# Capítulo 1 — O Código Antes da Tempestade
**Brasil, São Paulo — 16 de outubro de 2006**
O ventilador velho girava lentamente, produzindo um ruído irregular que se misturava ao som das teclas de um teclado já bastante gasto.
Tac. Tac-tac-tac. Tac.
A cada poucos segundos, o jovem diante do monitor levava a mão direita aos cabelos, bagunçando-os ainda mais. Seus olhos estavam vermelhos, não apenas pelo cansaço, mas também pelas inúmeras horas que passara encarando a tela.
Naquele pequeno quarto nos fundos de uma casa simples, o tempo parecia funcionar de maneira diferente.
Havia uma cama estreita encostada na parede, um guarda-roupa antigo que não fechava direito e uma mesa de madeira que já apresentava sinais de desgaste. Sobre ela repousavam o computador, algumas folhas rabiscadas, um copo de água e um prato com restos de pão.
Na parede, um calendário marcava outubro de 2006.
Ao lado dele, alguns pôsteres de animes estavam presos com fita adesiva. Um deles já começava a descolar em uma das pontas.
O jovem se chamava Gabriel Almeida.
Dezessete anos.
Magro, cabelos pretos um pouco compridos demais e uma aparência que denunciava noites mal dormidas. Se alguém o encontrasse na rua, dificilmente imaginaria que aquele garoto passava boa parte do tempo estudando assuntos que muitos adultos sequer conheciam.
Para a maioria das pessoas, computadores eram ferramentas de trabalho, máquinas para acessar a internet ou aparelhos para jogar.
Para Gabriel, eram possibilidades.
Possibilidades praticamente infinitas.
Ele olhou para a tela e soltou um suspiro.
— Não. Não, não, não... Você só pode estar de brincadeira comigo.
O programa havia travado novamente.
Gabriel recostou-se na cadeira, que rangeu sob seu peso.
Na tela, centenas de linhas de código formavam um projeto no qual ele trabalhava havia quase três semanas.
Era um pequeno aplicativo de organização de arquivos. A ideia original era simples: permitir que o usuário catalogasse documentos, imagens, músicas e outros arquivos, adicionando categorias e palavras-chave para encontrá-los mais facilmente.
Nada revolucionário.
Pelo menos, não ainda.
Gabriel queria que o programa fosse rápido, leve e fácil de usar. Queria que funcionasse em computadores modestos, sem exigir máquinas caras ou uma quantidade absurda de memória.
Afinal, ele próprio sabia como era utilizar um computador que precisava de alguns segundos para abrir programas relativamente simples.
Seu equipamento não era exatamente uma máquina dos sonhos.
O processador já tinha alguns anos de uso, a memória RAM era limitada e o disco rígido fazia um barulho estranho sempre que precisava trabalhar intensamente. O monitor de tubo ocupava boa parte da mesa, e o gabinete tinha uma lateral que só permanecia fechada porque Gabriel a havia prendido com um parafuso improvisado.
Ainda assim, aquele computador era seu maior tesouro.
Ele o havia conseguido por meio de uma combinação de economias, favores e peças usadas. Algumas partes vieram de máquinas que outras pessoas consideravam inúteis. Gabriel passara semanas limpando, testando e substituindo componentes até conseguir montar algo funcional.
Não era bonito.
Não era moderno.
Mas funcionava.
E, para ele, isso era suficiente.
Por enquanto.
***
Gabriel não frequentava uma escola de programação. Nunca tivera condições de pagar um curso especializado e, mesmo que tivesse, dificilmente encontraria uma formação capaz de atender à sua curiosidade insaciável.
Aprendia sozinho.
Tutoriais encontrados na internet, fóruns, documentação, livros emprestados e arquivos baixados em lan houses formavam sua biblioteca particular.
Quando conseguia algum dinheiro, comprava revistas de informática ou guardava o suficiente para adquirir um livro usado.
Já havia passado por diversas linguagens de programação. Algumas compreendia melhor; outras ainda lhe causavam dores de cabeça.
Seus primeiros projetos tinham sido modestos.
Uma calculadora com algumas funções adicionais.
Um programa para organizar listas.
Pequenos jogos em que um personagem precisava desviar de obstáculos.
