Capítulo 1 — O homem que morreu duas vezes
A chuva castigava São Paulo naquela noite.
Do quadragésimo segundo andar de um edifício comercial na Avenida Paulista, Gabriel Montenegro observava as luzes da cidade desaparecerem atrás de uma cortina de água. Os faróis dos carros formavam linhas vermelhas e brancas sobre o asfalto, enquanto relâmpagos iluminavam, por breves instantes, os prédios que durante tantos anos haviam representado tudo o que ele desejava conquistar.
Aos cinquenta e dois anos, Gabriel possuía uma aparência que ainda transmitia autoridade. Os cabelos escuros estavam começando a ficar grisalhos nas têmporas, o rosto carregava marcas discretas de cansaço e o terno, embora impecável, parecia grande demais para um homem que havia perdido o apetite havia semanas.
Sobre a mesa de mogno, diante dele, havia três coisas.
Um relatório financeiro.
Uma carta de renúncia.
E uma fotografia antiga.
Gabriel pegou a fotografia.
Nela, um homem de trinta e dois anos sorria diante de uma pequena sala comercial. Usava uma camisa branca barata, uma calça social que já não era nova e segurava uma placa improvisada com o nome de sua primeira empresa.
Montenegro Soluções Empresariais.
Naquela fotografia, não havia funcionários, investidores ou contratos milionários. Não havia carros importados estacionados na garagem nem executivos aguardando sua assinatura.
Havia apenas um homem, uma sala alugada e uma ideia.
Gabriel passou o polegar sobre a imagem.
— Eu realmente consegui, não foi?
Sua voz soou estranha naquele escritório vazio.
Durante vinte anos, ele havia construído aquela empresa praticamente do nada. Começara oferecendo serviços administrativos e de gestão para pequenos negócios. Aprendera a negociar com fornecedores, a convencer clientes desconfiados e a trabalhar noites inteiras para cumprir contratos que empresas maiores recusavam.
Quando faltava dinheiro, ele trabalhava mais.
Quando perdia um cliente, procurava dois.
Quando um concorrente copiava seus serviços, melhorava os próprios processos.
Ele não nascera com talento para tudo aquilo. Aprendera observando, errando e pagando caro por cada erro.
A empresa crescera.
Primeiro, conquistara clientes regionais. Depois, contratos com redes comerciais. Mais tarde, adquirira pequenas empresas, desenvolvera sistemas próprios de gestão e entrara em setores nos quais, anos antes, Gabriel sequer imaginaria atuar.
A Montenegro Participações passara a controlar negócios em diferentes segmentos.
No auge, seu grupo empresarial empregava milhares de pessoas direta e indiretamente.
Seu patrimônio era estimado em centenas de milhões de reais.
E, ainda assim, naquela noite, ele não possuía nada que realmente pudesse chamar de seu.
O relatório financeiro sobre a mesa continha a última avaliação independente do grupo.
A conclusão era devastadora.
Sem uma injeção imediata de capital, a empresa não conseguiria honrar suas obrigações. Credores exigiam garantias. Parceiros suspendiam entregas. Contratos importantes estavam sendo rescindidos.
A queda não acontecera de uma vez.
Começara três anos antes, com um vazamento de informações comerciais.
Na época, Gabriel não dera muita importância. Informações sobre um contrato haviam chegado às mãos de um concorrente antes mesmo da assinatura.
Ele demitira dois funcionários, reforçara a segurança e acreditara ter resolvido o problema.
Estava enganado.
Depois vieram os fornecedores que misteriosamente passaram a favorecer seus rivais, as propostas comerciais que apareciam quase idênticas nas mãos de concorrentes e os clientes que, de repente, recebiam ofertas impossíveis de igualar.
Projetos internos desapareciam.
Executivos pediam demissão em sequência.
Funcionários que ele havia promovido e recompensado durante anos começaram a transferir seus conhecimentos para outras empresas.
Então surgiram as dívidas.
Algumas haviam sido contraídas para financiar expansões que deveriam ser lucrativas. Outras estavam relacionadas a aquisições que, na época, pareciam excelentes oportunidades.
Mas os números apresentados a Gabriel haviam sido manipulados.
