Capítulo 15: Entre a Vida e a Morte
— A propósito, Soldado Enrique, eu havia dito antes para você ficar com os outros. O que você está fazendo aqui? — perguntou Katerina, olhando para Enrique.
— Bem… — disse Enrique, enquanto pensava no que dizer. — Eu deixei eles em um lugar seguro e vim ajudar você.
Enrique ficou olhando para Katerina, que o encarava fixamente.
“Por que ela está me encarando desse jeito? Ela não vai brigar comigo, não, né?“ — pensou ele, enquanto olhava para Katerina.
Katerina se levantou, ajeitou seu quepe militar e começou a olhar para os lados, enquanto fechava os olhos. E, em sua mente, imagens da presença de diversos monstros se projetaram.
“Eu sabia. Todo esse barulho acordou os monstros. É melhor sairmos logo daqui e chegar até os outros, antes que um monstro alcance eles antes de nós.“ — pensou ela, abrindo os olhos.
— Certo, Soldado Enrique. Já chega de perder tempo aqui. Agora que aquela abominação finalmente foi embora, vamos direto para onde os outros estão abrigados — ordenou Katerina, pegando seu rifle do chão e ajeitando-o em suas costas.
— Certo… — respondeu Enrique, suas roupas encharcadas de água, enquanto ele seguia os passos de Katerina.
Enquanto isso, longe dali, na penumbra do escuro edifício onde Maria e Carlos estavam:
— Hum… Já faz bastante tempo que ele está lá em cima. Não seria melhor irmos atrás do Arthur? — perguntou Maria, enquanto encarava a escuridão do lugar.
— Como ele inventou àquela desculpa ridícula antes por que queria ficar sozinho, acho que o melhor é deixar que ele volte por conta própria — respondeu Carlos, enquanto olhava para Maria. — Você não precisa se preocupar. Ele, sem dúvidas, deve estar bem.
— Mesmo assim, já faz quase uma hora que ele está lá em cima. Isso está começando a me preocupar — disse Maria, enquanto olhava para Carlos, que estava segurando um bastão de madeira nas mãos.
— Como eu disse antes, não precisa se preocupar com isso. Logo, logo, ele vai voltar — disse Carlos, enquanto olhava para Maria. — Nossa prioridade agora é ficarmos aqui, e nos mantermos seguros, assim como o Enrique nos pediu antes.
Após alguns segundos, o silêncio pairou sobre o lugar. Carlos, vendo aquele silêncio sufocante:
— A propósito, o Enrique e a Comandante Katerina estão demorando demais. Será que aconteceu alguma coisa? — perguntou Carlos, enquanto olhava para Maria, que estava vasculhando um balcão de recepção empoeirado. — Já faz um tempo que eu não escuto o barulho do monstro, ou o som dos disparos da Comandante Katerina.
— O que você quer dizer com isso? — respondeu Maria, fazendo outra pergunta, enquanto olhava para Carlos. — Você, por acaso, está tentando dizer que eles podem estar mortos?
— Claro que não. Só perguntei por que estão demorando demais. Eu tenho certeza de que estão vivos — gritou Carlos, enquanto olhava para Maria. — Afinal, o Enrique é um soldado de elite, e a Katerina é ninguém menos que uma dos quatro comandantes do bunker.
Antes que Maria dissesse qualquer coisa, um som seco de garras arrastando contra o concreto ecoou de um canto escuro e esquecido do prédio.
— O que foi esse barulho? — sussurrou Maria, o coração disparando instantaneamente contra o peito. — Você também escutou, Carlos?
— Sim, eu escutei. Esqueça o que eu disse antes sobre ficarmos aqui. É melhor sairmos agora mesmo desse lugar, e irmos atrás do Arthur nos andares superiores — determinou Carlos, enquanto encarava a escuridão de onde veio o barulho.
— Acho que isso é uma excelente ideia — concordou Maria, enquanto se afastava, juntamente com Carlos.
No exato milésimo de segundo em que os irmãos viraram as costas para fugirem dali:
— SHHHHAAARRRGGGH!
Um zumbi irrompeu da escuridão absoluta do canto, com as mandíbulas escancaradas e os dedos decrépitos estendidos em direção ao pescoço de Carlos. O rapaz reagiu por puro instinto de sobrevivência. Em um movimento rápido e semicircular, ele desferiu um golpe brutal com seu bastão de pregos. Os pregos oxidados rasgaram a carne podre, e o impacto seco esmagou o crânio da criatura, fazendo o sangue fedido da criatura impregnar seu bastão e sujar sua camisa.
