o jantar durou 50 minutos , e entao veio as aulas aula, dois exercícios de química e exatamente um pão de queijo (a Lauren comeu o resto). Depois disso, eu e a lauren e o caua , fomos para casa, para vermos o novo pecado.
Dessa vez eu caí num lugar que me deu vontade de chorar de tão bonito.
Um salão. Mas chamar aquilo de salão é insultar a palavra. Era uma catedral de riqueza. Pisos de mármore que refletiam meu rosto, colunas de ouro maciço subindo até um teto que eu nem enxergava, montanhas — montanhas literais — de moedas, joias, coroas, lingotes, taças cravejadas, tudo brilhando sob uma luz dourada que vinha de lugar nenhum e de todo lugar. Tinha tanto ouro que o ar era morno. Eu senti, no fundo do peito, aquele puxãozinho. Aquele "poxa, se eu pegasse só UM anelzinho…".
— Nem pensa — a voz do Cauã estourou. Ele e a Lauren tavam de volta na sala, me vendo pela TV. — Lucas, tá na sua cara que você quer roubar alguma coisa.
— Eu NÃO—
— Você já olhou pra uma coroa três vezes — disse a Lauren.
— ...é uma coroa muito bonita.
— É o pecado — cortou o Destinatário, baixinho, nervoso. — A Avareza não ataca de fora, Lucas. Ela entra. Ela te convence de que você precisa, que você merece, que seria burrice não pegar. Não encosta em nada. Nada.
Foi quando as correntes começaram a chacoalhar.
Do fundo do salão, de trás da maior das montanhas de ouro, veio um som de ferro arrastando — grosso, pesado — e dele emergiu o guardião.
Um cachorro.
Tá, "cachorro" também insulta a palavra. Era do tamanho de um ônibus, de pelo negro como piche, com três cabeças, cada uma com olhos de ouro derretido e presas de obsidiana, e preso ao chão por correntes grossas que saíam direto da montanha de tesouro — como se o próprio ouro fosse a coleira dele.
— Cérbero — eu disse. — Claro. O cão que guarda. Tinha que ser.
As três cabeças me encararam. E então, pra minha surpresa, elas falaram. Cada uma com uma voz.
A da direita, rouca: — O que você quer, menino?
A da esquerda, mansa: — Pega. Ninguém vai saber.
A do meio, a maior, baixa e faminta: — Tudo isso pode ser seu. Só me diz o que você mais deseja no mundo… e leva.
E aqui foi onde eu quase me ferrei. Porque a cabeça do meio não tava blefando. Eu senti a pergunta entrar em mim de verdade — o que você mais deseja? — e, por um segundo horrível, mil respostas subiram: poder pra terminar isso logo, dinheiro pra tirar a minha mãe do aperto, garantia de que a Lauren e o Cauã nunca se machucassem por minha causa, uma vida normal, uma vida SEM anel. A tentação não era o ouro. Era a promessa de que eu podia simplesmente… pegar o atalho. Parar de sofrer.
— Lucas — a voz da Lauren, firme, me puxando de volta. — Respira. Você não precisa de atalho. Você nunca precisou.
Eu respirei.
E tentei o óbvio primeiro, porque eu sou burro: invoquei o Desmantelar e cortei uma das correntes, achando que ia soltar o bicho ou derrubar ele. Erro. A corrente cortada… se enrolou. Puxou mais ouro da montanha, se refez mais grossa, e o Cérbero cresceu — porque claro que cresceu, ele se alimenta de acúmulo, cada coisa que eu adicionava ao problema virava mais corrente, mais tesouro, mais cão.
— PARA de dar coisa pra ele — gritou o Cauã. — Toda vez que você mexe, ele GANHA mais!
E aí, de novo, igual na Hidra, a ficha caiu — mas invertida. A Hidra crescia quando eu atacava com raiva. O Cérbero crescia quando eu TENTAVA PEGAR, cortar, tomar, adicionar. Ele era o guardião do acúmulo. Você não vence o acúmulo acumulando mais.
Você vence dando.
Eu lembrei de uma coisa que a professora de história (a mesma da Hidra, valeu, dona Célia) falou uma vez: nos mitos, quem passava pelo Cérbero não lutava. Oferecia. Um bolinho de mel. Uma moeda pro barqueiro. Você dava algo, e o portão abria.
Então eu guardei o Desmantelar. E fiz a coisa mais contraintuitiva do mundo, parado na frente de um cão de três cabeças do tamanho de um busão: eu abri a mochila.
— Vocês querem? — falei. — Então toma.
Pra cabeça da direita, a rouca, a que perguntou "o que você quer", eu joguei a última coisa de valor que eu tinha no bolso: o pão de queijo reserva que eu guardei do recreio. Ridículo. Mas era meu, era a única comida que me restava, e eu dei de graça. A cabeça abocanhou no ar, mastigou — e, pra minha surpresa, relaxou. Baixou. Começou a cochilar.
— Uma — sussurrou a Lauren.