Uma empresa comprada por um valor aparentemente razoável escondia obrigações que ninguém revelara. Um contrato estratégico continha cláusulas que, sob determinadas condições, transferiam riscos enormes para seu grupo.
A empresa que ele construíra com tanto cuidado estava cercada.
E ele não conseguia identificar todos os responsáveis.
Gabriel olhou para a carta de renúncia.
Seu diretor financeiro, Eduardo Sampaio, havia deixado o documento naquela tarde.
Eduardo trabalhara com ele durante onze anos.
Gabriel financiara parte de sua formação executiva, confiara a ele operações delicadas e o defendera quando outros diretores questionaram suas decisões.
Agora, Eduardo estava abandonando o barco.
No documento, alegava motivos pessoais.
Gabriel soltou uma risada sem humor.
— Motivos pessoais...
Pegou o celular e abriu uma mensagem que havia recebido duas horas antes.
Era de Marcelo Tavares, seu antigo diretor de expansão.
Gabriel, eu sinto muito. Não posso continuar envolvido nisso. Você precisa entender que as coisas mudaram. A empresa não tem mais condições de sobreviver.
Gabriel releu a mensagem.
Marcelo fora o homem responsável por boa parte das aquisições que impulsionaram o grupo. Ele conhecia os planos de expansão, as negociações ainda não anunciadas e os detalhes das operações mais lucrativas.
Também fora um dos primeiros a deixar a empresa quando os problemas começaram.
Duas semanas depois de sua saída, um concorrente anunciou uma aquisição que Gabriel preparava havia oito meses.
O mesmo concorrente passou a oferecer os mesmos serviços, para os mesmos clientes, com condições comerciais quase idênticas.
Não era coincidência.
Já não podia ser coincidência.
Gabriel levantou-se e caminhou até a janela.
Por muito tempo, acreditara que o maior desafio de um empresário era encontrar oportunidades antes dos outros.
Estava errado.
O maior desafio era descobrir em quem podia confiar depois de encontrá-las.
Ele contratara pessoas brilhantes.
Também contratara pessoas que pareciam brilhantes.
Promovera funcionários dedicados.
Também promovera pessoas que sabiam demonstrar dedicação quando estavam sendo observadas.
E, no meio de tudo isso, cometera o erro que mais o atormentava: confundira competência com caráter.
— Vinte anos... — murmurou.
Vinte anos de trabalho.
Vinte anos de sacrifícios.
Vinte anos em que deixara de comparecer a aniversários, recusara viagens e adiara planos pessoais porque sempre havia uma reunião, uma negociação ou uma crise que precisava resolver.
Durante muito tempo, dissera a si mesmo que faria tudo aquilo valer a pena.
Agora, perguntava-se se teria valido.
Seu olhar voltou à fotografia.
Havia uma mulher ao seu lado na imagem.
Mariana.
Ela fora sua namorada nos primeiros anos da empresa. Inteligente, paciente e capaz de fazê-lo rir mesmo quando os negócios estavam desmoronando.
Mariana lhe dissera, certa vez, que ele não precisava provar seu valor para todas as pessoas do mundo.
Gabriel respondera que ela não entendia a responsabilidade de construir alguma coisa.
Ela fora embora meses depois.
Não houve uma grande briga. Nenhuma traição. Apenas uma sucessão de promessas adiadas, jantares cancelados e conversas interrompidas por telefonemas.
Na última vez em que se encontraram, ela lhe perguntara:
— Se você finalmente conseguir tudo o que deseja, Gabriel, o que vai fazer depois?
Ele não soubera responder.
Agora, vinte anos depois, ainda não sabia.
Um aperto atravessou seu peito.
Gabriel franziu a testa.
A dor não era como uma pontada muscular. Era profunda, opressora, como se uma mão invisível estivesse comprimindo seu coração.
Ele apoiou a palma na mesa.
— Não... agora não.
Tentou respirar.
O ar pareceu insuficiente.
O relatório financeiro escorregou de seus dedos e caiu no chão.
Gabriel tentou alcançar o telefone, mas sua mão tremia. Seu joelho cedeu e ele caiu ao lado da mesa, derrubando uma cadeira.
O som ecoou pelo escritório vazio.
Ele estava sozinho.
Pela primeira vez em décadas, não havia um funcionário esperando uma decisão, um executivo pedindo autorização ou um cliente exigindo uma resposta.
