Capítulo 11: Novas Coordenadas
Depois que todos pegaram no sono, o silêncio se instalou no armazém. Arthur se perdeu em seus pensamentos, lembrando das coisas que aconteceram em seu passado, enquanto olhava fixamente para o chão.
E longe dali, em um dos prédios velhos da cidade em ruínas, no topo de um dos andares desse arranha-céu em ruínas, o homem de capuz ainda estava observando a orda de zumbis lá embaixo. A cidade era inteiramente iluminada pela luz da lua cheia. Grupos de mutantes terrestres e alados pegavam e dilaceravam os zumbis que, por algum motivo, não conseguiam sair de onde estavam. Mas, de repente, os monstros foram embora, e o silêncio se abateu sobre a cidade. Minutos depois.
BOOM... THUD... BOOM...
Um som estrondoso e ritmado fez o edifício onde o homem de capuz estava estremecer como se fosse desmoronar.
— Finalmente ele chegou — disse o homem de capuz, vendo a estrutura do andar onde ele estava estremecer, e o concreto cair do teto sobre o chão, enquanto via a imensa criatura que era iluminada pela luz da lua. — Então esse é o tal monstro que dizem parecer um demônio. Realmente essa coisa parece ser de outro mundo.
— Senhor, não seria melhor nos afastarmos logo daqui e ir para o lugar onde os outros estão? — perguntou uma mulher que estava atrás do homem de capuz. Ela estava tremendo ao ouvir o barulho da criatura que caminhava.
O homem de capuz virou o rosto lentamente para trás, vendo a mulher tremer, e pensou: “Hum… ela está com muito medo para alguém que serve à nossa organização. Isso é bom… haha… Antes de eu vir a essa missão, ouvi dizer que poderia haver espiões entre os nossos homens. E essa mulher é uma novata. Por algum motivo, eu não confio nela, e meus instintos quase sempre estão certos. Essa será uma boa oportunidade de testar se ela é uma espiã mandada por alguma daquelas bases de sobreviventes irritantes.*
— Não precisa se preocupar com nada — respondeu o homem de capuz, abrindo um leve sorriso enquanto observava a criatura vindo ao longe. — Essa criatura é uma das criações do líder de nossa organização. Ela não vai nos atacar… provavelmente.
— Como assim, provavelmente? E o chefe de nossa organização pode criar monstros? — perguntou a mulher, parando brevemente de tremer e começando a olhar para o homem à sua frente, que tirou seu capuz, revelando a aparência de um homem de trinta anos.
— Tsc… Você realmente deve ser uma novata em nossa organização para não saber sobre isso — respondeu o homem de capuz, encarando o lado de fora pela janela quebrada.
Enquanto observava o monstro se aproximar cada vez mais, o homem de capuz pensou: “Essa mulher realmente pode ser uma infiltrada. Como ela não sabe que o chefe de nossa organização é quem criou os monstros? E, ainda por cima, ela está fazendo perguntas demais para uma simples novata. Haha… isso vai ser divertido. Se ela for realmente uma espiã, aquele monstro irá matá-la.“
— O chefe de nossa organização está criando um exército de monstros para atacar todas aquelas bases de sobreviventes — disse o homem de capuz, enquanto continuava com os olhos fixos, observando o monstro se aproximar.
“Ótimo, finalmente esse maldito cultista está começando a me revelar algo útil, depois de semanas de infiltração nessa organização de merda. Assim que ele revelar onde fica a localização da base deles, irei matar esse maldito cultista.“ — pensou a mulher, com as mãos nas costas, ajeitando uma adaga na escuridão do andar.
— Mas, então, depois que terminarmos essa missão, qual será nossa próxima parada? Nós iremos direto para a base ou vamos direto para outra missão? — perguntou a mulher, olhando fixamente para os movimentos do homem à sua frente.
— Hum… Assim que terminarmos essa missão, iremos direto para uma de nossas bases temporárias, que fica em uma ilha — disse o homem de capuz, observando o lado de fora pela janela.
