25
Quatro Dias
Bane abre os olhos finalmente, se sentia descansado como se tivesse tirado uma soneca de horas, e foi bem isso que aconteceu, ele se senta na maca que range assim que se move, ajeitando a postura enquanto passa as costas das mãos nos próprios olhos, assim espantando o sono.
- Finalmente acordou viu? Eu tava esperando.
Ele olha para o lado, somente para encontrar o olhar aliviado de Veronika, e o próprio sorri.
- Só tava dormindo pô! Ser bonito desse jeito requer relaxamento a mais!
Os dois riem da piada de Bane, instantaneamente aliviando o clima da sala para algo bem mais amigável, algo que já se tornava recorrente quando os dois estavam sozinhos.
- Aiai, mas me diz, você tá bem? Como foi o combate? Eu soube por cima pela Dash, mas parece que você lutou ele quase todo sozinho né.
- Pra falar a verdade, eu estourei aquela tartaruga, ele não teve chance pra minha força fora do comum.
Ele dá um sorriso, claramente sendo sarcástico com a afirmação, já que o próprio estava com várias bandagens na parte do peito e barriga pela quantidade de socos fortes que havia levado.
- Fala a verdade vai, o quão difícil foi?
- É.. Pra ser sincero, eu não imaginava que seria alguém tão forte, acredito que nunca entrei em um combate tão estressante e desgastante.
Seu sorriso se esvai, ficando com um rosto mais sério e focado.
- Ele tinha uma pele que difícil de perfurar, a quantidade de braços extras deixava a defesa ainda mais difícil de passar, ele tinha uma força impressionante e as vezes a velocidade parecia se superar ainda mais. Mas, a Dash matou ele né?
- Sim, ela disse que acabou estourando ele por dentro, tava bem feliz contando!
- Isso é bom, pelo menos no fim ele tá morto, mas isso me deixa com uma pulga atrás da orelha, se ele é tão forte assim como um dos dez assassinos, o que ainda nos espera pela frente?
- Você tá preocupado demais.. Vê se descansa pode ser?
- Eu não posso descansar por tanto tempo, você sabe que a gente tá lidando com coisa grande aqui.
- Você me deixou ficar na cama por três dias, deixa eu cuidar um pouco de você também!
- São coisas diferentes sabe? Antes, eu acho que a gente tava mais tranquilo do que agora.. Inclusive, cadê o Stile? Queria conversar com ele sobre algumas coisas.
- Eu não vejo ele desde que te deixaram aqui, acho que ele foi para um quarto e tá lá descansando, segundo a Dash ele entrou em um combate com uma vilã também.
- Entendi, daqui a pouco vou falar com ele, e inclusive, a gente deu uma conversada.
Bane tira as pernas da maca, se preparando para levantar logo logo, enquanto Veronika se relaxava ainda mais na poltrona que estava a sua disposição, quase afundando no acolchoado.
- Conversaram? Sobre o que?
- Sobre o que você disse.. Acho que ele tá melhor, ele recebeu alguns remédios aqui e parece ter a cabeça um pouco mais no lugar, então não se preocupa tá? Não quero que tenham brigas entre membros na equipe.
Ela fecha a cara, claramente um pouco nervosa e indecisa, mas logo abre um sorrisinho satisfeito.
- Se é você que tá falando eu vou confiar Bane! Mas não pretendo me aproximar muito dele ainda, me dá calafrios..
- Tudo bem, tudo bem, mas pode ficar perto de mim! Não tem por que ter medo de nada! Só um pouco de tartarugas talvez, mas só um pouquinho.
Veronika dá uma risadinha, pensando seriamente se levantaria da poltrona com aquele conforto que estava sentindo.
- E, me diz senhor Bane Lozzini.. Por que não me avisou quando foi sair? Eu fiquei bem preocupada!
Um rubor leve sobe pelo rosto de Veronika, mas ela não faz questão de esconder, somente bufando um pouco com uma irritação fingida.
- Ah, eu não avisei por que né, uma luta é só mais uma segunda feira pra mim, impossível que eu não voltasse.
- Mas tem que avisar! Imagina se você se machuca e não volta?
- Eu não ia morrer não, fica tranquila, sou feito de ferro, aço e muito amor de mãe.
Eles dois dão mais uma risada, mas logo Bane se aproxima da porta da saída do quarto, abrindo ela e saindo, Veronika olha ele, e bufa, saindo desajeitadamente da poltrona que havia a engolido, e indo atrás de Bane.
- Vai aonde hein?
- Procurar o Stile, procurar a Dash e dar uma volta, preciso me exercitar
Bane olha para o fim do corredor, vendo uma silhueta estranhamente familiar, ele estreita os olhos e chega alguns passos mais perto.
- Aquele ali é.. O verde lá? O Fops?
- Onde?
- Ali olha.
Ele aponta, e Veronika olha, fazendo o mesmo que eles, estreitando os olhos e chegando um pouco mais perto.
- Acho que é o Flop sim.
- É, não dá de ter certeza, ainda não sei diferenciar eles, tudo igual, parece filme de alienígena mesmo.
