# Capítulo 3 — Os Limites de uma Mente Extraordinária
**Brasil, São Paulo — 17 de outubro de 2006**
O despertador tocou às sete horas da manhã.
Gabriel abriu os olhos, estendeu o braço e desligou o aparelho antes que o som irritante pudesse despertar Dona Lúcia.
Ficou alguns segundos deitado, olhando para o teto.
Por alguns instantes, não pensou em nada.
Então se lembrou.
O raio.
O hospital.
O código.
As horas que passara diante do computador, descobrindo que conseguia compreender programas de uma maneira que jamais imaginara possível.
Gabriel se sentou na cama.
— Certo. Vamos ver se ontem não foi um sonho.
Passou a mão pelo rosto e olhou para a mesa.
O computador estava desligado. O caderno permanecia aberto na página em que havia anotado suas primeiras observações. Ao lado, o copo de água que deixara na noite anterior continuava quase cheio.
Tudo estava exatamente como se lembrava.
Ele pegou o caderno.
Leu novamente a lista.
**1. Identificação imediata de erros de programação.**
**2. Compreensão mais rápida da estrutura e do comportamento dos programas.**
**3. Capacidade de recordar informações técnicas com precisão incomum.**
**4. Facilidade para relacionar conhecimentos adquiridos em momentos diferentes.**
**5. Capacidade de imaginar melhorias antes de executar os testes.**
Gabriel passou o dedo pela última linha.
— Hoje vamos descobrir se isso é real.
Havia uma diferença importante entre perceber uma mudança e compreender sua extensão.
Na noite anterior, ele se deixara levar pela empolgação. Encontrara um erro, corrigira o código e obtivera resultados que antes pareciam impossíveis.
Mas uma única experiência não seria suficiente.
Precisava repetir os testes.
Precisava estabelecer comparações.
E, principalmente, precisava descobrir se conseguia controlar aquela capacidade ou se tudo acontecia apenas de maneira espontânea.
Se fosse algo temporário, queria aproveitar enquanto durasse.
Se fosse permanente...
Gabriel não terminou o pensamento.
Ainda era cedo demais para tirar conclusões.
***
Às sete e vinte, ele saiu do quarto.
Dona Lúcia já estava na cozinha, preparando café.
— Bom dia, dorminhoco.
— Bom dia.
Ela olhou para ele com atenção.
— Dormiu bem?
— Dormi.
— Sentiu alguma coisa durante a noite?
Gabriel entendeu imediatamente a pergunta.
— Não. Dormi normalmente.
— Ótimo.
Ela colocou uma xícara sobre a mesa.
— Senta e come. Fiz pão com manteiga.
Gabriel se sentou.
Por alguns minutos, comeu em silêncio. A noite anterior havia sido intensa, e ele sentia que precisava organizar seus pensamentos antes de conversar com alguém.
Dona Lúcia, entretanto, não parecia disposta a deixar o assunto de lado.
— Você ficou muito tempo no computador ontem?
Gabriel quase engasgou com o café.
— Não muito.
Ela cruzou os braços.
— Gabriel.
— Tá bom. Fiquei um pouco.
— Quanto é um pouco?
— Algumas horas.
— Eu sabia.
— Mas eu estava bem!
— Não é esse o ponto. A médica disse para você descansar.
Ele abaixou os olhos.
— Eu sei. Desculpa.
Dona Lúcia suspirou.
— Não quero impedir você de fazer o que gosta. Só não quero que aconteça alguma coisa com você porque decidiu ignorar os próprios limites.
Gabriel ficou quieto.
Ela tinha razão.
Mesmo que sua mente parecesse funcionar melhor do que nunca, seu corpo continuava sendo o mesmo. Ele não sabia se havia consequências para o acidente, e não tinha intenção de descobrir da pior maneira possível.
— Vou fazer pausas — prometeu. — E, se sentir qualquer coisa estranha, eu paro.
— É bom mesmo.
Ela voltou a cuidar das próprias tarefas.
Gabriel terminou o café e ajudou a retirar algumas coisas da mesa.
