# Capítulo 2 — O Primeiro Impossível
**Brasil, São Paulo — 16 de outubro de 2006**
O relógio na parede marcava quatro e vinte e três da tarde quando Gabriel finalmente recebeu autorização para deixar o hospital.
Ele ainda se sentia um pouco estranho. Não exatamente fraco, tampouco doente. Era mais como se tivesse dormido por tempo demais e acordado em um mundo ligeiramente diferente daquele que conhecia.
A médica responsável por acompanhá-lo segurava uma prancheta enquanto explicava os últimos cuidados.
— Seus exames não demonstraram alterações preocupantes, e você não apresenta sinais de lesões que exijam internação neste momento. Mesmo assim, quero que você fique atento a qualquer sintoma incomum. Se sentir dor no peito, palpitações, tontura, fraqueza, confusão ou qualquer alteração inesperada, procure atendimento imediatamente.
Gabriel assentiu.
— Entendi.
— E descanse. Você passou por um acidente sério. Não quero que saia daqui e vá fazer alguma atividade extenuante como se nada tivesse acontecido.
— Pode deixar.
A médica olhou para ele por alguns segundos.
— Você tem alguém para acompanhá-lo até em casa?
— Tenho. Dona Lúcia está me esperando.
Na verdade, Gabriel não sabia exatamente quanto tempo levaria para encontrá-la. Ela havia recebido a notícia do acidente e ido ao hospital, mas, depois de algumas ligações, precisou resolver algumas questões na recepção e falar com a equipe médica.
Ainda assim, era melhor responder daquela maneira do que explicar que sua maior preocupação naquele momento era descobrir se o computador continuava ligado.
A médica entregou os documentos.
— Muito bem. Se cuida, Gabriel.
— Obrigado, doutora.
Ele se levantou devagar, pegou suas coisas e caminhou em direção à saída.
O corredor parecia mais comprido do que deveria.
As pessoas passavam por ele sem lhe dar atenção. Um homem conversava ao telefone, uma enfermeira empurrava um carrinho e, em algum lugar distante, uma criança chorava.
Tudo parecia absolutamente normal.
Gabriel, porém, não conseguia deixar de pensar no que havia acontecido.
Um raio.
Ele havia sido atingido por um raio e saído praticamente ileso.
Isso deveria ser suficiente para ocupar seus pensamentos durante semanas.
Mas havia algo mais.
Uma sensação estranha, difícil de explicar, persistia no fundo de sua mente.
Era como se houvesse inúmeras gavetas dentro de sua cabeça e alguém tivesse acabado de abrir todas elas ao mesmo tempo.
Informações surgiam sem que ele precisasse procurá-las.
Lembrava-se de conversas que tivera meses antes, de páginas que havia lido na internet e até de pequenos detalhes de livros que consultara apenas uma vez.
No começo, atribuiu aquilo ao susto.
Talvez estivesse apenas mais atento depois do acidente.
Talvez a adrenalina tivesse produzido alguma reação temporária.
Não fazia sentido pensar em outra coisa.
Afinal, ele era Gabriel Almeida, um rapaz de dezessete anos que passava tempo demais diante de um computador velho.
Não havia nada de extraordinário nisso.
Pelo menos, era o que acreditava.
***
A viagem de volta foi silenciosa durante boa parte do caminho.
Dona Lúcia caminhava ao seu lado, carregando uma pequena sacola com os documentos que haviam recebido no hospital.
De vez em quando, olhava para ele como se estivesse tentando descobrir se o garoto estava realmente bem.
— Você me deu um susto daqueles — disse ela, finalmente.
Gabriel olhou para a senhora.
— Desculpa.
— Não me venha com desculpas. Eu quase morri do coração quando vi você caído naquele quintal.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu nem lembro direito do que aconteceu depois do raio.
— Ainda bem que o pessoal do socorro chegou rápido.
Dona Lúcia suspirou.
— Quando me disseram que você tinha sido atingido, achei que...
Ela não terminou a frase.
Gabriel percebeu que suas mãos tremiam ligeiramente.
Pela primeira vez desde que acordara, sentiu uma pontada de culpa.
