— Reizan-san?
Quando terminei de falar, ele me puxou pela manga da minha blusa, e comecei a voar junto com ele, mas eu sentia como se estivesse pisando em ar sólido.
A gente também estava voando muito, muito rápido. Esse cara é bizarro.
— Não tem tempo.
— Tá, mas o que—
— Estamos indo em direção à base do grupo. Lá te explico. Ficar na sua casa é perigoso.
— Tá, mas e os meus pais—
— Eles não têm a ver com o problema. Eles... devem ficar seguros.
— Devem?
— Olha, esquece isso. Só não se preocupa, cara.
— Isso é fácil de dizer.
E como que eu estou praticamente voando junto...?
— Olha, o que eu posso te dizer agora é que tem a ver com a queda de energia. É a organização terrorista Fearer de que te falei.
Isso é bem bizarro. Será que ele estava sumido nas últimas duas semanas por causa disso ou algo do tipo?
— Aliás... Uh, por que você estava sumido esses dias?
— Hmm, coisa de trabalho?
— Você trabalha?
— Por aí.
Tá, não sei mais o que dizer.
Depois de um breve tempo, a gente já tinha chegado à base. Foi muito rápido, considerando a distância entre minha casa e a base deles.
— Olha, aqui vai ser mais seguro. É melhor você não se envolver nesse problema desta vez. É bem acima da sua escala.
Problema? Escala? O Reizan tá falando muito formalmente... É esquisito.
— Não dá pra me explicar?
— Não acho que tenha tempo... O Hashi deve estar vindo logo também. Já informei ele da situação.
— É tão problemático assim?
— Mais ou menos? É mais uma questão de você conseguir fazer algo, e seria mais seguro você ficar aqui.
— Eu não consigo ajudar em nada...?
— Não, de forma realista.
Parecia que ele ia dizer algo a mais, mas aparentemente se conteve.
— Pode só me dizer algo sobre o que aconteceu?
— Atacaram a rede de energia da cidade. Resumindo, é isso. Eu vou pra lá agora pra tentar resolver o problema. Se precisar, me contata pelo celular.
— É algo muito perigoso?
— Nem tanto. Mas é melhor garantir.
— Ah...
Só espero que realmente não aconteça nada de mais.
— Então é isso. Até.
Depois de se despedir, ele rapidamente voltou a voar e foi em direção à cidade.
Alguns minutos se passaram e, enquanto esperava pelo Hashiyama, me sentei no chão da base. Esse lugar não é muito agradável pra passar o tempo. Não tem nada aqui...
— Oooopa, tem alguém aí?
Hashiyama entrou pela porta da base, acenando pro vento.
Acho que, de alguma forma, ele não me percebeu.
— Oi.
— E aí, Hikari-kun.
— ...Oi.
— Atrasei um pouco, eu acho. O Reizan-kun já foi?
— Foi. Ele já saiu voando.
— Aliás, ele te trouxe voando?
— Sim.
— Você se machucou?
Quê?
— Não...? Por quê?
— Ah... Pô, é que, quando ele levava alguém voando antigamente, geralmente a pessoa acabava com alguns cortes.
Cortes?
— Cortes?
— Mas, se você não tem nenhum... Talvez ele tenha diminuído a velocidade desta vez.
E pareceu bem rápido... Imagino como seria se ele tivesse ido como "antigamente".
— Ah, mas não importa mesmo. De qualquer jeito, você regeneraria.
— Oi?
— O quê?
Como assim regeneraria?
— Como assim?
— Ué, você não sabia?
...
— Não? Sabia do quê?
— Então o Reizan-kun não te contou mesmo.
Esse cara...
— Resumidamente, Fearers têm uma regeneração bem acima do normal. Então, mesmo se você tivesse se cortado, provavelmente já teria se recuperado.
— Entendi. Obrigado.
De novo, o Reizan esquecendo detalhes.
...Quantas outras coisas ele não me contou?
— Mas, deixando isso aí pra lá, é melhor a gente realmente não sair.