- Isso não é tipo, alienígenofobia? Ou xenofobia alienígena?
- Não sei, talvez, mas ninguém tá ouvindo então tá tranquilo.
- Será que você seria preso?
- Eu não sei não.. Mas olha lá ó, parece que nos viu, ele tá vindo.
O alienígena que estava procurando algo no fim do corredor, avista os dois e vem com um passo meio apressado, parecendo nervoso enquanto segurava aquele mesmo tablet que tinha usado antes em uma de suas mãos – Veronika e Bane param de observar de forma estranha e se ajeitam, esperando ele chegar.
- Humanos, humanos!
- Isso é tipo alienígenofobia também não é Veronika? É tipo chamar um Japonês de Chinês, ou generalizar uma pessoa pelo estado que ela mora, tipo eu chegar em um homem e falar que ele é texano só por que é cowboy.
- Eu não sei dizer se isso se encaixa, enfim, escuta ele.
- Humanos! Eu estava procurando vocês, temos bastante o que falar! A rainha me enviou para mandar uma mensagem!
- Só tira uma dúvida antes, você é o Flop mesmo ou é outro?
- Sim, sou Flop.
- Eu sabia. Enfim, continue.
O alienígena olha com confusão, e pisca os quatro olhos com segundos de diferença, mas logo volta com a urgência da explicação.
- Primeiramente, vocês causaram uma destruição extrema em certas partes do planeta, prédios derretidos, uma cena de assassinato em um quarto de um hotel de prestígio, um prédio inteiro caído aos pedaços e uma rua inteira cheia de buracos! Mas não precisam se preocupar, sabemos que priorizaram o nosso bem então cobriremos todos os gastos!
- Certo certo, e qual que é a parte importante?
- Então, aqui fica um pouco difícil, há dois dias, a rainha recebeu uma mensagem de alguém que não conseguimos rastrear, ela dizia o seguinte..
Ele pega o tablet e mostra para os heróis.
- Tá, e o que que tá escrito aí?
- É verdade, vocês não entendem né?! Me desculpe!
Ele volta o tablet pra ele com séria vergonha, e logo começa a traduzir.
- Na sua língua quer dizer “Com a morte de Confiança, vocês terão mais quatro dias antes que eu termine com tudo. Me divirtam heróis.”
- É tipo uma ameaça então?
Bane olha para o tablet mesmo não entendendo, enquanto Veronika fica de lado observando a conversa entre os dois.
- Digamos que sim, agora a pergunta é, quem é Confiança? Deveriamos evitar a morte deste ser!
- Ele já tá morto.
- O que? Ele já está morto?
- É, morreu hoje mesmo.
- Eu preciso comunicar isso para a rainha imediatamente!
Bane segura um dos braços do nublusiano, olhando seriamente para ele, e falando.
- Vai comunicar a sua rainha, e já avise que estamos partindo hoje mesmo, em menos de três dias voltaremos com boas novas.
Flop olha, e assente e vai embora, mas quando chega no final do corredor volta correndo como se tivesse esquecido de algo, até por que ele realmente tinha esquecido.
- É verdade! A rainha tem um pedido.
Ele pega o tablet novamente, mostrando um arquivo ao qual novamente Bane não entendia nada.
- Resumindo, ela pediu para que, já que vocês vão passar em cada um dos planetas antes de Nisantro, busquem Tohrr, um general do nosso exército que acabou com a nave quebrada em Norradia, ele ajudará vocês no resto da missão caso precisem!
- A gente não planeja pass-
- Na verdade, a gente precisa passar pelo menos em Nevaice também Bane!
Veronika volta para a conversa, lembrando de Mark.
- O alienígena estranho Mark tá em Nevaice.
- Então ele foi pra lá? Tinha que ser o Mark.. Então parece que vamos ter um tour interplanetário né.. Enfim verdinho, vai lá fazer isso que te pedi.
Flop assente por uma segunda vez, agora saindo do corredor correndo sem voltar, com uma urgência não tão grande mas engraçada pelo seu jeito desengonçado – Bane se vira para Veronika, parados no corredor novamente mas agora com um assunto bem mais importante para conversar.
- Como vocês sabem que ele tá nesse planeta?
- A Reni, até onde parece ela sabe a localização em tempo real dele, e a partir disso ela sabe em qual planeta ele tá..
- Entendi, a garota é até que inteligente não é?.. Mas enfim, agora a situação parece ter até um tempo limite, esse Arqueólogo não para de nos apressar e nos ferrar né.
- Sim.. Isso me deixa bem preocupada.
- Não tem com o que se preocupar agora, vamos atrás do Stile, da Dash, e ir direto para a Nave a partir disso! Temos coisas para fazer.
- Isso aí, vamos direto atrás deles!
Os dois andam pelos corredores conversando com o passo um pouco mais rápido que o normal, até avistarem Stile que saia de um banheiro, seu rosto abatido e sua mão na cabeça já denunciavam que talvez algo ruim tivesse acontecido – Logo na hora, ao ver, Veronika vai para trás de Bane quase naturalmente.
- E aí Stile? O que que deu?
