Capítulo 2 — O homem que ninguém queria contratar
Segunda-feira, 16 de outubro de 2006 — 10:17
O silêncio que se instalou no escritório depois da saída de Renato Vasconcelos durou menos de um minuto.
Gabriel Montenegro permaneceu sentado atrás da mesa, observando a porta fechada. Do lado de fora, ouviu os passos do candidato se afastando pelo corredor, seguidos pelo som distante do elevador.
Vinte anos.
Ele tinha vinte anos para reconstruir tudo o que perdera.
Não. Essa não era a maneira correta de pensar.
Gabriel apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos.
Ele não precisava reconstruir o mesmo império. Precisava construir algo muito maior, mais eficiente e praticamente impossível de ser destruído por pessoas que não mereciam estar ali.
Na vida anterior, cometera um erro que, na época, parecera perfeitamente razoável: acreditara que contratar pessoas competentes era suficiente.
Não era.
Uma pessoa competente podia ser desonesta. Uma pessoa leal podia ocupar a função errada. E alguém aparentemente comum podia esconder uma capacidade extraordinária, esperando apenas que alguém lhe desse uma oportunidade.
Agora, Gabriel tinha uma vantagem que nenhum processo seletivo, empresa de recrutamento ou investigação particular poderia oferecer.
A Visão da Verdade.
Ele não precisava adivinhar quem alguém poderia se tornar.
Bastava olhar.
— Senhor Gabriel?
A voz de Patrícia o trouxe de volta aos pensamentos.
Sua secretária estava parada diante da mesa, segurando uma pasta azul e um pequeno bloco de anotações. Tinha trinta e poucos anos, cabelos castanhos presos atrás da cabeça e uma expressão profissional que ele conhecia muito bem.
Ou melhor, que conhecera durante vinte anos em sua primeira vida.
Naquela existência anterior, Patrícia trabalhara com ele por quase quatro anos. Era organizada, pontual e raramente cometia erros administrativos. Entretanto, Gabriel jamais a enxergara como algo além de uma boa secretária.
Ele a tratara bem, pagara seu salário em dia e, em certas ocasiões, até elogiara seu trabalho.
Mas nunca se perguntara se ela poderia fazer algo maior.
Nunca lhe dera uma oportunidade real de descobrir.
Naquela época, ele acreditava que as pessoas já chegavam ao mercado com suas capacidades praticamente definidas. Se alguém fora contratado para organizar a agenda, organizaria agendas. Se alguém fora contratado para vender, venderia. Se alguém fora contratado para administrar, administraria.
Que pensamento limitado.
— Pode entrar, Patrícia.
Ela entrou e colocou a pasta sobre a mesa.
— Separei os currículos dos outros candidatos. O próximo estava marcado para as dez e meia, mas acabou de ligar. Disse que não poderá comparecer.
— Qual era o nome dele?
— Eduardo Sampaio.
Gabriel reconheceu o nome. Na vida anterior, Eduardo se tornara gerente comercial de uma empresa concorrente e participara de uma negociação que quase lhe custara um contrato importante.
Não era necessariamente uma pessoa ruim. O problema era que Gabriel não tinha informações suficientes para saber o que aquele homem realmente queria naquela época.
Agora, isso mudaria.
— Tudo bem. Cancele a entrevista e diga que agradecemos o aviso.
Patrícia anotou a instrução.
— Mais alguma coisa?
Gabriel olhou para ela.
Dessa vez, não olhou apenas para a mulher que organizava sua agenda, atendia telefonemas e preparava documentos.
Olhou com atenção.
E a Visão da Verdade respondeu.
Uma sequência de informações surgiu em sua mente, tão clara quanto se estivesse lendo um relatório cuidadosamente preparado.
VISÃO DA VERDADE — ANÁLISE DE PATRÍCIA ALMEIDA
Patrícia Almeida
Secretária executiva · 34 anos
Potencial muito elevado
Competências identificadas
Organização e planejamento 79/100
Comunicação e negociação 83/100
Liderança 88/100
Análise financeira 91/100
Coordenação operacional 94/100
Talentos ocultos
— Identificação de divergências em documentos, despesas e movimentações financeiras.
— Excelente memória para números, compromissos e padrões de comportamento.