— O Reizan-san me falou sobre isso. A situação é realmente tão ruim assim?
— Não é tanto, mas é perigoso. Ainda mais pra ocê, que é bem inexperiente como Fearer.
Se eu fosse mais competente...
— Então, tudo que posso fazer é ficar aqui esperando?
— É.
— Não tem nada que possamos fazer, não?
— Hmmmmmmmmmmmmm.
Que tipo de pessoa expressa um pensamento assim...?
— Quer testar sua aptidão, não?
— Como eu testaria?
No momento em que comecei a falar, ele puxou uma pedra (?) do bolso. Eu fiquei sem reação.
— Pega aí.
Por que ele carrega uma PEDRA no bolso?
Talvez tenha a ver com a aptidão dele.
— Tá, eu acho.
— ...O que sua aptidão faz mesmo, Hikari-kun?
Ah, é mesmo... Ele não sabe.
— Ah, é tipo, uh, dar vida pra objetos?
— Ah, massa.
— Mas eu ainda não sei exatamente como usar.
— Então tenta, ué.
Passei um tempo tentando dar vida à pedra, mas não funcionava. É bem estranho, já que, quando fui jogar, consegui usar a aptidão com o controle.
— Acho melhor deixar quieto, Hashiyama-san.
— Tá, então.
Fiquei mais um tempo olhando para a pedra, que agora estava no chão.
Por que não funcionou?
Eu tinha conseguido fazer isso antes. Mas, dessa vez, nada aconteceu.
— Bip.
Uma mensagem? De quem será que é?
Peguei meu celular do bolso enquanto Hashiyama observava e abri as notificações.
Ah, é o Reizan.
— Aí, Hikai, quer vir aqui onde eu tô? Chama o Yuu junto.
Como assim? A situação não era grande demais pra mim?
— É, pois é. Por aí.
Isso não faz o menor sentido...
— Então por que você está me chamando?
— Ah, é, então... Me ajuda a arrumar a situação aqui?
— Ué.
— Os Fearers já não estão aqui mais.
Não vai me dizer que...
— Mas já?
— Quem diabos você acha que eu sou?
— Sei lá?
— Tanto faz. Vem logo e chama o Hashi.
Tá, então...
— Hashiyama-san?
— Fala.
— O Reizan-san falou pra gente ir até onde ele está.
— Ah, tá. Já vamos, então.
— Mas ele não falou onde é...
— Não importa, eu sei onde é.
O Reizan contou pra ele? Faria sentido.
— Hikari-kun, você é pesado?
Quê?
— Quê? Eu?
— É.
— Creio que não...? Por quê?
— É que aí eu te arremesso até ele—
Quando ouvi aquilo, tenho certeza de que fiquei de queixo caído.
— Oi?
— Hm?
— Isso é sério?
— Seríssimo, pô.
Eu estou com um mau pressentimento.
— Você só vai... sei lá, me segurar pela minha blusa e me arremessar bem longe?
— Não, tipo, eu vou agachar, e você vai usar meu joelho e minha mão como trampolim...? É tipo assim, tendeu?
Cara.
— Isso não parece nem um pouco seguro.
— Tá suave. Eu vou falar pro Reizan a direção em que te taquei, e ele te busca no ar.
Isso tem que ser algum tipo de piada…
— Tem certeza?
— Vai logo, cara.
Depois de desistir de tentar convencê-lo a ir normalmente, fomos para fora da base. Cobrimos a base com a "cortina invisível", e ele se ajoelhou, apoiando as mãos sobre um dos joelhos para que eu pudesse usá-los como impulso.
Eu não acho que vá funcionar.
Quando coloquei um dos pés ali, senti uma energia estranha percorrendo toda a minha perna direita. E, antes que eu pudesse perguntar alguma coisa, ele fez o movimento, e tive que tentar direcionar o pulo para o lugar onde o Reizan estava.
Foi muito diferente de tudo que já passei. Eu estava indo muito rápido, sem apoio nenhum no ar e quase girando.