Depois, tentou criar um jogo de estratégia simples, mas abandonou o projeto quando percebeu que havia subestimado enormemente o trabalho necessário.
Ele não considerava aquilo um fracasso.
Para Gabriel, cada projeto abandonado deixava alguma coisa para trás: uma técnica nova, uma ideia interessante ou, pelo menos, uma lista de erros que não pretendia cometer novamente.
O problema era que aprender sozinho também significava esbarrar em obstáculos sem saber a quem recorrer.
Às vezes, passava horas procurando uma resposta em fóruns. Outras vezes, encontrava três soluções diferentes para o mesmo problema, todas defendidas por pessoas que pareciam absolutamente convencidas de que as outras duas estavam erradas.
E havia aqueles erros particularmente irritantes.
Aqueles que não produziam uma mensagem clara, não encerravam o programa e tampouco indicavam o que estava acontecendo.
O aplicativo simplesmente parava de funcionar como deveria.
Exatamente o que estava acontecendo naquele momento.
Gabriel voltou a aproximar o rosto do monitor.
— Vamos lá... Se o problema estivesse na leitura dos arquivos, eu conseguiria reproduzir o erro antes da indexação. Se fosse a estrutura de dados, o travamento apareceria quando eu adicionasse os registros. Mas não...
Ele abriu um arquivo de registro que havia criado para acompanhar o comportamento do programa.
Leu as últimas linhas.
Nada conclusivo.
Executou o aplicativo novamente.
O programa abriu, carregou os dados e começou a organizar os arquivos. Durante alguns segundos, tudo pareceu funcionar perfeitamente.
Então, travou.
Gabriel fechou os olhos.
— Três semanas. Três semanas para um negócio que deveria ser simples.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Pelo menos eu não estou cobrando de ninguém.
A verdade era que não podia se dar ao luxo de desperdiçar muito tempo. Tinha outras preocupações além da programação.
Morava de favor no pequeno quarto cedido por Dona Lúcia, uma senhora que conhecera sua família havia muitos anos. Depois de algumas dificuldades pessoais, Gabriel acabara naquela casa, onde podia ficar desde que respeitasse as regras e ajudasse no que estivesse ao seu alcance.
Dona Lúcia nunca o tratara mal.
Pelo contrário. De vez em quando, deixava um prato de comida separado para ele ou perguntava se precisava de alguma coisa.
Mas Gabriel sabia que não podia depender daquela generosidade para sempre.
Queria ter o próprio dinheiro.
Queria pagar suas contas sem precisar calcular cada moeda.
Queria, um dia, abrir a porta de uma casa que fosse realmente sua.
Não precisava ser uma mansão.
Bastaria um lugar confortável, com uma mesa grande, uma boa cadeira, uma conexão rápida com a internet e espaço suficiente para montar um computador que não travasse ao executar dois programas ao mesmo tempo.
Era uma ambição modesta.
Ao menos, por enquanto.
***
Às onze e quarenta da manhã, Gabriel finalmente se afastou do computador.
Seu estômago reclamou.
Ele olhou para o prato vazio, depois para o relógio.
— Certo. Intervalo.
Levantou-se, esticou os braços e sentiu as costas estalarem.
Ao sair do quarto, encontrou Dona Lúcia na cozinha, ocupada preparando o almoço.
— Já acordou, menino?
Gabriel olhou para ela, indignado.
— Dona Lúcia, eu acordei faz horas!
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Então por que parece que acabou de sair de um túmulo?
— Porque estou trabalhando.
— Trabalhando?
— Tecnicamente.
— E esse trabalho paga quanto?
Gabriel ficou em silêncio por um instante.
— Ainda não paga.
Dona Lúcia começou a rir.
— Ah, então é um trabalho muito bom. Você fica acordado até tarde, não ganha nada e ainda parece um zumbi.
— A senhora não entende a visão de longo prazo.
— A minha visão de longo prazo é que você precisa almoçar antes que desmaie em cima desse computador.
Ela colocou um prato sobre a mesa.
Gabriel sorriu.
— A senhora é a melhor pessoa deste bairro.
— Sei. Principalmente quando tem comida envolvida.
