Capítulo 16: O Visitante
Bem distante de onde o grupo da expedição se encontrava, Penny flutuava sob o céu limpo. Após ressuscitar Katerina, ela distorceu o espaço-tempo para se materializar acima de uma pequena e isolada ilha costeira, um lugar que, a algumas décadas atrás, era um lugar de férias, mas que agora exibia apenas a decadência do novo mundo pós-apocalíptico.
Penny começou a olhar para baixo, vendo pontos negros. Ela percebeu, no mesmo instante, que eram pessoas andando pela ilha. Ela olhou para a praia e viu casas de madeira perto de coqueiros. Ela focou seus olhos e viu duas pessoas rindo, felizes.
“Que lugar horrível. Não pensei que teriam tantos humanos em um lugar como esse.“ — pensou ela, parando de olhar para baixo e olhando brevemente para as nuvens à frente.
— Tenho certeza de que esta ilha é o local que aquele humano que eu matei estava tentando alcançar — murmurou Penny, voltando a olhar para baixo. — Acho que eu vou dar um passeio por esse lugar. Talvez eu até encontre algo interessante aqui.
Ativando suas habilidades, Penny tornou-se invisível e intangível. Ela desapareceu instantaneamente do céu e reapareceu no chão, em meio às cabanas de madeira. Ela avançou sua marcha e, após alguns minutos, à medida que caminhava entre os habitantes locais, ela começou a ficar inquieta com o silêncio do lugar.
— Que estranho... Já faz um bom tempo que estou andando e não vi nenhum civil por aqui. Tudo o que vejo são esses humanos armados que não param de andar de um lado para outro — comentou Penny consigo mesma, enquanto continuava a sua caminhada.
“Hum… Como eu pude pensar que algo nesse lugar poderia ser divertido? Eu só estou perdendo meu tempo aqui. É melhor eu voltar logo à procura por aqueles monstros.“ — pensou Penny, enquanto continuava sua marcha, passando tranquilamente por um grupo de homens armados e mal-encarados.
— Hum… Observando agora, esse lugar me lembra muito aquele bunker fedorento. Se bem que lá tem velhos, mulheres e crianças. Aqui só tem esses imbecis armados — disse Penny, olhando para um grupos de homens armados que estavam jogando um tipo de jogo de dados.
Antes que Penny fosse embora, enquanto ela passava perto de uma das cabanas de madeira:
— AAAAAAHHHH!
Um eco de gritos desesperados vinha do interior de uma grande cabana de madeira escura. Do lado da cabana tinha dois homens armados que pareciam vigiar o perímetro.
— Tsc. Parece que outro infiltrado foi descoberto — comentou um dos homens armados, enquanto olhava para seu companheiro ao seu lado.
— Ultimamente, têm aparecido muitos espiões, né? Será que aqueles tais comandantes das bases de sobreviventes estão planejando alguma coisa? — perguntou seu companheiro, enquanto olhava para a cabana de onde vinham os gritos.
— Não sei. Também pouco me importa. E aconselho você a ignorar tudo o que ver ou ouvir nesse lugar. Eu já vi muitos de meus companheiros sendo mortos por ficarem tagarelando sobre conversas que eles ouviram dos superiores — disse o homem, sua voz soando séria, enquanto ele explicava a situação para seu companheiro.
— Isso é sério? — gritou o companheiro, ao terminar de ouvir o aviso.
— Fala baixo, se não, alguém vai acabar nos escutando — disse o homem para seu companheiro, enquanto olhava para os lados conferindo se ninguém havia escutado.
Penny, que estava olhando para aqueles dois desde que começaram a conversar, voltou seu olhar para a cabana e deu um breve sorriso.
“Infiltrado, é?… Isso parece interessante. Finalmente, algo divertido está começando a acontecer nesse lugar.“ — pensou ela, olhando para a cabana de madeira de onde vinham os gritos.
Curiosa, Penny desapareceu, teleportando-se e reaparecendo no mesmo instante dentro da cabana de onde vinham os gritos.