Não havia ninguém.
Gabriel tentou se arrastar até o celular.
Seus dedos tocaram o aparelho, mas não conseguiram segurá-lo.
A visão começou a escurecer.
Naquele momento, o homem que passara a vida inteira resolvendo problemas percebeu que não podia negociar com a própria morte.
Sua mente correu por todas as coisas que deixaria para trás.
A empresa.
Os funcionários que dependiam dela.
Os contratos.
As oportunidades que nunca realizaria.
E, sobretudo, as perguntas que jamais responderia.
Quem começara a conspiração?
Quando os primeiros traidores haviam entrado em sua vida?
Será que ele poderia ter evitado tudo?
Se pudesse voltar vinte anos...
Gabriel apertou os dentes.
Se eu pudesse voltar vinte anos, faria tudo diferente.
A última coisa que viu foi a fotografia sobre a mesa.
Depois, tudo ficou escuro.
— Senhor Gabriel?
Uma voz distante.
— Senhor Gabriel, o senhor está me ouvindo?
Gabriel franziu a testa.
Por que alguém estava falando tão alto?
Ele tentara responder, mas sua garganta parecia seca.
— Senhor Gabriel, desculpe insistir, mas o candidato chegou. O senhor pediu que eu avisasse assim que ele estivesse aqui.
Candidato?
Gabriel abriu os olhos.
Uma luz branca atingiu seu rosto.
Ele piscou várias vezes, tentando compreender o que estava vendo.
O teto não era o do seu escritório.
A mesa não era de mogno.
Não havia janelas panorâmicas, relatórios financeiros ou móveis caros.
Havia uma mesa simples de madeira clara, um computador antigo, duas cadeiras de plástico e uma pilha de documentos dentro de uma pasta azul.
Gabriel ficou imóvel.
A sala era pequena.
Pequena demais.
As paredes precisavam de pintura. Um ventilador preso ao teto girava lentamente, produzindo um ruído irregular. Através da janela, ele conseguia ver parte de um estacionamento e a fachada de um edifício comercial mais baixo.
Ele conhecia aquele lugar.
Não.
Aquilo era impossível.
Sentou-se de repente.
Seu coração disparou.
Olhou para as próprias mãos.
Eram mãos jovens.
Sem as manchas discretas da idade, sem as veias tão salientes, sem a rigidez que começara a sentir nos últimos anos.
Ele ergueu os braços, apalpou o rosto e passou os dedos pelos cabelos.
— O que...
Sua voz falhou.
Era a própria voz, mas mais firme, mais jovem.
Ele se levantou tão depressa que a cadeira caiu para trás.
Caminhou até o pequeno espelho pendurado ao lado da porta.
O homem refletido ali tinha cabelos escuros, pele mais lisa e um rosto que Gabriel não via havia vinte anos.
Trinta e dois anos.
Ele conhecia cada detalhe daquela aparência.
Era ele.
Não uma fotografia.
Não uma lembrança.
Ele estava olhando para o próprio rosto aos trinta e dois anos.
Gabriel tocou o espelho.
— Isso não é possível.
A porta se abriu.
Uma mulher de aproximadamente vinte e cinco anos entrou carregando uma pasta.
Ela usava uma camisa azul-clara, calça social preta e sapatos baixos. Seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo, e havia uma expressão de preocupação em seu rosto.
— Senhor Gabriel? Está tudo bem?
Ele virou-se.
Por alguns segundos, não conseguiu falar.
A mulher também lhe era familiar.
Patrícia Almeida.
Sua primeira secretária.
Na primeira vida, Patrícia trabalhara com ele durante quase quatro anos, antes de sair para assumir uma vaga em outra empresa. Era organizada, discreta e extraordinariamente eficiente.
Gabriel se lembrava de ter tentado convencê-la a ficar.
Ela recusara educadamente.
Anos depois, quando seu grupo já estava em expansão, ele descobrira que Patrícia havia construído uma carreira respeitável na área administrativa.
Nunca estivera envolvida em nenhum dos escândalos que destruíram sua empresa.
— Patrícia? — perguntou ele.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Sim, senhor.
Gabriel olhou para a pasta em suas mãos.
— Que dia é hoje?