Ele havia pensado no computador, no projeto e nas linhas de código, mas não havia considerado o quanto sua ausência poderia ter assustado alguém.
— Desculpa mesmo, Dona Lúcia.
Ela apertou o braço dele.
— Só quero que fique bem, menino.
Os dois continuaram caminhando.
A chuva havia diminuído, deixando as ruas molhadas e o ar carregado de umidade. Algumas poças refletiam os postes e as fachadas das casas. O céu permanecia escuro, embora a tempestade mais intensa já tivesse passado.
Quando chegaram à residência, Gabriel sentiu um alívio imediato.
Estava em casa.
Ou, pelo menos, no lugar que vinha sendo sua casa havia algum tempo.
Dona Lúcia abriu a porta e o conduziu até a cozinha.
— Você vai comer alguma coisa e depois vai descansar.
— Certo.
— E nada de ficar até de madrugada naquele computador.
Gabriel hesitou.
— Dona Lúcia...
— Gabriel.
— Eu só queria verificar uma coisa.
Ela estreitou os olhos.
— Uma coisa?
— É rapidinho.
— Você foi atingido por um raio!
— Eu sei.
— Passou horas no hospital!
— Eu sei.
— E a primeira coisa em que pensa é naquele computador?
Gabriel ficou em silêncio.
Dona Lúcia levou uma das mãos ao rosto.
— Eu devia ter imaginado.
Ele abriu um sorriso culpado.
— Eu prometo que não vou exagerar.
— Você promete muitas coisas.
Apesar da repreensão, ela acabou deixando que ele fosse ao quarto depois de comer alguma coisa.
— Me chama se sentir qualquer coisa estranha — advertiu.
— Pode deixar.
Gabriel esperou que ela voltasse para a cozinha.
Então abriu a porta do quarto.
E encontrou seu computador exatamente como o havia deixado.
O monitor estava desligado, mas a máquina permanecia conectada à tomada. O gabinete apresentava a mesma aparência de sempre, com a lateral ligeiramente desalinhada e uma pequena camada de poeira acumulada perto das entradas de ventilação.
Gabriel sentiu um alívio absurdo.
— Ainda bem.
Ele puxou a cadeira, sentou-se e apertou o botão de ligar.
O computador começou a inicializar.
O ruído do disco rígido encheu o quarto.
A ventoinha do gabinete girou com seu zumbido irregular.
O monitor de tubo acendeu, exibindo a tela de inicialização do sistema operacional.
Gabriel acompanhou o processo com a familiaridade de quem havia feito aquilo milhares de vezes.
Enquanto esperava, pensou em tudo o que poderia ter perdido caso a descarga elétrica tivesse danificado o equipamento.
Talvez o projeto estivesse corrompido.
Talvez o disco rígido tivesse sofrido algum problema.
Talvez...
A área de trabalho apareceu.
Tudo parecia normal.
Gabriel abriu a pasta do projeto.
Os arquivos estavam intactos.
Ele abriu o editor de código, localizou o programa principal e encontrou a última versão que havia salvado antes de sair para tomar ar.
O código estava exatamente como se lembrava.
Centenas de linhas.
Funções, variáveis, estruturas de controle e chamadas entre diferentes partes do programa.
O mesmo projeto que havia consumido três semanas de sua vida.
O mesmo problema que não conseguia resolver.
Gabriel respirou fundo.
— Certo. Vamos acabar com isso.
Abriu o programa e tentou reproduzir o erro.
A aplicação iniciou.
Os arquivos foram carregados.
A indexação começou.
E, como antes, o programa parou de responder.
Gabriel fechou a janela.
— Ótimo. Pelo menos você não melhorou sozinho.
Ele voltou ao editor.
Na tela, o trecho responsável pelo processamento dos arquivos estava aberto.
Gabriel aproximou o rosto do monitor.
E então aconteceu.
***
A primeira coisa que percebeu foi que conseguia enxergar o código de uma maneira diferente.
Não era uma mudança física.
As letras continuavam iguais, exibidas na mesma fonte e com as mesmas cores.
Mas, ao olhar para as linhas, ele compreendeu imediatamente a relação entre elas.
