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Peças Quebradas
- Eu quero v-voltar pra casa.. Eu não posso mais f-ficar aqui..
Veronika continua sentada na cama, escondendo o próprio rosto nos joelhos e abraçando a si própria como se estivesse se protegendo, ela estava coberta por alguns cobertores mais grossos, fazendo com que a própria sentisse um pouco de conforto em meio ao caos que sua cabeça trazia, e em meio a aquela cena que voltava diversas e diversas vezes sem conseguir apagar diretamente tudo, mesmo que fossem poucos segundos, eles foram horríveis – Dash e Reni permaneciam sentadas ao pé da cama, acariciando a garota mesmo que ela estivesse embaixo daqueles cobertores, querendo ao máximo acalmá-la, mesmo que já tivesse se passado em torno de uma hora, e nada tivesse dado certo.
- Amiga, tenta se acalmar, já passou, o Bane matou ele, aquele monstro não existe mais.
- Ele pode voltar ainda, eu não sei nem como ele entrou no m-meu quarto.. E s-se ele for imortal?
- Ele não é, e mesmo que seja, o Bane mesmo se ofereceu pra ficar aqui na frente do quarto o tempo todo, nós vamos te proteger.. Então vê se respira e tenta se acalmar.
- A g-gente não pode voltar?.. Eu não quero mais f-ficar aqui..
- Não dá de voltar, mas daqui a poucos dias já vamos estar na terra de volta, e daí você vai poder nunca mais ver essa nave, e nem o espaço de novo.
- E-eu nunca quis ser heroína, por que eu sou tão fraca assim, ele me escolheu por que eu sou fraca, por que eu sou inútil..
- Não fala assim! Você não é fraca Vero, a mais fraca aqui sou eu! Então nem pensa que foi por isso que ele te escolheu.
- Assim você não tá ajudando Reni.
- Desculpa..
- M-mesmo assim, eu deveria ser mais forte, vocês todos são..
- Você já é muito forte só de estar aqui com a gente amiga, então confia nos seus colegas, e deixa a gente te proteger um pouco, tá bem?
Veronika para de fungar um pouco, limpando o rosto choroso com as costas da mão, e abaixando um pouco o cobertor para olhar para o rosto das duas, sua visão estava toda úmida de tanto chorar, mas ela tenta ao máximo encará-las – Ela olha para a porta por alguns segundos, e pede.
- E-eu posso ver o Bane? Eu quero falar com ele..
- É claro amiga, a gente chama ele.. Quer que a gente saia?
- P-pode ser..
As duas se levantam assentindo ao pedido da garota, e saem do quarto, pela pequena fresta da porta Veronika escuta Dash falar com Bane, e logo ele entra no quarto, parecendo levemente ansioso e preocupado com a garota, ele senta ao pé da cama também assim como as outras – Veronika olha para ele, um sorriso desajeitado insiste em tentar aparecer em seu rosto, mas não se mantém por tanto tempo.
- Oi Veronika.. Você tá se sentindo melhor?
- Eu acho que sim.. Você não se machucou?
- Não, só um cortezinho no rosto ou outro nos braços, mas eu tô bem, sou de ferro você sabe.
Ele sorri um pouco, Bane havia se machucado mais que isso sim, mas os machucados estavam enfaixados e escondidos por baixo da sua roupa, não queria alarmar a garota ainda mais ou de alguma forma criar uma figura imponente para aquela coisa ao qual havia enfrentado.
- Que bom, eu fico feliz de ouvir isso..
Ela fica quieta por alguns segundos, e Bane não insiste em falar outra coisa, ele somente deixa o silêncio pairar no quarto, talvez a presença dos dois já dissesse muito mais coisas do que eles gostariam de falar.
- Veronika, eu quero te falar algo.
- O que é?..
Bane respira fundo, talvez conversar de uma forma sensível e cuidadosa fosse bem mais difícil para ele, mas expressar seus sentimentos em palavras era ainda mais.
- Eu só queria dizer que ouvi você, e ver você se chamando de fraca de novo me deixa triste, você não é uma mulher fraca e muito menos inútil ou coisa do tipo, e o que importa não é ficar pensando e remoendo isso, eu quero te ver bem, eu sinto que preciso te ver bem entende?.. Como eu posso dizer?..
Ele abaixa o rosto, Bane não conseguia olhar para a garota enquanto pensava nas palavras, era difícil para ele.
- Eu quero ver o teu sorriso de novo, ou seu rosto de brava comigo mesmo que seja fingido. Quero poder te ajudar em um combate e depois te ver perguntando quase desesperada se eu tô bem, só pra eu fazer uma piada e você rir do seu jeito.