Passei alguns minutos no ar, e meu estômago começou a embrulhar. Quando vi o Reizan praticamente na minha frente, aparentemente eu já tinha desacelerado completamente, sem nenhuma consequência.
— Mas o qu—
Logo em seguida, Hashiyama caiu no chão embaixo de nós.
O que que aconteceu aqui?
— Eu gostaria de saber o que aconteceu...
— Ah, isso daí foi só o Hashi usando a aptidão dele. Não se preocupa.
Até aí eu acho que dá pra entender, né...
— Mas, voltando ao que importa. Hikai, Hashi, me ajudem aqui. Aconteceram umas... coisas enquanto eu resolvia a situação toda.
— Reizan-kun, você apreendeu todos os que tavam causando problemas?
Quando Hashiyama perguntou isso ao Reizan, ele olhou pro chão e fez uma cara estranha.
— É... Tudo resolvido.
Por que eu tenho a impressão de que ele está escondendo algo?
Depois dessa interação meio suspeita, Reizan nos mostrou onde a gente precisava ajudar a "reparar".
— Aliás, cês dois conseguem me ouvir?
— Consigo.
— Sim.
— Então, eu chamei vocês dois especialmente porque suas aptidões podem parecer coisas normais se ninguém prestar muita atenção. Mas tomem cuidado caso alguém veja vocês.
— Tá.
— Mhm.
Pelo visto, a batalha tinha sido relativamente grande. Havia uns destroços espalhados pela rua que eu nem conseguia identificar de onde tinham vindo. Não havia muitas pessoas por perto àquela hora, mas era melhor tentar minimizar os problemas para quem fosse arrumar tudo no dia seguinte.
Eu não conseguia usar minha aptidão naqueles destroços grandes, então só ajudei a levantar alguns para os outros dois tirarem dali. Hashiyama, especificamente, levantava tudo com muita facilidade. Até mais facilidade do que o Reizan.
Vi uma senhora que estava presa entre os destroços. Por sorte, ela não estava embaixo deles, então não tinha nenhum machucado de verdade. Tirei os pedaços menores com minha aptidão e a ajudei a sair dali.
— Muito obrigada, garoto.
Não consigo responder nem ela normalmente...
— Mhm.
No fim, só acenei.
Passei uns 30 minutos ajudando a tirar pedaços grandes de pedra, tijolos ou o que quer que aquilo fosse da rua. Quando olhei em volta, havia uma pequena bagunça em outro lugar ali perto.
Mas uma figura específica acabou me chamando um pouco a atenção. Era uma garota de cabelo rosa curto, com um pequeno acessório que brilhava mesmo àquela hora da noite. Ela estava ajudando alguns moradores a se levantarem.
...Essa é a Mayuki? O que ela está fazendo aqui?
Talvez ela more por perto. É estranho, mas é melhor só me concentrar em terminar isso aqui.
Depois de um tempo, tudo estava resolvido.
— Finalmente...
— Nada mal, Hikai. Mesmo que você seja um pobre coitado e fraco, por ser Fearer você até consegue levantar uns destroços meio grand—
— Ah, para de encher o saco do cara, Reizan-kun. É normal, hahahahah.
Encarei aquilo como só uma brincadeira. Por mais que tenha me incomodado, era a verdade.
— Já terminamos tudo, né?
— Já sim, Hikari-kun. Quer que eu te arremesse até sua cas—
— Não. Obrigado.
Eu não sei se isso era pra ser uma piada, mas o Reizan estava rindo.
— Aqui é até que perto do bairro da minha casa. Tchau, Hashiyama-san e Reizan-san.
— Té.
— Té?
— É só um "até", Hikari-kun.
Ah, devo ter sido bem estranho.
No fim, só fui pra casa. Meus pais provavelmente estavam dormindo quando a energia caiu, então só preciso não fazer barulho para não acordá-los.
Mas, ainda assim, é muito esquisito... Por que a Mayuki estava lá?