Numa terra devastada, os soldados do império avançavam a passos pesados contra um vilarejo tomado por feras. Tigres, crocodilos, lobos e até javalis se chocavam contra a linha de frente, e o ar se encheu de gritos, do estalar das espadas e do rosnado das bestas. Para um soldado comum, aquele corpo a corpo era praticamente uma sentença de morte. Com um estrondo, Sanstone arremessou um lobo gigantesco pelos ares usando só o escudo. Ela cravou as botas no chão e gritou:
— Formação, soldados! Ninguém aqui vai deixar esses bichos acabarem com o nosso modo de vida!
No instante em que a ordem foi dada, um lobinho branco, pequeno demais para estar num campo de guerra, ergueu o focinho no fundo da linha inimiga e soltou um uivo agudo. As bestas recuaram na mesma hora. Uma das criaturas maiores agarrou o filhote no colo e a horda inteira saiu em disparada, rápida a ponto de assustar.
Sanstone correu atrás deles, mas uma chuva de flechas despencou do céu na direção dela. Ela levantou o escudo enorme e gritou:
— Recuar!
Os soldados voltaram o mais depressa que puderam. Algumas flechas acertaram seus alvos, mas a grande maioria do exército saiu inteira. Vendo que as feras tinham escapado, Sanstone fechou os punhos e socou o chão, abrindo uma cratera sob os próprios pés.
— Droga!
Ela prendeu o escudo nas costas e voltou a pé para o vilarejo, que acabara de ser retomado. Uma das valquírias correu até ela, ofegante, com um sorriso aliviado.
— Vice-Comandante, tivemos algumas baixas, mas o exército venceu mais essa, e tudo graças a vo...
— Não — Sanstone cortou a garota sem olhar para ela. Seus olhos varriam o horizonte. — Isso foi perda de tempo. Eles estão brincando com a gente. Se continuar assim, vamos perder, e não vai demorar. Preciso falar com o comandante. Montem a base!
Ela marchou até uma casa que servia de posto de comando e fez sinal para uma valquíria especialista em comunicação.
— Contato com o comandante. Agora.
A valquíria bateu continência e fechou os olhos para se concentrar. Seus dedos desenharam círculos rápidos no ar, soltando faíscas azuis que crepitaram até formar uma pequena chama gelada. Dentro do fogo, uma miniatura de Alexandre tomou forma.
Enquanto isso, na base subterrânea da capital, Alexandre estava debruçado sobre um mapa tático. Um de seus guardas ergueu na palma da mão uma chama azul com a forma de Sanstone.
— Comandante, desculpe interromper o seu raciocínio, mas estamos recebendo um sinal da vila.
Alexandre levantou os olhos do mapa. Dava para ver o cansaço nos ombros dele.
— Pode continuar.
O guarda assentiu, e a voz de Sanstone saiu do fogo azul:
— Comandante, está me ouvindo?
— Alto e claro, Sans — respondeu ele. — Qual é a má notícia?
Sanstone em miniatura cruzou os braços, e a irritação aparecia até na silhueta mágica.
— Como se você já não soubesse. A luta durou quase nada. Eles fugiram assim que eu apareci, mas mesmo assim tivemos perdas.
— E quantas baixas o inimigo teve? — perguntou Alexandre.
A Vice-Comandante desviou o olhar e estalou a língua.
— Tsc! Menos que a gente...
Alexandre se recostou na cadeira e levou o dedo ao queixo.
— Entendi. Então o que eu temia é verdade. Eles estão só se divertindo para minar o psicológico da tropa. A moral dos soldados não pode cair. Eles são a única proteção que esta nação tem.
A expressão dela suavizou por um instante, antes de voltar ao tom frio e profissional.
— Falando assim, até o exército fica mais animado, Comandante.
— Eu só digo a verdade. Bom, mandei a Valentina para dar apoio a você.
A miniatura de Sanstone estreitou os olhos.
— A Valentina? Por que tinha que ser justo ela?
Alexandre balançou a cabeça.
