O cavalo-peixe encara os três aventureiros e, então, avança correndo em direção à maga, que aponta a varinha para a criatura, disparando um relâmpago.
O monstro, que parece ter previsto o ataque, pula para a direita, esquivando-se do ataque e continuando seu avanço.
A guerreira se posiciona de frente para a criatura, usando seu escudo de madeira para bloquear o ataque.
Então, ele pula por cima da guerreira, caindo em direção à maga.
De repente, raízes saem do chão e formam um domo em volta da maga, a protegendo do ataque.
Isso veio do rapaz negro. Provavelmente, um druida.
O monstro pousa sobre o domo de raízes, batendo os cascos dianteiros sobre a superfície, provavelmente tentando quebrá-la.
– Aí! Seu desgraçado!
A guerreira chama a atenção do cavalo-peixe, que, ao olhar para trás, vê a guerreira arremessando a clava em sua direção, acertando em cheio a cabeça dele, e o derrubando no chão.
– Na mosca! Toma isso, seu monstro nojento!
– Astrid! Ainda não é hora de comemorar!
Diz o druida, que coloca ambas as mãos no chão novamente, e começa a sussurra algo.
Enquanto isso, as raízes que protegiam a maga recuaram para o solo.
Ao mesmo tempo, o monstro se levanta do chão. Parece atordoado depois do ataque.
– Astrid! Eu vou ganhar tempo! Pegue sua clava!
Após dizer isso, a maga guarda sua varinha na aba da sua saia e troca por outra. Ao empunhá-la, um brilho roxo emana suavemente na ponta.
Em seguida, com um movimento da mão, uma fumaça densa e preta sai da ponta da varinha e envolve a criatura, que começa a se debater e relincha de desespero dentro da fumaça.
Através dos meus olhos, eu consigo perceber que a fumaça é feita da mais profunda e maligna escuridão.
Como eu sei disso?
Talvez uma intuição por eu ser um espírito?
Enquanto eu me perco em pensamentos, a guerreira já havia pegado sua clava, e a fumaça que envolve o monstro começa a se dissipar.
– Damian! Agora!
– Certo! Espíritos da Natureza! Ataquem o inimigo!
Nesse instante, dezenas de Musgos Carnívoros saem de trás da vegetação, avançando rapidamente, e envolvendo o corpo do cavalo-peixe.
A cada instante, a massa de Musgos Carnívoros cresce enquanto o monstro se debate, na tentativa de se soltar.
Eles venceram?
No final, acho que a estratégia sempre supera a força.
– Agora eu vou finalizar essa coisa!
A guerreira caminha em direção ao cavalo-peixe. Ela ergue a clava com ambas as mãos e desfere um golpe pesado na cabeça dele.
A pancada foi tão forte que consegui ouvir de onde estou agora.
Ela desfere outro golpe, e depois outro e outro. A cada golpe, as escamas do cavalo-peixe se soltam, e um líquido roxo, provavelmente sangue, começava a escorrer pelo rosto dele, ao mesmo tempo que sua aura ficava ainda mais intensa.
A água do pequeno lago parece responder à raiva dele.
Isso confirma que ele pode controlar a água.
– Morra de uma vez!
Quando a guerreira ergue a clava para desferir outro golpe…
Uma esfera d'água se forma acima do lago e dispara uma lâmina d'água que voa em direção a guerreira.
– Cuidado!
A maga avisa, mas já era tarde.
A lâmina d'água corta os braços da guerreira, que caem no chão. O sangue jorrando sobre ela enquanto grita de dor.
O druida corre em direção à guerreira, mas, no meio do trajeto, a esfera d'água dispara outra lâmina de água, que corta a perna direita do rapaz, o fazendo cair de cara no chão.
O sangue dele começa a jorrar, formando uma poça vermelha no chão.
– Deixe meus amigos em paz!
A maga aponta sua varinha de raios para o monstro, atingindo-o em cheio com um relâmpago que desintegra os Musgos Carnívoros que o prendiam.
O ataque continua. A maga dispara três relâmpagos seguidos, cada golpe fazia com que o cavalo-peixe relincha de dor.
Quando ela se prepara para disparar outro relâmpago, brilho azul-pálido da varinha de apagar completamente.
– Não, não, não! Agora não!
Ela se desespera, guardando a varinha na aba da saia e trocando por outra.
