Já faz um bom tempo que acordei, e até agora meus pais não voltaram para casa... Será que vão ficar no trabalho o dia todo hoje?
É bem estranho, geralmente voltam perto das 14 horas.
Continuei encarando a tela escura da televisão desligada enquanto me perdia em meus pensamentos, tentando entender o que pode ter acontecido.
Acho que vou ligar a televisão. Talvez tenha acontecido algo de verdade.
Peguei o controle que já estava do lado da minha mão, apontei para a televisão, e então liguei ela.
Biip.
A televisão ficou estática por um tempo antes de realmente ligar. Troquei de canal repetidamente até aparecer algo relevante.
“ACIDENTE NA RUA...“
Espera, acho que conheço esse lugar...
“VÁRIOS CARROS COLIDIRA-“
Desliguei a televisão antes que eu pudesse me preocupar mais do que eu deveria.
Mas, talvez, só talvez...
Peguei meu celular e mandei mensagem ao meu pai. Essa demora não é algo normal.
— Pai, onde vocês estão?
E a mensagem foi enviada.
...
Passou um bom tempo, e eu não tinha recebido uma resposta ainda. Geralmente meu pai responde bem rápido às mensagens.
Acho que não vai ter jeito... Eu vou ter que sair de novo.
Eu não quero ir... mas eu posso mesmo deixar minha falta de vontade me fazer ficar aqui, esperando algo acontecer?
Acho que vou avisar o-
Na verdade, é melhor não. Seria um fardo para ele.
Vou precisar usar a faixa mesmo.
Andei até o meu quarto e peguei a faixa e uma caneta, vai que precisa, sei lá.
Assim que terminei de amarrar a faixa em volta de onde fica a minha marca, me lembrei das palavras do Hashiyama... É uma sensação estranha.
...
Nem, vou usar isso nesse calor não. É só eu... não me sentir tenso perto das pessoas, né?
Não me parece algo que eu consiga.
Deixei a faixa em cima da mesa, coloquei a caneta no bolso da minha blusa e andei em direção à porta de casa.
É tipo caçar um desastre. Isso não é muito confortável.
Bip.
Uma mensagem? Será que é do meu pai?
Não, é do Reizan.
— Aí, vc viu que teve um acidente na sua região?
— Vi, sim.
— Eu tô indo p lá pra ajudar feridos. Vc vem?
O Reizan vai pra lá? Por que? Eu tinha a sensação que era só um acidente de trânsito comum...
— Estou indo.
Passei pela porta e a tranquei com minhas chaves, e enquanto seguia o GPS, fui em direção ao lugar onde havia acontecido aquilo.
É um caminho meio longo até lá.
Mas, quando eu chegar lá, o que eu vou fazer?
Eu acho que pelo menos aprendi quando eu quero usar minha habilidade... digo, aptidão. Mas vai ser suficiente?
Quanto mais eu me aproximava do acidente, mais alto ficava o som de buzinas. Era como um caos constante. Minha cabeça já começava a doer.
Ainda assim, será que essa situação toda, tem a ver com Fearers? Se for, é um problema muito maior do que eu pensei no começo.
Olhei para os dois lados da rua, e não tinha ninguém por perto. Isso é bem estranho a esse horário.
Será que consigo criar um companheiro temporário com minha aptidão?
Peguei a caneta que estava no meu bolso, e tentei fazer meu poder funcionar.
Cria vida, vai...
Acho que não sei usar ele tanto quanto eu imaginava.
Talvez o Reizan já tenha chegado lá e acalmado a situação. Mas ele tinha dito que iria ajudar os feridos, mesmo depois disso ainda estaria bagunçado?
Quando virei a rua, consegui ver uma garota que, aparentemente, estava correndo para longe do acidente, tropeçando e caindo do meu lado. O tornozelo direito dela sangrava de leve, com uma expressão frustrada. E, ela também usava o uniforme da minha escola.
Eu tenho que ajudar ela, né?
Mas eu não acho que eu consiga nem falar um “A“ em voz audível agora.
Enquanto eu hesitava, ela tentava se levantar, mesmo com dor. A garota parecia não ter notado minha presença, eu poderia fingir que não vi nada e continuar seguindo em direção ao meu destino.
Eu estava tremendo. Mais do que eu gostaria, se eu fosse ser sincero.
Mas eu quero conseguir ajudar alguém. Nem que seja apenas uma pessoa, eu- eu tenho que fazer algo. É pra isso que eu sou Fearer, né...?
Fui até a frente dela, e enquanto eu reunia toda minha coragem, estendi a minha mão.
— V-Você está bem? “ Foi o máximo que consegui pensar e falar.
Ela me olhou surpresa, claramente não tinha me percebido. Quando ergueu a cabeça, notei um brinco de lua e estrela, que estava parcialmente escondido pelo cabelo rosa. A luz do sol, vinda às minhas costas, refletia nele, fazendo-o brilhar de leve.
Quando a garota começou a falar, minha mente já não habitava mais o mesmo mundo.
— Obrigada. Só machuquei um pouco o tornozelo.
Após terminar de falar, ela usou minha mão como apoio e conseguiu se levantar. Deve ter percebido o quanto eu estava tremendo, talvez.