Patrícia pareceu confusa.
— Segunda-feira, 16 de outubro de 2006.
O mundo parou.
Gabriel não respirou por alguns segundos.
— Repita.
— Dezesseis de outubro de 2006.
Ele agarrou a borda da mesa.
Vinte anos.
Exatamente vinte anos.
A última vez que estivera naquela sala, era o primeiro dia em que tentaria contratar alguém para trabalhar diretamente em sua pequena empresa.
Ainda não tinha dinheiro suficiente para manter uma equipe completa. Fazia boa parte do trabalho sozinho e contava com ajuda administrativa temporária.
O primeiro funcionário seria responsável por tarefas comerciais, atendimento e organização de documentos.
Uma contratação simples.
Uma decisão aparentemente banal.
Mas Gabriel se lembrava muito bem daquele dia.
Lembrava-se do homem que seria contratado.
Lembrava-se de como o ajudara a aprender os procedimentos internos, de como lhe dera acesso aos contatos comerciais e de como, alguns anos depois, o promovera a gerente.
Lembrava-se também de descobrir, tarde demais, que aquele mesmo homem havia fornecido informações confidenciais a um concorrente.
Não fora o único responsável por sua ruína.
Mas fora um dos primeiros.
Gabriel sentiu o estômago se contrair.
— Que horas são?
Patrícia consultou o relógio.
— Nove e quarenta e dois.
Ele olhou para a mesa.
A pasta azul estava ali.
No canto superior, uma etiqueta branca exibia um nome.
Renato Vasconcelos.
Gabriel conhecia aquele nome.
Conhecia muito bem.
O homem estava prestes a entrar naquela sala.
— O candidato já chegou? — perguntou Gabriel.
— Sim. Está esperando na recepção há uns quinze minutos.
Gabriel fechou os olhos.
Na primeira vida, ele o contratara.
Não porque Renato fosse um candidato extraordinário, mas porque parecera suficientemente competente, demonstrara entusiasmo e aceitara um salário que cabia no orçamento da empresa.
Na época, Gabriel não possuía estrutura para investigar detalhadamente cada candidato. Precisava de alguém que pudesse começar imediatamente.
Renato se tornara um funcionário produtivo.
Depois, um gerente.
E, finalmente, uma fonte de vazamentos.
Gabriel não sabia se o homem já trabalhava para uma empresa concorrente naquela época. Talvez tivesse sido recrutado mais tarde. Talvez tivesse começado a vender informações por dinheiro. Talvez sua ambição tivesse crescido conforme a empresa prosperava.
O que Gabriel sabia era que, naquele dia, ainda podia escolher.
— Patrícia, não deixe o candidato entrar por enquanto.
— Claro. Quer que eu peça para ele aguardar mais um pouco?
— Sim.
Ela fez uma pequena anotação.
— O senhor parece pálido. Quer que eu traga água?
Gabriel encarou a mulher.
Na primeira vida, Patrícia fora uma das poucas pessoas que continuaram tratando-o com respeito quando a empresa começou a afundar.
Ela não lhe devia nada.
Mesmo assim, quando outros funcionários começaram a abandonar o escritório, Patrícia ficara até o último dia para organizar os documentos e ajudar na transição das operações.
Ele nunca esquecera aquilo.
— Um copo de água seria ótimo. Obrigado.
Patrícia assentiu e saiu.
Gabriel fechou a porta.
Depois caminhou até a janela e observou a cidade.
O trânsito.
Os carros.
Os prédios.
A aparência das ruas.
Tudo parecia familiar e, ao mesmo tempo, impossível.
Ele estava em 2006.
Vinte anos antes de sua morte.
Seu primeiro impulso foi rir.
O segundo foi chorar.
O terceiro foi voltar à mesa, pegar uma folha de papel e escrever a data.
16/10/2006.
Abaixo dela, escreveu outra frase.
Estou vivo.
Ficou olhando para aquelas duas palavras.
Durante toda a sua vida, acreditara que a morte era o ponto final de qualquer história.
Agora, por alguma razão impossível, recebera uma segunda oportunidade.
Ele não sabia por quê.
Não sabia como.
Mas não desperdiçaria aquilo.
Gabriel respirou profundamente e começou a pensar.
