Eu tenho que voltar.
Me esgueirei pelos cantos da rua, geralmente os lugares mais fumacentos. Eu tive que garantir que não soubessem sobre qualquer detalhe sobrenatural que aconteceu.
Espero não ter machucado muito aquele Fearer. Por mais que ele fosse do grupo terrorista que o Reizan disse, não me pareceu alguém que soubesse lutar.
Conforme o tempo passava, mais autoridades chegavam ao local.
Depois de um tempo, cheguei ao portão da minha casa.
Ué, já chegaram?...
Fui correndo até a porta, que agora estava destrancada, e entrei.
— Pai? Mãe?
— Vocês já chegaram?
Enquanto eu os chamava, procurei por eles na casa. Felizmente, meu pai estava no lugar de sempre, na cadeira ao lado do sofá.
— Ah, bom dia, filho. Você estava fora?
— Eu só dei uma volta no bairro... Aconteceu algo?
— Ah... mais ou menos. Ficamos presos em um engarrafamento, mas agora há pouco o trânsito voltou a andar.
— ...
— É que vocês demoraram pra chegar em casa e teve aquele acidente todo que passou na televisão—
— Não precisa se preocupar, Hikari. A gente estava em uma rua perto do acidente, mas não ficamos presos no meio da bagunça.
A expressão dele estava bem feliz, até onde posso dizer.
— Ah, tá... A mãe tá aí?
— Ela tá descansando no quarto. Você almoçou? Acabamos chegando tarde demais e acabamos almoçando no trabalho hoje.
— Mhm. Vou pro meu quarto.
— T—
Não consegui ouvir o resto, já tinha virado o corredor e entrei no meu quarto. Me sinto bem cansado depois de tudo aquilo.
Será que dá pra cochilar um pouco? Mas, se estiver muito cedo e eu acordar tarde, seria um problema.
Ah, é. Amanhã eu tenho aula de novo. Que merda...
Vou só jogar um pouco pra passar o tempo.
Fui até o videogame e conectei os cabos dele. Faz um tempinho desde que não jogo nada. Esse lance todo de Fearers consumiu meus pensamentos nos últimos dias.
Ainda sinto sono, mas é melhor eu dormir depois. É relativamente cedo.
Fiquei jogando jogos online por algumas horas antes de acabar caindo no sono. Tenho que acordar muito cedo amanhã... Mas fazer o quê.
…
Acho que já passou um tempo, vou me deitar. Preciso acordar lá pras 6 da manhã mesmo, então é importante dormir cedo.
Desliguei o console e fui até minha cama. Não tive vontade de arrumar as cobertas, então deixei a cama toda bagunçada mesmo.
...
— "Bip bibip."
Mais um dia...
Desliguei o despertador e fui me preparar pra ir à escola.
Após tomar um banho, peguei meu uniforme e minha blusa, também guardei meu celular na mochila.
Ah, vai que eu preciso da faixa.
Pensei por um tempo e decidi levar a faixa guardada no fundo da mochila. Pode ser que eu precise.
Me arrumei e, então, saí do meu quarto.
— Bom dia, pai. Já vou pra aula.
— Você não vai tomar café antes?
— Não, obrigado. Eu como lá.
— Tá...
Talvez ele quisesse conversar. Depois das aulas eu me desculpo com ele.
Saí de casa, tranquei a porta e fui andando até a escola.
O caminho foi relativamente calmo, mas a certeza de que eu vou estar naquela sala de aula de novo me apavora.
Que o meu dia seja pacífico...
A luz do sol é bem morna esse horário.
Quando cheguei ao portão, entrei e fui até minha sala. Sempre chego mais cedo que os outros, pra não ter problema com assentos.
Vou só abaixar a cabeça até a aula começar.
O som do ventilador que só é audível nesse silêncio é bem confortante.
20 minutos depois, os alunos começaram a chegar, assim como o professor. Quando escutei o professor arrumando a mesa dele, levantei a cabeça para prestar atenção à aula.
Ocasionalmente eu olhava pro meu lado, onde sentava o Hashiyama. Ainda não consigo acreditar que alguém da minha sala é Fearer.
Mas, junto da aula começando, os barulhos excessivamente altos feitos pelos alunos também começavam.
Eu vou ficar bem. Não vai aparecer minha marca. Eu não estou tenso.
...
As 2 primeiras aulas passaram de forma estranha, foram irritantes e pacíficas ao mesmo tempo.
Quero ir pra casa deitar logo...
Faltando 1 aula para o intervalo, pode-se dizer que prestei bastante atenção na aula enquanto cochilava na minha mesa.
— "Triiiiim."
