23
Canoa
Bane continua com a respiração pesada, se forçando a manter de pé mesmo que a maioria de seu corpo quisesse desistir do combate, não era um combate difícil onde ele estava recebendo diversos ataques, e sim um combate cansativo, provavelmente o que mais o esgotou, ele não estava tão machucado, mas sim quase caindo de cansaço.
- Então, você próprio já percebeu não é? O combate já estava decidido antes de começar. Eu te dei chances de voltar diversas vezes, a verdade é que depois de tanto tempo nesse trabalho a gente já não sente o peso de uma morte do mesmo jeito.
Confiança continua a olhar para ele, seus olhos amarelos com as grandes pupilas totalmente focadas na situação do homem, mas julgamento algum passava entre seus pensamentos.
- Eu olho pra você e sinto a sua coragem, a sua motivação para lutar cada vez mais, eu já tive a mesma motivação.
Ele começa a dar alguns passos para frente na direção de Bane, que segura a espada com mais força, certa insegurança passando pelo seu rosto e pelo suor que descia em sua pele, mas sem a intenção de desistir.
- Não vou me estender tanto, acredito que você não queira ouvir mais do velho aqui não é?
- Vem pra cima logo, se for para acabar o combate eu não quero que seja por dó de como eu tô.
- Como você quiser.
Confiança dá um passo para frente pegando velocidade para correr, mas logo um barulho estranho toma conta do campo de batalha, um bater de asas desesperado na direção de Confiança, que olha, e já foca em uma garota borboleta que Bane nunca havia visto.
- Tio! O homem me deu um tiro bem no braço olha!
A garota mostra o buraco do tiro com o sangue de purpurina escorrendo, e Confiança bufa meio preocupado, mas ao mesmo tempo bravo por ser atrapalhado.
- Você pode ir embora menina, se recupera e vai brincar por aí vai, obrigado pela ajuda.
- Tá bom! Obrigada tio!
Confiança vê a garota saindo voando para fora da atmosfera, e suspira, logo depois finalmente parte para cima, ele não media esforços para continuar com a mesma imponência e velocidade que tinha no começo do combate, como se nem tivesse lutado direito, não estava cansado ou machucado ao contrário de quem o enfrentava.
A tartaruga desfere múltiplos socos em Bane, que defende com certa facilidade mesmo cansado, mas com dificuldade para segurar a pressão dos punhos do alienígena que continuava a insistir em quebrar a defesa do homem. Bane continua a segurar o máximo possível, até que a tartaruga pula, desferindo um golpe de cima com seus quatro braços em uma velocidade que não havia tido antes, impulsionado por um jato de água que o mesmo criou para o empurrar em suas costas.
Bane defende, segurando o máximo possível enquanto a criatura de toneladas insistia, mas em vão, a espada se quebra, não era tão forte assim, e Bane é amassado no chão pelo peso massivo da tartaruga, mas ao receber o soco, ele consegue jogar o próprio corpo para trás evitando ser prensado no chão, o homem cambaleia, as pernas tremiam agora ainda mais, talvez tivesse quebrado diversas costelas já e nem ele sabia como estava de pé, ele cospe uma poça de sangue no chão, que saia tanto de sua boca quanto nariz. Até que finalmente, Bane cai de joelhos, sua visão já estava turva e sem conseguir focar na silhueta da tartaruga que andava até ele.
- Vamos, não quero que desista, levante-se! Se manteve de pé até aqui, faça só mais um pouco.
Bane cospe novamente sangue no chão, ele apoia um dos braços no asfalto e tenta se levantar, mas ao tentar cai novamente, suas pernas não conseguiam mais se apoiar direito.
- Só mais um pouco, você chegou até esse ponto da batalha para parar por aqui?
Confiança fica a poucos centímetros do corpo de Bane que se mantinha de joelhos no chão, mostrando certo pesar ao fim da batalha, ele agacha um pouco seus joelhos, e traz os braços com as mãos abertas próximas a cabeça do homem, que já não conseguia raciocinar a situação direito após a pancada forte na cabeça.
- Então, vamos terminar por aqui.
Ele aproxima as mãos na cabeça de Bane, começando a apertar o crânio do homem com incerteza, parecendo realmente pensar se faria ou se daria uma segunda chance, mas..