Só então voltou para o quarto.
Dessa vez, não ligou o computador imediatamente.
Primeiro, pegou o caderno e escreveu:
**Experimento número 1: memória.**
***
### A biblioteca dentro da cabeça
Gabriel começou com algo simples.
Abriu uma gaveta e retirou algumas folhas antigas nas quais havia anotado conceitos de programação.
Eram anotações de meses atrás, feitas enquanto estudava uma linguagem que utilizara em alguns projetos.
Havia exemplos de funções, estruturas condicionais, laços de repetição e pequenas explicações que copiara de tutoriais.
Ele escolheu uma página aleatória.
Leu o conteúdo por aproximadamente dois minutos.
Depois virou a folha para baixo.
Pegou uma folha em branco e começou a escrever tudo o que conseguia recordar.
Primeiro, anotou a explicação principal.
Depois, os exemplos.
Em seguida, escreveu algumas observações adicionais que não estavam na página, mas das quais se lembrava por causa das discussões que havia lido em fóruns.
Quando terminou, virou a folha original.
Comparou os dois textos.
Gabriel ficou imóvel.
Não havia esquecido praticamente nada.
Ele havia alterado a ordem de algumas explicações e utilizado palavras diferentes, mas conseguira recuperar os conceitos, os exemplos e até uma observação pequena que aparecia no final da página.
— Certo...
Pegou outra folha.
Repetiu o processo.
O resultado foi semelhante.
Na terceira tentativa, escolheu uma página mais difícil, com trechos de código e explicações sobre o funcionamento de determinadas estruturas.
Leu.
Virou a folha.
Escreveu.
Comparou.
Novamente, a precisão era extraordinária.
Gabriel largou a caneta.
— Isso é impossível.
Ele já ouvira falar de memória fotográfica. Sabia que algumas pessoas conseguiam recordar imagens com grande riqueza de detalhes, embora a expressão fosse frequentemente utilizada de maneira exagerada.
Mas o que estava experimentando parecia ir além da simples recordação visual.
Quando pensava em uma página, não precisava reconstruir conscientemente cada palavra.
O conteúdo surgia em sua mente acompanhado das relações entre as informações.
Se lembrava de uma função, também recordava por que ela era utilizada, quais eram suas limitações e em que situações havia visto uma abordagem semelhante.
Era como se o conhecimento tivesse deixado de ser uma coleção de informações isoladas.
Tudo estava conectado.
Uma lembrança conduzia a outra.
Um conceito explicava um problema antigo.
Uma técnica aprendida meses antes revelava uma solução para algo que estava tentando desenvolver naquela manhã.
Gabriel abriu o caderno e escreveu uma nova observação.
**6. Recuperação extremamente precisa de informações e conexões entre conhecimentos antigos.**
Parou.
Pensou por alguns segundos.
Acrescentou:
**Ainda preciso verificar se isso funciona para assuntos que não sejam programação.**
A ideia lhe ocorreu naturalmente.
Se a mudança afetava apenas seu conhecimento técnico, poderia ser uma reação específica ao que estava fazendo.
Mas, se afetasse tudo o que havia aprendido, o significado seria muito maior.
Gabriel pegou um livro de história que encontrara em uma caixa havia alguns meses.
Não era um assunto que estudasse com a mesma dedicação que programação.
Escolheu uma página sobre um acontecimento histórico, leu com atenção e fechou o livro.
Então começou a escrever.
Recordou as datas mencionadas, os nomes das pessoas, a sequência dos acontecimentos e os principais detalhes da explicação.
Quando abriu o livro novamente, percebeu que havia recuperado quase tudo o que lera.
Não era apenas o conteúdo técnico.
Era sua memória.
Ou, pelo menos, alguma coisa relacionada a ela.
Gabriel sentiu um arrepio.
Durante anos, havia perdido tempo procurando informações que sabia ter lido em algum lugar. Às vezes, lembrava-se de uma solução, mas não conseguia recordar onde a encontrara. Outras vezes, precisava reler páginas inteiras para reconstruir um raciocínio.