— A Laura está ocupada com os prisioneiros e, sinceramente, prefiro não saber o que ela está fazendo com eles agora. O Marcos é um desastre em furtividade e esta preso com outra tarefa e você precisa segurar o front.
— Pode deixar que eu cuido de tudo aqui. Você sabe muito bem que eu...
— Não vamos discutir isso — cortou Alexandre, com a calma. — A Valentina é a melhor escolha para infiltração. Ela já deve ter chegado aí, porque fui falar com ela mais cedo para explicar a missão.
Sanstone semicerrou os olhos, e a chama azul pareceu esfriar. O Comandante suspirou, já sentindo a dor de cabeça chegar.
— Não me olhe assim. Eu só fui conversar sobre tática. Sem gracinhas.
Sanstone relaxou os ombros, embora o biquinho continuasse ali, discreto.
— Entendido. Desligando.
O fogo se desfez no ar. Alexandre afundou na cadeira e massageou as têmporas. O guarda o observou, curioso.
— O senhor parece exausto. Aconteceu alguma coisa?
Alexandre sorriu de leve, os olhos nas peças de xadrez espalhadas sobre o mapa da vila.
— Nada. Só espero que essas duas se entendam. Elas andam se evitando desde aquele probleminha com a Primeira-Ministra.
De repente, duas mãozinhas cobriram os olhos dele. Todos os soldados da sala bateram continência e baixaram a cabeça na hora. Uma voz fina e doce sussurrou no ouvido de Alexandre:
— Adivinha quem é?
Ainda sentado, ele sorriu, sem nem precisar pensar.
— A minha melhor amiga, a Lilith.
— Acertou, Alê!
Lilith tirou as mãos e flutuou até a frente dele. Ficou deitada de bruços no ar, com o queixo apoiado nas mãos e as pernas balançando, como se estivesse numa cama invisível. Alexandre reparou no grimório pesado preso à cintura dela, sem um arranhão.
— Seu pai foi bem piedoso com o seu livro, pelo visto. E a que devo a honra da visita à sala de comando?
Lilith soltou uma risadinha travessa.
— Hihi, o papai só teletransportou o meu livro pra longe de mim na hora. Foi muita maldade dele! Enfim, vim saber das boas notícias sobre a guerra.
Alexandre coçou a nuca e riu, nervoso.
— M-Majestade, a verdade é que não estamos indo tão bem. As bestas estão meio que brincando com o nosso exército. Só a Sanstone consegue fazer eles recuarem.
O sorriso de Lilith murchou, e os olhos azuis dela escureceram.
— Mas que coisa chata. Esses soldados não servem pra nada?
Os guardas e as valquírias presentes encolheram os ombros, magoados de verdade. Alexandre tentou intervir, falando baixinho:
— Lilith, você devia respeitar eles. Eles são o futuro da nação...
— Respeitar? — Ela inclinou a cabeça, e a voz saiu soberba. — Eu só respeito quem é forte. Pensa comigo: se eles perdem pra um bando de cachorros, o que vai ser das mulheres? Vamos ser todas aniquiladas por causa da incompetência deles.
Apesar da aparência de criança, o comentário acertou o orgulho dos homens da sala em cheio. Todos endireitaram as costas na mesma hora, com o rosto fervendo de determinação.
“Nossa, basta ameaçar a masculinidade deles que todo mundo passa a trabalhar em dobro, pensou Alexandre, segurando uma risada.”
— B-bem, Lilith, a boa notícia é que mandei alguém furtivo para nos dar uma vantagem estratégica — concluiu ele.
A Primeira-Ministra abriu um sorriso e flutuou até ficar quase nariz com nariz com ele.
— Sério?! Você é mesmo um comandante excelente! Por causa disso, hoje à noite eu quero você lá na minha torre. Só nós dois, a noite toda!
Alexandre fechou os olhos e aceitou o destino com uma cara de derrota digna de comédia, enquanto Lilith decidia que o topo da cabeça dele era o melhor lugar do mundo para se sentar.
No posto de comando da vila, o fim da transmissão deixou Sanstone em silêncio. Ela suspirou.
— Não acredito que vou ter que aturar você.