Veronika ergue o olhar triste um pouco mais, lentamente lágrimas mornas começam a se acumular no canto de seus olhos, mas não eram lágrimas tristes ou horrorizadas agora, e sim lágrimas que nem ela sabia explicar de onde vieram, elas somente querem cair, e ela não as mantém ali, devagar elas descem pelo seu rosto, pingando na coberta que estava usando – Mas somente para que Bane visse isso, e finalmente abraçasse a garota, com um cuidado que nunca tinha tido em sua vida, uma gentileza e um carinho que o próprio não sabia explicar como, mas ele sentia até demais.
- B-bane..?
- Eu quero te dizer que eu vou estar com você durante essa missão, durante qualquer outra, ou até fora daqui, eu quero te proteger Veronika, mas só se eu puder ver esse sorriso de novo pra mim todo o dia. Eu te prometo que eu vou acabar com o Arqueólogo, nem que seja sozinho, e vou te proteger até o último minuto em que conseguir.
A respiração foge de Veronika por alguns segundos, seu coração martelando contra o próprio peito enquanto um rubor extremamente visível cresce pelo seu rosto, mas em vez de se afastar a garota assente e o abraça também, seus braços passando pelas costas de Bane sem nem conseguir fechar o abraço direito, mas ela o aperta como se pudesse perder aquilo.
- E-eu quero isso.
- Então tá feito, eu vou te proteger.
Os dois passam mais alguns segundos silenciosos em um abraço, quase como um casulo de calor humano que faz com que Veronika principalmente se sinta extremamente confortável, esquecendo de tudo por alguns segundos enquanto as lágrimas ainda caem – Pouco tempo depois, eles se afastam, e Veronika limpa o rosto com as costas da mão, secando as lágrimas.
- E-eu vou tentar melhorar então, eu te prometo também, mas eu quero que você fique comigo.
- Pode ter certeza que eu vou ficar.
Ele passa a mão, bagunçando o cabelo da garota gentilmente em um gesto afetuoso, ela dá um sorriso leve, agora que se mantém no rosto.
- Quer um suco de laranja? Pra melhorar o astral.
- Eu quero, busca pra mim?
- Pode deixar princesa.
Ele levanta, dando uma risada baixa, o próprio Bane mantinha um sorriso extremamente satisfeito e feliz em seu rosto, ao qual ele não pretendia mudar de forma alguma – Assim que sai no quarto, ele empurra a porta e vê Dash e Reni coladas no metal escutando a conversa, elas se afastam fingindo que estavam conversando, mas Bane sequer liga, ele aponta pra Dash.
- Pode vir comigo um segundo? E Reni, fica lá com ela por favor.
- Sim, sim, e Reni, faz o que ele falou mesmo.
- Claro!
Bane segue o corredor com Dash seguindo ela, a mulher não estava com o capacete e somente com seu pijama e cabelo ainda muito arrumado, mesmo que ela provavelmente não tivesse arrumado desde que levantou correndo, um sorriso malicioso mas satisfeito aparece em seu rosto.
- Entãaaoo?? E aquilo ali hein? Vai proteger ela é?
- Eu vou, mas não só ela, todos vocês. E eu acho que a gente tem que conversar sobre o nosso próximo passo.
Dash percebe o tom autoritário e sério que a voz do homem tinha tomado, e imediatamente ela também ajeita a postura, ficando totalmente ouvidos ao que ele poderia falar enquanto os dois caminhavam até a cozinha.
- Então, ele pegou o nosso ponto mais fraco, a nave.
- Como assim?
- Se você ver, praticamente nossa equipe completa não consegue utilizar os poderes na nave, e ainda mais no espaço, seria mais fácil a gente destroçar tudo e morrer no meio do espaço do que ter um combate efetivo. Ainda mais a Veronika, ele pegou ela em um momento que nem o cajado tava a disposição, de todos ela é a mais indefesa sem armas.
- Olhando desse lado sim, mas será que era esse o planejamento deles?
- O plano daquele merda era pelo menos matar um, segundo o que ele disse, ou seja, eles devem ser escalados com base no que conseguem matar da gente, e deve ter todo um planejamento de como fazer isso. Por exemplo, o Confiança sequer tinha dito que precisava matar alguém, ele parecia querer nos afastar mais.
- Ou seja, eles seguem ordens então né?
- Não, não seguem, acho que vão mais com base nos próprios impulsos do conceito, se o merda ali fosse seguir ele teria matado a Veronika direto e não tentado fazer merda.
- Hmm.. Entendo acho.