O ano de 2006.
A economia brasileira seguia um caminho que ele conhecia. Empresas que ainda eram pequenas se tornariam gigantes. Algumas tecnologias ganhariam importância inesperada. Novos hábitos de consumo mudariam mercados inteiros.
Ele conhecia acontecimentos que seus concorrentes ainda não imaginavam.
Sabia quais setores cresceriam.
Sabia quais empresas enfrentariam dificuldades.
Sabia que determinadas regiões receberiam investimentos importantes.
E, mais do que tudo, conhecia os próprios erros.
Dessa vez, não precisaria descobrir cada lição pagando com anos de trabalho.
Poderia antecipar decisões.
Evitar contratos desastrosos.
Construir reservas financeiras.
Diversificar seus negócios no momento certo.
Mas havia uma questão mais importante.
Ele precisaria de pessoas.
Nenhum império poderia ser construído por um único homem.
Na primeira vida, Gabriel acreditara que o segredo estava em contratar profissionais competentes e criar processos eficientes.
Agora sabia que competência, isoladamente, não bastava.
Um funcionário brilhante, mas desonesto, poderia causar mais prejuízo do que dez funcionários medíocres.
Um executivo leal, mas incapaz de reconhecer os próprios limites, poderia destruir uma operação inteira.
E alguém aparentemente comum poderia possuir uma capacidade extraordinária, escondida atrás de um currículo modesto.
Gabriel se sentou.
Se fosse realmente 2006, aquela entrevista poderia ser a primeira grande decisão de sua segunda vida.
Precisava descobrir se estava sonhando.
Pegou o celular que estava sobre a mesa.
Um aparelho antigo, com teclas físicas.
A tela mostrava a data.
16/10/2006.
Ele abriu a agenda.
Os contatos estavam ali, incluindo números que não via havia décadas.
Seu antigo telefone comercial.
O número de Mariana.
O contato de um fornecedor que falecera anos depois.
Gabriel sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Não era um sonho comum.
Ele voltou a olhar para a pasta azul.
Renato Vasconcelos.
Um homem que, naquela época, não parecia representar qualquer ameaça.
Gabriel abriu o documento.
O currículo era simples.
Ensino médio completo, alguns cursos administrativos, experiência em vendas e atendimento. O candidato havia trabalhado em duas pequenas empresas, permanecendo aproximadamente um ano em cada uma.
Na primeira vida, Gabriel considerara aquilo suficiente.
Dessa vez, queria saber mais.
Muito mais.
Ele fechou a pasta.
— Patrícia!
A secretária abriu a porta quase imediatamente.
— Sim?
Gabriel percebeu que estava apertando a caneta com força demais.
Relaxou os dedos.
— Pode chamar o Renato.
Patrícia assentiu.
— Imediatamente.
Ela saiu.
Gabriel ficou sozinho novamente.
A entrevista duraria apenas alguns minutos.
Mas, pela primeira vez em vinte anos, ele estava prestes a entrar numa situação cujo resultado poderia mudar completamente seu destino.
A maçaneta girou.
A porta se abriu.
Um homem de aproximadamente vinte e oito anos entrou usando uma camisa social branca e uma calça preta. Tinha cabelos curtos, uma pasta de couro sintético debaixo do braço e um sorriso educado.
— Bom dia, senhor Gabriel. Renato Vasconcelos. Muito prazer.
Gabriel levantou-se.
O homem estendeu a mão.
Gabriel apertou-a.
E olhou diretamente para seus olhos.
Naquele instante, o mundo desapareceu.
Não literalmente.
A sala continuava ali. O ventilador ainda girava. A luz do sol atravessava a janela.
Mas, diante de Gabriel, uma quantidade absurda de informações surgiu em sua mente.
Nome completo.
Data de nascimento.
Histórico profissional.
Escolaridade.
Competências.
Personalidade.
Ambições.
Medos.
Relacionamentos.
Dívidas.
Segredos.
Informações que nenhum currículo poderia revelar.
Gabriel soltou a mão do candidato.
Renato percebeu a mudança em sua expressão.
— Aconteceu alguma coisa?
Gabriel não respondeu.
Diante de seus olhos, informações continuavam surgindo com uma clareza impossível.
RENATO AUGUSTO VASCONCELOS
Idade: 28 anos.
