.
— Como foi lá, Hikari? Se divertiu?
...
— Até que sim.
É sempre essa pergunta...
— Eu já vou ir para o meu quarto. Foi legalzinho. Boa noite.
Falei tudo rápido demais.
— Tá.
Ele respondeu de forma meio desanimada, como se estivesse esperando eu falar sobre algo que aconteceu. Me sinto meio mal por isso.
Falei muito seco?
Esquece.
Cheguei ao meu quarto e fechei a porta, pensei em até ligar o videogame pra jogar, mas acho que vou só dormir mesmo, estou bem cansado.
Faz um bom tempo que não vou dormir cedo assim.
Antes de me deitar, só dei uma olhada na espécie de faixa que eu tinha comprado pra esconder a marca. Decidi deixá-la na mesa. Mas talvez eu nem precise usar ela mais, mesmo. Na mesa tinha meu despertador, eram oito e meia da noite. Desliguei-o para me certificar de dormir o máximo que posso.
Esses últimos dias eu quase não tive horas de sono. Espero que eu durma bem hoje.
Mas o que o Hashiyama tinha dito ficou na minha cabeça. O que será que ele quis dizer?
Agora sim, eu realmente fui dormir. Me deitei e me cobri com meu cobertor, e desliguei todos os aparelhos do meu quarto.
Que confortável.
....
11 horas depois...
A luz do sol abraçava o meu quarto, passando pela minha janela enquanto eu acordava lentamente, ouvindo o cantar dos pássaros.
Caraca, me sinto bem melhor do que ontem... Por mais que eu não sinta que estou perfeitamente bem ainda, dormir bem assim me ajudou bastante.
— Aaaaaah...
Me espreguicei como não fazia há um bom tempo. Isso é legal de vez em quando.
O que eu faço hoje...
Acho que antes de pensar no que fazer é melhor começar o dia direito.
Tomei café e comi umas bolachas de sal de café da manhã; é bem fácil de fazer, então eu geralmente como isso de manhã.
Meu pai e minha mãe estão fora de casa a essa hora... Acho que vou aproveitar e assistir à televisão da sala.
Me sentei no sofá e fiquei encarando a televisão desligada. Não senti vontade de ligá-la.
Que saco. Eu queria fazer algo, mas não sinto a menor vontade.
Talvez eu deva dar mais atenção a essa “vida de Fearer” de agora em diante. Vai ser importante me tornar forte.
Quem sabe assim eu seja importante...