Enquanto isso, a criatura, agora com boa parte do corpo danificada, tem a carne viva exposta e sangue roxo escorrendo por ela.
Mesmo assim, ele avança correndo até a maga, dando uma cabeçada nela e a empurrando com força contra uma árvore, a fazendo cuspir um pouco de sangue.
Enquanto a maga tenta se levantar depois do ataque, o monstro caminha até ela, pronto para o último golpe.
É isso, acabou.
Aquilo virou completamente o jogo a favor dele. Com força e resistência superiores, sem falar da vantagem do terreno, a batalha já estava decidida.
Eu já sabia disso, e eu não posso fazer nada.
Parte de mim quer ajuda, mas…
Eu estou com medo.
Afinal, aquilo pode manipular água. Qualquer ataque pode me apagar instantâneamente.
Sem falar que claramente não tenho chance contra essa coisa. Se três aventureiros inexperientes não conseguiram enfrentá-lo, quem dirá eu que literalmente nasci hoje?
Eu não vou ganhar nada com isso, só tenho a perder. Não só a minha energia, mas também a minha vida.
Não posso fazer nada. Não é problema meu.
…
Não é problema meu…
Por quê?
Por quê isso me incomoda?
De repente, uma memória.
Sou eu andando na rua durante a noite. Estou carregando uma sacola de supermercado na mão.
Provavelmente, eu estava voltando para casa.
No meio do caminho, vejo um homem agredindo física e verbalmente uma mulher, talvez uma namorada.
Não consigo ver os rostos deles na minha memória.
Eu assisti à cena por um breve instante e…
– Não posso fazer nada, não é problema meu.
Foi o que eu disse.
Então voltei para casa, ignorando completamente aqueles dois. Após fazer um miojo para o jantar, passei a madrugada jogando.
No dia seguinte, uma notícia no noticiário:
Mulher é encontrada morta em calçada, após ser espancada pelo ex-namorado.
Apesar de não conseguir ver o rosto, tenho certeza que era ela.
E isso me abalou por um momento.
Eu podia ter interferido.
Podia ter ligado para a polícia.
Podia ter chamado a ajuda de qualquer um que estivesse por perto.
Mas, ao invés disso, eu decidi ignorar não só aquela mulher, como também a realidade.
Eu sou um covarde.
E isso…
Me enoja e me enfurece!
Eu posso ter sido assim no passado, mas, eu não vou deixar isso acontecer de novo!
Eu vou ser diferente!
Voo rapidamente até o campo de batalha. O cavalo-peixe está de costas para mim, com a carne completamente exposta.
Eu vou me aproveitar disso.
Enquanto o monstro levanta o casco dianteiro para atacar a maga, disparo três projéteis flamejantes, mirando na carne exposta.
O monstro relincha de dor, virando-se para me encarar.
Mas não vou dar chance dele agir.
Uso meu lança-chamas, incendiando sua cabeça.
Ele começa a se debater, balançando a cabeça em chamas, tentando apagar o fogo.
Aproveito a oportunidade para atingi-lo com mais dardos flamejantes, cada ataque carbonizando sua carne.
Ouço o barulho da água se movendo atrás de mim.
Aí vem o ataque dele!
Voo para cima, escapando por pouco de uma esfera d'água que apaga as chamas que incendiavam o monstro.
Ele me encara diretamente, sua aura tão intensa que até minhas labaredas balançam sobre a pressão dela.
Mas eu já senti essa pressão antes, e não posso ser covarde agora que estou aqui.
Ouço o barulho da água novamente. Olho para trás e…
Tá de sacanagem.
Uma tromba d'água se forma sobre o lago. Ao mesmo tempo que ela gira violentamente, começa a disparar diversas esferas d'água.
Minha única opção é desviar, mas, com essa enxurrada de ataques, fica cada vez mais difícil.
Um ataque me acerta de raspão.
Doí muito, mas não posso parar de desviar. Uma hora esse ataque tem que acabar.
De repente, ouço o som estrondoso de uma explosão, junto com pedaços de terra e lama voando para o alto.
A tromba d'água se desfaz repentinamente, cessando o ataque.
Quando olho para trás, vejo o cavalo-peixe completamente caído no chão, dentro de uma pequena cratera.
A maga estava de pé, apontando uma varinha cuja ponta emana um leve brilho alaranjado.
– Damian! Já se curou?!
Olho para onde o rapaz está.
Agora, sua perna, que antes havia sido cortada, foi recuperada.