Ele se sentou e começou a comer.
Durante alguns minutos, conversaram sobre coisas banais. Dona Lúcia comentou que precisava consertar uma torneira e que o sobrinho prometera visitá-la no fim de semana. Gabriel se ofereceu para olhar a torneira depois do almoço, caso ela ainda estivesse com problemas.
Em troca, ela perguntou se ele pretendia continuar estudando.
— Pretendo.
— E depois?
Gabriel ergueu os olhos.
— Depois o quê?
— Depois de estudar. Você vai fazer o quê da vida?
Era uma pergunta simples.
Mesmo assim, ele demorou a responder.
— Quero trabalhar com programação.
— Programação?
— Criar programas para computador. Jogos também. Talvez aplicativos, sistemas... Essas coisas.
Dona Lúcia assentiu lentamente.
— E dá dinheiro?
Gabriel sorriu de lado.
— Pode dar.
— Esse seu pode é muito perigoso.
— Eu sei.
Ele baixou os olhos para o prato.
— Mas eu vou conseguir.
Não disse aquilo para convencê-la.
Disse porque precisava acreditar.
Dona Lúcia pareceu perceber.
— Então consiga. Só não esqueça de comer, dormir e tomar banho enquanto faz isso.
— Essa parte está sob controle.
— Gabriel.
— Quase sob controle.
Ela balançou a cabeça, divertida.
***
Depois do almoço, ele voltou ao quarto.
Tentou trabalhar por mais algumas horas, mas o problema continuava lá, teimoso como uma porta emperrada.
Por volta das três da tarde, decidiu pesquisar o comportamento de uma função específica. Abriu alguns arquivos de documentação que havia salvado no computador e releu anotações antigas.
Encontrou uma discussão em um fórum sobre problemas semelhantes.
Leu as respostas.
Testou uma sugestão.
Nada.
Tentou outra abordagem.
O resultado foi pior.
Gabriel se afastou do teclado e passou as mãos pelo rosto.
— Preciso respirar.
Olhou pela janela.
O céu estava escuro.
Nuvens pesadas haviam se acumulado sobre a cidade, e o vento começava a sacudir as folhas das árvores do quintal.
Ele não tinha percebido quando o tempo havia mudado.
Levantou-se, pegou uma blusa e saiu pela porta dos fundos.
O ar estava abafado, carregado daquele cheiro característico que costuma anteceder uma tempestade.
Gabriel ficou alguns instantes observando o céu.
Um trovão distante ressoou.
— Bonito.
Outro trovão respondeu, muito mais próximo.
Ele franziu a testa.
— Talvez eu devesse ter olhado a previsão do tempo.
O primeiro pingo atingiu seu braço.
Depois outro.
Em poucos segundos, a chuva começou a cair com força.
Gabriel correu em direção à casa, mas parou ao perceber que havia deixado a pequena cobertura da entrada e precisava atravessar parte do quintal.
O vento aumentou.
A chuva ficou ainda mais intensa, batendo contra o chão e formando pequenas correntes de água perto do muro.
Um clarão iluminou tudo.
Por uma fração de segundo, o mundo inteiro pareceu branco.
Então veio o estrondo.
CRAAACK!
O som foi tão violento que Gabriel sentiu o peito vibrar.
Ele se assustou, tropeçou e tentou alcançar a porta.
Outro clarão cortou o céu.
Dessa vez, não houve tempo para pensar.
Uma descarga atingiu uma estrutura metálica próxima ao quintal, espalhando uma luz intensa pelo ambiente. O impacto elétrico alcançou Gabriel quase instantaneamente.
Seu corpo foi tomado por uma sensação impossível de descrever.
Não era exatamente dor.
Era como se todos os músculos tivessem se contraído ao mesmo tempo, enquanto o mundo desaparecia sob uma explosão de luz e ruído.
Ele tentou gritar.
Não conseguiu.
Por um instante, teve a impressão de que havia esquecido como respirar.
Depois, tudo ficou escuro.
***
Gabriel não sabia quanto tempo havia passado.
Não sabia onde estava.
Não sabia sequer se ainda estava vivo.
Havia vozes ao longe.
Uma delas parecia desesperada.