“Ótimo, parece que estou conseguindo. Só mais um pouco e eu irei matar esse maldito.“ — pensou a mulher, arregalando os olhos em ódio contido ao ver o homem à sua frente.
— Mas, então, por que nós estamos tentando matar uma das comandante da base de sobreviventes daquela montanha? — perguntou a mulher, tentando obter informações. — Há rumores de que eles são imensamente poderosos. Não é um pouco arriscado?
— Lá vem você com mais perguntas — suspirou o homem de capuz, virando levemente o rosto para trás. — Nosso objetivo desde o início é matar até o último desses malditos comandantes. Esse é o motivo pelo qual nossa organização existe. E se eu matar essa mulher chamada de Katerina, irei me tornar um chefe de uma de nossas bases, e não apenas um inseto que acata ordens de qualquer um.
— Mas, então, quem foi que nos deu informações sobre…
BOOM... THUD... BOOM...
A mulher se calou na mesma hora em que a enorme perna do monstro apareceu marchando do lado de fora da janela quebrada. O monstro andou até a orda de zumbis, agarrou vários deles com as mãos e os lançou para dentro de sua boca, mastigando-os, enquanto o som de ossos quebrando dava para ser ouvido ao longe. Ao virar o rosto, um sorriso macabro se abriu no rosto do monstro. Ele estava encarando a mulher dentro da escuridão do andar do prédio. A mulher, vendo aquilo, não perdeu tempo e, de fininho, andou para trás para que o homem de capuz não a notasse. Ela começou a correr, descendo os andares. Ela era extremamente rápida, já tendo descido vários andares em pouco tempo.
“Merda, aquela coisa estava me encarando mesmo naquela escuridão… Eu nunca tinha visto um mutante bizarro como esse. Sinto que, se eu não sair logo daqui, terei sérios problemas.“ — pensou a mulher, correndo em alta velocidade, descendo os andares.
Enquanto observava o monstro, que parou do nada de comer os zumbis, o homem de capuz ficou confuso ao ver o monstro se levantar e vir em direção ao prédio onde ele estava.
“Hum… isso nunca aconteceu antes… Todos em nossa organização têm uma marca que nos torna invisíveis aos sentidos dos monstros. Então, por que aquela criatura está vindo em minha direção?“ — pensou o homem de capuz, virando o rosto para trás e vendo que a mulher tinha sumido.
— Hahaha… Eu sabia, ela era mesmo uma infiltrada… Pelo visto, vou ter mais uma conquista pela qual me vangloriar — disse o homem de capuz, olhando para o monstro se aproximar. — Mulher burra… Não adianta tentar fugir. Essa criatura foi criada para lutar contra os descendentes daqueles malditos semideuses. Não tem nem chances de você conseguir fugir disso.
Após alguns minutos, a mulher já havia saído para fora do prédio. Ela estava correndo e saltando sobre os imensos prédios, para longe da criatura que parecia estar cada vez mais longe.
— Droga, mas que merda… — resmungou a mulher, continuando a se distanciar do monstro, que parecia estar a quilômetros de distância.
“Tsc… Só mais um pouco, e eu teria descoberto onde fica a localização da base desses cultistas. Esse monstro maldito.“ — pensou a mulher, enquanto continuava a saltar sobre os prédios.
— É irritante, mas vou tentar me infiltrar de…
A voz da mulher sumiu ao olhar para frente e ver que o monstro estava bem à sua frente. Ela parou brevemente, olhando para trás.
— Mas que merda está acontecendo aqui? Como esse maldito que estava tão longe chegou…
A voz da mulher desapareceu quando o monstro começou a se mover em sua direção. Ela tentou correr, mas o monstro aumentou sua própria velocidade e, em um piscar de olhos, ele agarrou a mulher com sua mão gigante.
— Ghaaa... k-kkh!