O ar ali dentro era denso, impregnado pelo cheiro de mofo, suor e pavor. No chão, uma mulher sobrevivente sofria uma violência brutal nas mãos de dois agressores, lutando debilmente por ar, enquanto um deles apertava sua garganta com força, silenciando seus clamores. Afastado da cena, um terceiro homem assistia a tudo friamente, sentado em uma cadeira.
— Senhor — disse um dos homens que estava perto da mulher que estava sendo agredida.
— O que foi? — respondeu o homem sentado na cadeira, observando tudo aquilo.
— Nós já tentamos de tudo, mas parece que ela não quer falar nada. O que nós fazemos com ela agora? — perguntou o homem, com a cabeça baixa, olhando para o chão.
— Se bater nela não está fazendo ela falar, então matem ela — respondeu o homem sentado na cadeira, sem nem piscar.
— Nesse caso, senhor, antes de matá-la, nós poderíamos brincar um pouco com ela. É bem difícil nós vermos uma mulher em nossa facção — perguntou o homem, dando um sorriso, enquanto olhava para o homem sentado na cadeira.
— Você está querendo morrer? — disse o homem sentado na cadeira, sua voz fez o ar ficar pesado. — Se eu disse para matá-la, obedeça minhas ordens, ou é difícil para você fazer isso?
— De maneira nenhuma, senhor. Eu peço que me perdoe — disse o homem. Ele olhava para o chão, enquanto suor escorria de sua testa.
— E mais uma coisa — disse o homem sentado na cadeira.
— Pois não, senhor — respondeu o homem perto da mulher que estava sendo sufocada.
— Se algum dia você repetir esse mesmo erro, eu te mato — disse o homem sentado na cadeira, seus olhos se arregalando brevemente no final de seu aviso.
Penny, que assistiu a toda aquela cena, estava olhando fixamente para uma parede, fazendo uma expressão de paisagem, como se estivesse vendo algo entediante.
— Hum… Eu pensei que seria algo divertido, mas isso aqui não tem graça nenhuma — disse Penny consigo mesma, enquanto olhava para o homem que sufocava a mulher. — Fala sério... Eu sei que tem muitas dessas cenas de donzelas em perigo em toda história para onde eu vou, mas, nessa história, isso parece estar se tornando um hábito irritante.
Penny olhou fixamente para a mulher que estava sendo sufocada. Ela viu que a mulher estava com partes de suas roupas rasgadas, e com manchas roxas aparecendo nesses lugares onde sua roupa estava rasgada. E, enquanto o homem apertava o pescoço dela, a mulher segurava as mãos dele, tentando tirá-las de seu pescoço.
“Hum… Eu poderia facilmente matar todos esses insetos e ajudar essa humana, mas não estou a fim. Ela que se vire por conta própria. Eu já perdi tempo demais nesse lugar.“ — pensou Penny, enquanto olhava brevemente para o homem sentado na cadeira, enquanto assistia a toda aquela situação.
Penny caminhou para frente, aproximando-se de uma parede rústica para atravessá-la com sua intangibilidade. Mas, antes que ela atravessasse a parede, a porta de madeira rangeu. Um homem encapuzado entrou pela porta. Ele retirou seu capuz, revelando seu rosto que estava pálido. Ele marchou apressadamente até o homem sentado.
— Chefe! O plano deu errado! — exclamou o recém-chegado, a voz trêmula de tensão. — Parece que o Gideon está morto. Eu vi o jipe dele capotado no caminho para cá, e o motorista estava sem vida... Mas não consegui encontrar o corpo do Gideon em lugar nenhum.
O homem sentado na cadeira fez uma expressão séria, enquanto olhava fixamente para o homem encapuzado.
— Você está brincando comigo?! — esbravejou o homem sentado, sem desfazer sua postura imponente. — Você acha mesmo que eu vou acreditar que alguém como o Gideon morreria no caminho para a cidade em ruínas? É melhor você começar a explicar isso direito, se não quiser morrer.
“Tsc. Esse maldito… fica se achando só porque é o líder desse lugarzinho. Se não fosse pela minha cabeça, eu iria adorar ver esse maldito sendo morto pelo líder da nossa facção. Merda, não tenho tempo para isso. Esse plano já deu errado, e se eu não agir logo, não apenas esse maldito, mas eu também vou ser morto.“ — pensou o homem recém-chegado, enquanto olhava brevemente para o chão.