Logo em seguida, o corpo do zumbi desabou inerte no chão de concreto.
— Mas que merda...! Esse zumbi saiu do nada! — esbravejou Carlos, respirando fundo, enquanto a adrenalina de seu corpo subia, aumentando seus batimentos cardíacos.
— Você está bem? Não foi mordido? — perguntou Maria, se aproximando rapidamente de Carlos.
— Eu estou bem. Não precisa se preocupar — respondeu Carlos, sua respiração se estabilizando após o susto.
Ao se aproximar de Carlos, Maria olhou para o corpo do zumbi no chão.
— Será que esse zumbi fazia parte daquela orda que nós vimos bloqueando a ponte? — perguntou Maria, olhando com nojo para o cadáver.
— Não sei. Isso também não é importante agora. Só vamos sair daqui logo, antes que outro apareça — disse Carlos, enquanto segurava com força seu bastão de madeira, que estava coberto pelo sangue do zumbi.
Os dois começaram a correr em direção às escadarias, subindo às pressas para o andar onde Arthur havia ficado. Eles cruzaram o corredor e avistaram uma porta parcialmente aberta mais à frente. Logo em seguida, os dois avançaram e entraram no apartamento escuro.
No centro daquele lugar, perto de uma mesa quebrada e de costas para uma janela de vidro, Arthur estava sentado em uma cadeira de madeira velha. Ele estava estático, sua cabeça pendia levemente para a frente. Seus olhos estavam abertos, mas quase fechados em um semicírculo estático.
Após avistarem Arthur, os dois recuperaram brevemente um pouco do fôlego da correria.
— Arthur! Vamos sair logo desse lugar! — gritou Carlos, falando de forma apressada, enquanto tentava recuperar o fôlego. — Nós vimos zumbis no andar de baixo. É melhor sairmos rápido daqui, antes que mais deles apareçam!
“O que é isso? O que está acontecendo? Por que o Arthur não está se mexendo?“ — pensou Maria, enquanto olhava fixamente para Arthur.
Maria deu um passo à frente, indo em direção a Arthur, enquanto se perguntava por que ele não estava movendo uma única pálpebra ao ouvir os gritos de Carlos.
Enquanto caminhava lentamente em direção à cadeira onde Arthur estava, a luz da lua iluminou a escuridão daquele escuro apartamento, e os olhos de Carlos e de Maria se arregalaram ao presenciar uma cena horrível em sua frente.
Maria viu que Arthur estava morto, ao olhar para o chão ao seu redor e ver uma imensa poça de sangue ao redor da cadeira onde Arthur estava. Ela olhou para o chão e viu que estava pisando no sangue dele. E, antes de levantar seu rosto, seus olhos pararam brevemente numa imagem no chão, ao lado dos pés de Arthur. A imagem estava coberta pelo sangue, mas ainda dava para ver nela o rosto de uma mulher e de uma criança ao lado de Arthur.
— O que... O que está acontecendo aqui, Arthur? Você está bem? Responde, por favor! — perguntou Maria, a voz trêmula, enquanto ela se recusava a acreditar que ele estivesse morto. Mas, mesmo ela chamando seu nome, Arthur continuava imóvel, seu corpo gélido, ele permanecia em silêncio.
“O que foi que aconteceu com ele? Que droga está acontecendo nesse lugar? Isso não é bom. Isso pode ter sido feito por algum monstro. É melhor sairmos logo daqui.“ — pensou Carlos, enquanto olhava para o corpo de Arthur, que permanecia estático na cadeira.
No mesmo instante em que pensou isso, Carlos viu um vulto de algo sendo projetado na janela do prédio vizinho.
— Maria, sai de perto dele. Vem para cá! — gritou Carlos, o pavor travando sua garganta, ao notar aquele reflexo na janela.
Antes que Maria pudesse falar alguma coisa, ou sequer processasse o choque traumático da perda repentina, a grande vidraça da janela atrás da cadeira de Arthur explodiu em um estrondo catastrófico.
STHWACK-SHATTER-R-R!
