21
Existem Limites
- Então você chegou.. Eu tava esperando faz um tempo já.
Confiança se dá um passo a frente, imponente, ao seu lado o chão estava quebrado de inúmeras formas com a luta passada, embora tivesse sido remendado, as rachaduras ainda eram visíveis.
- É, eu tinha umas pendências pra resolver ainda.
- Mas cadê o resto do seu grupo? Não me diga que veio sozinho, haja coragem.
- Tô sozinho sim, e sim é um pouco de coragem, mas muita confiança em mim mesmo também.
Bane ri sozinho com o trocadilho que havia feito pra si mesmo, ele empunha uma katana longa e simples que refletia perfeitamente a luz do sol que se esvaia com seu fio limpo.
“Alô, Bane, na escuta?”
A voz de Stile sai na pequena escuta que Bane utilizava, ele escuta mas não responde, somente começa a checar a própria visão periférica em vão.
“Vou acreditar que você tá me ouvindo, eu tô em cima do terraço e já tenho você na visão, vou arrumar a arma, mantenha ele.”
- Me admira você dizer isso com todas as palavras, já conheci muita gente confiante, e alguns até demais. A verdade, é que ser confiante é bom, mas você precisa ter certeza do que é! Não se enfia em um combate que vai perder só por confiança..
Confiança dá um passo à frente, flexionando os joelhos e descendo um pouco o rosto.
- Mas eu diria que você tem chances, então não julgo seu excesso de confiança assim como fiz com outros. Mas enfim.
Ele se levanta novamente e ajeita a postura, estralando as costas com um som bem alto até, uma forma casual e despreocupada antes da batalha.
- Pra falar a verdade já tô começando a ficar meio velho pra isso, mas idade não significa muito em um combate! O que importa é sua vontade de lutar!
“Vou atirar.”
A tartaruga dá uma risada alta, e por último, estende a mão aberta para Bane, que olha confuso.
- Um cumprimento antes do combate.
- Ah, é claro, que cavalheiro você é tartaruga.
Bane coloca a mão sobre a de Confiança, mas assim que os dois realmente se cumprimentam.
Um projétil chega a velocidade extrema em Confiança, diretamente no olho esquerdo da Tartaruga que assim que é atingida cambaleia para trás e coloca a mão no olho, dando um grunhido de dor, logo ele se estabiliza e olha para Bane enquanto ainda mantém a mão no outro olho – Ele tira as mãos, e lentamente a bala começa a ser retirada por uma bolha de água que parece sair do olho do ser, e logo a munição que o atingiu caí no chão com um som de cintilar. De um segundo para o outro o rosto de Confiança se enche de uma raiva, mas que logo é oprimida por mais um sorriso confiante que tremia.
Bane olha para o prédio e se afasta com um pulo, já preparado com sua espada em posição para um ataque.
- O que aconteceu aí Stile?
Ele pergunta na escuta, enquanto vê a tartaruga olha-lo, e isso o faz tremer um pouco.
“Tem um problema aqui, mas eu resolvo rápido!”
Um estrondo chega ao lado de Bane, a arma que Stile usou cai algumas ruas para trás, naquele prédio, e ela quebra totalmente, claramente algo estava bem errado.
- Cuida do que você tem que cuidar então, eu me viro.
Ele continua preparado com a katana, esperando que o oponente começasse o combate ou fizesse outra coisa – A tartaruga passa a mão em seu rosto, e novamente encara Bane.
- Eu diria que isso sim é uma falta de cavalheirismo, um grande de um jogo sujo. Eu estava para um combate ético e divertido, nas normas de qualquer batalha. Mas vamos jogar desse jeito então. Não pouparei esforços para te matar, então vê se me diverte pelo menos.
Confiança parte para cima de Bane, correndo com passos pesados no chão, ele tenta um soco que é desviado e logo outro que Bane defende com a espada, jogando o braço de confiança para trás com o intuito de tirar o equilíbrio do gigante, o que seria bem difícil.
- Eu só fiz o que seria necessário para tirar todos vivos daqui. Mesmo que o primeiro plano tenha falhado.
Ele ataca a tartaruga, embora um ataque forte, a pele grossa dele é quase como um escudo, embora um claro corte comece a sangrar na barriga do ser, mas logo Bane se afasta com um pulo em um desvio claro.
- Eu ainda continuo a te admirar, é ótimo como tente isso, e eu já imaginava que talvez com esses três dias, teriam um plano para uma batalha mais eficiente do que difícil, mas eu não queria estar certo.
Confiança tenta mais dois socos falhos, enquanto Bane continuava com cortes superficiais na carne da tartaruga, nenhum dos dois conseguia dar dano significativo ao corpo do outro, enquanto se cansavam em uma dança de golpes que ficava cada vez mais frenética.
- Olha tartaruga, vê se luta sério, desse jeito nem você vai se divertir não é?
Confiança dá um pulo, se afastando alguns metros com um estrondo quando cai no chão, ele olha para Bane e seus olhos amarelos brilham mais, enquanto as antenas de sua cabeça começam a brilhar também, como um jato hidráulico sendo carregado de pouco a pouco.