O druida estendia a mão, que emana um brilho verde que cura os últimos ferimentos.
– Já! Vou cuidar da Astrid!
Ele se levantou sem dificuldade e correu até a guerreira, pegando os dois braços que foram cortados e os colocando no lugar.
Novamente, ele usa sua magia de cura na guerreira.
Perfeito. Agora só falta uma coisa.
O cavalo-peixe ainda está vivo.
Mesmo com o corpo quase completamente destruído, ele tenta se levantar. Sua aura agora está bem mais fraca.
Eu vou acabar com isso.
Reuno toda minha energia, formando uma grande bola de fogo e, então, atiro em direção ao monstro.
Ao mesmo tempo, a maga, com sua varinha, dispara uma esfera de energia alaranjada também em direção à criatura.
Então, uma explosão, maior que a anterior, ilumina o local a ponto de quase me deixar cego.
O barulho é tão alto que eu tenho quase certeza que todo o pântano consegue ouvi-lo.
Quando o brilho se dissipa, lá está o cavalo-peixe, morto. Seu corpo está quase irreconhecível.
Mesmo eu estando distante, a aura do monstro é atraída até mim, se fundindo com as minhas chamas.
Imediatamente, sinto o aumento de poder junto com as memórias dele.
Em resumo: Mostra o local exato onde estamos agora. Parece que ele nunca saiu daqui. Não só isso, ele era territorial.
Nas memórias, ele enfrentou outras criaturas e aventureiros que pisavam aqui.
Não só isso.
Sinto algo… Diferente.
Como se eu sempre tivesse isso comigo, apesar de eu ter certeza que eu não tinha isso antes de absorver a alma do cavalo-peixe.
Talento: Manipulação Elemental…
Aparentemente, agora eu sou capaz de manipular o elemento o qual tenho afinidade dentro de um raio de quinze metros.
Assim como Moryn falou, sinto que este talento está em sua versão mais fraca.
Então é essa a sensação de ter um Talento gravado na alma.
E, novamente, um redemoinho de fogo envolve meu corpo. Agora eu não sinto que estou apenas maior; sinto algo diferente, mas ao mesmo tempo, familiar.
Quando as chamas do redemoinho se dissipam, me aproximo do lago para ver meu reflexo.
Na água, vejo uma figura de fogo alaranjado flutuando acima do solo, mais ou menos do tamanho de uma criança de seis anos.
Meu corpo agora possui uma forma humanoide, embora continue sendo feito de chamas.
Minha cabeça é uma massa de fogo, com labaredas balançando no topo, como se fosse cabelos flamejantes.
A cabeça está conectada a um pescoço e um tórax, mas, a partir do abdômen para baixo, meu corpo parece ser uma coluna de fogo.
Meus olhos, que na verdade são apenas dois pontos brancos e brilhantes, ficam onde deveria estar o rosto. Não tenho nariz ou boca, o que me dá uma certa estranheza.
Tenho braços esguios feitos de chamas, assim como mãos e dedos.
Olho para minhas próprias mãos, movendo as chamas em forma de dedos.
Quando fecho as mãos, elas se transformam em pequenas bolas de fogo. Quando as abro, voltam a ser dedos.
Será que consigo pegar e segurar objetos?
Terei que testar isso depois.
Olho para trás, observando o trio de aventureiros à distância.
O druida conseguiu curar a guerreira. Agora o trio parece que está conversando sobre algo.
Ao terminarem de conversar, os três se aproximam de mim.
Então, de repente, os três se ajoelham diante de mim.
A maga me encara com seus olhos azuis e com um sorriso no rosto.
– Espírito das Chamas, você salvou nossas vidas. Estamos muito gratos, como podemos pagar por essa dívida?
Hein?
– Senhor Espírito, podemos saber seu nome?
Pergunta o druida.
– Sirius.
– Sirius…
Ele repete.
– Vou lembrar desse nome e pelo que fez conosco.
…
Entendi.
É nesse momento que o protagonista overpower salva um grupo de personagens mais fracos e eles passam a ter uma dívida de vida com ele.
Mas, não quero nada em troca. Eu só salvei eles porque eu me sentiria mal se não fizesse isso.
– Escutem, vocês não me devem nada. Eu ajudei vocês sem esperar nada em troca. Então, está tudo bem.
– Perdoe minha ousadia, Senhor Sirius.
Diz a guerreira, seus olhos verdes me encarando com seriedade e determinação.