Pra cabeça da esquerda, a mansa, a do "pega, ninguém vai saber", eu dei algo mais difícil. Tirei do pulso a pulseirinha de miçanga que a Lauren fez pra mim no segundo mês de namoro — feia pra caramba, eu amo ela — e, com um nó na garganta, ofereci. — Essa aqui dói dar. — A cabeça pegou com delicadeza, quase com respeito, e também baixou, sonolenta.
— Lucas, você NÃO precisava dar a pulseira — a Lauren, a voz embargada.
— Eu faço outra com você — eu disse. — O negócio é dar quando dói. Essa é a parada toda, né?
Sobrou a do meio. A faminta. A que oferecia o mundo inteiro em troca do meu maior desejo. E essa não ia se contentar com objeto nenhum.
Ela abaixou até a minha altura, o bafo quente, os olhos de ouro no meu, e repetiu, baixinho: — O que você mais deseja?
E eu respondi a verdade.
— Eu desejo que isso acabe — falei. — Que eu termine os sete, que eu volte pra minha vida, pros meus amigos, pra minha namorada roubando minha comida. — Olhei bem no olho de ouro dela. — Mas eu não vou PEGAR esse desejo de você. Porque se eu pegar o atalho, não sou mais eu que chego lá. É você. — Dei de ombros. — Então fica com ele. Eu prefiro conquistar.
E eu abri mão. Mentalmente, de verdade, soltei o desejo de que tudo fosse fácil. Entreguei pra ela.
A cabeça do meio me encarou por um longo segundo. E então — eu juro — ela pareceu aliviada. Como se, pela primeira vez em eras, alguém tivesse recusado o que ela oferecia e, ao recusar, tivesse libertado ela de ter que oferecer. Ela baixou a cabeça. As correntes de ouro se afrouxaram, caíram, e o Cérbero inteiro — as três cabeças — se deitou, enrolou, e dormiu, encolhendo até virar um cachorro normal, preto, de três cabeças, do tamanho de um poodle grande, roncando em cima de uma moeda só.
Fofo, na real.
— Cara — o Cauã, baixinho, abismado. — Você derrotou o chefão sendo… gente boa.
— É o pecado da Avareza — eu disse. — O antídoto é generosidade. Eu só… apliquei o remédio.
E então, como sempre, o salão de ouro começou a rachar.
O mármore virou lama. As colunas de ouro escorreram e viraram vigas de madeira podre e escadas. A luz dourada apagou e deu lugar a um sol de meio-dia escaldante, impiedoso. E o cheiro — meu Deus, o cheiro — de barro, suor e metal.
[LOCALIZAÇÃO REAL REVELADA]
Serra Pelada — Pará.
Década de 1980. A maior corrida do ouro do Brasil.
Eu tava no fundo de uma cratera gigantesca, escavada à mão por dezenas de milhares de homens. Formigueiro humano. Escadas de madeira subindo paredões de lama. Homens de bermuda e sem camisa, cobertos de barro da cabeça aos pés, carregando sacos nas costas, subindo e descendo, cavando, cavando, cavando — todos congelados no instante, igual à torcida do Mineirão, mas aqui o rosto deles não era de fúria. Era de fome. De cobiça. Milhares de olhos fixos no mesmo brilho no fundo da lama. O monumento perfeito da Avareza: um buraco imenso cavado por pura vontade de ter mais.
— De todos os lugares — murmurei. — De novo, de todos os lugares.
— Você veio buscar também?
A voz veio de cima de uma das escadas. E dessa vez eu parei de respirar.
Era eu. Mais uma vez. Mas esse Lucas… esse me quebrou o coração só de olhar.
Ele descia a escada de lama devagar, de bengala, tateando — porque ele era cego. Os olhos dele eram duas faixas de pano sujo cobrindo órbitas vazias. Ele tinha um braço só — o esquerdo terminava num coto no ombro. E, apesar disso, ele se movia com uma força impossível: a mão única dele agarrava a escada e sustentava o corpo inteiro como se fossem quatro braços, os músculos do antebraço retesando de um jeito que não era humano.
E o rosto — o pedaço que dava pra ver abaixo da venda — era lindo. Perfeito. Simétrico. Cara de capa de revista.
— Você tem olhos — ele disse, virando a cabeça na minha direção com uma precisão perturbadora pra um cego. Ele sorriu, e foi o sorriso mais triste e mais faminto que eu já vi. — Olhos tão bonitos. E dois braços inteiros. — A mão única dele apertou a bengala. — Eu já fui modelo, sabia? Antes. Eu era lindo. E eu vou ser de novo. Eu só preciso… das peças certas.
Ele desceu mais um degrau na minha direção.
— Não leva a mal, outro eu. Mas eu acho que os seus servem.
E eu entendi, com um frio na espinha, por que o Destinatário tinha ficado confuso. Esse pecado não queria me matar.
Ele queria me desmontar e usar.
[Fim do Capítulo 28 — Arco da Avareza iniciado.]