- Podemos ter uma luta diferente, vamos ver até onde você vai.
A tartaruga aponta o dedo indicador para Bane e uma pequena bolinha de água se forma, logo atirando em Bane várias vezes seguidas um jato pequeno de água pressurizada com a velocidade e talvez a força de um tiro, vários tiros um atrás do outro, que Bane logo parte para desviar, ele desvia do primeiro e do segundo, defletindo o terceiro mas de forma que sua espada quase não aguenta.
Da luva de Bane ele tira uma pistola carregada, e aponta para a tartaruga devolvendo alguns tiros enquanto desvia da água pressurizada – Bane olha para os lados procurando alguma forma de se aproximar sem que vire um alvo fácil, ele corre para uma das casas ao lado da rua enquanto continua desviando e trocando tiros com Confiança sem ser atingido, ele pula na parede e pega impulso para um segundo pulo mais alto, jogando a arma longe.
Rapidamente antes que os tiros voltassem a mirar nele, de sua luva ele tira um grande escudo usado geralmente pelas forças especiais ou por policiais de alto escalão em grandes missões perigosas, Bane se defende de alguns tiros enquanto cai na direção de confiança e antes de aterrissar atira o escudo na direção do dedo onde a água pressurizada saia, impossibilitando a mira – Logo quando chega próximo, ele empunha sua katana com as duas mãos colocando o máximo para trás possível enquanto flexionava os braços, ele puxa uma grande quantidade de ar nos pulmões e antes que pudesse aterrissar desfere um golpe destrutivo no peito de Confiança antes que ele reagisse.
Um corte grande aparece na pele pálida que cobria seu peito, jorrando uma grande quantidade de sangue instintivamente e jogando o oponente longe na rua, ele desliza no concreto por vários segundos antes que agarrasse no chão e parasse a pressão do grande corte – E com essa mesma pressão, Bane larga a katana por alguns segundos, flexionando os braços como se estivessem doendo após tamanho ataque.
- E aí tartarugão? Sentiu o corte agora?
O rastro de sangue e destroços da tartaruga sendo arrastada no chão já denunciava, Bane olhava para a pequena nuvem de fumaça que havia se formado enquanto via a silhueta da tartaruga levantando.
- Você é forte, mas ainda falta muito. Sou muito calejado para deixar que qualquer corte me derrube por completo.
Bane continuava olhando, ele pega a espada do chão novamente. Assim que se levanta ele olha para frente e vê um remo saindo da fumaça em uma velocidade incrível e voando diretamente para ele, o homem até tenta defender com a espada, mas a pressão e a massa daquele objeto era tão grande que a katana escapa de suas mãos e voa alguns metros para trás, fincando no chão com aquele barulho metálico e distoante – Antes que Bane pudesse reagir a tartaruga vem em um pulo de forma rápida, parecia ter pego velocidade com alguma coisa, voando para cima do homem que toma um forte soco no estômago, voando para trás, mas pelo menos pegando a katana enquanto cospe sangue.
- Anos e anos de luta me fizeram aprender cada tipo de estilo, tenho artifícios completos para qualquer coisa que você fizer, entenda garoto, já disse que admiro sua persistência, mas não existe nada nesse mundo como um homem forte e calejado. Pelo o que lutamos, você não tem poderes ou artifícios naturais além de sua própria força, e isso te torna incapaz de ganhar de alguém como eu.
Bane coloca a mão na barriga, por alguns segundos seu olhar não conseguia focar direito na silhueta da tartaruga enquanto ele cuspia o sangue, mas ele dá alguns passos para trás e tenta se recompor, ajeitando a postura e segurando a katana com força – Confiança se aproximava com passos lentos enquanto falava coisas que Bane sequer prestava atenção.
- Eu também lutei por anos, sou um homem forte, o mais forte do meu planeta. Então não subestime o que eu faço ou o que eu digo, tenho motivos o bastante para te derrubar aqui, e eu não vou desistir tão fácil disso.
Ele continua seu monólogo, era quase como um discurso antes de matar seu alvo, um discurso confiante, mas uma troca de palavras que tinha muito mais do que somente sede de sangue.
- Eu venho de uma raça guerreira, feita para lutar desde novos. Nossa frota de combate era a maior e mais forte entre várias e várias galáxias, mesmo que me mate aqui, entenda que você vai estar enfrentando alguém capaz de matar milhões de homens como ou mais fortes que eu. Você tem motivos tão nobres quanto os meus, motivos que te deixam de pé para que não desista.
Por um segundo a voz imponente de Confiança se torna mais compreensiva e leve, quase como conselheira.
- E por isso mesmo você deveria ter desistido, se tiver como fale agora mesmo para seus companheiros voltarem para o seu planeta enquanto há tempo, não importa quantos motivos vocês tenham, aprender a desistir é importante para sobreviver.
- Eu acho que você não entende tartaruga.. Você só pegou a gente em um dia ruim, não importa quem seja seu chefe, vamos pisar em cima de cada um dos cachorrinhos dele e mandar ele direto pro centro do planeta.