Sem avisar, ela girou o corpo e desferiu um soco devastador para trás. O punho encontrou o aço de uma espada que bloqueou o golpe com perfeição. A camuflagem óptica estourou em faíscas e revelou Las Platas.
— Nossa, Sans. Você vira uma fera quando o assunto é o mestre — provocou Valentina.
Sanstone empurrou o punho contra a lâmina.
— Parece que você faz isso de propósito. E... percebi que ficou mais forte.
Valentina afastou o punho da prima, guardou a espada com um clique alto e ajeitou o cabelo.
— Eu estava só me aquecendo, querida.
As duas se encararam, e uma aura assassina, meio cômica, se espalhou entre elas. A valquíria da comunicação recuou, tremendo e balançando as mãos.
— C-calma, senhoritas! Será que vocês não podem resolver isso de um jeito pacífico?!
Valentina desviou os olhos primeiro e suspirou, encostando-se na parede.
— Ela tem razão. O Mestre me mandou para cá porque você precisa de alguém que se infiltre e destrua o acampamento inimigo, certo?
Sanstone cruzou os braços e bufou.
— Certo. Eu mesma esmagaria aquele acampamento, mas os nossos soldados não aguentam um ataque direto. As feras estão bem mais fortes desde o último torneio.
Valentina pôs a mão na cintura, e o olhar dela ficou focado.
— Entendi. Quem está liderando o avanço deles?
Sanstone fechou os olhos.
— Eu não tenho certeza... mas tudo indica que é o lobinho.
— Uma criança? — Valentina franziu a testa, incrédula. — Aquela lagartixa nojenta não faria uma coisa dessas...
— É um garoto lobo pequeno — confirmou Sanstone. — Menor que qualquer besta comum, e ele nem ataca. Mas toda vez que ele uiva, as bestas fogem e levam o garoto junto, como se estivessem protegendo ele.
Valentina estalou a língua, irritada.
— Inacreditável. Aquele jacaré fedido caiu mais baixo do que eu imaginava, mandando criança fazer o trabalho sujo.
Ela se virou para sair, mas Sanstone segurou o ombro dela com força.
— Eu ainda não terminei. Esse garoto não é normal.
Valentina olhou por cima do ombro.
— Como assim?
— A aura dele é bizarra. Uma das nossas magas conseguiu ler o fluxo de mana dele. — Sanstone estalou os dedos. — Shizuka.
A garota da comunicação se aproximou depressa e fez uma reverência exagerada.
— Pois não, Vice-Comandante! Ah, olá, Senhorita Platas!
Sanstone revirou os olhos.
— Dispense as formalidades com civis. Mostre a ela a leitura do "Lobo Branco".
— Ah, claro! Esse lobo de pelo branco, que ainda não sabemos como se chama, mas...
— O nome dele é Kain — interrompeu Valentina, sem paciência.
Sanstone olhou para a prima, com a frustração estampada no rosto.
— Sabichona. De onde você tirou essa informação?
Valentina abriu um sorrisinho maldoso.
— Ah, é que eu tive uma aula particular com o Comandante. Bem pertinho. Hehe.
Sanstone apertou os punhos.
— Você adora testar a minha paciência. Mas eu sei que o Alê nunca faria nada indecente.
Enquanto Valentina ria baixinho, Shizuka forçou uma tosse para recuperar a atenção das duas.
— Peço permissão para continuar o relatório.
— Concedida — rosnou Sanstone.
Shizuka se ajeitou e ficou séria.
— Registrando o nome Kain... Esse lobo tem um fluxo de mana anormal. Ele tem duas reservas extras de mana orbitando o corpo, idênticas à principal, e ainda um núcleo mágico monstruoso no coração. A estrutura lembra muito a da Primeira-Ministra, só que ela espalha o poder pelo corpo todo. E o mais impressionante é que, em volume bruto, aquele garoto tem mais mana do que todos nós juntos.
A expressão de Valentina endureceu.
— Espera aí. Você está me dizendo que esse filhotinho, que devia ser um soldado qualquer, tem dois fluxos de mana a mais e um núcleo parecido com o da Lilith?