Um punho atravessa a canoa nas costas de Confiança, acertando diretamente a pele dele, e jogando a tartaruga para o prédio mais próximo com uma força e velocidade indescritível, fazendo o alienígena atravessar o prédio e quebrar ele quase completamente, além de várias outras estruturas atrás dela, um raio roxo ilumina toda a rua, brilhando e cortando o som de forma impressionante, uma força capaz de jogar Confiança para extremamente longe.
Dash finalmente para por poucos segundos, e olha para Bane, o capacete agora estava com o visor quebrado, mostrando o olhar dela com certa raiva e uma clara vontade por vingança, mas Bane sequer olha direito, de sua luva um pequeno item sai, que Dash logo pega antes de sair correndo como aquele raio roxo extremamente rápido.
- O interior.. Deve ser mais fraco..
Dash passa pelos destroços dos prédios com maestria, correndo enquanto em sua própria visão, o corpo de confiança ainda destruía prédios em câmera lenta, passando pela estrutura e quebrando parede atrás de parede enquanto ela se aproximava vendo tudo com uma clareza assustadora, Dash sobe em cima do corpo da tartaruga enquanto ela ainda voa, começando a desferir uma quantidade assustadora de socos no rosto do alienígena que sequer conseguia ver o que estava o atingindo.
Confiança é arrastado pelo chão enquanto seu rosto é atacado de forma diversa, assim que finalmente ele pararia de deslizar, Dash pula por cima dele, e segura suas pernas, pegando e o lançando mais longe ainda enquanto seus metros ainda davam o efeito necessário.
Finalmente ela para, seguindo o corpo lançado do alienígena com os metros que ainda lhe restavam antes de parar de correr, Confiança é arrastado pelo chão passando por diversas casas e prédios por metros a fio, antes de finalmente parar em uma praça um pouco mais aberta com uma variedade até que bem grande de plantas alienígenas, assim que alguns dos aliens próximos veem isso, eles correm, dando espaço para a continuidade da luta.
Confiança para, batendo a cabeça em um banco próximo, e se levantando, grunhindo com bastante dor, os socos tinham sido muito mais efetivos do que da primeira vez, a velocidade era impossível de defender e havia sido tão imprevisível que o mesmo havia se assustado, ele posiciona os pés no chão de forma que ficaria mais difícil de o derrubar novamente, e olha a mulher que vinha caminhando de onde o último combate havia tomado lugar, ela estava com os punhos fechados que tremiam com certa raiva.
- Eu não sou a escória, você tem que aprender que cada um tem seu tipo de luta.
Ela começa a correr ao redor de Confiança, acumulando metros enquanto a tartaruga olha com certa insegurança, um pouco assustado mas ao mesmo tempo com um sorriso no rosto.
- Então ficou viva né? Veio me cobrar pelo rostinho?
- Não foi isso, eu não vim cobrar você por nada.
Ela continua correndo, a tartaruga tenta lançar jatos de água aos quais ela desvia com maestria, correndo de um lado para o outro enquanto Confiança não conseguia acompanhar, ele cria o mesmo lago ao seu redor, aquele ao qual a garota tinha caído da outra vez, e rapidamente também uma bolha de água, fazendo o máximo de proteção possível enquanto ainda tentava derrubar a mulher que não era atingida.
- Eu quero te mostrar que mesmo com o meu traje..
Ela continua por mais alguns segundos, antes de se virar completamente para Confiança e correr de forma incrível na direção da tartaruga, pisando sobre a água com facilidade e com um soco quebrando a bolha de água que o próprio havia feito ao redor dele, na mão ela segura o item que Bane havia lhe dado, uma granada. Dash agarra no ombro de Confiança e com um soco, quebra a mandíbula e arcada dentária estranha do alienígena, forçando a granada sem o pino para dentro da tartaruga, jogando lá dentro sem qualquer cerimônia.
- Eu tenho coragem pra lutar frente a frente com alguém como você, e para me divertir durante a luta.
Ela chuta o peito de Confiança, jogando o alienígena para trás enquanto joga a si própria para o lado contrário, ela cai de joelhos no chão, olhando para ele, a tartaruga faz o mesmo, olhando diretamente para o rosto da mulher, e dando um olhar que tinha certo orgulho.
- Muito bem, talvez eu tenha aprendido.