A mão dela era estranhamente quente. Ou eu que estou muito frio.
A presença dela era, de certa forma, estranha. Eu não sei direito o que, mas é inquietante.
— Você consegue andar-? — Eu ia perguntar se ela conseguia andar bem. Isso pode ter soado meio rude.
— Até que sim, eu acho hahah. Logo no dia que não uso sapato pra sair isso acontece... Qual o seu no-
— E-Eu já vou indo, então.
Ela pareceu querer dizer algo, mas eu já havia a cortado.
Comecei a andar sem olhar pra trás em direção à rua. Talvez eu nunca mais nem encontre ela, mesmo.
Acho que seria bom eu avisar o Reizan que estou chegando, eu mesmo não entendo muito da situação atual. Peguei meu celular do bolso e abri o contato dele.
— Reizan, como está a situação do acidente? Já estou chegando.
Bip.
Como sempre, rápido.
— Ah, tô ajudando umas pessoas a saírem da bagunça. Aparentemente tem um cara no meio da rua que começou a andar na frente dos carros e, por algum motivo, eles começaram a se acertar.
Que? Isso não me parece muito... coisa de Fearer; por mais que seja estranho. Será que meus pais estão bem?
— Tá.
Depois de um tempo, finalmente cheguei ao local, e, sinceramente, era mais estranho do que eu podia imaginar.
A rua não era larga, mas tinha vários carros com outros espalhados por todo lugar possível. Apenas alguns lugares na calçada estavam livres. Era um show de buzinas, gritos, xingamentos; e, no meio daquilo tudo, tinha um único homem.
E, aquele homem, estava com uma expressão estranhamente séria, rindo para si mesmo.
Como se aquilo já não fosse suficiente, pelo menos três carros estavam pegando fogo na região do motor, enquanto as pessoas tentavam sair deles às pressas.
O que diabos está acontecendo aqui...
Olhando em volta um pouco, pude ver a figura do Reizan andando por aí na rua, provavelmente procurando alguém machucado.
— Reizan-san! O que está acontecendo aqui?
Ele se virou na minha direção e, em uma velocidade surpreendente, ele chegou ao meu lado.
— Aquele loucão ali no meio da rua é o Fearer que causou tudo isso. Por algum motivo, eu não consigo pensar em algo que a gente possa fazer pra resolver a situação.
Então é obra de Fearer, mesmo... esse cara é tão forte que nem ELE consegue fazer algo? Eu pensei que o Reizan conseguisse cuidar disso facilmente.
— Então... nem você consegue parar ele?
— Acontece.
Mas, mais importante que isso, eu tenho que achar meus pais.
Mesmo assim, não faz sentido essa situação toda... passou no jornal, e não vejo sinal de policiais ou bombeiros tentando resolver a situação.
É estranho, muito estranho.
Enquanto eu andava pelos poucos espaços livres na calçada procurando pelo carro de meus pais, eu senti um calafrio estranho. Pode ter sido só impressão, mas todas as pessoas nos carros pareciam olhar para mim ao mesmo tempo.
Que droga... Parem de olhar para mim. Não tem nada de interessante na minha direção.
Depois de uma longa busca, não consegui encontrá-los. Mas, se eu “conseguir“ resolver a situação, então todos irão conseguir sair de qualquer jeito, né?
É uma pressão estranha. Eu não tenho a responsabilidade de resolver isso, mas eu preciso.
Mas eu queria poder ficar invisível enquanto eu estou aqui...
Me dirigi até o centro do problema, pra discutir com Reizan o que fazer sobre aquele cara. Ou melhor, aquele Fearer.
— Você tem alguma ideia, Reizan-san?
— Dá pra tentar conversar com ele, se pá.
Não sei se isso vai resolver algo...
— Talvez a gente precise brigar.
— Que? Mas eu-
— Hikai, pensa que é um teste pro grupo. Mesmo que não seja.
Ainda assim... não consigo lutar. Eu sou fraco.
— Você tem alguma ideia melhor, então? Tem horas que esse tipo de coisa é necessário.
— E-Eu entendi... Desculpa.
— Desculpa pelo quê? Sua reação foi esperada.
— Tá, desculpa.
...
Droga.
— Cara— E Reizan começou a rir descontroladamente.
— Esquece isso.
— Tá, tá...
Mesmo concordando, ele ainda deu uma pequena risada depois.
Esse cara é muito relaxado...
— Aí, Hikai. Usa sua aptidão pra acertar ele de surpresa.
— Que? Você quer que eu taque algo nele enquanto ele não vê?
— É.
— Isso não seria meio covarde de minha parte?
— Você acha que vence ele de forma justa?
...
— Foi o que pensei.
Fui refutado. Nunca é uma coisa boa perder pra lógica do Reizan...
Peguei a caneta no bolso e, tentei concentrar toda minha energia nela. Não tenho certeza se meu poder funcionou, mas, se não funcionou agora, não vai funcionar se eu tentar de novo do mesmo jeito.
Depois de sentir a caneta mais pesada, eu me preparei para arremessar ela como um dardo.
Eu só preciso acertar.
...
Eu ia fazer o quê mesmo...?