Uma função chamava outra.
Uma variável era modificada em determinado ponto e utilizada em outro.
Uma estrutura de repetição dependia de uma condição que, em circunstâncias específicas, jamais seria satisfeita da maneira esperada.
Tudo aquilo estava diante de seus olhos.
E ele entendia.
Não de maneira gradual.
Não depois de analisar cada linha, executar testes ou consultar a documentação.
Simplesmente entendia.
Gabriel piscou.
— Espera.
Aproximou-se ainda mais da tela.
Seus olhos percorreram o código novamente.
Dessa vez, percebeu algo que nunca havia notado.
A função responsável por atualizar o índice de arquivos não era, por si só, o problema. Ela recebia os dados corretamente e iniciava o processamento sem dificuldades.
O defeito estava na interação entre duas rotinas.
Uma delas mantinha uma referência a uma estrutura que poderia ser modificada durante o processamento. A outra, ao receber determinados resultados, tentava continuar utilizando essa referência como se nada tivesse mudado.
O problema só aparecia em determinadas sequências de arquivos.
Era por isso que os testes anteriores pareciam funcionar.
Era por isso que o registro de execução não mostrava uma falha óbvia.
E era por isso que Gabriel havia perdido tantos dias investigando as partes erradas.
Ele ficou imóvel.
— Não...
Selecionou o trecho do código.
Leu novamente.
A conclusão permanecia a mesma.
O problema estava ali.
Tão evidente que, depois de identificá-lo, parecia impossível acreditar que não o tivesse encontrado antes.
Gabriel começou a digitar.
Alterou a maneira como a rotina percorria a estrutura de dados, separou a etapa de leitura da etapa de atualização e acrescentou uma verificação para impedir que o processamento continuasse utilizando uma referência inválida.
Parou por um instante.
Olhou para a alteração.
Então percebeu outro problema.
A rotina estava repetindo uma operação desnecessária para cada arquivo.
Em condições normais, isso não provocaria um erro. Mas, quando a quantidade de arquivos aumentava, o custo de processamento crescia muito mais do que precisava.
Ele conhecia aquela técnica.
Já havia lido sobre estruturas de dados mais eficientes e diferentes estratégias para reduzir operações repetidas.
O que não compreendia era por que, de repente, conseguia visualizar a aplicação prática de tudo aquilo com tanta clareza.
Sua mente parecia antecipar o comportamento do programa antes mesmo de executá-lo.
Ele conseguia imaginar a sequência de operações, prever quais partes seriam executadas e identificar onde surgiriam os gargalos.
Não era uma simples lembrança de um tutorial.
Era como se a teoria e a prática finalmente tivessem se conectado em sua cabeça.
Gabriel começou a reorganizar a rotina.
Depois outra.
E mais uma.
Em poucos minutos, havia modificado uma parte significativa do código.
Parou de repente.
Olhou para o relógio.
Quatro e cinquenta e dois.
Ele havia começado a trabalhar havia menos de meia hora.
E já tinha feito mais progresso do que nos três dias anteriores.
— Que diabos está acontecendo comigo?
A pergunta ficou suspensa no quarto.
Ele olhou para as próprias mãos.
Eram as mesmas mãos.
O mesmo teclado.
O mesmo computador.
Mas alguma coisa havia mudado.
Ele precisava descobrir o quê.
***
Gabriel decidiu testar o programa.
Primeiro, executou a versão antiga.
Ela travou durante o processamento de uma pasta com milhares de arquivos.
Depois, executou a versão modificada.
O programa iniciou, carregou os dados e começou a indexação.
Dessa vez, não travou.
Gabriel esperou.
Cinco segundos.
Dez.
Quinze.
A barra de progresso continuou avançando.
Finalmente, o processamento terminou.
Uma pequena mensagem apareceu na tela:
**Indexação concluída com sucesso.**
Gabriel ficou olhando para ela.
Depois abriu a pasta de resultados.
Os arquivos estavam catalogados corretamente.
Ele repetiu o teste.
Funcionou.
Tentou uma terceira vez, agora utilizando um conjunto de arquivos que havia separado justamente por provocar o erro.
Funcionou novamente.