— Capacidade natural de coordenar pessoas e organizar operações complexas.
— Facilidade para aprender procedimentos administrativos avançados.
Perfil psicológico: responsável, observadora, ambiciosa de maneira moderada e muito mais analítica do que demonstra no cotidiano.
Intenção atual: manter o emprego, conquistar estabilidade e provar que é capaz de assumir responsabilidades maiores.
Risco de deslealdade deliberada: muito baixo.
Potencial profissional: futura diretora de operações ou financeira, desde que receba treinamento e oportunidades adequadas.
Gabriel ficou imóvel por alguns segundos.
Não era apenas uma boa descoberta.
Era a confirmação de que ele havia desperdiçado talentos durante anos por não olhar além dos cargos que as pessoas ocupavam.
Patrícia possuía aptidão para análise financeira superior à de muitos profissionais que ele contratara como analistas. Sua capacidade de coordenação também era impressionante.
E ela estava ali, a poucos passos de sua mesa, ganhando um salário de secretária.
— Patrícia, há quanto tempo você trabalha comigo?
Ela pareceu surpresa com a pergunta.
— Dois anos e três meses.
— E você gosta do seu trabalho?
A secretária hesitou.
— Gosto, sim, senhor. Há bastante coisa para aprender.
Gabriel percebeu a escolha cuidadosa das palavras.
Ela não dissera que amava o trabalho. Dissera que havia coisas a aprender.
— Não foi exatamente isso que perguntei.
Patrícia apertou o bloco contra o corpo.
— Bem... gosto da empresa. O senhor sempre foi correto comigo. Mas, se quer saber se pretendo continuar como secretária para sempre, a resposta é não.
A sinceridade dela o agradou.
— O que gostaria de fazer?
— Não sei se o senhor está perguntando por curiosidade ou se existe alguma vaga.
— Considere que estou perguntando porque quero descobrir se você pode fazer mais do que faz atualmente.
Pela primeira vez naquela manhã, Patrícia pareceu perder completamente a resposta que tinha preparada.
Gabriel continuou:
— Você já trabalhou com números, relatórios ou controle financeiro?
— Na faculdade, cursei dois anos de Administração antes de precisar trancar. Depois, fiz alguns cursos de informática e contabilidade básica. No meu emprego anterior, ajudava a conferir notas fiscais e despesas de viagem.
— Por que não terminou a faculdade?
— Precisava trabalhar. Meu pai ficou doente, e eu era a pessoa que tinha condições de ajudar em casa.
Gabriel recebeu a informação sem transformar a situação em uma tragédia. Era apenas parte da vida dela, uma circunstância que explicava por que seu currículo não refletia inteiramente suas capacidades.
— Você ainda pretende terminar?
— Pretendo. Só não sei quando.
Ele assentiu lentamente.
— Então vamos fazer uma coisa. Quero que você me ajude em uma tarefa diferente durante os próximos cinco dias.
— Que tipo de tarefa?
— Uma análise das despesas administrativas dos últimos seis meses. Quero uma lista dos gastos recorrentes, dos contratos em vigor, dos pagamentos que poderiam ser renegociados e de qualquer divergência que você encontrar. Não precisa tomar nenhuma decisão financeira. Apenas organize as informações e apresente suas conclusões.
Patrícia olhou para a pasta azul em suas mãos, como se estivesse tentando entender se havia escutado corretamente.
— O senhor quer que eu faça uma análise financeira?
— Quero descobrir como você se sai fazendo uma análise financeira.
— Mas eu não sou analista.
— Eu sei. Por isso não estou pedindo que assuma o cargo de analista hoje. Estou lhe dando uma oportunidade de demonstrar o que consegue fazer.
Ela permaneceu em silêncio.
Gabriel conhecia aquela expressão. Era a reação de alguém acostumado a receber tarefas definidas por outras pessoas e que, de repente, descobria que alguém estava disposto a confiar nela.
— Se eu não conseguir?
— Você volta às suas atividades normais. Não haverá punição por tentar algo novo.
— E se eu conseguir?
Gabriel sorriu.
— Então conversaremos sobre sua próxima função.
Patrícia baixou os olhos por um instante. Quando voltou a encará-lo, havia uma determinação que não estivera presente antes.
— Posso começar agora?