Capacidade de negociação: 71/100.
Raciocínio analítico: 64/100.
Organização: 79/100.
Comunicação: 82/100.
Capacidade de aprendizagem: 87/100.
Ambição: elevada.
Autoconfiança: elevada.
Necessidade de reconhecimento: muito elevada.
Capacidade de adaptação: elevada.
Tendência a manipular informações quando acredita que isso lhe trará vantagens: elevada.
Gabriel sentiu o sangue esfriar.
As informações não pararam.
Histórico profissional:
Empregado em duas empresas de pequeno porte.
Em ambas, demonstrou boa capacidade de relacionamento com clientes e habilidade para identificar oportunidades comerciais.
Em ambas, deixou o emprego após conflitos relacionados a remuneração e reconhecimento.
Informação confidencial:
Renato acreditava que seus antigos superiores não valorizavam seu potencial e justificava algumas de suas atitudes desonestas como uma compensação pelo que considerava injustiças.
Intenção atual:
Conseguir emprego estável, melhorar sua renda e obter acesso a informações comerciais que possam ampliar suas oportunidades profissionais.
Gabriel permaneceu imóvel.
Então surgiu uma informação ainda mais perturbadora.
Conexão oculta:
Renato havia conversado recentemente com um conhecido que trabalhava em uma pequena empresa concorrente da Montenegro Soluções Empresariais.
A conversa não resultara em um acordo formal de espionagem.
Entretanto, Renato demonstrara disposição para compartilhar informações profissionais em troca de vantagens financeiras futuras.
Potencial de desenvolvimento:
Capacidade comercial: alta.
Potencial gerencial: moderado a alto.
Confiabilidade em ambientes competitivos: baixa.
Probabilidade de violar acordos de confidencialidade quando identificar uma oportunidade financeira suficientemente atraente: elevada.
Gabriel sentiu a garganta secar.
Não era uma intuição.
Não era uma suspeita baseada na linguagem corporal.
Era informação apresentada diretamente à sua consciência.
E ele sabia que não poderia revelar aquilo ao candidato.
Renato sentou-se na cadeira diante da mesa.
— A senhora Patrícia me disse que a empresa está procurando alguém para ajudar na área comercial. Tenho bastante experiência com atendimento e acredito que posso contribuir.
Gabriel continuou olhando para ele.
Outras informações surgiram.
Não apenas fatos.
Havia uma espécie de compreensão imediata sobre como o homem pensava, o que o motivava e quais circunstâncias poderiam levá-lo a tomar determinadas decisões.
O poder não estava simplesmente fornecendo um relatório.
Estava revelando a pessoa por trás do relatório.
Gabriel afastou a pasta de Renato.
— Antes de começarmos, gostaria de fazer algumas perguntas.
— Claro.
— Por que saiu do seu último emprego?
Renato respondeu sem hesitar.
— A empresa estava passando por dificuldades financeiras. Houve cortes de pessoal e a perspectiva de crescimento era praticamente inexistente. Achei melhor procurar uma oportunidade em que pudesse desenvolver minhas habilidades.
A resposta era razoável.
Gabriel já a conhecia.
Na primeira vida, ouvira praticamente as mesmas palavras.
Mas a Visão da Verdade apresentou outra informação.
Precisão da declaração: parcial.
A empresa realmente enfrentava dificuldades financeiras. Entretanto, Renato também havia sido advertido por compartilhar informações internas com uma pessoa de fora da organização.
Gabriel cruzou as mãos sobre a mesa.
— Entendo. E o que você considera mais importante em um emprego?
Renato sorriu.
— Oportunidades de crescimento. Acredito que uma pessoa dedicada deve ser recompensada pelos resultados que entrega. Não tenho problemas em começar por baixo, desde que exista uma perspectiva real de evolução.
A resposta era boa.
Muito boa.
Renato sabia o que os empregadores gostavam de ouvir.
Gabriel quase sorriu.
Na primeira vida, aquela resposta o convencera.
Dessa vez, ele conhecia a diferença entre o que Renato dizia e o que realmente pensava.
Motivação predominante: crescimento financeiro e reconhecimento pessoal.
Motivação secundária: acesso a informações e contatos que possam ser utilizados para obter vantagens futuras.