Agora, essas dificuldades pareciam ter desaparecido.
Ele poderia estudar um assunto e manter o conhecimento disponível para consultas mentais posteriores.
Poderia construir sobre o que já sabia, sem precisar recomeçar constantemente.
Poderia aprender algo novo e conectá-lo ao restante de seu conhecimento com uma facilidade extraordinária.
Gabriel olhou para a pilha de livros e revistas sobre a mesa.
Pela primeira vez, percebeu que o maior limite de seus estudos talvez nunca tivesse sido a falta de material.
Talvez tivesse sido a velocidade com que conseguia absorver e aplicar aquilo que encontrava.
Agora, esse limite parecia ter sido reduzido drasticamente.
Ele pegou o caderno e escreveu:
**Se eu realmente conseguir aprender nessa velocidade, preciso descobrir até onde posso chegar.**
***
### O teste que mudou sua percepção
Às oito e quinze, Gabriel finalmente ligou o computador.
Esperou o sistema operacional carregar e abriu o editor de código.
A primeira coisa que fez foi executar o programa que havia corrigido na noite anterior.
A aplicação abriu normalmente.
Ele selecionou a mesma pasta de testes e iniciou a indexação.
Funcionou.
Gabriel repetiu o procedimento com outros conjuntos de arquivos.
Funcionou novamente.
O erro continuava resolvido.
Aquilo o tranquilizou.
Não havia sido um resultado isolado. A alteração funcionava nas condições que ele havia testado, embora ainda precisasse de testes mais amplos antes de considerar o programa confiável.
Gabriel abriu o código e começou a examiná-lo novamente.
A sensação da noite anterior voltou quase imediatamente.
As linhas pareciam formar um mapa.
Ele não enxergava apenas instruções individuais. Conseguia acompanhar como as partes do programa interagiam, identificar dependências e prever as consequências de determinadas alterações.
Então teve uma ideia.
Pegou um projeto antigo.
Era um pequeno jogo de estratégia que havia abandonado meses antes.
Na época, Gabriel queria criar um jogo em que o jogador administrasse uma pequena cidade, construindo edifícios, produzindo recursos e tomando decisões para desenvolver sua população.
Não pretendia competir com os grandes jogos comerciais.
Queria aprender.
O projeto, entretanto, crescera além do que conseguia controlar.
Ele havia misturado a lógica da simulação, a interface e o processamento dos recursos em um conjunto de funções difíceis de manter.
Cada nova funcionalidade provocava problemas em outras partes do código.
Em determinado momento, percebeu que gastava mais tempo corrigindo os efeitos de suas alterações do que desenvolvendo o jogo.
Abandonou o projeto.
Desde então, o arquivo permanecia esquecido em uma pasta.
Gabriel o abriu.
O código apareceu na tela.
E ele imediatamente percebeu o que havia feito de errado.
Não era um único erro.
Era a estrutura inteira.
A lógica de produção dependia diretamente da interface. A atualização dos recursos ocorria em lugares diferentes, dependendo da ação executada. Algumas funções realizavam tarefas demais, enquanto outras existiam apenas para compensar problemas criados pelas primeiras.
Na época, Gabriel não tinha experiência suficiente para reconhecer a dimensão daquilo.
Agora, a estrutura parecia tão evidente que ele sentiu vontade de rir.
— Como eu consegui complicar tanto isso?
A pergunta era injusta.
Ele sabia que, meses antes, não possuía o conhecimento necessário para construir uma arquitetura melhor.
O interessante era que agora conseguia enxergar uma alternativa.
Uma alternativa muito mais organizada.
Separaria a simulação da interface.
Centralizaria as regras de produção.
Criaria uma estrutura responsável por manter os recursos e outra para processar as ações do jogador.
Assim, poderia adicionar novas construções sem precisar alterar dezenas de funções.
O jogo deixaria de ser uma coleção de remendos e se tornaria um sistema que poderia crescer.
Gabriel abriu um novo arquivo e começou a desenhar a estrutura.