Gabriel recostou-se na cadeira.
— Era exatamente o que eu esperava ouvir.
Naquele instante, sem saber, ele acabara de fazer sua primeira contratação importante da segunda vida.
Não contratara uma pessoa nova.
Descobrira uma profissional que já estava ali.
E isso era apenas o começo.
11:05 — Uma oportunidade inesperada
Patrícia saiu do escritório levando a pasta azul e uma folha com as instruções de Gabriel.
Ele a acompanhou com o olhar até a porta.
A primeira decisão importante estava tomada. Agora precisava cuidar de algo que, na vida anterior, sempre deixara para depois: a estrutura da empresa.
Abriu uma gaveta, retirou um caderno novo e escreveu quatro palavras na primeira página:
PESSOAS. PROCESSOS. CAPITAL. EXPANSÃO.
A ordem era intencional.
Capital sem pessoas competentes podia ser desperdiçado. Pessoas competentes sem processos adequados acabavam sobrecarregadas. E expandir uma empresa desorganizada era apenas uma maneira mais rápida de multiplicar os problemas.
Gabriel conhecia a teoria. Na vida anterior, aprendera o preço de ignorá-la.
Dessa vez, começaria com uma equipe pequena, mas excepcional.
Às onze e cinco, fechou o caderno.
— Primeiro, preciso comer.
Olhou para o relógio novamente.
Em sua primeira vida, costumava almoçar diante do computador, atendendo telefonemas entre uma garfada e outra. Agora, não pretendia transformar cada minuto em uma batalha contra o tempo.
Tinha vinte anos.
Não precisava fazer tudo naquele primeiro dia.
Pegou a carteira, avisou Patrícia de que sairia por cerca de uma hora e desceu até a rua.
O movimento de Vitória era intenso naquela manhã de outubro. Carros disputavam espaço nas avenidas, funcionários caminhavam apressados com pastas e telefones celulares, e pequenos comerciantes tentavam atrair clientes para suas lojas.
Gabriel observou tudo com uma sensação estranha.
A cidade era familiar, mas parecia diferente.
Ou talvez fosse ele quem havia mudado.
Caminhou algumas quadras até encontrar um restaurante por quilo. Antes de entrar, porém, ouviu uma discussão na loja de informática ao lado.
— Eu já expliquei que o problema não é a memória! — disse um rapaz.
— E eu já expliquei que o computador está travando! — respondeu um homem de camisa social. — Você trocou a peça, instalou tudo de novo e continua igual!
Gabriel diminuiu o passo.
Não era a discussão que lhe interessava. Era o que aconteceu em seguida.
O rapaz se aproximou do computador, pediu ao cliente que não tocasse no teclado e começou a examinar os programas abertos. Em menos de um minuto, identificou um processo consumindo recursos excessivos. Depois, encontrou um programa instalado indevidamente e explicou que a máquina não precisava de outra peça: precisava de uma correção na configuração.
O cliente, que até então estava irritado, começou a se acalmar.
Gabriel parou diante da vitrine.
O rapaz parecia ter pouco mais de vinte anos. Usava uma camiseta simples, tinha os cabelos desalinhados e trabalhava em uma bancada apertada, cercada por computadores desmontados.
Não parecia um futuro executivo.
Não parecia alguém que pudesse transformar uma empresa.
Mas Gabriel já aprendera que aparências eram uma péssima forma de avaliar pessoas.
Seus olhos encontraram os do rapaz por um breve instante.
A Visão da Verdade foi ativada.
Caio Nascimento
21 anos · Técnico de informática
Talento excepcional não aproveitado
Competências atuais
— Diagnóstico de falhas em computadores: 91/100.
— Raciocínio lógico: 96/100.
— Aprendizagem autodidata: 97/100.
— Programação: 72/100.
— Resolução de problemas: 95/100.
— Comunicação com clientes: 74/100.
Talentos ocultos
— Capacidade incomum para encontrar padrões em grandes quantidades de informação.
— Aptidão para desenvolver sistemas de controle, automação e gestão de dados.
— Potencial para se tornar um engenheiro de software e arquiteto de sistemas de alto nível.
— Facilidade para transformar processos manuais em ferramentas eficientes.