Estilhaços de vidro choveram pelo quarto. E, pela janela estilhaçada, um tentáculo pontiagudo surgiu e cravou-se com violência diretamente na cabeça do cadáver de Arthur.
Com uma arrancada brutal e mecânica, o tentáculo puxou o corpo inerte de Arthur para fora do prédio, onde o cadáver começou a ser puxado em direção aos andares superiores.
“O que… O que foi isso?“ — se perguntou Maria, que ficou apavorada, os dedos de suas mãos começando a tremer, ao acabar de testemunhar aquela cena.
Logo em seguida, Carlos correu até a janela quebrada, ignorando os fragmentos cortantes dos vidros quebrados no chão. Ele olhou para cima e viu um monstro humanoide de dois metros de altura, que estava pendurado nas paredes do terceiro andar do prédio em que eles estavam. O monstro se sustentava com suas garras cravadas no concreto. A criatura possuía a pele pálida, era desprovida de olhos e exibia apenas uma grande mandíbula cheia de dentes.
“Mas que droga é essa coisa? De onde surgiu esse monstro? Droga, não tenho tempo para perder pensando isso. Tenho que fugir logo daquilo com a Maria.“ — pensou ele, enquanto olhava para a criatura.
A língua do monstro puxou o cadáver de Arthur diretamente para sua boca. E, com uma única e brutal mordida, a aberração mutante partiu os ossos do pescoço do cadáver, arrancando a cabeça de Arthur e engolindo-a por inteiro de uma vez só.
O restante do corpo decapitado e sem vida de Arthur foi descartado no ar, despencando de vários andares de altura, até colidir pesadamente contra o asfalto da rua abaixo, explodindo em uma grande mancha de carne e sangue.
— O que está acontecendo? — perguntou Maria, aproximando-se, após ter visto o corpo sem cabeça de Arthur despencar do prédio.
Sem dizer nada, Carlos virou o rosto no mesmo instante e fez um sinal dizendo para sua irmã fazer silêncio. Quando Carlos olhou de volta para cima, a criatura estava olhando para ele.
Ao notar que Carlos olhava para ela, a criatura abriu sua mandíbula, fazendo sangue pingar de sua boca e colidir diretamente com o rosto de Carlos.
— CRACK-CLK—HUUUUUURRRRRRRRGGGHHHH...
No mesmo instante em que a criatura rugiu, Carlos puxou o tronco de volta para dentro do quarto, com o rosto completamente pálido pelo pavor. Seus dedos tremiam.
— Que barulho foi esse agora pouco? — perguntou Maria, olhando para o rosto de pânico de Carlos, enquanto caminhava até ele.
— Corre… — sussurrou Carlos, olhando para Maria, enquanto fechava seu punho. — Maria, corre agora! — gritou ele, agarrando o pulso de Maria e disparando em fuga desesperada para fora daquele abatedouro.
Após alguns segundos, que Maria e Carlos deixaram aquele apartamento. A abominação apoiou suas garras longas na moldura da janela estilhaçada e impulsionou-se para dentro do quarto, iniciando uma perseguição implacável através dos corredores do edifício.
Após pouco tempo, eles já estavam descendo pelos degraus de concreto que levavam ao primeiro andar. No meio da descida, quando estava prestes a descer os últimos degraus, Maria tropeçou e desabou pesadamente no chão. Carlos travou os passos imediatamente e correu até sua irmã para socorrê-la. Ele a segurou firme pelos braços, ajudando-a a se levantar, e ambos continuaram a correr pelo corredor do andar inferior.
De repente, um estrondo monumental ecoou logo acima deles. O concreto do teto estilhaçou-se como se estivesse sendo escavado por uma broca colossal. Entre blocos de cimento e uma grossa nuvem de poeira secular, o mutante despencou do teto, pousando pesadamente exatamente na frente de Carlos e Maria.
Encurralados, os irmãos recuaram, enquanto se mantinham encarando fixamente os movimentos da criatura. Carlos posicionou-se na vanguarda, erguendo seu bastão de pregos oxidados na direção da criatura, enquanto usava o próprio corpo como escudo para proteger sua irmã mais velha.
— Maria... Eu vou tentar distrair esse monstro. Quando ele avançar em mim, você corre com tudo em direção à saída — sussurrou Carlos, sem desviar os olhos das mandíbulas salivantes do monstro.