Penny, vendo aquela situação, parou no mesmo lugar, sem dar mais nem um passo em direção à parede. Seus olhos estavam virados para o lado, de forma sinistra.
— Como eu dizia antes, eu não sei o que matou ele, mas toda aquela área estava destruída. Tinha enormes fendas que rasgavam o chão. Parecia até que um terremoto fez tudo aquilo, mas isso não faz sentido nenhum — explicou o homem, dando um passo para trás, ao olhar para o homem sentado e ver a expressão fria que estava em seu rosto.
“Merda… Pela expressão desse maldito, ele vai me matar a qualquer momento, se eu não disser algo que o satisfaça logo.“ — pensou ele, enquanto encarava o rosto do homem sentado, que permanecia em silêncio.
— Bem… Como não achei o corpo dele, só estou supondo que ele possa estar morto. Talvez ele nem tenha estado naquele jipe, já que o corpo dele não estava em canto nenhum — disse o homem, enquanto olhava para seu superior, que não desfazia a expressão assustadora que estava fazendo.
Do nada o líder soltou um riso nasalado, desdenhoso, enquanto relaxava seus ombros.
— Bem, tanto faz. Não importa se ele morreu. De qualquer forma, nós iríamos matá-lo de qualquer jeito, assim que assumíssemos o controle daquela base. Ele era apenas uma peça para nos ajudar em nossos planos — disse o homem sentado, enquanto sorria levemente.
O homem sentado fez um gesto desdenhoso na direção dos bandidos, que pararam a agressão contra a mulher para ouvir o relatório. Logo em seguida, ele voltou sua atenção para o homem à sua frente.
— Agora que o plano fracassou, tudo o que nos resta é achar uma forma de satisfazer o líder de nossa organização. Por isso, vamos nos preparar e atacar uma daquelas bases de sobreviventes — disse o homem sentado, voltando à sua pose de imponência.
— Mas, senhor, isso não é muito arriscado? Afinal, naqueles abrigos de sobreviventes, têm aqueles comandantes que possuem poderes estranhos — perguntou o homem, enquanto olhava para seu superior.
— Não precisa se preocupar com isso agora. Vamos nos organizar primeiro e, depois, iremos planejar o que fazer em relação a eles — respondeu o homem sentado na cadeira.
“Tsc. Esse desgraçado, ele só pode estar querendo matar todos nós. Hum… se bem que ele tem razão, se já vamos morrer de qualquer forma pelo líder de nossa organização, é melhor tentarmos atacar um daqueles abrigos de sobreviventes, se tivermos sucesso podemos compensar pelo fracasso da missão” — pensou o homem, após ouvir a alternativa que seu superior sugeriu.
— Eu não estou querendo discordar de sua decisão, senhor, mas não acho que todos nós, mesmo que reunidos, vamos ter alguma chance contra algum daqueles comandantes — questionou o lacaio, olhando para o homem sentado que parecia pensativo.
— Como eu disse antes, vamos primeiro nos organizar, e depois iremos planejar como iremos enfrentar aqueles comandantes — respondeu o homem sentado, enquanto continuava com uma aparência pensativa.
“Hum… se não podemos vencer eles na força, podemos tentar outras alternativas, talvez envenenar a água potável deles, isso não seria difícil ja que temos espiões infiltrados lá, mas isso não mataria todos aqueles malditos, só deixaria eles ainda mais em alerta. Droga…Preciso pensar logo em uma solução”, pensou o homem sentado, enquanto fazia uma expressão de frustração.
Após alguns segundos sem ninguém falar nada, o silêncio começou a pesar sobre o lugar, sendo quebrado quando o homem vestido em um manto negro com capuz olhou para a mulher estática no chão.
— Quem é essa mulher? — perguntou ele, enquanto olhava, curioso, para a mulher no chão.