Ele fala, forçando uma frase entendível, antes que o próprio olhe para cima, e em poucos segundos seu corpo exploda em carne e sangue, sujando a praça inteira com as entranhas daquela tartaruga, Dash olha, ficando quieta por alguns segundos, mas logo dando um gritinho e pulos de felicidade enquanto se levantava.
- UHUUL! Ele tá morto!
Ela se senta no chão novamente, descansando um pouco enquanto olha para o céu.
- Eu sou corajosa não é amor?
Ela dá um sorrisinho para si própria, mas logo seu sorriso sai do rosto quando ela levanta em um pulo, extremamente preocupada de uma hora para outra, e corre para onde Bane estava.
- É verdade né? Preciso ajudar!
-
Enquanto isso, Stile estava assustado no canto daquele mesmo prédio perto da porta de entrada, os destroços que estavam bloqueando a porta haviam sido totalmente destruídos com o corpo de Confiança que tinha sido jogado contra aquele prédio, o homem espera alguns segundos esperando para ver se não aconteceria nada, e sai correndo para fora, vendo Bane caído no chão de cansaço e machucado.
- Porra, cê tá vivo?
Ele chega andando e se agacha no chão, procurando um sinal de vida, rapidamente checa o pulso e percebe que Bane pelo menos estava vivo, somente desmaiado, ele respira de alívio e guarda as coisas, olhando para os lados para achar alguma forma de levar o colega para o hospital.
“É muito longe.. Será que é mais válido esperar ele acordar?”
Ele começa a pensar por alguns segundos.
- Acho que é melhor ajudar a Dash, depois a gente consegue levar ele, o Bane vai ficar bem aqui.
Stile sai correndo, pegando o fuzil que mantinha consigo e já preparando, mas antes que ele sequer entre naquele prédio que havia saído de novo, o raio roxo passa reto por ele correndo, mas logo para um pouco na frente.
- Deu tudo certo lá já Dash?
Ela tira o capacete, dando um sorriso para ele e um joinha com a mão.
- Sim, eu explodi a tartaruga.
Stile olha meio surpreso, mas dá de ombros, voltando com ela até onde Bane estava caído.
- Agora precisamos achar uma forma de levar o Bane para o hospital ou qualquer lugar que ele possa descansar. Acho que essa batalha exigiu demais dele.
- É mesmo, eu cheguei aqui pouco antes de.. Né..
Dash faz uma careta com a língua para fora, e dá uma risada para si mesma, logo depois se posiciona na frente de Bane, deitando ele e pegando os braços do homem, ela aponta as pernas para Stile.
- Vamos ver se assim dá de levar.
Stile pega nas pernas de Bane, e com certo esforço os dois conseguem levantar o corpo caído, andando com bastante esforço para o hospital, que era até bem longe dali.
-
Veronika abre os olhos, na janela o sol já não aparecia mais, já fazia um tempo que Bane não voltava para falar com ela, mas ela não se deixou abalar por isso! Passou a tarde toda dormindo, pois não sabia o que fazer, ela não queria sair da cama para não estragar o tratamento.
Mas logo, três batidas na porta, Veronika olha para ela, e abre um sorriso animado, era Bane!
- Oláaa!! Amiga, como você tá?
Era Reni, que Veronika já não via faz quase cinco dias. Veronika dá um suspiro, e desmonta um pouco do sorriso, mas ainda sendo convidativa, era uma decepção mas nem tanto.
- Oi! Eu tô bem melhor pra falar a verdade, queria sair da cama. E você? Já não te vejo faz tempo, achei que tinha sumido já!
Reni entra no quarto finalmente, chegando e sentando naquela mesma cadeira que Bane havia dormido, tomando aquele espaço com muito mais folga que o homem é claro, enquanto isso, no ombro de Reni aquela larva preta com linhas verdes circulava como um gato, mas bem mais estranho do que um, ela estava relativamente grande.
Veronika olha, e uma cara de certo nojo passa pelo seu rosto.
- Eu tô bem sim, tá sendo bem tranquilo lá na nave, eu saí, fiz uma compras, tô cuidando do Zerinho aqui!
- Zerinho? É esse o nome disso aí?
Veronika se afasta um pouco na cama, com real medo do que era aquilo, ela não gostava de insetos, quem dirá larvas alienígenas.
