Tem uma coisa surreal em voltar de um universo paralelo onde você morreu de mentira umas três vezes e, seis horas depois, ter que fingir que entende função do terceiro grau.
Porque é isso. O multiverso não me dá atestado. O Anel da Clideologia não preenche justificativa de falta. Então, na quinta de manhã, com a sobrancelha ainda ligeiramente torta da Reformatação e cheirando a um sabonete que mal disfarçava o churrasco, lá estava eu: uniforme, mochila, portão da escola. Vida normal. Suposta.
— Cê tá com cara de quem dormiu dentro de uma churrasqueira — foi o boa noite do Cauã, me esperando encostado no muro.
— Tecnicamente eu dormi em cima de uma — respondi. — Belo Horizonte, 2014. Longa história. Você estava lá.
— EU ESTAVA — ele falou, empolgado, porque pro Cauã acompanhar meus apocalipses pela TV da sala é basicamente ter Netflix ao vivo. — Mano, aquela parte do sol foi CINEMA. Eu chorei. Não conta pra ninguém que eu chorei.
— Você chorou numa cena em que eu literalmente peguei fogo.
— Foi uma morte muito bem dirigida!
A gente entrou. E aqui eu preciso te explicar uma coisa sobre a minha vida escolar, porque ela é tão improvável quanto a outra.
Eu sou, oficialmente, o esquisito. O "Garoto Roxo" — apelido que peguei no sétimo ano por motivos que envolvem um acidente com tinta guache e que eu me recuso a detalhar. Eu ando sozinho (fora o Cauã), falo sozinho (porque, surpresa, tem um Destinatário invisível no meu dedo), e surto em horários aleatórios porque às vezes o anel esquenta no meio da aula avisando que tem pecado chamando. No ranking social do colégio, eu fico ali entre "o cara que come giz numa aposta" e "a planta do corredor".
Então, quando eu cheguei na sala, não foi surpresa ninguém me ignorar.
A surpresa foi a mesa nova.
Tinha gente sentada perto da minha carteira. GENTE. Três humanos que, até semana passada, não sabiam que eu existia: o Bento, gigante, calmo, que carrega um fone pendurado no pescoço o dia inteiro e fala tipo três palavras por dia; a Rafa, baixinha, elétrica, boca de metralhadora, que entrou transferida mês passado e ainda não aprendeu que a regra tácita era me evitar; e o Igor, que eu só conhecia de reputação (reputação de reprovar duas vezes de propósito "pela experiência").
— Oh, Roxo! — a Rafa me chamou, como se a gente fosse íntimo há anos. — Senta aqui, vai. Decide uma treta: o Bento acha que dá pra sobreviver numa queda de avião se você pular no segundo que ele bate no chão. Me ajuda a provar que ele é burro.
Eu travei. Interação social espontânea é tipo um guardião que eu não sei derrotar.
— ...a física não funciona assim — foi o que saiu.
— VIU, BENTO.
O Bento deu de ombros, imperturbável. — Vale tentar.
E foi assim, por acidente, que eu ganhei um grupo. Não sei explicar. A Rafa chegou sem o manual de "ninguém fala com o Roxo", o Bento aceita qualquer um que não faça barulho, o Igor achou graça num cara que fala sozinho ("é tipo eu depois do segundo energético"), e o Cauã, que sempre foi só eu e ele, de repente tava rindo numa mesa de cinco. Esquisito. Bom-esquisito.
A zoação começou na segunda aula.
— Roxo, por que você tá com uma sobrancelha torta? — Igor.
— Acidente de depilação — menti.
— Cê depila sobrancelha? — Rafa, genuinamente interessada. — Qual técnica? Linha ou cera?
— Fogo — eu disse, antes de pensar. — Fogo. Técnica a fogo.
Silêncio. O Bento assentiu lentamente, como se "técnica a fogo" fosse perfeitamente razoável. O Cauã quase engoliu a própria língua segurando o riso. E a aula seguiu, e eu pensei: cara, talvez eu consiga ter uma coisa normal. Uma coisinha só. Um grupo de amigo. Um dia sem crise cósmica.
Aí veio o recreio.
E aí veio ELA.