— Ela é apenas uma infiltrada que nós capturamos. Aparentemente, ela estava disfarçada de homem — respondeu o homem sentado, enquanto olhava brevemente para a mulher no chão. — Mas, por que a pergunta?
— Não é nada, não. É que, na minha missão, um de meus aliados também era um infiltrado — respondeu o homem, voltando a olhar para o líder que estava sentado.
Ouvindo a conversa dos criminosos, as engrenagens na mente de Penny travaram. Um sorriso imenso e macabro se abriu no rosto dela.
“Quer dizer que esses vermes são cúmplices daquele maldito que eu mandei para o inferno? Isso é ótimo! Agora, eu tenho um excelente motivo para acabar com todos esses insetos. Estou até empolgada agora.“ — pensou Penny, enquanto suas pupilas começavam a brilhar intensamente.
— Matá-los usando monstros seria divertido de se assistir, mas vai demorar muito, e eu já estou sem tempo. Acho que, desta vez, vou apenas eliminá-los rapidamente. Assim, posso voltar à minha procura — disse Penny consigo mesma, enquanto olhava para o homem sentado que continuava conversando com o outro homem.
Penny focou sua percepção, estendendo sua autoridade invisível por toda a extensão da ilha. Em sua mente, surgiram pontos de luzes amarelas, que representavam todos os seres vivos daquela ilha.
“Mas vejam só… Parece que existe mais desses insetos do que eu imaginava. De qualquer forma…”
— Explodam — ordenou ela, em um sussurro manso.
CRASH-BOOM!
O comando metafísico agiu instantaneamente e em perfeita sincronia. O corpo do chefe sentado no trono foi o primeiro a colapsar, expandindo-se em uma fração de milésimo de segundo antes de detonar violentamente. Uma chuva de carne, vísceras e sangue salpicou o recinto, com pedaços grudando nas paredes e no teto de madeira.
— O… o que foi isso? — gritou o homem que estava conversando antes com o homem que estava sentado. Mas, logo após dizer isso, ele também explodiu.
Logo em seguida, o bandido que estava perto da mulher sofreu o mesmo destino, um segundo depois: a metade superior de seu tronco explodiu em trilhões de partículas sangrentas, que choveram sobre aquele lugar, pintando o chão de vermelho, e o restante de seu corpo desabou inerte sobre a mulher que estava desacordada no chão.
Do lado de fora da cabana, o cenário de horror repetiu-se em massa. Uma sinfonia de detonações ecoou em cadeia por toda a ilha, com os corpos de centenas de bandidos explodindo um após o outro, transformando o acampamento inteiro em um abatedouro silencioso sob a luz do fim de tarde.
— Que barulho foi esse…
Antes que o bandido pudesse terminar a frase, seu tórax expandiu-se e explodiu brutalmente, acompanhado por seu companheiro que estava ao seu lado, seguindo pelos outros grupos mais à frente. Após o massacre, a areia de quase toda a praia daquela ilha, estava coberta de sangue.
— Parece que todos já estão mortos — comentou Penny consigo mesma. — É bem chato matar alguém assim, de forma rápida, mas, de qualquer forma, preciso terminar o que estou fazendo e voltar logo para aquele bunker.
Enquanto dava breves passos pelo interior daquela cabana, os olhos de Penny pousaram sobre a mulher que estava estática no chão.
— Hum… Parece que essa humana está morta. Tanto faz, isso não é da minha conta, de qualquer forma — disse Penny, atravessando a parede logo em seguida.
“Agora, onde eu vou conseguir encontrar mais daqueles monstros?“ — pensou Penny, enquanto fechava os olhos, estendendo sua percepção pelo planeta inteiro instantaneamente.
No mesmo instante em que sua percepção cobriu o mundo inteiro, ela achou os monstros que procurava instantaneamente.
“Achei. Isso foi mais fácil do que eu imaginava. Eu deveria ter feito isso desde o início.“ — pensou Penny, abrindo os olhos e desaparecendo no mesmo instante.
Longe da ilha à qual estava antes, Penny materializou-se, flutuando alto no céu de uma cidade gigantesca e desconhecida. Ela olhou para baixo e, no mesmo segundo, seus olhos amarelos depararam-se imediatamente com várias abominações massivas, que exibiam bocas grotescas e repletas de dentes no lugar das órbitas oculares. Os monstros caminhavam entre as ruínas, como se fossem um grupo.