Gabriel recostou-se lentamente na cadeira.
Um sorriso começou a surgir em seu rosto.
— Eu consegui.
Ele soltou uma risada.
— Eu realmente consegui!
Levantou-se, caminhou até a porta e voltou para a mesa.
Precisava contar a alguém.
Mas contar o quê?
Que havia encontrado um erro que procurava havia semanas?
Isso não era exatamente extraordinário.
Programadores resolviam problemas todos os dias.
O que não conseguia explicar era a maneira como havia encontrado a solução.
Ele não se lembrava de ter raciocinado passo a passo.
Não havia formulado hipóteses.
Não havia pesquisado nada.
Simplesmente olhara para o código e soubera.
Gabriel sentou-se novamente.
— Calma. Vamos fazer isso direito.
Precisava de um método.
Se havia alguma mudança em seu cérebro, deveria conseguir observá-la.
Talvez fosse uma reação temporária ao acidente. Talvez estivesse mais concentrado do que antes. Talvez existisse alguma explicação médica que ainda desconhecia.
Mas havia outra possibilidade.
Uma possibilidade absurda.
Ele poderia estar imaginando tudo.
Para eliminar essa hipótese, precisava de um teste que não dependesse apenas de sua percepção.
Gabriel abriu um novo arquivo e escreveu um pequeno programa.
O objetivo era simples: criar uma rotina que recebesse uma lista de números e identificasse valores duplicados.
Ele já havia desenvolvido algo semelhante antes.
Dessa vez, porém, decidiu fazer tudo de uma maneira deliberadamente simples, sem utilizar nenhuma técnica avançada.
Depois, criou uma segunda versão.
Nela, utilizou uma abordagem mais eficiente, que conhecia teoricamente, mas nunca havia conseguido implementar com tanta segurança.
Executou ambas com um conjunto de dados pequeno.
As duas funcionaram.
A diferença de desempenho era insignificante.
Então aumentou a quantidade de dados.
Mil registros.
Dez mil.
Cem mil.
A primeira versão começou a ficar lenta.
A segunda continuou funcionando de maneira muito mais eficiente.
Gabriel observou os resultados.
Não era uma prova definitiva de que havia adquirido alguma capacidade extraordinária.
Mas era um indício.
E ele não pretendia parar ali.
***
Às cinco e vinte e sete, Gabriel abriu um dos livros digitais que havia baixado meses antes.
O assunto era estruturas de dados.
Ele conhecia o conteúdo. Havia estudado aquele material em diferentes momentos, embora algumas partes ainda lhe parecessem difíceis.
Começou a ler.
Na primeira página, tudo pareceu normal.
Na segunda, percebeu que conseguia recordar a explicação de um conceito apresentado várias páginas antes.
Na terceira, lembrou-se de uma discussão em um fórum que havia lido meses atrás.
Na quarta, conectou aquela informação a um problema que enfrentara em outro projeto.
Parou de ler.
Voltou à primeira página.
Leu novamente um parágrafo.
Depois fechou o arquivo.
Gabriel encarou a tela vazia do editor.
— O que dizia aquela parte sobre árvores balanceadas?
A resposta surgiu imediatamente em sua mente.
Ele se lembrou do conteúdo, dos exemplos, da estrutura do código e até de uma observação feita pelo autor sobre as limitações de uma determinada abordagem.
Tudo.
Não apenas a ideia geral.
As informações estavam disponíveis com uma clareza assustadora.
Gabriel abriu o livro novamente.
Localizou o trecho.
Leu as primeiras linhas.
E sentiu o coração acelerar.
Ele havia recordado praticamente tudo.
Não estava apenas reconhecendo o conteúdo.
Estava recuperando informações com uma precisão que nunca experimentara antes.
Pegou uma folha de papel e começou a escrever o que lembrava.
O conceito principal.
Os exemplos.
As diferenças entre as estruturas.
As vantagens e desvantagens de cada abordagem.
Quando terminou, comparou suas anotações com o texto original.
Havia pequenas diferenças na maneira como organizara as explicações, mas o conteúdo estava correto.
Gabriel ficou em silêncio.
Então fez um segundo teste.