— S-sim, senhora — Shizuka engoliu em seco. — Mesmo assim, os relatórios dizem que ele é péssimo com armas...
Sanstone completou, com a voz calculista:
— O garoto mal sabe segurar uma clava. E reparei que a clava dele era a única sem espetos, coisa impensável para as feras. Além disso, ele usa roupa demais para um bicho silvestre.
Valentina encostou o dedo nos lábios.
— Vou fazer um reconhecimento sem combate. Preciso ficar longe da vista desse lobo. Se ele perceber a minha camuflagem, vou ter que fugir com a velocidade arcana, e isso esgota a minha mana.
— Então você já dominou a técnica de impulsão? — perguntou Sanstone, um pouco impressionada. — Mesmo assim, tome cuidado.
Valentina fez uma continência irônica e, num piscar de olhos, sumiu no ar.
Sanstone ficou olhando para o espaço vazio.
— Que diabos é aquele lobo?
Longe dali, no acampamento provisório das bestas, um lobo veterano pôs Kain no chão com todo o cuidado.
— M-muito obrigado. Vocês todos trabalharam bem hoje, pessoal — disse o garoto, tímido.
Os monstros ao redor riram, e o clima era de uma camaradagem surpreendente.
— Comandante, o senhor é um gênio, haha! A cara daqueles humanos apavorados foi impagável!
Kain balançou as mãos, vermelho até as orelhas.
— N-não é para tanto, pessoal. Bom, descansem. Mas lembrem que eu quero troca de turno toda hora nas patrulhas, certo?
Os gigantes peludos se entreolharam e, para decidir a escala, começaram a jogar Pedra, Papel e Tesoura.
Escondida nas sombras pela invisibilidade, Las Platas assistiu à cena com uma gota de suor escorrendo pela testa.
“Que jeito mais idiota de decidir quem faz a ronda…”
Ela seguiu pelo acampamento, sem fazer um ruído sequer. Viu Kain entrar na tenda central e decidiu vasculhar as outras barracas primeiro, esgueirando-se pela borda do acampamento. Numa tenda isolada, viu fêmeas de várias espécies esperando os soldados. O cheiro almiscarado era forte.
Que nojo. Eles precisam mesmo misturar instinto de acasalamento no meio de uma guerra?, sussurrou ela, com a cara torcida de repulsa.
Um lobo musculoso que passava por perto parou, mexendo as orelhas.
— Que barulho foi esse?
Valentina congelou e prendeu a respiração. O lobo farejou o ar por um momento e acabou dando de ombros.
— Deve ser coisa da minha cabeça. Essa guerra está deixando todo mundo doido. Preciso relaxar... aquela loba ali vai servir.
Ele foi embora. Valentina soltou o ar devagar, pensativa.
“Esses sarnentos têm uma audição excelente. Preciso tomar mais cuidado.”
Depois de revirar três barracas menores sem achar nada útil, só restava a tenda principal. Mas, ao chegar perto, ela sentiu o ar em volta da lona ficar pesado. Não era sede de sangue. Era um poder bruto, sem lapidação nenhuma.
“A aura dessa tenda não é maior que a minha, e mesmo assim o meu estômago está embrulhando de medo…”
Las Platas decidiu não arriscar a entrada principal. Deslizou por baixo da lona dos fundos e entrou. Lá dentro, o lobinho branco dormia profundamente numa cama imensa. A respiração dele era calma, mas o ar em volta vibrava.
Ela foi até a mesa de operações e usou os olhos imbuídos de magia para ler os mapas sem encostar neles. Piscou rápido para ativar a visão arcana e recuou um passo. O papel estava coberto de fios mágicos.
Esse filhote não me engana. Ele espalhou runas de alerta invisíveis por aqui. Se eu tentasse pegar esse mapa, estaria morta. Runas explosivas.
Ela memorizou as posições táticas o mais rápido que conseguiu e saiu pelo mesmo caminho por onde entrou, deixando o acampamento sem alertar ninguém.