— Vejam só... Exatamente os monstros que eu estava procurando! — exclamou Penny, abrindo um sorriso alegre.
Penny estendeu sua mão em direção aos monstros. Seus olhos se incendiaram em dourado, enquanto ela encarava os monstros e abria um sorriso cheio de empolgação.
— Haha… Vamos começar o espetáculo.
Enquanto isso, bem longe dali, a realidade do grupo da expedição era de puro esgotamento. Enrique, Maria, Carlos e Katerina avançavam a passos lentos, aproximando-se cada vez mais da saída daquela área infestada de monstros. E, enquanto caminhava, Maria notou que eles vieram por uma rota completamente diferente de antes.
— Nós conseguimos atravessar a cidade em ruínas bem mais rápido dessa vez. Só levou algumas horas — comentou Maria, enquanto continuava a caminhar.
— Isso é porque, dessa vez, nós viemos pelo caminho que já tínhamos planejado antes, mas que não deu certo por causa daquela horda de zumbis bloqueando a ponte. Se não fosse por isso, essa missão teria sido bem mais fácil. — respondeu Katerina, que caminhava mais à frente.
Maria ficou em silêncio, enquanto continuava a caminhar, e sua mente se perdia em pensamentos.
“Talvez, se tivéssemos vindo pela rota planejada desde o início, o Arthur ainda estivesse vivo.“ — pensou Maria. Uma leve lembrança da foto perto da cadeira onde Arthur estava veio rapidamente em sua mente. “Pensando agora, quem eram aquelas pessoas naquela foto que eu vi perto dele? Será que eram sua esposa e sua filha?“
O grupo marchou por alguns minutos até que saíram da zona dos monstros. E, logo mais à frente, eles pararam por alguns minutos para recuperar o fôlego.
— Parece que conseguimos chegar até aqui sem muitos problemas... — comentou Enrique, olhando para frente, onde Katerina estava.
— Não há muito o que comemorar — respondeu Katerina, enquanto fazia a varredura dos arredores com seus poderes.
“Hum… Parece que ela já está começando a se irritar de novo. Acho que não vou mais tentar conversar com ela de agora para frente, não. Pelo menos, não até voltarmos para o bunker.“ — pensou Enrique, enquanto continuava olhando para o rosto de Katerina.
— Por que a senhora diz isso? — perguntou Maria, olhando para Katerina, que tinha terminado de fazer a varredura. — Nós conseguimos sobreviver e chegar até aqui vivos. Acho que isso, por si só, já deve ser mais que o suficiente para compensar tudo o que passamos.
— Você tem razão, sobrevivemos. Mas, que sentido teve essa missão? Passamos por acontecimentos que nos fizeram desviar várias vezes de nossa rota principal, não encontramos nada no laboratório e, para piorar tudo, ainda perdemos um dos nossos — explicou Katerina, seu rosto demonstrando uma leve irritação.
Sem conseguirem dizer nada diante de tudo que Katerina desabafou, todos permaneceram em um silêncio sufocante por alguns segundos.
“Acho que acabei falando demais no calor do momento. De qualquer forma, é bom eles ouvirem isso pelo próprio bem deles.“ — pensou Katerina, olhando brevemente para Carlos, que estava com um rosto pálido pela perda de sangue.
— Se meu corpo não tivesse recuperado um pouco da minha energia para fazer as varreduras por onde passávamos, nós teríamos nos deparado com monstros no caminho, e, a essa altura, todos já estaríamos mortos — disse Katerina, enquanto olhava seriamente para Maria. — O que estou querendo dizer é que, Maria, você e seu irmão deveriam parar de vir nessas expedições perigosas. Seu irmão já quase foi morto. Talvez, na próxima, ele ou você não tenham as mesmas chances.
Maria olhou para o chão, enquanto sua mente relembrava todas as dificuldades que tiveram durante as missões.