Situação atual: trabalha como técnico e recebe pouco pelo que sabe. Estuda programação nas horas vagas, utilizando livros emprestados e computadores disponíveis na loja.
Intenção atual: conquistar independência financeira e trabalhar com desenvolvimento de sistemas.
Risco de deslealdade deliberada: muito baixo.
Fator de lealdade: tende a criar vínculos duradouros com pessoas que reconhecem seu trabalho, cumprem suas promessas e lhe oferecem oportunidades reais de crescimento.
Potencial futuro: especialista em tecnologia, desenvolvimento de sistemas internos e automação empresarial.
Gabriel leu as informações mentalmente duas vezes.
Sistemas internos.
Automação.
Controle de dados.
Em 2006, muitas pequenas empresas brasileiras ainda dependiam de planilhas desorganizadas, documentos físicos e funcionários que precisavam repetir manualmente as mesmas tarefas todos os dias.
Gabriel sabia o que aconteceria nas duas décadas seguintes. A tecnologia se tornaria cada vez mais importante, e empresas capazes de organizar suas informações com eficiência teriam uma vantagem considerável.
Ele poderia contratar uma empresa especializada para desenvolver sistemas.
Ou poderia encontrar alguém com talento suficiente para construir essa capacidade dentro de seu próprio grupo.
Caio parecia ser um excelente candidato.
Mas Gabriel não entraria na loja oferecendo um emprego antes de saber como o rapaz pensava.
Empurrou a porta.
Um pequeno sino anunciou sua chegada.
— Bom dia — disse o rapaz, ainda ao lado do computador. — Se veio buscar alguma coisa, pode falar com o senhor Roberto no balcão. Estou terminando este atendimento.
— Sem problema. Na verdade, gostaria de conversar com você quando terminar.
Caio olhou para ele com curiosidade.
— Comigo?
— Se não houver outro técnico escondido aqui, sim.
O rapaz riu discretamente.
— Certo. Só um minuto.
Gabriel ficou observando a bancada enquanto Caio terminava o serviço. Havia peças separadas em pequenas caixas, etiquetas escritas à mão e três computadores aguardando reparo.
O mais interessante era a maneira como o rapaz trabalhava.
Ele não seguia simplesmente uma sequência decorada de procedimentos. Formulava hipóteses, testava uma de cada vez e descartava rapidamente as que não faziam sentido.
Era exatamente o tipo de raciocínio que Gabriel queria em sua futura equipe.
Alguns minutos depois, Caio entregou o computador ao cliente e voltou.
— Pronto. Em que posso ajudar?
— Meu nome é Gabriel Montenegro. Sou dono de uma pequena empresa de soluções empresariais.
Caio apertou sua mão.
— Caio Nascimento. Trabalho aqui há quase dois anos.
— Você gosta de informática?
O rapaz ergueu uma sobrancelha.
— Considerando que passo o dia inteiro mexendo em computadores, acho que sim.
— E pretende continuar consertando computadores?
Caio pensou por alguns segundos.
— Não exatamente. Gosto de resolver problemas. O computador é só a ferramenta. O que eu queria mesmo era desenvolver programas, criar sistemas que fizessem as coisas funcionarem melhor.
Gabriel quase sorriu.
A Visão da Verdade já havia revelado essa intenção, mas ouvir o próprio Caio expressá-la espontaneamente era importante.
— Você já desenvolveu algum sistema?
— Coisas pequenas. Fiz um programa para organizar meus estudos, outro para calcular gastos mensais e estou tentando montar um sistema simples de estoque. Nada muito profissional.
— Por que não procura uma vaga nessa área?
Caio soltou uma risada sem humor.
— Porque pedem experiência profissional para uma vaga de iniciante. Quando consigo uma entrevista, perguntam onde trabalhei. Quando digo que não trabalhei com desenvolvimento, dizem que precisam de alguém com experiência.
— E como pretende resolver isso?
— Continuar estudando até alguém me dar uma chance.
Gabriel reconheceu aquela determinação.
Não era uma pessoa esperando que o mundo lhe entregasse alguma coisa. Era alguém que já estava trabalhando para chegar aonde queria, mas ainda não encontrara a porta certa.
— Quanto você ganha aqui?
Caio hesitou.
— Por quê?
