Hanc Kárdez — Capítulo 1: Piloto
1574 – 1584
1574
Numa vila pequena, onde os camponeses pobres contavam as colheitas pelos dedos e os invernos pelos mortos, um menino nasceu numa madrugada sem nada de especial. Não houve trovão, nem estrela cadente, nem presságio. Só o choro agudo de um recém-nascido e o cheiro de lenha úmida dentro da casa dos Kárdez.
— É um menino — disse a parteira, limpando as mãos num pano gasto. — Saudável. Comum.
Chloe Kárdez, suada e exausta, olhou para o filho como quem vê o sol pela primeira vez.
— Comum, não — sussurrou. — Ele vai ser o futuro da humanidade.
As parteiras trocaram um olhar. Já tinham visto muitas mães dizerem coisas assim depois de uma noite de dor. Mas Chloe não parou de dizer. Disse no dia seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte. Disse no poço, na feira, na porta da capela. E disse com tanta certeza que a vila, que não tinha muito o que fazer além de trabalhar e comentar a vida dos outros, passou a chamá-la de outra coisa.
— Lá vai a Paranoica — cochichavam. — E o futuro da humanidade.
Chloe ouvia e sorria. Para ela, os outros só ainda não tinham visto.
Tinha um jeito próprio de falar, preso desde a infância num tropeço da língua que trocava e entortava certos sons. Quando chamava o filho com carinho, o nome saía mais comprido e mais duro do que devia, e o menino cresceu respondendo a dois nomes: Hanc, para a vila, e Hanckard, só para ela.
1584
No dia em que completou dez anos, Hanc acordou antes do sol.
Na vila não existia festa de aniversário. O que existia era uma regra velha, mais velha que qualquer morador: aos dez anos, a criança deixava de ser criança e passava a ser Homem, com letra maiúscula, e com tudo o que isso queria dizer: trabalho, dever e lugar na fila do pão.
Hanc não ouviu nada disso. Ouviu apenas “Homem”. Atravessou a vila correndo, descalço, com a poeira nos calcanhares, e entrou em casa tão depressa que quase derrubou o banco da cozinha. Chloe estava junto ao fogão, mexendo uma sopa rala.
— Mãe! — gritou ele, pulando no lugar. — Eu me tornei um homem! Eu finalmente vou poder ajudar a senhora!
Elá se virou, e o rosto cansado se abriu num sorriso. Ele se jogou nos braços dela, e ela o apertou como se quisesse guardá-lo dentro do peito.
— Que legal, Hanckard — disse, rindo, com o nome torto de sempre. — Mas não fique tão alegre. Quando a gente se torna um homem, ganha responsabilidades. E isso quer dizer que você não vai mais poder brincar na vila com os seus amiguinhos.
Hanc olhou pela janela. Do outro lado da rua, os meninos disputavam uma bola de trapos, rindo alto. Por um instante, o sorriso dele vacilou. Depois voltou, maior, porque ele tinha escolhido voltar.
— Tudo bem — disse. — Eu vou ser um homem de verdade. A senhora vai ver.
Chloe passou a mão nos cabelos dele.
— Eu já vejo — respondeu. — Eu sempre vi.
Dias depois
Alexander tinha mãos de lavrador e olhos de quem já enterrara gente demais. Era o chefe da vila, e ninguém discutia com ele.
— Kárdez! Isso, você mesmo. Venha aqui.
Hanc correu até ele sem questionar.
— Aqui!
— Você vai receber uma missão — disse Alexander, sério. — Vai até o Reino entregar os nossos produtos ao Rei. Se arrume, porque amanhã você parte.
— Sim, Chefe Alexander!
O peito de Hanc quase estourou de alegria, mas ele segurou, segurou com todas as forças, e guardou aquilo inteiro para o momento em que chegasse em casa. Um homem não pula de alegria no meio da vila. Um homem espera para contar à mãe.
Atravessou o caminho de terra quase correndo e empurrou a porta de casa.
— Mãe! Eu recebi minha primeira missão! Mãe?
Silêncio. A sopa esfriava na panela. O banco continuava onde ele o deixara. Hanc andou pela casa chamando, cada vez mais baixo, até parar diante da porta do quarto, entreaberta. Uma luz fraca vinha lá de dentro, e junto dela um som úmido que ele não soube nomear.
Empurrou a porta.
Chloe estava no chão. Já não se mexia, e o que restava dela estava sendo devorado, aos poucos, por uma coisa que não devia existir: uma Anomalia, curvada sobre o corpo, com a pele esticada sobre os ossos e membros longos demais.
A criatura levantou a cabeça. Viu Hanc. E correu.
Ele bateu a porta num reflexo. A madeira rachou na primeira pancada e explodiu na segunda, e Hanc foi arremessado pelo ar e caiu no chão da sala, sem fôlego. Quis gritar, mas só saiu choro. As lágrimas desciam sem que ele percebesse, e as pernas não obedeciam. A Anomalia atravessava os destroços da porta devagar, sem pressa, como quem sabe que a presa não vai a lugar nenhum.
— Não... não...
A porta da frente se abriu num estrondo, e Alexander entrou com uma lança nas mãos, a ponta coberta por uma Axis de luz, branca e quente. Sem dizer uma palavra, cravou-a na Anomalia. A criatura estremeceu e perdeu a consciência por um instante, com um vazio nos olhos.
— Vem, Kárdez! Essas bestas são perig...
A Anomalia o acertou antes de ele terminar a frase. Um golpe seco, vindo do nada, que arremessou Alexander contra a parede com tanta força que o reboco desabou.
Hanc continuava no chão. Olhou para o quarto, para Alexander caído, para a Anomalia que já se virava outra vez na direção dele. Olhou para os lados sem enxergar, procurando qualquer coisa, qualquer saída, e pela janela viu um macaco pendurado num galho da árvore do quintal, observando a cena com olhos pequenos e atentos.
Foi só isso. Um macaco numa árvore.
Mas algo se mexeu no peito de Hanc, como uma porta que ele nunca soubera que existia. Ele se virou para a Anomalia, estendeu a mão, e a carne da criatura começou a mudar: um braço encolheu e se cobriu de pelos, o ombro se curvou, os dedos viraram outra coisa. Metade do corpo da Anomalia já não era mais dela. Ela recuou, confusa, tropeçando nos próprios membros.
A hesitação durou o bastante. Alexander se levantou da parede, pegou a lança e avançou, e dessa vez a Axis atravessou a criatura de ponta a ponta. A Anomalia caiu e não se levantou mais.
O silêncio voltou à casa. Hanc ficou parado, olhando as próprias mãos.
Alexander se aproximou devagar, apoiado na lança, e estendeu a mão para ele.
— Sinto muito, Kárdez, pela sua mãe — disse, com a voz mais baixa que o menino já tinha ouvido. — E obrigado por ter nos salvado também. Vem. Você vai morar comigo por enquanto.
Hanc aceitou a mão e se levantou. As pernas tremiam. Olhou para a porta do quarto e depois para Alexander.
— A mamãe realmente morreu?
Alexander demorou um instante.
— Sim.
Anos se passaram desde o ocorrido.