A mulher gritou quando o monstro apertou sua mão, esmagando os ossos dela. No mesmo instante, ela vomitou sangue sobre a mão do monstro. Seus olhos ficaram embaçados, e o ar começou a faltar por causa dos ossos de suas costelas que, ao serem quebrados, tinham perfurado seus pulmões.
“Mas o que foi que aconteceu? Como esse monstro chegou até aqui?“ — pensou a mulher, antes de ser devorada pelo monstro.
Observando de longe, o homem de capuz estava com os braços atrás das costas enquanto sorria.
— Que criatura fascinante. Não tenho dúvidas de que esse monstro irá matar aquela comandante — disse o homem, falando consigo mesmo.
Longe dali, de volta à escuridão do armazém, o silêncio pesado era quebrado apenas pelo estalar das brasas da fogueira e os roncos de Enrique e Carlos. No meio da noite, enquanto Arthur ficava encarando o chão fixamente, lágrimas escorriam de seus olhos e pingavam no chão, ao lembrar de sua esposa e de sua filha.
Maria abriu os olhos. Sua visão embaçada, ela esfregou os olhos e viu Arthur com a cabeça baixa e com uma expressão profunda de tristeza.
Com cuidado para não acordar os outros, Maria se levantou e caminhou silenciosamente até ele. Ele, percebendo que ela tinha acordado, limpou rapidamente as lágrimas de seus olhos e tentou disfarçar. Ela se sentou ao lado dele.
— Arthur... Você está bem? — perguntou ela, com a voz mansa, enquanto pensava: “Dá para ver só de olhar que ele não está nada bem. Ele deve ter perdido alguém muito importante. Só assim para alguém ficar com esse tipo de expressão.“
— Não precisa se preocupar, Maria. Eu estou bem — respondeu ele, enquanto encarava a fogueira.
— Você é igual ao meu irmão. Os dois não sabem mentir direito. Eu consigo ver só pela expressão de seu rosto que você não está bem — disse Maria, olhando fixamente o rosto de Arthur. — Você fez essa mesma expressão na noite passada.
— Eu já disse que estou bem. Você não precisa se preocupar com algo desse tipo não — disse Arthur, com um tom de voz que deixava claro que ele não queria tocar no assunto.
Maria continuou a encará-lo por alguns segundos. O silêncio entre os dois se estendeu e, aos poucos, até Maria também foi tomada por uma leve melancolia, ao se lembrar de sua infância.
— Sabe, Arthur... — começou ela, a voz baixa, enquanto encarava o chão.
— Sim?
— Desde que nos conhecemos, eu nunca lhe contei o verdadeiro motivo de eu me voluntariar para vir a essas expedições, mesmo elas sendo tão perigosas, né? — disse Maria, enquanto encarava a fogueira.
— Sim, você nunca mencionou — respondeu Arthur, que estava olhando para os outros que estavam dormindo. — Mas eu também não pergunto. Assim como não quero que ninguém fique me perguntando sobre o meu passado, prefiro não bisbilhotar o dos outros. Afinal, em um mundo como esse, não existe alguém que não tenha suas mágoas.
“Pelo visto, ele realmente não quer falar sobre seu passado. Acho que vou dizer o meu primeiro. Assim, tenho quase certeza de que ele também irá dizer o dele.“ — pensou Maria, enquanto observava o rosto de Arthur.
— O verdadeiro motivo de eu vir nessas expedições é porque eu quero encontrar o meu pai — revelou ela, observando o teto escuro do armazém.
No mesmo instante, a mente de Maria foi puxada para um breve flashback de sua infância. Em suas lembranças, ela viu seu pai, um homem que aparentava ter uns vinte e sete anos na época, vestindo um jaleco branco de cientista. Ele caminhava na direção dela e de seu irmão, Carlos — que, na época, tinham por volta de sete anos. O homem colocava as mãos sobre a cabeça dos dois e os puxava para um abraço caloroso. Ele dizia algumas palavras, mas Maria não conseguia ouvi-las na lembrança, pois o tempo havia apagado o som de sua voz. Logo após falar, o cientista dava um sorriso terno, dava meia-volta e cruzava uma porta.