- Se é isso que acredita.. Não vou podar as vontades de um homem inocente, mas entenda que viver a realidade é mais importante que o seu mundo dos sonhos.
Confiança aponta o indicador e dá um último tiro de água pressurizada na direção de Bane, antes de partir em um soco de esquerda que é defendido com certa facilidade, os dois voltam rapidamente a uma troca de ataques em vão sem tanta força, para logo depois se afastarem um do outro novamente.
- Eu percebo a habilidade em seu combate, é treinado claramente por bons treinadores.
- É, eu tenho um treinador bem bom de briga mesmo. Mas com a katana aqui fui eu que aprendi a brigar assim.
- Que bom que entende que usar os punhos seria burrice contra mim.
- Na verdade ainda tô aprendendo como te matar.
- E não é uma pergunta que eu consigo responder, ainda não morri pra saber.
Os dois riem por alguns segundos, e voltam a se olhar focados em cada detalhe e cada movimento, como se uma guarda baixa pudesse definir a luta inteira, e na verdade, até poderia.
- Você não usou a poça de água não é? Tá facilitando o combate pra mim?
- É uma batalha mais justa assim, você não utiliza poderes, e eu utilizo parte dos meus, nada que te afete de forma direta.
- Acho que vou aceitar sua bondade por enquanto.
Bane volta a luta em poucos segundos, puxando a katana e tentando ao máximo aprofundar o corte na barriga de Confiança, mas sem sucesso, a rapidez de seus contra-ataques ou de suas defesas era algo difícil de passar – A tartaruga portanto também não conseguia fazer tanto avanço nos ataques, os dois iam de um lado para o outro trocando golpes, Bane faz um corte forte logo no meio do peito de Confiança, que defende com os quatro braços e lança Bane para trás com maestria.
Mas assim que cai no chão, ele parte para cima de confiança de novo, com mais rapidez que antes, ele tenta correr de uma forma que a tartaruga ficaria confusa sem seu olho, atacando pela esquerda, mas assim que Confiança vira para não perder Bane de vista, ele para e segura a katana, enchendo os pulmões de ar uma segunda vez e dando um corte direto enfiando a espada na barriga de Confiança, e aprofundando o corte com maestria, passando a espada pelo corpo do alien que dá um grunhido surpreso – Bane logo pega outra espada de sua luva, uma própria para esgrima, enfiando no corte aberto como um pino enquanto a tartaruga ainda tinha a guarda aberta, por último ele tira um fuzil de dentro da luva e atira inúmeras vezes subindo a mira pelo corpo inteiro da tartaruga, antes de jogar a arma descarregada longe e se afastar arfando de forma bem pesada, ele já havia cansado muito retirando itens da luva inúmeras vezes e fazendo seu ataque mais forte duas vezes seguidas, mas com resultados.
Confiança agora também arfava e grunhia de dor, ele pega as espadas de seu peito e joga longe, deixando com que o sangue escorra por um breve período de tempo antes de manter uma camada de água por cima, de forma que parecia até estancar o sangramento quase de forma sobrenatural – Logo ele respira fundo, e toma postura novamente.
- Você luta, entende e tenta, luta, entende e tenta, é a forma humana de fazer as coisas, tentativas após tentativas e experimentação. Foi assim que se proliferaram não é? Superaram os próprios medos, o que acreditavam que eram os próprios limites, e ficaram mais inteligentes com o passar do tempo criando forma de superar os desafios da existência, foi assim com a maioria das raças e a sua não seria diferente eu acho.
Ele sorri de forma confiante, dando uma leve risada quase como se ignorasse qualquer dor do corte profundo na própria barriga.
- Lutei a minha vida inteira, mas depois de um tempo, as minhas lutas não foram mais movidas pelo ódio ou pela raiva, eu enchi meu coração de paz, eu odiava muito, mas hoje eu joguei fora o que ficou para trás. Assim como essa cicatriz em meu olho, eu cicatrizei todas as dores tanto em meu corpo, quanto na minha alma.
Assustadoramente o corte do peito de confiança começa a se fechar como se a carne regenerasse, de uma forma meio translúcida como água, mas em poucos segundos toma a cor de uma cicatriz normal, e a tartaruga suspira, voltando o olhar para Bane.
- Essa paz.. É essa paz de espírito que me move em uma luta.
Bane fica confuso, um suspiro realmente incrédulo sai de surpresa dele, antes que o próprio segure pegue mais uma espada diferente de sua luva, agora cada vez mais cansado, já começando a desacreditar no próprio combate.
- Eu também tenho paz de espírito viu tartaruga! Mas a minha não me cura do nada!
Ele traz o olhar até o prédio onde Stile deveria estar, e se surpreende, ficando até meio tenso ao ver, o prédio estava quase desmoronando, andares diferentes estavam pendendo para lados diferentes e paredes inteiras faltavam, era como uma partida de Jenga utilizando um prédio, ele se preocupa um pouco.
“Ele consegue se virar..”
Bane volta o olhar para Confiança, e dá um sorriso, suspirando de cansaço, mas pronto o máximo possível para continuar o combate.