Pouco depois, já tinha um esboço da arquitetura.
Não havia escrito o jogo inteiro.
Ainda precisaria implementar as funções, testar o comportamento e resolver os problemas que surgissem.
Mas, pela primeira vez, sabia exatamente como começar.
E isso era algo que nunca havia experimentado naquela intensidade.
***
### Uma nova maneira de programar
Gabriel decidiu não reescrever o projeto imediatamente.
Antes, queria verificar se conseguia manter a mesma clareza ao trabalhar em algo maior.
Criou uma pequena simulação.
O programa representaria uma cidade com três recursos básicos: dinheiro, madeira e alimento.
Cada construção teria um custo.
Algumas produziriam recursos ao longo do tempo; outras permitiriam ampliar a capacidade de produção.
Era um sistema simples, mas suficiente para testar a arquitetura que acabara de imaginar.
Gabriel definiu as estruturas responsáveis pelos recursos, escreveu as regras de produção e criou funções para construir edifícios e atualizar o estado da cidade.
Enquanto trabalhava, percebeu outra mudança.
Antes do acidente, quando encontrava um problema, frequentemente tentava resolvê-lo imediatamente. Se a solução não funcionasse, modificava o código outra vez, acrescentando condições e correções.
Era um processo de tentativa e erro.
Agora, conseguia visualizar melhor as consequências de suas decisões antes de implementá-las.
Quando uma ideia parecia inadequada, percebia isso enquanto ainda estava planejando.
Quando duas funções estavam assumindo responsabilidades semelhantes, notava a redundância antes que ela se espalhasse pelo projeto.
Quando precisava escolher entre duas estruturas de dados, conseguia avaliar as diferenças com base no comportamento esperado do programa.
Isso não significava que nunca cometeria erros.
Mas significava que muitos erros deixavam de chegar à etapa de execução.
Às nove e dez, ele já tinha uma versão funcional da simulação.
Criou uma construção que produzia madeira.
Depois, outra que produzia alimento.
Adicionou um sistema simples de custos e verificou se os recursos eram descontados corretamente quando uma construção era realizada.
Tudo funcionou.
Gabriel acrescentou uma condição para impedir que o jogador gastasse mais dinheiro do que possuía.
Funcionou também.
Então tentou construir vários edifícios em sequência, verificando se a produção acumulada correspondia ao que havia definido.
Os resultados estavam corretos.
Ele recostou-se na cadeira.
A simulação não era um jogo completo. Não tinha gráficos sofisticados, sons, animações ou uma interface atraente.
Era apenas uma pequena prova de conceito.
Ainda assim, representava algo importante.
Na noite anterior, ele havia corrigido um programa que não conseguia consertar.
Naquela manhã, havia reorganizado um projeto antigo e criado uma estrutura nova com relativa facilidade.
E ainda nem havia começado a estudar de maneira sistemática para descobrir os limites de suas capacidades.
Gabriel olhou para o relógio.
Nove e doze.
— Eu preciso escrever isso.
Abriu o caderno e registrou o que havia aprendido até então.
Não queria depender apenas da memória, por mais extraordinária que ela parecesse.
Seus testes precisavam ser organizados. Precisava acompanhar os resultados e comparar seu desempenho ao longo dos dias.
Talvez a melhor maneira de compreender sua nova capacidade fosse tratá-la como qualquer outro problema que encontraria em programação.
Observar.
Formular hipóteses.
Testar.
Registrar os resultados.
Repetir.
Gabriel sorriu.
— É isso. Vou depurar meu próprio cérebro.
***
### O primeiro projeto com potencial comercial
Às dez horas, Gabriel voltou ao aplicativo de organização de arquivos.
O programa havia começado como uma solução para um problema pessoal. Ele queria catalogar seus documentos e encontrar rapidamente aquilo que precisava, sem depender de uma busca demorada por pastas e subpastas.
Entretanto, enquanto examinava a estrutura do projeto, percebeu que havia algo mais interessante ali.
O programa poderia ser útil para outras pessoas.