Maria ficou com uma expressão profunda de tristeza. Arthur olhou no rosto dela e percebeu a tristeza.
— Você sabe que não precisa me dizer nada sobre seu passado, né, Maria? — disse Arthur, olhando fixamente para a fogueira.
Ignorando gentilmente o aviso de Arthur, Maria continuou a desabafar sobre seu passado.
— Após o falecimento da minha mãe, quando o Carlos tinha acabado de nascer, meu pai quase nunca parava em casa. Tinha vezes em que eu só o via nos finais de semana e, mais tarde, apenas de mês em mês... — Uma lágrima solitária brilhou nos olhos de Maria, mas ela a segurou. — Eu nunca mais o vi depois que fiz dez anos. Ele simplesmente nos deixou com uma babá encarregada de cuidar de nós e sumiu. Às vezes, eu tentava ligar para o laboratório onde ele trabalhava, mas ele nunca respondeu a nenhuma das minhas ligações. Então, quando fiz dezenove anos, os monstros apareceram. Após me juntar à base de sobreviventes na montanha, soube que meu pai trabalhava para eles e que meu pai tinha sumido. Desde então, eu venho nas expedições, com a motivação de um dia encontrar meu pai novamente, se ele ainda estiver vivo. O nome do meu pai... é Leon.
Arthur arregalou levemente os olhos, processando o impacto da informação, enquanto pensou: “Então a Maria e o Carlos são filhos do Dr. Leon… Realmente deve ser por isso que a Comandante Lara trata os dois como se fossem especiais. Já que o pai deles é um dos cientistas que ajudaram no desenvolvimento do programa que criou os soldados de elite.“
— Isso é bem inesperado... Eu não imaginava que você e o Carlos eram filhos do Doutor Leon — disse Arthur, olhando em direção a Maria e olhando para Carlos, que estava dormindo.
Maria não falou mais nada, e o silêncio retornou, ainda mais denso. Arthur fechou os olhos devagar. Ao fazer isso, suas memórias voltavam. Ele ouvia, em sua mente, os gritos de sua esposa sendo dilacerada pelos zumbis. Ele abriu levemente os olhos, olhando para a fogueira.
— O motivo de eu vir nessas expedições é para tentar achar o local onde minha esposa foi morta — começou Arthur, o rosto afundando em tristeza, enquanto encarava o chão. — No dia em que os monstros surgiram, eu, minha esposa e minha filha tentamos fugir do apartamento em que morávamos. Mas, após sairmos para fora do prédio, do lado de fora também estava cheio de zumbis. Os monstros que nos perseguiam conseguiram nos alcançar e puxaram minha esposa para dentro do prédio. Ela ficou bloqueando a passagem dos monstros para dar tempo de eu fugir com a nossa filha. Eu tentei ajudar, mas ela sabia que, se eu tentasse ajudar, poderia acabar colocando nossa filha em risco. Então, ela me mandou fugir e salvar nossa filha, e foi isso que eu fiz.
Arthur parou brevemente de falar, puxou ar para os pulmões e ficou encarando a fogueira à sua frente.
— Eu deixei minha esposa para trás, pensando que salvaria nossa filha. Mas, no fim, nem isso eu consegui fazer — continuou Arthur, mordendo os lábios. Quanto mais ele falava, mais parecia que seus olhos se enchiam de água.
“Então eu estava certa… Ele realmente perdeu alguém querido para ele. Mas eu não sabia que ele também tinha uma filha.“ — pensou Maria, enquanto olhava para o rosto de Arthur.