De volta à vila, Sanstone analisava um relatório quando resolveu sondar a operadora de magia.
— Shizuka. Como foi fazer parte da Elite do Imperador? Eu sei muito bem de onde você veio. Não adianta esconder.
Shizuka parou de mexer nos papéis. O jeito de recruta atrapalhada e medrosa desapareceu, e no lugar dele surgiu uma expressão afiada.
— Eu sabia que uma hora ou outra a senhora ia perguntar. O que quer saber, Vice-Comandante?
Sanstone jogou os documentos na mesa e cruzou os braços.
— Por que o Imperador mandou você e os outros membros da Elite ficarem aqui comigo? Parece que ele quer nos separar. Você sabe que o Alexandre e eu somos os oficiais no comando, não sabe?
Shizuka deu um sorriso fino.
— Hihi, é uma situação delicada mesmo. Mas o Imperador nos enviou para servir de olhos.
— Quer dizer que ele não confia nas nossas habilidades? — Os olhos de Sanstone se estreitaram.
— Longe disso — Shizuka voltou a arrumar a mesa com toda a calma. — Ele quer acompanhar o front em tempo real. Se algo sair do controle e o extermínio estiver perto, ele pode possuir a gente para lutar.
Sanstone arregalou os olhos.
Daquela distância?! Estamos a dias de viagem da capital!
Lendo o rosto da superiora, Shizuka respondeu à pergunta que ela não fez:
— O Imperador ainda é monstruosamente forte. Ele nem precisa sair do trono para acabar com eles, se for preciso.
Um som sutil cortou o ar e interrompeu a conversa. Sanstone fechou os olhos e suspirou, aliviada.
— Você voltou rápido.
A camuflagem se dissipou, e Valentina apareceu com as mãos na cintura e um sorriso arrogante.
— Você afiou mesmo a sua visão arcana, priminha. Achei que não conseguiria me ver com a minha invisibilidade simples.
— Você continua insuportável — rebateu Sanstone. — O que descobriu?
Valentina puxou uma cadeira, sentou-se de pernas abertas e cravou a ponta da espada no piso de madeira.
— Descobri que a tática deles é nos vencer pelo cansaço. Pelo visto, a lagartixa do Jacó está ocupado em outro lugar. Quem lidera os fronts é o garoto lobo, como vice-comandante. Eu entrei na barraca enquanto ele dormia, mas...
Sanstone ergueu a sobrancelha e se inclinou para a frente.
— Eu odeio quando você usa esse "mas" com essa cara séria.
— Eu senti que, se tentasse atacar, morreria ali mesmo.
A revelação fez Sanstone arregalar os olhos por uma fração de segundo, antes de ela recuperar a compostura.
— Como assim? Você nunca foge de um duelo. Ainda mais com o inimigo dormindo.
Valentina cruzou as pernas, com o rosto sombrio.
— Aquele filhote tem uma aura letal. Ele é mais perigoso do que você, Sans.
Sanstone absorveu a informação e estalou os dedos.
— Shizuka!
A operadora voltou à postura submissa no mesmo instante.
— Sim, Vice-Comandante?
— Entre em contato com o QG principal. O Alexandre precisa ouvir o relatório da Las Platas agora.
Valentina se levantou de um salto, com um sorriso malicioso no rosto.
— Não se preocupe, Sans. Eu mesma vou lá entregar para ele pesso...
Sanstone agarrou o pulso da prima e a puxou de volta com força.
— O Comandante mandou você vir como meu reforço. Você não vai voltar para a capital.
Valentina riu, olhando por cima do ombro.
— Está com ciúmes de quê, Sans? Eu não ia fazer nada demais...
— Fique exatamente onde está — disse Sanstone, apertando o pulso dela. — O Alexandre está...
— Nossa, vocês duas vão ficar discutindo até quando?! Eu quero as notícias logo!
As duas deram um pulo ao ouvir a voz irritada. O fogo azul tinha se formado sobre a mesa de comunicação. Alexandre assistia a tudo com uma expressão de quem já morreu por dentro, enquanto Lilith continuava muito à vontade, sentada no topo da cabeça dele.