- Outra coisa que eu andei pensando, os dez assassinos nem se conhecem direito, acho que eles não devem ser uma equipe, talvez só um pessoal que pode matar a gente, a única vez que vi mais de um junto, foi aquela borboleta com o Confiança.
Os dois chegam na cozinha, Bane pega um suco de laranja para Veronika mas logo vira para Dash, agora focando totalmente no seu próprio pensamento – Dash também foca, ela não era a melhor estrategista mas pelo menos escutaria o que ele tem para dizer.
- Outro problema é o Stile, ele já não tá bem, não sei se sequer tem condições de continuar lutando com a gente do jeito que ele tá.
- É.. Ele parece meio estranho mesmo, desde que a gente saiu do hospital ele parece meio.. Alheio, sei lá, parece que tá viajando.
- E ele tá, ele tem umas coisas sobre ele que tá tentando resolver sozinho, eu nunca vi ele sendo tão hostil do jeito que foi comigo.
- Faz sentido, então, o que você acha melhor fazer? A gente não pode voltar atrás agora.
- Temos que manter ele o mais calmo o possível, mas não dá de tirar ele das lutas, parece que ele quer se provar ou um negócio assim, ele vai ficar mais puto ainda se não fizer nada, e eu não quero ter que matar ele, mas se precisar eu faço.
- Isso tudo é tão complicado.. A Veronika a gente vai deixar fora de combate por enquanto também né?
- Claro, ela não tá em condições de lutar, pelo menos por enquanto, vamos deixar ela descansando o máximo possível, eu acalmei ela como consegui mas tenho certeza que o mínimo gatilho já vai deixar ela como tava de novo.
- Você fez bem viu? Mas não tá mentindo pra ela né?
- Não, não, é tudo verdade, eu realmente tenho um carinho por aquela mulher.
- Que fofos os dois pombinhos, mal posso esperar pra voltar pra terra e ver vocês juntos fora de missão lá no QG.
- Eu que diga, quando a gente voltar, já disse pra minha mãe que a gente vai pro Havaí tirar umas férias, e vou levar a Veronika junto.. Na verdade, vamo todo mundo aproveitar lá viu? Acho que a gente merece.
- Eu aceito! Lembra daquela última missão que a gente fez lá? Aquela no aeroporto? Foi tanta coisa pra fazer naquela semana que a gente nem conseguiu visitar alguma praia bonita ou um resort diferente, dessa vez a gente tem que ir em um!
- Então, é dessa que eu me lembrei mesmo, fiquei com vontade de voltar pra lá, beber uma água de coco, sei lá, só sei que não quero saber mais de espaço depois disso, vou ficar só na terra aproveitando umas férias. E já tava pensando em sair do cargo de herói mundial daqui no máximo um ano sabe? Sinto que agora com o Savage entrando, depois de cinco anos já tá na hora da gente passar o bastão.
- É.. Pensando bem depois de tudo isso que a gente passou aqui, dá de perceber o quão grande é nossa responsabilidade né? É cansativo.
- Independente da responsabilidade, só acho que os heróis mundiais merecem descanso merecido. Vou pegar tudo o que tenho, me enfiar em um campo aí ou onde a princesinha quiser e minha vida já tá feita, não preciso de mais que isso.
- Que engraçado viu? Acho que eu vou voltar a estudar, sempre gostei de astronomia, quando tinha meus vinte e um eu terminei minha faculdade de astronomia.. Depois fiquei de fazer Engenharia Aeroespacial mas nunca consegui por me tornar heroína mundial..
- Sério? Não sabia dessa parte, cê nunca falou muito de espaço.
- É que aconteceram umas coisas um tempo antes de me tornar heroína mundial, até por isso desisti de fazer a engenharia aeroespacial, mas estando aqui agora, de novo, eu sinto que o espaço não é tão assustador assim, mas mesmo assim, quero só ficar na terra na parte de engenharia mesmo.
- Espero que consiga, na verdade, que idiotice, você é uma mulher ambiciosa é claro que consegue!
Dash dá uma risada, enquanto Bane se desencosta do balcão, ele olha para a caixinha de suco e já começa a tomar rumo para o corredor dos quartos, passando pela sala principal, Dash o segue – Mas enquanto os dois andam, Dash olha para o cockpit, e algo chama atenção dela.
- Olha Bane!
- O que é?
O homem vira o olhar, e logo sua visão é pega pela mesma coisa, os dois se aproximam do cockpit e observam na grande janela de vidro a frente, o planeta Norradia e Korradia já estava bem próximo, e se aproximando cada vez mais, era visível as duas partes daquele planeta rachado ao meio, e as estranhas raízes que seguravam suas duas pontas.
- Pô, e não é que é tudo rachado no meio mesmo? Que estranho né?