— Pouco antes de eu chegar no abrigo na montanha, minha filha adoeceu. Eu tentei tudo o que estava ao meu alcance. Procurei medicamentos em farmácias abandonadas, invadi hospitais vazios procurando por medicamentos... Mas as pessoas já tinham saqueado tudo. No estado em que o mundo ficou, medicamentos, comida e munições foram recursos que desapareceram da noite pro dia. Sem eu ter conseguido os medicamentos, minha filha de três anos também me deixou.
Arthur ficou com um rosto sério enquanto olhava para as chamas da fogueira.
— Após alguns meses desde que eu enterrei minha filha, eu cheguei no abrigo de sobreviventes na montanha. Todas as pessoas ali tentavam sobreviver aos zumbis. E, quando finalmente estávamos começando a nos adaptar, combatendo os zumbis, versões superiores e ainda mais aterrorizantes surgiram, e foram nomeadas de mutantes por causa da capacidade de regeneração deles. Após a aparição dos mutantes, soldados que tinham habilidades sobre-humanas e de regeneração também apareceram no bunker, por meio de modificações corporais.
Arthur parou de falar e inclinou a cabeça para cima, olhando para o teto escuro do armazém.
— Para resumir tudo sobre a minha vida. Ou melhor dizendo, o que sobrou dela — disse Arthur, olhando para Maria. — Após perder minha filha e minha esposa, eu não tinha mais nenhum motivo para viver. Então, tentei achar um. E agora vivo para encontrar o lugar onde minha esposa morreu. Mas a cidade em ruínas já mudou tanto que eu, até hoje, não consegui mais achar esse lugar em específico.
Após ouvir aquilo, Maria não sabia mais o que falar e preferiu ficar calada. E o silêncio sufocante voltou a se abater sobre o lugar.
Afastado dali, na escuridão além do alcance da luz da fogueira, o Soldado Enrique permanecia deitado de costas. Ele estava acordado, ouvindo cada palavra daquela conversa em absoluto silêncio. Seu rosto também era de uma tristeza profunda. Enquanto os outros estavam em silêncio, sua mente se lembrou do dia em que ele era criança e ficou trancado dentro de um quarto, enquanto ouvia o som dos gritos de sua mãe sendo morta pelos zumbis, dizendo para ele não abrir a porta e que era para ele sobreviver.
Após meia hora, Carlos acordou e assumiu seu posto de sentinela. E, depois de algumas horas, foi a vez de Enrique. E logo após o dia amanhecer, o grupo partiu em direção ao laboratório do Dr. Leon. Após desviarem de vários monstros durante o dia e de uma longa marcha pelas ruas da cidade em ruínas, eles finalmente avistaram, ao longe, o prédio onde ficava o laboratório do Doutor Leon. Toda a estrutura estava completamente camuflada por raízes imensas e cipós grossos que haviam crescido e coberto o prédio inteiro com o passar do tempo.
— Parece que finalmente chegamos… — disse Enrique, olhando o prédio tenebroso ao longe. — Fala sério… Por que todos esses prédios têm que parecer a casa do capeta? Esse prédio parece ainda mais fudido do que os outros em que estivemos.
— Cala a boca… — disse Katerina, que estava de olhos fechados enquanto caminhava em direção à estrutura. Ela começou a abrir levemente os olhos. — Parece que não tem nenhum monstro por perto. Então, vamos entrar logo.
O grupo adentrou a estrutura com cuidado, até localizar, no centro do edifício, a antiga sala do cientista. Sem perder tempo, começaram a revistar as mesas e gavetas caídas, procurando pelos arquivos de suas pesquisas.
— Pessoal, encontrei algo! — anunciou Carlos, puxando uma folha de uma gaveta emperrada.
— O que foi que você encontrou? — perguntou Katerina, aproximando-se com passos rápidos.
— Não sei... É um papel estranho.