Pense em alguém com milhares de músicas, fotografias, documentos e arquivos espalhados pelo computador.
Encontrar um arquivo específico podia exigir uma sequência de buscas manuais.
O aplicativo de Gabriel já permitia criar categorias e registrar palavras-chave. Com algumas melhorias, poderia tornar esse processo muito mais rápido.
Ele abriu uma folha de papel e escreveu:
**Problema: encontrar arquivos em computadores com muitos documentos.**
Abaixo, começou a listar possíveis soluções.
Um índice local para registrar informações sobre os arquivos.
Uma busca por nome e extensão.
Filtros por tamanho e data de modificação.
Categorias personalizadas.
Uma maneira de identificar arquivos duplicados.
Um sistema de atualização do índice sem precisar examinar novamente todos os arquivos a cada busca.
A última ideia chamou sua atenção.
Em vez de percorrer todas as pastas sempre que o usuário procurasse alguma coisa, o programa poderia manter um índice atualizado das informações relevantes.
Assim, quando uma pesquisa fosse realizada, consultaria o índice em vez de examinar cada arquivo individualmente.
A velocidade dependeria da implementação, do tamanho do índice e das características do computador, mas a abordagem tinha potencial para reduzir consideravelmente o tempo de determinadas pesquisas.
Gabriel começou a desenhar uma arquitetura.
O sistema teria um módulo para examinar arquivos, outro para armazenar os metadados e um terceiro para processar as pesquisas.
A interface seria separada dessas partes.
Se quisesse adicionar novos filtros no futuro, não precisaria reconstruir o funcionamento interno do programa.
Quanto mais pensava, mais possibilidades encontrava.
Poderia incluir atalhos de teclado.
Poderia permitir pesquisas combinadas.
Poderia salvar as preferências do usuário.
Poderia oferecer uma versão portátil, executada sem instalação, caso conseguisse organizar corretamente as dependências.
E havia um detalhe particularmente importante.
Seu computador era modesto.
Se conseguisse construir um aplicativo realmente leve, capaz de funcionar bem em máquinas com poucos recursos, teria uma vantagem sobre ferramentas que exigissem mais memória e processamento.
Gabriel conhecia aquela dificuldade pessoalmente.
Não precisava imaginar como seria utilizar o programa em um computador limitado.
Estava fazendo exatamente isso.
Ele escreveu uma frase no topo da folha:
**Um programa de busca rápido, simples e leve.**
Ficou olhando para as palavras.
Poderia ser o primeiro software que tentaria disponibilizar publicamente.
Não apenas um exercício.
Não apenas um projeto abandonado.
Um produto de verdade.
***
### A primeira conversa sobre dinheiro
Perto das onze horas, Dona Lúcia apareceu novamente à porta.
— Gabriel, você não vai almoçar?
Ele olhou para o relógio e arregalou os olhos.
— Já está quase na hora?
— Está chegando. Você está aí desde cedo.
— Eu nem percebi.
Ela olhou para a mesa.
O caderno estava cheio de anotações. Havia folhas com diagramas, pequenos trechos de código e uma lista de funcionalidades.
— Pelo menos parece que está estudando alguma coisa útil.
Gabriel sorriu.
— Acho que sim.
Dona Lúcia se aproximou.
— E aquele programa que você estava fazendo? O que aconteceu?
— Consegui resolver o problema.
— Aquele que estava deixando você nervoso?
— Esse mesmo.
— Que bom! E agora?
Gabriel hesitou.
Ainda não tinha pensado em como explicaria aquilo.
— Quero melhorar o programa e tentar disponibilizar para outras pessoas.
— Pela internet?
— É.
Ela pareceu refletir sobre a ideia.
— E as pessoas pagariam por isso?
Gabriel olhou para as anotações.
— Talvez.
— Talvez de novo.
Ele riu.
— Eu ainda preciso descobrir se o programa é realmente útil. Se conseguir fazer algo bom, posso disponibilizar uma versão gratuita e, depois, talvez criar uma versão com recursos adicionais.
— E quanto você ganharia?
— Não sei.