Abriu um tutorial antigo sobre uma linguagem de programação que havia estudado no ano anterior.
Leu uma página.
Fechou o arquivo.
Escreveu tudo o que conseguia recordar.
Comparou novamente.
O resultado foi praticamente o mesmo.
Ele sentiu um arrepio percorrer a nuca.
— Isso não é normal.
A frase saiu em um sussurro.
Ele conhecia a ideia de memória fotográfica. Já havia lido sobre pessoas capazes de recordar imagens, páginas ou acontecimentos com uma precisão incomum.
Mas aquilo parecia diferente.
Não era apenas lembrar de uma página.
Era recordar o conteúdo, compreender suas relações com outros assuntos e aplicar o conhecimento em situações novas.
Como se sua mente tivesse se transformado em uma biblioteca que não apenas armazenava livros, mas também os organizava e os conectava.
Gabriel passou as mãos pelos cabelos.
Precisava de mais testes.
Muito mais.
***
Às seis da tarde, Dona Lúcia bateu à porta.
— Gabriel?
Ele se assustou e quase derrubou o copo de água.
— Oi!
— Está tudo bem?
Ele olhou para o computador.
Na tela, havia três arquivos abertos, duas janelas de teste e uma série de anotações que começavam a ocupar toda a mesa.
— Está!
— Você não está passando mal?
Gabriel hesitou.
Como responderia àquela pergunta?
Não, Dona Lúcia. Acho que meu cérebro acabou de se transformar em um computador capaz de recordar tudo o que já estudei.
— Não. Estou me sentindo bem.
Ela abriu a porta parcialmente.
— Você está com uma cara estranha.
— Minha cara sempre foi assim.
— Engraçadinho.
Dona Lúcia olhou para a tela.
— Está fazendo o quê?
Gabriel pensou por alguns segundos.
— Estou tentando entender uma coisa.
— Sobre o programa?
— Também.
Ela não pareceu satisfeita com a resposta, mas decidiu não insistir.
— O jantar fica pronto daqui a pouco. Depois disso, você vai descansar.
— Certo.
— E não fique acordado até tarde.
— Certo.
Dona Lúcia o observou por mais um instante.
— Você tem certeza de que está bem?
Dessa vez, Gabriel respondeu com sinceridade.
— Não sei.
A expressão dela mudou imediatamente.
— Como assim?
Ele procurou as palavras certas.
— Não estou sentindo dor nem nada parecido. É só que... estou me sentindo diferente.
Dona Lúcia entrou no quarto.
— Diferente como?
Gabriel olhou para o computador.
— Estou conseguindo pensar com muita clareza.
Ela franziu a testa.
— Isso é bom, não é?
— Eu acho que sim.
— Então não invente de ficar testando seus limites. Se perceber alguma coisa estranha, vamos voltar ao hospital.
Gabriel assentiu.
Dessa vez, não tentou fazer piada.
A preocupação dela era legítima.
E, por mais extraordinário que tudo parecesse, ele não tinha como saber se aquela mudança era realmente benéfica.
Talvez houvesse consequências que ainda não conhecia.
Talvez sua mente estivesse apenas reagindo ao acidente.
Precisava ter cuidado.
— Prometo que vou descansar.
Dona Lúcia pareceu satisfeita.
— Ótimo. Agora venha comer.
Ela saiu.
Gabriel olhou para a tela mais uma vez.
Havia tantas coisas que queria testar.
Mas, pela primeira vez naquela tarde, decidiu fechar os programas.
Não precisava descobrir tudo de uma vez.
Se realmente havia algo diferente em sua mente, teria tempo para investigar.
Pelo menos, esperava que sim.
***
Depois do jantar, Gabriel voltou ao quarto.
Não ligou imediatamente o computador.
Sentou-se na cama e tentou organizar os acontecimentos.
Primeiro, o raio.
Depois, o hospital.
Em seguida, o código.
O erro que procurara durante semanas havia sido identificado quase instantaneamente.
E não era apenas isso.
Ele havia compreendido como corrigir o problema, percebido melhorias adicionais e implementado alterações que antes exigiriam horas de pesquisa.
Depois, fizera os testes de memória.