“Talvez ela esteja certa… Já perdemos nossa mãe, e o nosso pai nem deve estar mais vivo mesmo. Acho que é melhor pararmos de vir nessas missões, antes que eu acabe perdendo meu irmão também.“ — pensou Maria, virando o rosto e olhando para seu irmão, que, ao ver o rosto preocupado de sua irmã, deu um sorriso forçado, tentando parecer bem.
— Certo pessoal, todos já descansaram o suficiente, então vamos continuar — ordenou Katerina, enquanto olhava para o grupo.
Em seguida o grupo seguiu marcha, seus corpos cada vez mais exaustos pela caminhada e por tudo que tiveram que passar. E, após quase uma hora seguindo viagem, eles já estava quase saindo da área ao redor da cidade em ruínas. Mas, antes que pudessem cruzar o limite final das ruínas, os passos de Maria travaram no asfalto. Ela ouviu os ecos abafados do choro que se misturavam aos pedidos de ajuda, que pareciam pertencer a uma criança.
— Vocês também ouviram isso? — perguntou Maria, enquanto permanecia concentrada, tentando ouvir novamente.
“Como se desse para ouvir alguma coisa com esses barulhos horríveis dos gritos de monstros vindo daquela maldita cidade.“ — resmungou Enrique mentalmente, enquanto ajudava Carlos a caminhar e olhava para a cidade em ruínas, de onde vinham gritos de monstros sob a luz do pôr do sol.
— Sim, eu ouvi — respondeu Katerina, olhando para as casas velhas ao redor, tentando achar de onde vinham aqueles sons.
— Hum… Parece o choro de uma criança, e eles parecem estar vindo daquela casa ali — disse Maria, apontando para uma casa velha que não tinha porta nem janelas, cujo interior era uma escuridão macabra que dava arrepios só de olhar.
Katerina semicerrou os olhos sob a aba de seu quepe militar. Ela expandiu sua percepção na direção da cabana e viu, em sua mente, imagens de uma criança chorando.
“Pelas assinaturas de energia, não é um monstro. Parece ser uma criança normal, mas, como uma criança veio parar aqui? Hum… É melhor eu não pensar muito nisso. Minha cabeça já está doendo por causa de tanta coisa. É melhor deixar esse assunto quieto por enquanto.“ — pensou Katerina, abrindo seus olhos, enquanto olhava para a cabana macabra.
— Então, Comandante Katerina, a senhora viu se era um monstro? — perguntou Enrique, enquanto olhava para Katerina.
— Vi. E, por incrível que pareça, não é um monstro. As assinaturas de energia que detectei apontam para um ser humano real — respondeu Katerina, enquanto cruzava os braços.
— Se é uma criança mesmo, quem vai lá buscar ela? Eu não posso, como a senhora pode ver, estou ajudando o Carlos — comentou Enrique, olhando para a casa de aparência macabra sob a luz do pôr do sol.
“Nem fudendo que, depois de tanta coisa que já aconteceu, eu vou entrar num lugar horrível desses.“ — pensou ele, enquanto olhava para Katerina.
— Eu buscaria ela, mas não me dou muito bem com crianças — respondeu Katerina, enquanto as lembranças de uma criança chorando apareceram em sua mente, onde ela olhava de forma normal para uma criança, e a criança chorava do nada.
— Hum… Já que não é um monstro, então eu vou lá buscar a criança — determinou Maria, olhando para os dois e achando que eles estavam com preguiça de irem até lá.
— É mesmo seguro ir até lá? — perguntou Carlos, o cenho franzido em preocupação por sua irmã, enquanto ele apertava o ombro ferido.
— Você deve estar duvidando de mim por causa do que aconteceu antes com aquele monstro com aparência de cervo, certo? — perguntou Katerina, enquanto olhava de canto para Carlos.
— Hum… — limitou-se a dizer Carlos, provando para Katerina que seu palpite estava certo.
— Não precisa se preocupar. Dessa vez, eu tenho certeza de que não é um monstro — acalmou Katerina, fechando os olhos e conferindo mais uma vez. — Para ter certeza, eu já chequei o perímetro inteiro, e não há assinaturas de monstros em lugar nenhum de onde estamos. Além disso, nós já estamos muito distante da zona de caça dos monstros.