Dona Lúcia colocou as mãos na cintura.
— Você precisa aprender a pensar nessas coisas também. Não adianta passar o dia inteiro trabalhando se não consegue pagar as próprias despesas.
Gabriel assentiu.
A observação era pertinente.
Até aquele momento, tratava a programação principalmente como uma atividade de que gostava. Pensava em aprender, criar e melhorar suas habilidades.
Nunca havia desenvolvido uma estratégia concreta para transformar aquilo em renda.
A ideia de vender um programa parecia distante, quase irreal.
Mas, se queria conquistar independência financeira, precisaria compreender como seus projetos poderiam chegar às pessoas e como sustentaria o próprio trabalho.
— A senhora tem razão — respondeu. — Vou pesquisar isso também.
Dona Lúcia sorriu.
— Ótimo. Agora venha comer antes que a comida esfrie.
Gabriel fechou o caderno.
— Estou indo.
Enquanto caminhava para a cozinha, uma ideia começou a tomar forma.
Não precisava criar uma empresa imediatamente.
Não precisava contratar ninguém.
Não precisava investir dinheiro que não tinha.
Primeiro, poderia terminar um programa útil.
Depois, aprenderia a distribuí-lo.
Se as pessoas gostassem, descobriria como mantê-lo e, talvez, como ganhar dinheiro com ele.
Era um plano simples.
Mas, pela primeira vez, parecia possível.
***
### Uma pergunta maior que todas as outras
Depois do almoço, Gabriel decidiu descansar por alguns minutos.
Deitou-se na cama e ficou olhando para a parede.
Seu pensamento voltou ao acidente.
Havia alguma relação entre o raio e as mudanças que estava experimentando?
A resposta parecia óbvia.
Antes do acidente, ele não conseguia realizar aquelas tarefas daquela maneira.
Depois do acidente, conseguia.
Mas isso não explicava o mecanismo.
Gabriel não entendia de neurologia, medicina ou eletricidade o suficiente para formular uma hipótese séria. E não pretendia inventar uma explicação apenas para satisfazer a própria curiosidade.
Sabia que precisava continuar atento à sua saúde.
Se surgissem sintomas, procuraria atendimento médico.
Não tentaria explicar tudo como uma consequência positiva do acidente.
Afinal, ainda era possível que houvesse algum problema que não tivesse sido identificado.
Ele respirou fundo.
Por enquanto, havia uma coisa que podia fazer.
Aprender.
Se suas capacidades realmente tivessem mudado, o conhecimento seria a maneira mais segura de descobrir como utilizá-las.
Gabriel se levantou, voltou à mesa e abriu um documento novo.
Dessa vez, não escreveu código.
Escreveu um plano de estudos.
Queria aprofundar seus conhecimentos sobre algoritmos, estruturas de dados, arquitetura de software, sistemas operacionais, bancos de dados, redes de computadores e segurança da informação.
Também precisava estudar matemática.
E, se pretendia transformar seus projetos em produtos, teria de aprender sobre negócios, custos, distribuição e formas de comercialização.
A lista era enorme.
Antes, aquela quantidade de assuntos teria sido intimidante.
Agora, despertava uma sensação diferente.
Curiosidade.
Ele sabia que não dominava todas aquelas áreas.
Mas também sabia que poderia estudá-las, testar o que aprendesse e incorporar os resultados aos seus projetos.
Não precisava resolver tudo naquela semana.
Precisava apenas começar.
***
Às quatro e quarenta da tarde, Gabriel voltou ao projeto de busca de arquivos.
Havia decidido que aquele seria seu primeiro produto de verdade.
Não sabia quanto tempo levaria para terminá-lo. Não sabia se alguém o utilizaria. Tampouco sabia se conseguiria ganhar dinheiro com ele.
Mas queria descobrir.
Abriu o editor e começou pela parte mais importante: o índice.
Criou a estrutura inicial para armazenar os caminhos dos arquivos, seus nomes, extensões e datas de modificação.
Depois escreveu uma rotina para percorrer uma pasta e registrar os arquivos encontrados.