- Ah, é Zero na verdade, Zerinho é apelido! É que eu lembro daqueles códigos de hackers quando olho para o corpo dele sabe? Daí me lembra binário, e veio Zero na cabeça
Ela dá um sorriso claramente contente e satisfeito com o nome que a própria tinha escolhido para seu pet, Reni não parecia ter nojo, e sim um carinho estranhamente grande por o que quer que aquilo seja.
- Entendi.. Mas ele é seguro mesmo?
- Até onde eu saiba ele é, ele tem um apetite bem grande, mas come quase qualquer coisa!
- E não come você, né? Tipo.. Qualquer coisa é bem amplo.
- Não, ele não tentou me comer, na verdade ele até deixa eu usar os poderes dele!
- Que tipo de poderes?..
Reni olha ao redor da sala, mas parece meio decepcionada ao não encontrar o que queria, até que ela olha para a maca de Veronika, e como um piscar de olhos, o alienígena toma conta do braço de Reni, que toca na máquina e sem apertar qualquer botão, a maca começa a se movimentar, subindo o leito e descendo mesmo que o controle estivesse em outro lugar.
- Ei! Para com isso!
Reni logo para, dando uma risada com a reação assustada de Veronika, Zero sai do braço e sobe para o ombro dela novamente.
- É tipo esse tipo de poder aí, ele controla qualquer coisa ligada a eletricidade eu acho.. Controla até a nave.
- A nave é ligada a eletricidade?
- É claro! Tem vários geradores lá atrás da nave, inclusive já usei essa nossa parada pra dar uma olhada neles, e por enquanto tá tudo perfeito!
Veronika reage como se tivesse descoberto algo muito importante, e fica realmente impressionada.
- Eu não sabia disso.
- Entendo..
Veronika cruza as mãos, brincando com os próprios dedos com certo nervosismo envolvido, um ela pensa um pouco antes de falar.
- E o Bane? Sabe onde ele tá? Você viu ele?
Reni reage a pergunta pensativa, realmente em dúvida sobre isso.
- Eu.. Acho que não, não vi ele no hospital, até perguntei pelo Stile e a Dash também, mas disseram que o Stile já tinha recebido alta e a Dash saiu correndo do leito!
- O que? Ela saiu correndo, mas o que deu?
- Eles não souberam dizer também, ela pegou o capacete, vestiu a roupa recém costurada e foi para algum lugar! Isso já faz uma meia hora..
- A gente precisa falar isso pro Bane!
Veronika levanta da cama, sem tanto esforço como faria alguns dias atrás, ajeitando as pantufas do hospital em seus pés, e saindo pela porta, Reni logo acompanha ela, tentando segurar a amiga.
- Nada haver, espera ele, eles já devem ter ido atrás disso.
- Mas isso que me preocupa! Hoje era o dia da luta..
Veronika fica extremamente preocupada ao lembrar desse fato, seu passo aperta mais, e ela aperta os próprios punhos prestes a dar um soco furioso em alguém, talvez na primeira pessoa que ela ver no corredor.
E a primeira pessoa que ela vê no corredor, é Dash, que estava parada na frente de uma porta olhando quase como se estivesse escondida, Veronika chega nela, socando as costas da mulher que quase não sente direito, mas olha para trás assustada com a surpresa, vendo Veronika e sorrindo, seu cabelo loiro longo parecia extremamente bem cuidado mesmo que ela provavelmente não tomasse banho a alguns dias devido a internação, e seus olhos azuis continuavam brilhando com uma felicidade diferente do comum.
- Oi amiga! Ah não, oi amigas né! Oi Reni!
Elas se cumprimentam, mas logo Veronika se impõe a frente, vendo o uniforme sujo de Dash, mas sem ter certeza de qual batalha que era.
- Cadê o Bane? O que aconteceu?
- Ah, tem muita coisa pra falar viu, mas tá tudo bem, o Bane tá aqui ó, só tá meio cansado..
Ela aponta para o quarto e sem pensar duas vezes Veronika entra nele, vendo o corpo de Bane deitado descansando como uma pedra ou um corpo morto, ele não se movia, mas de alguma forma dava de saber que estava vivo, Veronika respira aliviada.
- Tá bom.. Me conta o que aconteceu então.
- Conta pra gente!
As três começam a andar juntas para a recepção do hospital, conversando sobre o acontecido de mais cedo.