— Se a senhora está dizendo isso com tanta confiança, então acho que vou acreditar — cedeu Carlos, enquanto relembrava que foi Katerina quem o salvou.
Após chegar até a escuridão da entrada, Maria adentrou a penumbra da casa, andando a passos lentos, sem conseguir ver nada no escuro. O chão estava coberto de poeira e escombros de concreto, onde Maria quase tropeçou em um pedaço de concreto. Após entrar fundo na casa, Maria se aproximou do centro de um quarto velho, que era iluminado pela luz do pôr do sol, que entrava por um enorme buraco na parede, onde costumava ficar a janela. E, perto de onde ficava a janela, Maria viu um garotinho que aparentava ter cerca de dez anos de idade. Ele estava de joelhos, soltando soluços baixos e trêmulos, com o rosto escondido entre as mãos. E ele estava chorando ao lado do cadáver de uma mulher. Onde o piso ao redor do cadáver, estava manchado de sangue.
Ao presenciar a cena, o coração de Maria apertou-se. Ela relembrou brevemente de quando era criança, onde ela chorava pela morte de sua mãe. Em suas lembranças, ela relembrou ate dos dias em que se perguntava a si mesma o porquê de seu pai nunca estava em casa, onde ela se perguntava, se seu pai não gostava dela e de seu irmão.
Após relembrar isso, Maria abriu seus olhos e olhou novamente para a criança que continuava chorando, sem olhar para ela.
“O que será que aconteceu aqui?“ — perguntou-se ela mentalmente, enquanto olhava para as marcas de mordida de monstros, que apareciam no corpo da mulher morta. “Será que essa pessoa era a mãe dele? Hum… O que eu estou fazendo? Isso não importa agora. O importante agora é que preciso tirar logo essa criança desse lugar perigoso.“
Com movimentos suaves para não assustá-lo, Maria aproximou-se a passos lentos e agachou-se a um metro de distância do menino.
— Olá... — chamou Maria, com a voz mais doce e acolhedora que conseguiu expressar. — Qual é o seu nome?
No mesmo instante em que ouviu a voz de Maria, o garotinho cessou os soluços gradualmente. Ele ergueu a cabeça devagar, revelando traços calmos e profundos que contrastavam com as lágrimas que escorriam em suas bochechas. Ao fixar suas pupilas na jovem, ele respondeu:
— M… Meu nome é Néon — respondeu ele, soltando um soluço.
— Nossa... Que nome bonito, Néon — disse Maria, abrindo um sorriso caloroso e estendendo a mão para acariciar suavemente os cabelos da criança. — Néon, você quer vir morar comigo em um lugar seguro?
— Lugar seguro? — perguntou a criança, enquanto olhava fixamente para Maria.
— Sim, lá é um abrigo para sobreviventes. Existem outras pessoas iguais a você e eu, além de ser um lugar que fica bem longe dos monstros — respondeu Maria, enquanto mantinha um sorriso leve, tentando acalmar a criança. — Então, quer vir comigo?
— Quero... — respondeu o menino, com uma expressão mais calma.
"Isso foi fácil demais... Eu realmente sinto muito por estar enganando essa humana que parece ser realmente uma boa pessoa. Mas, se ela está sendo enganada por um teatro desse nível, a culpa é dela por ter tão pouco intelecto para questionar as coisas. De qualquer forma, o importante agora é que eu finalmente poderei ir até minha adorável irmãzinha." — pensou Néon, seus olhos azuis brilhando levemente na escuridão do lugar.
— Ótimo, então vamos indo — disse Maria, se levantando e estendendo a mão em direção à criança.
Néon segurou a mão da mulher, e Maria o conduziu para fora da casa. Ao cruzarem a soleira, o grupo recebeu o novo integrante com olhares curiosos, mas não tinham tempo para perguntas. Alinhando-se rapidamente sob o céu que ficava cada vez mais tomado pela escuridão da noite, em seguida, o grupo seguiu viagem em direção aos jipes.
Fim do Capítulo 16