— Não! Eu não vou deixar você para trás de jeito nenhum! — rebateu Maria, enquanto apertava o braço de seu irmão. — Eu sou a sua irmã mais velha. Sou eu quem tem o dever de proteger você!
Após a poeira baixar, o monstro começou a andar devagar em direção a Carlos e Maria.
— Nós não temos tempo para discutir, Maria! Vai logo! — esbravejou o rapaz, a adrenalina limpando qualquer hesitação. — Não se preocupe comigo... Eu vou logo em seguida. Eu prometo.
— Está bem, então… Eu vou te esperar do lado de fora, Carlos... Se você não vier...
Antes que ela pudesse completar a frase dolorosa, Carlos girou levemente o rosto e abriu um sorriso brando e reconfortante para ela.
— Não precisa se preocupar. Você esteve comigo a minha vida inteira, me protegendo e cuidando de mim desde o dia em que a nossa mãe morreu e o nosso pai nos abandonou. Dessa vez, eu é quem vou proteger você — disse Carlos com confiança, enquanto seu olhar determinado voltou a ficar fixo na abominação à frente. — Eu prometo para você, Maria... Eu não vou morrer aqui.
Emocionada e com o coração despedaçado pelo medo, mas confiando na promessa, Maria soltou o braço de seu irmão e correu desesperadamente em direção à saída do edifício.
Após Maria sair do edifício, o mutante desprovido de olhos flexionou as pernas e saltou com violência em direção a Carlos. O rapaz agiu com agilidade, jogando o corpo para o lado, desviando das garras do monstro. Após errar seu alvo, a criatura colidiu contra um velho balcão de recepção de concreto, destruindo a estrutura com suas garras pesadas.
— Droga... Eu preciso sair vivo daqui, mas agora pouco eu quase não consigo desviar a tempo desse monstro — murmurou Carlos, entre dentes.
"Não, eu não vou desistir, não depois de ter prometido à minha irmã que sobreviveria. Isso vai ser difícil, mas sei que pelo menos consigo desviar dos ataques dele. Só preciso aguentar o máximo que eu conseguir" —pensou Carlos, enquanto se preparava para reagir a qualquer movimento do monstro.
Carlos encarou a abominação e assumiu uma postura onde ele segurou o bastão de madeira firmemente com as duas mãos, esperando pelo próximo ataque. A abominação girou o corpo com ágilidade, preparando-se para um novo ataque.
O monstro pulou novamente, com as mandíbulas escancaradas. Carlos tentou desviar para a esquerda, mas o monstro foi mais ágil, e suas garras rasgaram o ar e, de raspão, a criatura abriu cortes profundos na carne da perna do jovem. O sangue começou a escorrer rapidamente, ensopando sua calça rasgada. Apesar da dor excruciante que ameaçava fazê-lo desabar, Carlos cerrou os dentes e manteve a calma.
“Merda... Esse maldito me feriu. Isso está doendo demais, mas acho que ainda consigo aguentar.“ — pensou Carlos, a mente trabalhando sob a adrenalina do horror.
— Maldição, lá vem esse monstro de novo — disse Carlos, a si mesmo, ao ver o monstro vindo em sua direção.
“Essa foi por pouco! Se eu não tivesse reagido a tempo e desviado no último segundo, ele teria arrancado a minha perna. Merda! Que se foda, estou prestes a morrer mesmo. Então que diferença faz ficar só desviando? Dessa vez, eu vou tentar contra-atacar”, pensou ele, olhando brevemente para o sangue que não parava de sair de sua perna.
Decidido a não ser apenas uma presa passiva, Carlos avançou em um contra-ataque feroz. Contudo, o mutante reagiu com uma mecânica brutal. Sua boca escancarou-se, e a língua-tentáculo disparou como um arpão, perfurando o ombro direito do rapaz de um lado ao outro.
— AAAARRGH! — Carlos soltou um grito lancinante de agonia pura, que ecoou pelas paredes do prédio.
O impacto e o rasgo nos nervos fizeram seus dedos perderem completamente a força, deixando o braço direito inerte e dormente. A língua da criatura começou a se contrair, puxando o corpo de Carlos diretamente em direção às suas fileiras de dentes apodrecidos.
“Não, não... Se eu não fizer nada, eu vou acabar morrendo.“ —pensou Carlos, enquanto era puxado pela língua da criatura.