Os resultados eram difíceis de ignorar.
Gabriel pegou um caderno e escreveu no topo de uma página:
**O que mudou depois do acidente?**
Abaixo, começou a listar suas observações.
**1. Identificação imediata de erros de programação.**
**2. Compreensão mais rápida da estrutura e do comportamento dos programas.**
**3. Capacidade de recordar informações técnicas com precisão incomum.**
**4. Facilidade para relacionar conhecimentos adquiridos em momentos diferentes.**
Ele parou.
Pensou um pouco.
Acrescentou uma quinta observação.
**5. Capacidade de imaginar melhorias antes de executar os testes.**
Ficou olhando para a lista.
Parecia a descrição de alguma habilidade de personagem de anime.
Gabriel soltou uma risada baixa.
— Estou ficando maluco.
A frase deveria ter sido reconfortante.
Não foi.
Ele conhecia bem suas próprias limitações. Sabia quanto tempo levava para aprender uma técnica nova, quanto esforço era necessário para compreender certos conceitos e quantas vezes precisava testar um código antes de confiar nele.
A mudança era real demais para ser ignorada.
Mas não havia nenhuma maneira razoável de explicá-la.
Gabriel fechou o caderno.
Por enquanto, manteria aquilo em segredo.
Não sabia como as pessoas reagiriam. Algumas poderiam achar que estava exagerando. Outras poderiam concluir que o acidente havia afetado sua saúde mental.
E, se tudo aquilo fosse temporário, não queria criar expectativas desnecessárias.
Primeiro, precisava compreender suas próprias capacidades.
Depois decidiria o que fazer.
***
Às oito e quinze da noite, ele finalmente voltou ao computador.
Abriu o projeto de organização de arquivos e examinou o código inteiro.
Dessa vez, não estava procurando um erro específico.
Queria descobrir até onde sua nova percepção alcançava.
Começou pela função principal.
Em seguida, analisou as rotinas auxiliares.
Depois, passou para a organização dos dados.
O resultado foi desconcertante.
Ele conseguia acompanhar o fluxo de execução do programa mentalmente, como se observasse uma representação organizada de cada etapa.
Quando encontrava uma condição, compreendia quais caminhos poderiam ser percorridos.
Quando uma variável era modificada, conseguia acompanhar onde o novo valor seria utilizado.
Quando uma função chamava outra, entendia como a operação afetaria o restante do sistema.
E, enquanto analisava, novas ideias surgiam.
Uma forma mais eficiente de indexar os arquivos.
Uma maneira de reduzir operações desnecessárias.
Uma estrutura que permitiria adicionar novos recursos sem precisar reescrever partes inteiras do programa.
Uma estratégia para impedir que arquivos duplicados ocupassem espaço desnecessariamente no índice.
Outra para permitir que o usuário pesquisasse por diferentes critérios.
Gabriel abriu um documento de anotações e começou a registrar as ideias.
A lista cresceu rapidamente.
Dez itens.
Vinte.
Trinta.
Em determinado momento, ele parou de escrever.
Não porque tivesse ficado sem ideias.
Mas porque percebeu que estava pensando no projeto de uma maneira completamente diferente.
Antes, imaginava o programa como uma coleção de funções que precisavam trabalhar juntas.
Agora, enxergava uma arquitetura.
Conseguia distinguir o que deveria ser responsabilidade de cada componente, quais partes poderiam ser reutilizadas e quais decisões tornariam o projeto mais fácil de manter no futuro.
Não era apenas escrever um código que funcionasse.
Era construir algo que pudesse crescer.
Gabriel recostou-se na cadeira.
Aos dezessete anos, sem formação profissional e sem experiência no mercado, ele começava a compreender conceitos que antes lhe pareciam distantes.
Não porque tivesse frequentado um curso.
Não porque alguém lhe explicara tudo.
Mas porque, de alguma forma, seu cérebro conseguia conectar conhecimentos antigos e utilizá-los com uma facilidade que jamais imaginara possível.
Ele voltou a olhar para o código.
Dessa vez, sorriu.
— Acho que vamos ter muito trabalho pela frente.