Atitude em relação à lealdade empresarial: condicional. Renato tende a considerar compromissos como negociáveis quando acredita que a outra parte não está oferecendo benefícios proporcionais.
Gabriel recostou-se na cadeira.
Não sentia raiva.
Ainda não.
Sentia algo muito mais útil.
Clareza.
O homem diante dele não era um gênio do crime. Não era um infiltrado enviado por uma grande organização. Não havia qualquer evidência de que estivesse participando de uma conspiração complexa.
Era apenas um profissional ambicioso, capaz de produzir bons resultados, mas disposto a ultrapassar limites quando encontrasse uma oportunidade.
Na primeira vida, Gabriel lhe dera acesso a informações valiosas sem compreender esse risco.
O problema não fora apenas contratar Renato.
Fora permitir que ele acumulasse responsabilidades, contatos e privilégios sem controles adequados.
Gabriel poderia simplesmente mandá-lo embora.
Mas uma nova possibilidade surgiu em sua mente.
Ele precisava aprender a utilizar o poder sem transformar a empresa numa organização paranoica.
Nem toda pessoa desleal precisava ser tratada como inimiga mortal.
Nem toda pessoa ambiciosa era incapaz de contribuir.
E nem todo funcionário precisava ter acesso a tudo.
Gabriel inclinou-se para a frente.
— Renato, suponha que você descubra uma oportunidade comercial que possa beneficiar a empresa, mas que também lhe permita ganhar dinheiro por fora. O que faria?
O sorriso do candidato diminuiu ligeiramente.
— Depende da situação, senhor.
— De qual situação?
Renato ajeitou a postura.
— Se a oportunidade não prejudicasse a empresa, acredito que seria possível conversar sobre isso. Todo profissional precisa pensar no próprio futuro.
Gabriel observou-o em silêncio.
Era uma resposta reveladora.
Não porque fosse necessariamente criminosa, mas porque Renato não demonstrara qualquer preocupação com conflitos de interesse, transparência ou confiança.
Na primeira vida, Gabriel teria interpretado aquilo como iniciativa empresarial.
Agora compreendia o perigo.
— E se essa oportunidade envolvesse informações confidenciais da empresa?
Renato demorou um pouco mais para responder.
— Nesse caso, seria necessário avaliar melhor.
Gabriel assentiu.
A Visão da Verdade revelou a reação interna do candidato: desconforto, seguido por uma rápida tentativa de calcular qual resposta lhe seria mais favorável.
Gabriel já tinha sua decisão.
— Obrigado por ter vindo, Renato. Vou avaliar seu perfil e entrarei em contato caso decidamos prosseguir.
O homem pareceu surpreso.
— Claro. Posso perguntar se existe algum problema com meu currículo?
— Nenhum problema específico. Estou avaliando o que a empresa precisa neste momento.
Renato se levantou e estendeu a mão.
— Espero ter a oportunidade de trabalhar com o senhor.
Gabriel apertou sua mão.
— Boa sorte na sua busca.
Quando a porta se fechou, Gabriel permaneceu olhando para ela.
O primeiro inimigo da sua nova vida acabara de sair da sala.
Ou talvez não fosse um inimigo.
Talvez fosse apenas o primeiro teste.
Gabriel abriu a pasta e escreveu uma anotação ao lado do nome.
Não contratar para funções com acesso a informações estratégicas.
Depois acrescentou:
Criar processos que limitem o acesso a dados comerciais conforme a necessidade de cada função.
Ele parou.
Leu as duas frases.
Então começou a rir.
Primeiro baixo.
Depois com uma intensidade que o surpreendeu.
Não era alegria pelo fracasso de Renato.
Era alívio.
Pela primeira vez, Gabriel compreendia a dimensão da oportunidade que recebera.
Durante vinte anos, tomara decisões com informações incompletas. Precisara avaliar pessoas a partir de currículos, entrevistas, recomendações e resultados observados ao longo de meses ou anos.
Agora podia descobrir, em segundos, aquilo que talvez levasse uma vida inteira para aprender.
Não precisaria eliminar o risco de sua empresa.
Poderia identificá-lo antes que se transformasse em uma catástrofe.
Gabriel pegou uma folha em branco e escreveu no alto:
PLANO DE RECONSTRUÇÃO.