— Meu Deus! Gabriel! Você está me ouvindo?
Outra voz, mais distante, respondeu alguma coisa que ele não conseguiu compreender.
Então veio um ruído contínuo.
Bipes.
Passos.
Uma sensação estranha de frio.
Gabriel tentou abrir os olhos, mas suas pálpebras pareciam pesar toneladas.
Tentou mover os dedos.
Nada.
Por alguns instantes, pensou que estivesse sonhando.
Talvez tivesse adormecido diante do computador.
Talvez estivesse imaginando tudo aquilo.
Então ouviu uma voz feminina.
— Gabriel? Consegue me ouvir?
Ele tentou responder.
Sua garganta estava seca.
— Hm...
— Calma. Não tente se levantar.
A voz parecia próxima.
Ele finalmente conseguiu abrir os olhos.
O teto era branco.
Uma luz forte estava acesa acima dele.
Ao virar ligeiramente a cabeça, viu uma mulher usando roupas claras, um aparelho ao lado da cama e uma cortina azul separando o espaço.
Hospital.
A palavra surgiu lentamente em sua mente.
Hospital?
Por que estava em um hospital?
Gabriel tentou se sentar.
— Ei, devagar! — a mulher advertiu, aproximando-se. — Você acabou de acordar.
Ele sentiu a cabeça latejar.
— O que... aconteceu?
— Você sofreu um acidente durante a tempestade.
As lembranças voltaram aos poucos.
O quintal.
A chuva.
O clarão.
O estrondo.
Gabriel arregalou os olhos.
— O raio...
A mulher assentiu.
— Você foi atingido por uma descarga elétrica durante a tempestade. Uma senhora chamou o socorro e você foi trazido para cá.
Ele ficou olhando para ela, sem conseguir processar a informação.
Tinha sido atingido por um raio.
Um raio de verdade.
Aquelas coisas que apareciam em filmes, que destruíam árvores e faziam as pessoas desaparecerem em explosões dramáticas.
E ele estava vivo.
— Quanto tempo eu fiquei apagado?
— Algumas horas, pelo que conseguimos apurar. Você está sendo monitorado e ainda precisará ficar em observação.
Gabriel engoliu em seco.
— Eu vou morrer?
A mulher pareceu surpresa com a pergunta, mas respondeu com serenidade:
— Neste momento, não há indicação de que isso vá acontecer. Estamos realizando os exames necessários e vamos acompanhar sua evolução. Ainda precisamos ter cautela.
Ele assentiu lentamente.
Não sabia o que dizer.
A única coisa que conseguia pensar era em seu computador.
Seu projeto.
O código que havia deixado aberto.
Uma preocupação completamente absurda diante das circunstâncias.
Mas, de alguma forma, era justamente isso que lhe vinha à cabeça.
— Meu computador...
A mulher franziu a testa.
— O quê?
— Eu preciso voltar para casa.
— Você acabou de acordar depois de um acidente grave, rapaz.
Gabriel fechou a boca.
Talvez aquela não fosse a melhor hora para explicar que tinha um programa travado.
Ele voltou a olhar para o teto.
Respirou fundo.
Estava vivo.
Por enquanto, aquilo deveria ser suficiente.
Ainda assim, uma sensação estranha começou a surgir no fundo de sua mente.
Não era dor.
Não era medo.
Era algo difícil de identificar, como se estivesse tentando se lembrar de alguma coisa importante e não conseguisse encontrar as palavras certas.
Gabriel franziu a testa.
A sensação desapareceu antes que pudesse compreendê-la.
Ele atribuiu aquilo ao acidente.
Não havia outra explicação.
Naquele momento, não fazia ideia de que a tempestade havia mudado muito mais do que seu estado de saúde.
Não fazia ideia de que, ao voltar para casa, descobriria algo impossível.
E, muito menos, de que aquele pequeno computador, com seu gabinete remendado e seu monitor antigo, se tornaria o primeiro instrumento de uma revolução tecnológica.
Naquela tarde de outubro de 2006, Gabriel Almeida acreditava que seu maior problema continuava sendo uma falha de programação.
Ele estava prestes a descobrir que nunca mais precisaria enfrentar um código da mesma maneira.