***
Às nove e dez da noite, Gabriel havia concluído uma primeira reorganização do programa.
Ainda existiam tarefas pendentes. A interface precisava de melhorias, alguns testes precisavam ser ampliados e o projeto não estava pronto para ser distribuído a outras pessoas.
Mas o núcleo do aplicativo funcionava.
E funcionava melhor do que antes.
Ele decidiu medir o desempenho.
Criou conjuntos de arquivos de diferentes tamanhos e executou a versão antiga e a nova nas mesmas condições.
Os resultados variavam conforme o tipo de arquivo e o estado do computador, mas a diferença era clara nos testes mais exigentes.
A nova versão concluía determinadas operações em uma fração do tempo anterior.
Gabriel registrou os números, repetiu os testes e verificou se os resultados eram consistentes.
Não queria se enganar.
Um teste isolado podia produzir uma impressão equivocada. O computador poderia estar executando outras tarefas, o sistema poderia manter dados em memória ou algum detalhe do procedimento poderia favorecer uma das versões.
Ele controlou as condições da melhor maneira que conseguiu.
Os resultados continuaram apontando na mesma direção.
A otimização funcionava.
Gabriel sentiu uma satisfação que ia além do orgulho de ter resolvido um problema.
Pela primeira vez, percebeu que talvez pudesse fazer muito mais do que simplesmente aprender programação.
Talvez pudesse desenvolver programas que outras pessoas realmente quisessem utilizar.
Ferramentas úteis.
Jogos interessantes.
Aplicativos que economizassem tempo.
Soluções para problemas que ele próprio enfrentava.
Até aquele dia, tudo isso parecia um objetivo distante, algo que exigiria anos de estudo e prática.
Agora, pela primeira vez, a distância parecia menor.
Muito menor.
Gabriel olhou para o gabinete antigo.
Aquela máquina não era capaz de executar tarefas extraordinárias. Não possuía hardware moderno, não tinha recursos abundantes e certamente não poderia competir com computadores profissionais.
Mas não precisava disso para começar.
Ele já tinha o que mais precisava: um computador funcional, curiosidade e uma vontade quase teimosa de aprender.
E, agora, uma capacidade que ainda não compreendia.
— Certo — murmurou. — Vamos descobrir o que dá para fazer com isso.
***
Antes de encerrar o trabalho, Gabriel abriu uma nova pasta.
Deu a ela o nome de **Projetos**.
Dentro, criou três subpastas:
**Software.**
**Jogos.**
**Estudos.**
Ficou olhando para os nomes por alguns segundos.
Era algo simples.
Uma organização banal.
Mas sentiu que precisava começar de algum lugar.
Não sabia se aquela mudança em sua mente duraria para sempre. Não sabia se conseguiria reproduzir todos os resultados no dia seguinte. Tampouco sabia se existiam limites para suas novas capacidades.
O que sabia era que precisava investigar.
E, se as habilidades permanecessem, queria utilizá-las para construir algo que realmente valesse a pena.
Não queria passar a vida inteira dependendo da ajuda dos outros.
Queria ter sua própria casa.
Um computador melhor.
Dinheiro suficiente para não precisar se preocupar com cada pequena despesa.
E, acima de tudo, queria criar.
Gabriel fechou os programas e anotou uma última frase no caderno:
**Amanhã: testar os limites da memória e começar um projeto novo.**
Então desligou o computador.
O quarto ficou silencioso.
Ele se deitou na cama, puxou o cobertor e olhou para o teto.
A tempestade havia passado.
O mundo continuava o mesmo.
As ruas continuavam molhadas, os carros continuavam circulando e as pessoas continuavam preocupadas com seus próprios problemas.
Em algum lugar, empresas trabalhavam em novos softwares. Programadores enfrentavam erros difíceis. Pesquisadores tentavam ampliar os limites da computação.
Ninguém sabia que, em um pequeno quarto no Brasil, um jovem de dezessete anos havia acabado de descobrir uma capacidade que poderia mudar completamente sua vida.
Gabriel fechou os olhos.
Amanhã, voltaria a programar.
Só que, dessa vez, seria diferente.
E ele ainda não fazia ideia de quanto.