Executou o programa.
A primeira tentativa falhou porque o caminho utilizado no teste não estava sendo tratado corretamente.
Gabriel identificou o problema, corrigiu a rotina e executou novamente.
Funcionou.
Em seguida, adicionou a possibilidade de procurar arquivos pelo nome.
Digitou uma palavra.
O programa retornou os resultados esperados.
Então adicionou um filtro por extensão.
Funcionou novamente.
Cada funcionalidade era pequena.
Mas todas faziam parte de um objetivo maior.
Ele começou a testar combinações de filtros, verificando se o programa conseguia localizar apenas os arquivos que correspondiam aos critérios selecionados.
Em determinado momento, percebeu que a estrutura de busca poderia ser reorganizada para evitar verificações repetidas.
Fez a alteração.
Executou os testes.
O resultado continuou correto.
Gabriel anotou a mudança.
Não queria apenas escrever o código mais rapidamente. Queria construir um programa confiável.
Se pretendia disponibilizá-lo para outras pessoas, precisaria considerar situações que talvez nunca encontrasse durante o próprio uso.
Arquivos inacessíveis.
Pastas vazias.
Nomes incomuns.
Diretórios muito grandes.
Alterações realizadas enquanto o índice estivesse sendo atualizado.
Cada um desses casos poderia produzir erros diferentes.
E, pela primeira vez, Gabriel sentia que conseguia antecipar muitos deles antes que se tornassem problemas.
Ainda assim, decidiu não confiar apenas na própria percepção.
Criou testes específicos.
Executou-os.
Corrigiu os defeitos encontrados.
Repetiu o processo.
Quando terminou, percebeu que o programa estava muito mais estável do que imaginara que conseguiria deixá-lo naquele dia.
Não estava pronto para distribuição.
Mas já não era apenas uma ideia.
Era o começo de um produto.
***
Às seis e vinte, Gabriel salvou os arquivos e fechou o editor.
Estava cansado.
Não sentia a exaustão mental habitual depois de horas tentando resolver um problema difícil. Sua cabeça parecia surpreendentemente organizada.
Mesmo assim, decidiu fazer uma pausa.
Pegou o caderno e registrou os resultados do dia.
**Memória:** recordação extremamente precisa de conteúdos técnicos e não técnicos.
**Programação:** identificação rápida de problemas e maior facilidade para planejar arquiteturas.
**Desenvolvimento:** capacidade de criar uma pequena aplicação funcional em pouco tempo, com testes verificáveis.
**Próximo objetivo:** concluir a primeira versão do programa de busca de arquivos.
Ele ficou olhando para as anotações.
Na noite anterior, havia pensado que talvez estivesse ficando maluco.
Agora, não tinha uma explicação definitiva, mas possuía algo melhor do que uma impressão vaga.
Tinha experiências repetíveis.
Tinha resultados.
E tinha um projeto que poderia utilizar para continuar investigando suas capacidades.
Gabriel fechou o caderno.
— Amanhã, a gente continua.
O computador permaneceu desligado pelo resto da noite.
Ele jantou, conversou com Dona Lúcia e foi dormir em um horário razoável.
Pela primeira vez desde o acidente, não sentia a necessidade de ficar diante da tela até a madrugada.
Sabia que o trabalho estaria lá no dia seguinte.
E, de alguma forma, tinha certeza de que conseguiria avançar.
Antes de adormecer, pensou no programa que estava desenvolvendo.
Um aplicativo simples.
Uma ferramenta que talvez algumas pessoas considerassem banal.
Mas que poderia ser seu primeiro passo em direção a uma vida diferente.
Gabriel ainda não tinha dinheiro, contatos ou experiência profissional.
Não possuía uma empresa.
Não tinha equipamentos sofisticados.
Tampouco sabia que, nos anos seguintes, suas criações poderiam alcançar milhões de pessoas.
Naquela noite, tudo o que tinha era um computador usado, uma ideia e uma capacidade extraordinária que começava a compreender.
E, por enquanto, isso era suficiente.