Eu preciso te contextualizar quem é a Lauren pra você entender a gravidade do que aconteceu. A Lauren é popular. Não popular tipo "conhecida" — popular tipo fenômeno meteorológico. Capitã do time de volei, nota alta, aquela pessoa que atravessa o pátio e as conversas abaixam de volume igual quando passa diretor. Metade da escola é apaixonada por ela e a outra metade quer ser ela. Ela é o oposto social exato de mim. Ela é o sol. Eu sou o cara que pega fogo quando o sol nasce.
E o que ninguém, NINGUÉM na escola sabia — o segredo mais bem guardado da minha vida, mais secreto até que o anel — é que a Lauren e eu…
— OI, AMOR.
Eu juro que ouvi um guarda-chuva de bebida cair em algum lugar. A Rafa estava com um salgado parado no meio do caminho da boca. O Igor sussurrou "não entendi nada mas eu respeito" num tom de reverência. E o Cauã, o traidor, abriu o sorriso mais satisfeito da história da humanidade, porque ELE sabia, ele sempre soube, e ficou esse tempo todo esperando esse exato momento de caos.
— Peraí — a Rafa achou a voz primeiro. — PERAÍ. Vocês dois… vocês… — ela apontou da Lauren pra mim, de mim pra Lauren, tipo quem acabou de descobrir que dois mais dois dá roxo. — A LAUREN NAMORA O ROXO?!
— Namoro — a Lauren confirmou, roubando o salgado da Rafa com a maior naturalidade. — Há alguns meses. — Ela mordeu. — Por quê, tem problema?
Não tinha problema. Tinha um PÁTIO INTEIRO redefinindo a realidade. Eu vi, em tempo real, o ranking social do colégio pegar fogo e desabar que nem a ilusão do Mineirão. Gente puxando celular. Gente cochichando. Alguém, ao fundo, falou "eu sabia que esse Roxo escondia alguma coisa" num tom tão dramático que até eu fiquei curioso sobre o que eu escondia (spoiler: um relacionamento e seis universos paralelos, mas a escola só precisava processar o primeiro).
— meses — repetiu o Igor, de olhos marejados, a mão no peito. — meses esse cara tá vivendo um sonho e vindo pra aula com cara de sofrimento. Que HOMEM. Que RESERVA emocional.
— Igor, para.
— Não. Você é meu ídolo agora. Me ensina.
A Lauren riu — aquela risada dela que, juro, faz o dia inteiro valer a pena, inclusive os dias em que eu literalmente queimo vivo — e pegou minha mão por baixo da mesa, discreta, no meio de todo o caos que ela mesma criou e não ligava a mínima.
— Desculpa estourar seu disfarce — ela sussurrou, só pra mim. — Eu só cansei de fingir que não te conheço quando metade da minha preocupação é se você vai voltar vivo da próxima.
E eu entendi. A Lauren segura o outro lado da minha vida dupla. É ela e o Cauã na sala, me vendo pela TV, torcendo pra eu não morrer de verdade. Fingir distância na escola era mais um peso. Então ela só… largou. No meio do pátio. Da pior/melhor forma possível.
— Tudo bem — eu disse. E, pela primeira vez em muito tempo, era verdade. — Deixa eles falarem.
A gente passou o resto do recreio na mesa — eu, o Cauã, a Rafa surtando com perguntas, o Bento assentindo, o Igor me tratando como monge, e a Lauren roubando a comida de todo mundo. Foi, de longe, o momento mais normal e mais feliz que eu tive em meses. Nenhum pecado. Nenhum guardião. Só barulho de gente boa.
Durou exatamente até o anel esquentar no meu dedo.
Devagar, de leve, aquele calorzinho que eu já conhecia bem demais. A luzinha do Destinatário piscou na borda da minha visão, e a voz dele veio baixinha, só pra mim, cortando o barulho feliz do recreio:
— Aproveita o almoço, Lucas. — Uma pausa. — Porque o próximo é… diferente. Esse pecado não quer te destruir. Ele quer ter você. E, sinceramente? — a luz tremeu, quase nervosa. — Até eu tô confuso com o que te espera.
Avareza.
Mas isso, meu amigo, era problema do Lucas depois do almoço.
Agora eu tinha um pão de queijo pra dividir, uma namorada roubando ele da minha mão, e, pela primeira vez na vida, uma mesa cheia.
[Fim do Capítulo 27