Todos se reuniram ao redor de Carlos para examinar o achado. Para a surpresa do grupo, não se tratava de uma fórmula química ou relatório biológico. O documento parecia o fragmento de um texto de história antigo, escrito à mão pelo próprio Doutor Leon. O texto dizia:
"Há muito tempo, o mundo já foi um lugar no qual a raça humana dominava um tipo de poder místico. Nesses tempos antigos, existiam criaturas mitológicas que hoje só vemos em livros, como dragões, trolls, entre diversas outras. Mas tudo mudou dep…"
A folha estava brutalmente rasgada na parte inferior, interrompendo a explicação no meio. Contudo, no verso do papel, havia uma série de números anotados.
— Mas que porra! Por que essa droga de papel tinha que estar faltando uma parte?! — gritou Enrique, olhando para o papel nas mãos de Carlos.
— Bem... Deve ser apenas um texto de ficção ou de história qualquer. Quem se importa com isso? — desdenhou Katerina, acreditando que o cientista guardava apenas anotações de um livro velho. — Vamos continuar caçando. Talvez encontremos algo útil.
Então, o grupo continuou caçando para ver se achavam algo. E tudo o que se via eram pilhas de papéis espalhados pelo chão da sala.
— Comandante Katerina, parece que não tem nada de útil aqui, não — disse Arthur, vasculhando os papéis no chão.
— Quer dizer, então, que nós passamos por todo esse sufoco dos infernos por nada? — disse Enrique, falando alto, irritado pela expedição não ter dado em nada.
— Ok, pessoal. Pelo visto, nós não vamos encontrar nada aqui. O laboratório está todo detonado e só restaram papéis inúteis que não explicam nada. Vamos dar meia-volta e voltar logo…
Katerina foi interrompida por Maria, que estava olhando a folha de papel que Carlos havia achado.
— Comandante Katerina, espere. Tem uns números aqui atrás deste papel, olha — interveio Maria, entregando a folha para Katerina.
Katerina pegou o documento e semicerrrou os olhos ao analisar a sequência numérica.
— Isso parece ser coordenadas geográficas de alguma outra cidade... — deduziu Katerina, no mesmo instante em que viu os números. — Mas, sem um mapa adequado, não dá para saber de onde são. Pelo que estou vendo, com certeza não pertencem a esta cidade, já que essas coordenadas não correspondem a nenhuma localização do mapa que trouxemos.
— Então… O que nós vamos fazer agora? — perguntou Enrique, cruzando os braços, enquanto encarava Katerina.
— Nós iremos retornar à base e relatar o que descobrimos na expedição. E entregar essas novas coordenadas para a equipe que irá investigar a qual localização elas correspondem — determinou Katerina, guardando o papel, enquanto olhava para o grupo.
O grupo iniciou a marcha de retorno. Antes de cruzar a soleira da porta, Maria avistou uma foto antiga, caída e amassada sob a poeira do chão. Ela pegou a fotografia e, quando olhou para ela, viu que era o rosto de seu pai. Ao ver aquela imagem, suas memórias embaçadas sobre como era o rosto de seu pai voltaram. No mesmo instante, lágrimas começaram a escorrer de seus olhos, ao relembrar do rosto de seu pai. Seu coração ficou apertado.
— Maria! — gritou Carlos, do lado de fora daquela sala, preocupado porque Maria ficou para trás.
— Já estou indo — respondeu Maria, guardando a fotografia e correndo para alcançar os outros.
Após alguns minutos, o grupo saiu para fora do prédio. Eles cobriram seus olhos ao saírem da escuridão do prédio para a luz do sol. Após já terem saído do prédio, Katerina tirou um mapa de seu bolso e começou a analisá-lo.
— Certo… — disse ela, dobrando o mapa e guardando-o. — Pessoal, nós iremos pegar o caminho que tínhamos planejado vir inicialmente.
— Hum… Espera um pouco — disse Enrique, pensando em algo, enquanto olhava para Katerina. — Esse é aquele caminho que estava infestado de zumbis?
— Sim… E é por esse caminho mesmo que nós iremos voltar — disse Katerina, olhando em direção a Enrique. — Não precisam se preocupar. A essa altura, os zumbis já devem ter ido embora.