Em puro desespero diante da morte iminente, Carlos usou o braço esquerdo livre para erguer o bastão de pregos e desferir um golpe violento contra o crânio da abominação. O impacto foi forte, mas os pregos oxidados ficaram tragicamente cravados no osso rígido da cabeça do monstro. Ele tentou puxar a madeira de volta, mas o bastão não saia.
“Ahg... Meu corpo está ficando dormente. Esse desgraçado deve ter injetado alguma toxina de paralisação em mim” —pensou Carlos, suas mãos perdendo as forças e soltando o bastão de madeira que continuou cravado na cabeça do monstro.
A criatura pálida estabilizou-se e abriu a mandíbula principal, preparando-se para decepar a cabeça de Carlos com uma única mordida.
BOOM-CRAAAAASH!
Antes que os dentes do monstro cravassem e arrancassem a cabeça de Carlos, um feixe de energia luminosa cortou a penumbra do lugar. O projétil de energia concentrada atingiu o crânio do mutante com precisão cirúrgica, explodindo sua cabeça inteira em uma chuva de carne podre e sangue.
O corpo massivo e sem cabeça do monstro desabou sem vida para o lado. E com as mãos trêmulas pela paralisia, Carlos puxou a língua da criatura de seu ombro e a jogou para o lado. O sangue começou a escorrer do ferimento e encharcou sua camisa.
Katerina abaixou o rifle pesado, com a fumaça mística ainda subindo do cano da arma. Logo em seguida, Enrique chegou correndo, com Maria vindo logo atrás dele. Ao ver o irmão vivo e de pé, Maria rompeu em prantos e correu em sua direção, envolvendo-o em um abraço apertado e desesperado.
— Seu idiota! Você realmente ia morrer, mesmo tendo me prometido que não morreria! Eu nunca mais vou acreditar em você! — exclamava Maria, entre lágrimas pesadas, enquanto abraçava seu irmão.
“Haha... Acho que consegui sobreviver. Se bem que foi apenas sorte. Se não fosse pela Comandante Katerina, eu realmente teria morrido... Só espero ter a mesma sorte se isso acontecer de novo” —pensou ele, dando um gemido de dor logo em seguida, após Maria tocar em seu ferimento.
Carlos forçou um sorriso fraco, sentindo o alívio da sobrevivência lavar seu corpo.
“Droga… Lá se vai a energia que eu estava guardando para uma emergência. Tsc… Pelo menos, consegui salvar esse imbecil. O que ele tinha na cabeça ao decidir enfrentar essa coisa… Esquece. É melhor eu verificar se esse monstro está morto. Se ele ainda estiver vivo, vai ser um problema, já que não tenho mais energia nesse momento.“ — pensou Katerina, estressada com toda aquela situação e ainda martelando mentalmente o porquê de ter sentido aquela presença quando acordou.
Katerina caminhou com passos firmes até o cadáver do mutante. Ela manteve a guarda alta por alguns instantes, inspecionando detalhadamente os tecidos desfeitos para conferir se o monstro daria qualquer sinal de regeneração. Ao notar que o corpo permanecia estático e sem vida, ela jogou o rifle pesado nas costas com um estalo preciso e ajeitou seu quepe.
— Certo, pessoal. Vamos embora rápido daqui, antes que apareçam mais monstros — ordenou Katerina, a voz gélida, mantendo a autoridade militar de sempre.
Em seus pensamentos, contudo, a preocupação tática começava a rastejar. “Merda… Por causa do barulho da minha luta contra aquela aberração, agora tem monstros por toda parte. E, para piorar tudo, agora temos até um ferido para aumentar nosso fardo. Que inferno. Por que nada nunca é fácil para mim? A Comandante Lara deveria ter mandado o Comandante Raven nessa expedição, já que ele e mais acostumado com esse tipo de lugar.“ — pensou Katerina, estalando a língua, enquanto seu rosto denunciava sua irritação.
“Hum… Pela cara assustadora que ela está fazendo, sem dúvidas, ela está irritada. É melhor eu ir para longe dela, antes que ela comece a descontar sua frustração em mim.“ — pensou Enrique, enquanto olhava para o rosto de Katerina, notando a frustração da Comandante.
Enrique aproximou-se de Carlos e Maria, ele começou a olhar para os lados, com o cenho franzido.