– Como guerreira, eu não posso deixar de expressar minha gratidão por alguém que me salvou.
Ela faz uma pequena pausa.
– Graças à sua ajuda, posso realizar meu sonho de ser como a Eloria!
Eloria… Ah, não é a tal rainha que Moryn havia comentado?
Bem, parece que ela é uma grande inspiração.
– Meu sonho é me tornar uma maga reconhecida por todo o continente.
Diz a ruiva, ajeitando o chapéu de bruxa preto.
– E eu só quero me tornar um mestre para ensinar e guiar pessoas com Talento para serem druidas.
O rapaz negro se levantar, ainda me encarando.
– Como um estudioso e amigo da natureza e dos espíritos, me sinto obrigado a agradecer, principalmente de frente à um Espírito Maior.
Espírito Maior? Que papo é esse?
Moryn me deve explicações.
– Parece que você evoluiu, Sirius.
Olho para esquerda surpreso. Moryn está ao meu lado, esfregando a barba feita de grama.
– Mestre?!
Diz o druida.
Mestre?
Moryn rir enquanto se apoia em seu bastão.
– Olá Damian. Faz dois anos desde a última vez que te vi pessoalmente, não é?
Ele encara o restante do grupo.
– Oh, vejo que conseguiu entrar para um grupo só mulheres. Que homem sortudo.
Enquanto Moryn gargalha, Damian fica agitado.
– Espere, Mestre! Não é bem assim!
– Ora, Ora, vai negar nosso romance?
Diz a maga, claramente se aproveitando da brincadeira.
– Se bem que seria mais fácil para o Damian se relacionar com uma árvore do que uma mulher de verdade.
Diz a guerreira. Apesar do sarcasmo, até eu senti essa alfinetada na alma.
A maga também ri, a ponto de quase chorar. Ela limpa uma lágrima que escorre pelo seu rosto branco.
– É um prazer conhecê-lo, Moryn, Damian falou muito de você.
A maga fica em pé, abaixando levemente a cabeça.
– Me chamo Bella. Sou a líder desse grupo.
– Oh, entendi. Perdão pela piada de antes. Fazia tempo que não via o Damian.
Bella rir brevemente.
– Sem problema.
– Mudando de assunto, vocês são os aventureiros que eu havia pedido?
– Não. Os que foram enviados tiveram que resolver um problema na vila próxima daqui.
Ela faz uma pequena pausa.
– A vila foi atacada por Barghests.
– Barghests?
Pergunto.
– Barghests, também conhecidos como “Cães Negros". Eles atacam em pequenos grupos durante a noite, normalmente atrás de rebanhos ou de humanos.
Explica Moryn.
– Entendi. Desculpa interromper. Pode continuar.
– Tudo bem. O grupo protegeu a vila durante o ataque. Houveram poucas mortes e muitos feridos, incluindo membros do grupo. Eles passaram dias descansando na vila, ajudaram a enterrar os mortos e concertaram os estragos. Depois disso, voltaram para Eloria. Eles tinham se esquecido da missão, então nos enviaram para compensar o erro.
Ela faz outra pausa.
– Estávamos procurando por você para explicar a situação, mas, por acidente, pisamos no território de um Kelpie. Lutamos e quase fomos mortos, até que Sirius apareceu e nos salvou.
Ela me encara novamente, seu olhar com gratidão e felicidade genuínos.
– Muito obrigada. Nós temos uma dívida com você.
– Eu já falei, vocês não me devem nada.
– Não é assim que funciona, Sirius.
Diz Moryn.
– Quando um espírito salva a vida de um humano, ele se sente endividado, e esse sentimento não passará até que a dívida seja quitada.
Ele me encara com seriedade.
– Entende, Sirius? Mesmo que você não tenha os salvado com segundas intenções, eles têm o desejo genuíno de retribuir o favor. Na verdade, para um humano, o simples fato de conseguir conversar com um espírito é uma honra. Afinal, nós temos a capacidade de nos tornarmos deuses, se assim quisermos.
Espera… Eu posso me tornar um deus?
…
Na verdade, isso não é tão surpreendente.
Quanto mais absorvo almas, mais forte fico. Quanto mais evoluo, mais poder adquiro com o tempo.
…
O que fazer?
– Peça o que quiser, Senhor Sirius, seja o que for, pagaremos essa dívida.
Diz a maga.
…
Continua…