Então, mesmo estando meio tensos, o grupo iniciou sua marcha de volta ao bunker.
Enquanto isso, longe dali, na superfície do abrigo militar, Penny permanecia deitada de forma preguiçosa no velho banco de madeira, sob a sombra da árvore.
“Que tédio...“ — refletia a garota, encarando as nuvens no céu. — “Se eu não achar algo divertido para fazer logo, vou acabar morrendo.“
E, a poucos metros dali, estava o soldado Lucios. Ele estava conversando com duas garotas que aparentavam ter a mesma idade que ele.
— Oi, meninas — disse ele, se aproximando das garotas. — Vocês são solteiras? Se sim, vocês topariam sair comigo qualquer hora dessas para nos divertirmos? Se quiserem, podemos ir nós três. Eu gosto de diversão a três.
As mulheres ficaram caladas, encarando Lucios. Elas olharam para detrás dele e viram Penny sentada, com cara de paisagem, observando as nuvens no céu, e pensaram juntas: “Nossa. Que garotinha fofinha.“ — pensaram as duas mulheres, com seus rostos ficando vermelhos ao ver Penny.
“Elas estão corando. Acho que minha cantada está funcionando. É hoje que eu vou maltratar!“ — pensou Lucios, olhando para as mulheres à sua frente.
— Então, quando vocês acham que seria um bom dia para sairmos juntos? — perguntou Lucios, continuando a olhar para as mulheres à sua frente.
“Esse canalha deve ser casado e fica dando em cima de outras mulheres. Ele não respeita nem sua filha, que está vendo tudo isso.“ — pensou uma das mulheres, olhando friamente para Lucios.
— Não, obrigado… Eu jamais sairia com alguém como você — respondeu a mulher, começando a caminhar para longe de Lucios.
— Espera um pouco…
*ESTALO!*
Lucios tentou agarrar o braço de uma das mulheres e levou uma forte bofetada que fez seu rosto ficar extremamente vermelho. As mulheres começaram a gritar, e a se afastar dele.
Enquanto isso, Penny observava tudo aquilo de longe. “Mas que inferno, isso de novo, não? Como essas humanas malditas ousam pensar que sou filha desse inseto? Tsc… Tenho que dar logo um jeito nisso.“ — pensou Penny, extremamente irritada.
— Garotas, esperem! Vocês entenderam errado! — gritou Lucios, olhando as mulheres irem embora.
“Sinceramente, eu já pensei em matá-lo. Mas seria estranho demais alguém sumir assim do nada, ainda mais dentro de uma base militar extremamente protegida, na qual não tem nada para justificar a morte. Então, a única opção que me resta é apagar temporariamente esse infeliz.“ — pensou Penny, que logo em seguida levantou-se e caminhou em direção a Lucios.
— Mas que merda… Eu estava quase conseguindo — resmungou Lucios, virando o rosto e deparando-se com o rosto de Penny, que exibia um sorriso dócil e inocente. — Hum… O que você quer, criança?
— Durma — ordenou Penny, sua voz saindo como um sussurro, enquanto sorria com os olhos fechados.
No mesmo milésimo de segundo em que a palavra foi dita, os olhos de Lucios reviraram. E ele apagou instantaneamente, desabando no chão com um baque surdo, como se fosse um boneco de pano que teve suas cordas cortadas.
— Certo. Agora só preciso esconder o corpo desse imbecil em algum lugar que ninguém o ache — comentou Penny, passando as mãos em seu vestido, como se estivesse limpando algo.
Olhando para o homem roncando no chão, ela soltou um suspiro pesado, enquanto pensava: “Hum… Agora eu comecei a pensar... Por que raios eu não fiz isso antes? Assim, eu não teria que ter aguentado as palhaçadas desse estorvo por tanto tempo? Não… Acho que ainda seria melhor matá-lo por ter me feito perder tanto da minha preciosa paciência.“
Fim do Capítulo 11