Finalmente, o sinal tocou. Guardei meu caderno e fui pra fora da sala, por mais que eu preferisse ficar lá mesmo.
Olhei em volta onde os outros alunos iriam ficar e me sentei perto da fresta da porta da minha sala, onde sempre fico no intervalo.
Geralmente ninguém vem aqui perto, então é bem reconfortante ficar aqui, se comparar com as aulas.
Acho que vou só cochilar mesmo.
...mas, será que não vale a pena tentar criar um companheiro objeto?
Talvez seria mais divertido.
Mas aí minha marca ia ficar à mostra.
...
Esquece.
Me apoiei numa espécie de pilar que fica perto da fresta da porta e relaxei. Esses últimos dias foram realmente mais ativos que minha rotina normal.
Até agora me sinto exausto.
Senti um toque no ombro enquanto cochilava contra o pilar.
— Ei, você é aquele garoto que me ajudou ontem, não foi?
Me virei na direção de onde veio o toque, e esse acontecimento não era algo que eu gostaria que tivesse acontecido.
A garota que ajudei a levantar ontem, no caminho do acidente, aparentemente me reconheceu na escola e veio falar comigo.
Que saco...
— Uhum — respondi, quase que sussurrando e olhando pro lado contrário.
— Ah, que bom então. Eu só queria te agradecer por aquilo, mesmo. Mas não tenho nada a oferecer, então, foi mal aí.
— T-Tem problema, não.
Preferiria estar cochilando de leve.
— Qual seu nome, aliás? Quando te perguntei, você já tinha ido...
— Mm, Hikari Ninkai.
— Nome legal. Sei que não perguntou, mas me chamo Mayuki Tsukishiro. Esse lugar aqui é bem quieto, né?
— Mhm.
Enquanto eu tentava respondê-la adequadamente, conseguia sentir meu suor frio passando pela minha testa.
— Posso me sentar por aqui, também? Todos os lugares ficam muito barulhentos na hora do intervalo.
Isso é sério...?
Meu corpo travou por um instante enquanto eu processava o que ela havia dito.
Logo aqui? Sério mesmo? Justo onde eu não precisava me preocupar com nada...
Desviei ainda mais o olhar, agora encarando o chão.
— Se quiser...
Ah cara, minha voz saiu muito baixa... Eu não quero repeti—
— Tá bom.
Ainda bem que ela ouviu.
Ao ouvir ela se sentar um pouco longe do meu lado, voltei a me apoiar no pilar, tentando cochilar novamente.
— O que você geralmente faz aqui?
Ela vai ficar tentando conversar...
— Cochilo.
— Tendi.
Depois de um tempo descansando, abri os olhos e olhei pro lado. Ela ainda estava lá.
Mas, agora que reparei, ela não tá com nenhuma faixa ou machucado visível no tornozelo... Será que o machucado foi menor do que parecia? Mas sangrava até que bastante, pelo que pude ver ontem... que estranho.
Mas, depois daquela última interação, ela não puxou conversa mais. Quando o sinal tocou, ela foi para a sala dela sem falar nada, também. É melhor assim, menos complicação.
Acabei nem pegando o lanche de hoje... eu queria ter comido pão.
E, quando me dei conta, as aulas já tinham acabado. Acabei nem tirando a faixa da mochila.
Quando cheguei em casa, fui direto pro quarto. Meu pai estava fora de casa e não estou muito no clima pra jogar hoje, então vou só deitar mesmo.
Ainda assim, me questiono se existe algum tipo de treino especial para Fearers. Será que pergunto isso pro Reizan também?
Ah, melhor não. Sinto que toda hora estou só perguntando tudo pra ele... Melhor só deixar isso pra lá. Nem deve existir mesmo.
Mas seria legal ficar forte. O Reizan deve ser Fearer há muito tempo pra ser tão forte assim.
Depois de um tempo pensativo, decidi “dar vida” a um objeto e conversar com ele até dormir.
Não deve ser muito difícil, né? É só pra conversar, também...
Peguei o despertador, que estava em uma pequena mesa do lado da minha cama, e o segurei por uns segundos.
Funcionou?
Abri os olhos e vi aquela mesma ondulação familiar em volta do despertador.
— Talvez.
Ah, boa noite.
— É, boa noite.
Tá calor, né?
— Tá sim.
...
Acho que não tem muito o que conversar.
Depois dessa fracassada tentativa de conversa, olhei pro despertador, e não havia ondulação alguma. Talvez o poder tenha “desligado”.
Mas, uma hora ou outra vou ter que aprender a usar esse poder melhor.
Fechei os olhos novamente, ainda com esse pensamento na cabeça.
No fim, nem isso deu certo hoje.
E, antes que eu percebesse, o cansaço me venceu.