- Olha que legal ali! Dá de ver que os dois lados são bem diferentes.. Um tem um chão azul, e o outro é.. Mais avermelhado, é areia será?
- Parece, tem uns morros ali no meio, o relevo é bem estranho, e ó! Naquele lado ali tem umas construção pelo o que parece, é bem grande.
- Pior que é né, é uma coloração cinza, mas será que é construção mesmo?
- Parece pelo menos.
- Se você diz..
Eles continuam observando por mais alguns minutos, até que um barulho estranho chama atenção, um pingo – Bane e Dash olham para trás rapidamente, um certo susto e calafrio percorrendo a espinha, e eles conseguem ver, sangue pingando do teto do cockpit.
- Sangue? Nem fudendo.
- O que é isso?
Bane arruma sua luva rapidamente, já puxando a espada de dentro dela, uma raiva começa a se pintar em cada parte de seu rosto, seus membros ficando rigídos, Dash observa ele e faz o mesmo, coloca o capacete já pronta para lutar, mas algo estava estranho, o sangue para – Um barulho no cockpit, como um rádio procurando uma estação, e eles escutam do interfone da nave.
- Eu disse pro amiguinho de vocês, que violência não era legal, e ainda assim vocês continuam tentando derrotar meus amigos! Eu não gosto de vocês!
Eles olham para trás, e de fora de nave, uma borboletinha pairava, Priska estava voando enquanto um pouco mais a frente dela um dos lados do corpo dividido do lobo voava, claramente já morto.
- Que porra que é essa, é aquela menininha lá.
- É a garota que o Stile enfrentou, cuidado, ele tinha dito que o poder dela era muito forte.
- Foda-se o poder dela agora, o que eu quero saber é o que ela tá fazendo com o corpo do sarnento.
- Boa pergunta..
Priska levanta a mão pegando um dos seus chifres, e sem cerimônia alguma enfia no pescoço do lobo, alguns segundo se passam e o corpo dele dá um espasmo estranho, como se tivesse revivendo, a garota parece falar algo na orelha restante da parte do corpo daquela coisa, e imediatamente, o olho morto daquilo se move, olhando diretamente para Bane – E com um estrondo e um som de metal sendo perfurado, os dois olham para trás, e o cockpit da nave é cortado inteiramente como se tivesse sido desacoplado com um botão, o sangue que tinha escorrido corta tudo como uma serra, fonte do poder do lobo, e logo empurra o cockpit que agora voava sozinho para o planeta com uma velocidade intensa.
- Nem fudendo.. A Veronika porra!
Bane tenta correr para a outra parte da nave que agora estava sendo lançada para o outro lado do planeta, mas na hora que o homem tenta pular, Dash segura ele, o puxando de volta.
- É impossível, fica aqui.
- Mas e a Veronika caralho?
- A gente vai achar ela, eles foram pro outro lado a-agora.. V-vê se poupa o ar..
Bane e Dash colocam as mãos na boca, tentando ao máximo manter o ar nos pulmões, mas antes que eles passem qualquer dificuldade gigante – A gosma que estava mantendo certa parte do cockpit fechada, expande em pouquíssimo tempo, tomando todo o cockpit e selando ele como um quarto só.
Mas, mais e mais eles se aproximavam do planeta, iam bater, já sentiam o calor e já haviam passado da atmosfera, eles tentam conversar mas o barulho deles descendo em grande velocidade era muito alto, até que tudo parece mais leve, eles são jogados contra um lado do cockpit, mas a nave cai mais devagar em direção a superfície arenosa do planeta, era a gravidade baixa daquele lugar – Os dois se olham, antes de que aquela parte revestida da nave pouse em segurança, a gosma Zero havia propriamente parado o pouso antes que eles batessem, modelando a frente da nave e dando estabilidade para que os dois não caíssem, e finalmente Zero se desacopla daquela parte da nave, voltando a forma de gosma e subindo no ombro de Dash que aceita de bom grado.
- A gente não bateu, que bom né Bane?
- Sim, mas e eles? Será que deu tudo certo?
- Não pensa muito nisso, vamos achar uma forma de chegar neles logo logo, a Reni e a Veronika devem ter cuidado disso.
- Eu tô com um mal-pressentimento..
- Não fica assim..
Dash dá alguns tapinhas no ombro de bane, antes de prontamente sair da nave com um pulo, observando como ela flutuava pela gravidade estranhamente baixa que tinha, ela dá uma risada, se divertindo – Enquanto Bane já começa a olhar ao redor, ele pega a espada que caiu no chão durante a descida, e observa a totalidade ao redor deles.
- Onde a gente tá?..