“Agora que eu parei para pensar, não estou vendo o Arthur em lugar nenhum. Será que ele se escondeu em algum lugar… Não… Conheço ele há pouco tempo, mas, pelo jeito dele, ele não parece ser o tipo de pessoa que se esconderia em uma situação dessas. Ainda mais com seus amigos estando em perigo.“ — pensou Enrique, enquanto observava o lugar e caminhava em direção a Carlos e Maria.
— Maria... Cadê o Arthur? Ele não estava com vocês quando eu saí? — perguntou Enrique, olhando fixamente no rosto de Maria.
Maria desfez lentamente o abraço de Carlos. Ela abaixou a cabeça, e sua voz soou extremamente baixa, trêmula e carregada de uma tristeza profunda.
— O Arthur... Ele morreu. Aquele monstro o matou.
Enrique travou no lugar, o choque empalideceu suas feições, enquanto seus olhos se arregalaram ao ouvir a notícia repentina. Logo em seguida, ao ouvir que Arthur foi morto pelo monstro, Enrique relembrou de sua mãe sendo morta por um monstro, enquanto ele ainda criança observava, sem poder fazer nada.
“Então, ele também morreu. É por isso que eu tenho tanto medo dos monstros. Não porque eles podem me matar, mas porque eles me tiraram tudo aquilo que eu mais amava.“ — pensou Enrique, fechando os punhos com força.
— Eu… Eu sinto muito por vocês... Eu sei que vocês eram amigos muito próximos dele — sussurrou Enrique, com o olhar fixo, observando o chão.
— Obrigado — agradeceu Maria, seu rosto sendo tomado pela tristeza, ao relembrar de Arthur.
Katerina fechou seus olhos e expandiu sua percepção até onde sua energia a permitia. Ela viu dezenas de monstros se aproximando do edifício onde eles estavam.
“Mas que merda, esses malditos não vão nos dar descanso, não.“ — pensou ela, irritada, mas cansada demais para expressar isso com palavras.
— Isso é realmente uma tragédia, e eu sinto muito por vocês dois — interveio Katerina, o tom de voz pragmático cortando o clima pesado. — Mas vamos logo sair deste abatedouro, antes que nós também sejamos mortos pelos monstros que estão vindo em direção a esse lugar.
— Mas e quanto ao corpo do Arthur? — perguntou Maria, enquanto olhava fixamente para Katerina. — Nós não podemos simplesmente deixá-lo aqui para virar comida de monstros.
— Tsc… Não temos tempo a perder enterrando ou queimando o corpo dele. Eu estou sem energia e já não consigo entrar em combate, por isso, se não sairmos logo daqui, vamos todos acabar morrendo. Em situações como essa, mesmo que seja doloroso admitir, nossa única escolha é sair daqui e deixá-lo para trás — explicou Katerina, irritada por todo o fardo da missão e das vidas de Carlos e Maria estarem em suas mãos.
— Mas, senhorita Katerina, nós...
Maria foi interrompida por um rugido ensurdecedor vindo de longe, ecoando pelo prédio, fazendo as paredes de concreto estremecerem.
— Fique à vontade para ficar aqui se você quiser. Para mim, essa missão já foi um fracasso, então estou dando o fora — disse Katerina, encarando Maria com frieza.
— Tudo bem... Eu vou — disse Maria, o rosto tomado pela angústia de ter que deixar o corpo de Arthur para trás.
— Ótimo. Então vamos logo para o mais longe possível dessas coisas — ordenou Katerina, virando as costas e dando alguns passos à frente.
Maria rapidamente rasgou tiras de panos velhos e amarrou os ferimentos de seu irmão como uma forma improvisada de estancar o sangramento.
— Enrique, você poderia ajudar o Carlos a caminhar para mim? — pediu Maria, enquanto olhava para ele.
— Não precisa, eu consigo andar sozinho — comentou Carlos, com um tom de voz que mostrava que ele não queria ser carregado.
— Claro, eu posso ajudá-lo sem problema nenhum — disse Enrique, enquanto ele e Maria ignoravam o que Carlos estava falando.
Então, o grupo alinhou-se rapidamente. Arthur estava morto, e o ombro de Carlos precisava de cuidados urgentes. Eles cruzaram a soleira da entrada do prédio residencial em ruínas e iniciaram uma marcha forçada e silenciosa, partindo em velocidade constante em direção à saída daquela perigosa cidade amaldiçoada.
Fim do Capítulo 15