Sanstone e Valentina se soltaram depressa e se ajoelharam.
— Majestade! Pedimos perdão!
Lilith fez um bico e virou o rosto na projeção.
— Tá bom, tá bom. Vou fingir que não vi essa falta de disciplina ridícula. Onde já se viu brincar em serviço? Enquanto vocês fofocam, eu e o Comandante estamos no quarto fazendo os planos sozinhos.
Ao ouvir a palavra "sozinhos", Sanstone, ainda de cabeça baixa, começou a soltar uma aura assassina, densa e pesada. Valentina ergueu o rosto, incrédula.
Percebendo que ia morrer quando Sanstone voltasse, Alexandre gaguejou, em pânico:
— C-claro! Estávamos sozinhos na sala de reuniões organizando a operação! A Majestade só veio ver como as tropas estavam indo, não é, Lilith?!
— Claro! Por que mais eu viria? — respondeu a garota, dando de ombros.
A aura assassina na vila foi recuando devagar. Alexandre soltou um suspiro fundo e cansado, que chegou a balançar os cabelos azuis de Lilith em cima da cabeça dele.
— Sans, preciso do relatório tático. Você não costuma me chamar duas vezes no mesmo dia.
Sanstone e Valentina se levantaram.
— Acho que a sua serva tem algo a reportar — disse Sanstone, num tom amargo.
Valentina deu um passo à frente e levou a mão ao peito.
— Comandante. Minha Rainha. Confirmei que o plano das bestas é nos vencer pela exaustão. Eles fazem ataques curtos e recuam para nos manter acordados. A informação anterior estava certa.
Lilith bateu no próprio queixo, e a expressão infantil sumiu do rosto dela.
— Tsc. Eu temia isso. Odeio quando o carrasco tem razão. As bestas sabem que o nosso exército não tem força bruta para aguentar dias de cerco. Precisamos apostar no combate à distância. Os nossos soldados sabem usar arco ou magia?
Sanstone assumiu o relatório.
— Sim, Majestade. Eu os treinei com arcos e espadas. A minha afinidade arcana não serve para conjuração, mas a Sargenta Laura treinou as valquírias em magia ofensiva. Aliás, reconstruímos as defesas deste posto usando magias de levitação e reparo.
Lilith deu um sorriso afiado.
— Ótimo. Ponha as valquírias na retaguarda. Os homens ficam na linha do meio, com os arcos. O resto protege as magas com escudos e espadas na frente. E lembre-se, Vice-Comandante: as magas são a nossa artilharia pesada. Quais magias de combate elas dominam?
— Bolas de fogo.
Lilith estreitou os olhos.
— Qual é a densidade, o tamanho e a taxa de lançamento por hora?
— Tamanho padrão. As reservas de mana do esquadrão vão de médias a grandes.
A Primeira-Ministra suspirou pesadamente.
— São magas de quinta categoria. Mas vão ter que servir.
O desdém deixou o ambiente gelado, mas Alexandre quebrou o silêncio com urgência.
— Valentina, onde estão os planos táticos do inimigo?
Valentina desviou o olhar, frustrada.
— Não consegui roubar, Mestre. A mesa estava cercada de runas explosivas invisíveis, e o comandante deles dormia logo ao lado. Qualquer erro acionaria o alarme e me explodiria. Li o que deu para memorizar e saí antes de ser detectada.
Lilith se inclinou na projeção, interessadíssima.
— Runas? Você está falando daquelas pedras tortas com escrita antiga entalhada?
— Essas mesmas, minha rainha.
Lilith colocou a mão na testa, como se a enxaqueca já estivesse chegando.
— Incrível. Então eles têm um feiticeiro de verdade. Você notou alguma aura diferente?
Valentina cruzou os braços, e a lembrança do medo voltou ao rosto dela.
— A tenda de comando fedia a mana densa. O garoto lobo é o único lá dentro, e ele é uma fração do tamanho de qualquer besta. Mas eu senti na pele... se eu tivesse sacado a espada, não teria saído viva daquela barraca.