Abaixo, começou a listar os primeiros objetivos.
Primeiro: preservar o capital.
Segundo: conquistar clientes sem assumir compromissos financeiros que não pudesse cumprir.
Terceiro: identificar profissionais extraordinários antes que fossem descobertos pelos concorrentes.
Quarto: estabelecer processos que impedissem qualquer funcionário de concentrar poder excessivo.
Quinto: construir uma organização que não dependesse exclusivamente dele.
Parou diante do quinto objetivo.
Na primeira vida, Gabriel havia acreditado que o segredo do sucesso era trabalhar mais do que todos.
Agora sabia que isso não bastava.
Um verdadeiro império precisava continuar funcionando mesmo quando seu fundador não estivesse presente.
Precisava de pessoas capazes de tomar decisões corretas sem esperar instruções para cada detalhe.
Precisava de sistemas, controles, incentivos e uma cultura que recompensasse resultados sem tolerar desonestidade.
E precisava de algo que Gabriel jamais tivera em quantidade suficiente.
Tempo.
Ele tinha vinte anos.
Vinte anos para construir algo maior do que tudo o que perdera.
Vinte anos para descobrir quem realmente havia participado da conspiração que destruíra sua primeira vida.
Vinte anos para impedir que os mesmos erros se repetissem.
Mas, antes de qualquer coisa, precisava encontrar a primeira pessoa em quem valesse a pena confiar.
Gabriel chamou Patrícia.
Ela entrou carregando o copo de água que ele havia pedido.
— O candidato já foi embora?
— Sim.
— E como foi a entrevista?
Gabriel tomou um gole.
— Instrutiva.
Patrícia olhou para a pasta aberta.
— Devo continuar procurando candidatos com o mesmo perfil?
Gabriel balançou a cabeça.
— Não. Quero mudar a estratégia.
— Como assim?
Ele puxou uma folha limpa.
— Não quero apenas alguém que saiba atender clientes e organizar documentos. Quero encontrar pessoas com capacidade de crescimento. Gente que tenha habilidades que outras empresas não conseguem identificar facilmente.
Patrícia pensou por um instante.
— Isso pode levar mais tempo.
— Eu sei.
— E talvez precisemos oferecer salários melhores para atrair esse tipo de profissional.
— Também sei.
Ela olhou para ele com curiosidade.
— Então por que mudar agora?
Gabriel ficou em silêncio por alguns segundos.
Porque, vinte anos depois, sua empresa estaria destruída por pessoas que ele próprio escolhera.
Porque passara a vida inteira acreditando que conhecia as pessoas com quem trabalhava.
Porque morrera sozinho num escritório luxuoso, cercado por tudo o que conquistara e sem conseguir responder à pergunta mais importante de sua vida.
Ele não poderia dizer nada disso.
Então respondeu:
— Porque não quero construir uma empresa que apenas sobreviva. Quero construir uma empresa que seja capaz de crescer sem perder o controle sobre o próprio destino.
Patrícia o observou.
Depois sorriu discretamente.
— Entendi. Vou começar a procurar.
Quando ela saiu, Gabriel voltou a olhar pela janela.
O sol iluminava os prédios.
O trânsito continuava caótico.
O Brasil de 2006 seguia seu curso, completamente alheio ao fato de que um homem acabara de receber uma segunda oportunidade.
Gabriel ainda não sabia até onde seu poder poderia chegar.
Não sabia se existiam outras pessoas capazes de fazer algo semelhante.
Não sabia se a conspiração que destruíra sua primeira vida começara antes do que imaginava.
Mas sabia uma coisa.
Nunca mais contrataria alguém apenas porque precisava preencher uma vaga.
Nunca mais entregaria informações estratégicas apenas porque alguém conquistara sua confiança.
E nunca mais confundiria o crescimento da empresa com a construção de um império.
Ele olhou para o relógio.
Dez horas e dezessete minutos.
Seu primeiro dia havia apenas começado.
Na mesa, a pasta de Renato continuava aberta.
Gabriel pegou uma caneta e escreveu uma última frase na margem do documento.
Desta vez, eu escolho quem terá permissão para fazer parte da minha história.
Depois fechou a pasta.
E começou a trabalhar.