Bane chega, tocando o ombro do amigo e olhando diretamente para ele, enquanto o próprio desviava um pouco o olhar, claramente suando mais que o normal.
- Veronika, consegue buscar a Dash?
- Ah! Claro!
Ela percebe a motivação de Bane e logo corre continuando os corredores sem falar muito, a procura da mulher – Stile observa, mas logo volta o olhar para Bane.
- Eu tô bem, você quer me dar lição de algo? Só passei meio mal.
- Mal do quê? Deu caganeira?
- Não, não, claro que não, acho que foi refluxo dos remédios talvez, vai que eu tenho alergia né.
- Cê tá falando sério? Tá pálido igual a armadura do Mark.
- Eu tô falando sim, enfim, o que vocês queriam falar comigo?
- Ah, claro, a gente matou o Confiança né? Parece que chegou uma ameaça lá pra rainha uns dois dias antes, e adivinha, nem passaram para a gente. Mas a ameaça é que a partir da morte do tartaruga, ele ia dar só mais quatro dias para a gente antes de fazer a merda toda que ele planeja.
Stile coloca a mão no rosto, claramente decepcionado ou um pouco mais pressionado com isso no mínimo.
- Então a gente tá mais fudido ainda, se soubéssemos disso tudo antes pelo menos poderíamos ter dado um jeito de prender ele, sei lá.
- Não tem o que chorar pelo leite derramado agora, e também eu dúvido muito que a gente ia conseguir prender aquele monstro por tanto tempo assim.
- É, você tem razão, então o próximo objetivo é acabar com ele?
- Temos duas paradas antes disso, pelo oque parece, o Mark se enfiou em um planeta aí, e a gente ainda tem que parar em outro pra ter mais ajuda.
- Sério? Vamos demorar ainda mais?
- Pra falar a verdade, em qualquer outra missão a gente ia direto pro tal do Arquiteto, Arquiologista, Arqueólogo, que seja.. Mas nessa missão? Eu acho que é bom ter o grupo inteiro, e quanto mais ajuda melhor.
- Precisamos correr contra o tempo então, qualquer momento conta praticamente, se vamos passar em três planetas o nosso único momento de descanso é na nave, não adianta fazer mais turismo.
- Isso mesmo, por isso, vamo lá, a gente já tava indo pra nave mesmo.
- Claro, vamos, eu só vou passar no meu quarto e pegar algumas coisas, mas em poucos minutos tô na entrada com vocês.
- Vê se não se atrasa.
- Não é tanta coisa assim.
Os dois vão em direções opostas, Bane segue para a entrada enquanto Stile para seu quarto, seus passos eram um pouco mais contidos e quase incertos, e Bane havia percebido isso, mas talvez fosse melhor não comentar ainda.
-
- Dash? Tá aí?
Veronika empurra levemente a porta do quarto, olhando pela fresta se sentindo intrometida, e logo ela vê Dash que estava lá dentro sentada em sua maca e olhando para o chão.
- Pode entrar amiga!
Veronika não entra, ao invés disso abre a porta e fica no batente escorada, esperando Dash.
- Você tá ocupada? Por que é meio urgente.
- Ah, não! O que é?
Dash coloca o capacete embaixo dos braços e levanta, já pronta para qualquer coisa, seu rosto tinha um sorriso que não parecia tão radiante quanto antes, parecia quase como se ela estivesse forçando um sorriso maior que do realmente sentia que queria.
- É que.. Como eu explico? Aquele Flop lá apareceu aqui pra mim e pro Bane, a gente conversou e ele disse que a rainha recebeu uma carta falando que só temos mais quatro dias, uma coisa meio assim sabe? Então a gente precisa correr, não literalmente.
- Nossa que problema, mas ainda bem que já tô ótima! Vamos logo então.
- Você tem certeza que tá ótima? Eu ouvi do Bane que você tava pior que vidro quebrado.
- Ah sim olha meu rosto, sem qualquer cicatriz! Já tô curadissíma!
Veronika chega próxima e passa a mão com leveza pelo rosto de Dash, analisando com cuidado e curiosidade.
- É verdade, não tem nada.. Mas você sempre foi assim né? Parte pra uma luta, fica toda machucada e mesmo assim em dois ou três dias parece novinha em folha, é coisa do seu poder?
Dash olha para baixo por alguns poucos segundos, seu sorriso falhando e descendo um pouco.
- É, podemos dizer que é sim.
- Entendi, que inveja viu? Sou o contrário de você.
- O contrário? O que você tem de diferente?
- Tudo eu acho, além de que qualquer machucado meu demora até demais para fechar sabe? E isso serve quase como um limitador pro meu poder, por isso que as vezes as pessoas na internet me chamam de “Veronika canhão de vidro” ou coisa assim, mesmo que não saibam da minha condição, por parte eles estão bem certos.
Dash solta um olhar curioso e interessado, se aproximando um pouco de Veronika, sentindo como se uma nova porta estivesse prestes a se abrir.
- Você tem alguma doença? Como assim “condição”?
- Se eu te contar a história inteira você não acredita, é bem boba na verdade.. Foi meio assim.