— Porque, se eu lhe oferecer uma oportunidade, preciso saber se ela faz sentido para você.
— Depende da oportunidade.
Boa resposta.
Gabriel gostou ainda mais dele.
— Não vou lhe prometer uma fortuna, Caio. Minha empresa é pequena e ainda está construindo sua estrutura. Mas estou procurando alguém que consiga analisar processos, encontrar tarefas que podem ser automatizadas e desenvolver ferramentas para melhorar o funcionamento do negócio.
Caio franziu a testa.
— O senhor quer contratar um programador?
— Quero encontrar alguém que possa se tornar um excelente desenvolvedor. São coisas diferentes.
O rapaz ficou quieto.
— E o que eu precisaria fazer?
— Primeiro, quero ver um dos programas que você desenvolveu. Depois, se houver compatibilidade, podemos conversar sobre uma experiência remunerada, com objetivos definidos. Você não precisará largar seu emprego sem saber exatamente o que está aceitando.
Caio pareceu surpreso com a última frase.
Talvez estivesse acostumado a ouvir promessas vagas de pessoas que queriam conseguir trabalho barato.
— O senhor realmente olharia um programa feito por mim?
— Se eu não estivesse interessado, não teria entrado na loja.
— Posso mostrar um que estou fazendo em casa. Ele ainda tem alguns problemas, mas já funciona.
— Ótimo. Traga-o amanhã, se puder. Podemos conversar às nove horas.
Caio olhou para o balcão, onde o proprietário da loja fingia não prestar atenção à conversa.
— Preciso ver com o senhor Roberto se consigo sair por alguns minutos.
— Claro. Não quero que você arrume problemas no emprego atual. E, se houver interesse dos dois lados, faremos tudo corretamente.
Gabriel entregou seu cartão.
Caio o recebeu com as duas mãos e leu o nome da empresa.
— Montenegro Soluções Empresariais...
— Isso mesmo.
— Eu nunca ouvi falar.
— Ainda.
A resposta fez Caio rir.
Gabriel despediu-se, mas, antes de sair, virou-se mais uma vez.
— Caio?
— Sim?
— Não descarte suas ideias só porque ainda não parecem profissionais. O que importa, por enquanto, é o problema que você consegue resolver e como chegou à solução.
O rapaz ficou olhando para ele.
Gabriel saiu da loja e continuou em direção ao restaurante.
Não precisava de uma resposta imediata. Já havia aberto uma porta, e agora cabia a Caio decidir se queria atravessá-la.
Ainda assim, enquanto caminhava, Gabriel pensou em algo que não havia aparecido no relatório.
A lealdade.
Caio tinha potencial para se tornar um profissional extraordinário. Mas a verdadeira relação entre eles dependeria do que Gabriel fizesse a partir dali.
Ele não queria alguém que permanecesse ao seu lado por medo, obrigação ou falta de alternativas.
Queria pessoas que, mesmo quando tivessem outras opções, escolhessem continuar construindo aquele projeto.
E sabia exatamente como começar.
Cumprindo as promessas que fizesse.
12:10 — O primeiro investimento
Durante o almoço, Gabriel abriu o caderno e escreveu um novo tópico:
Tecnologia e automação.
Abaixo, anotou três objetivos:
1. Criar uma base organizada para todos os clientes, contratos e contatos comerciais.
2. Automatizar os relatórios administrativos e financeiros.
3. Desenvolver ferramentas que pudessem, no futuro, ser transformadas em produtos comercializáveis.
A terceira ideia era particularmente interessante.
Na vida anterior, sua empresa prestara serviços para centenas de clientes, mas dependia excessivamente da venda de horas de trabalho. Cada novo contrato exigia mais funcionários, mais supervisão e mais despesas.
Se conseguisse transformar parte do conhecimento da empresa em produtos e sistemas próprios, poderia ampliar a receita sem aumentar os custos na mesma proporção.
Era cedo para pensar em grandes plataformas. Primeiro, precisava conhecer as necessidades reais dos clientes.
Mas Caio poderia ajudá-lo a construir essa base.
Gabriel terminou de comer e pagou a conta.
Na volta ao escritório, passou por uma pequena papelaria. Na vitrine, viu uma calculadora financeira, alguns livros de administração e um cartaz anunciando cursos de informática.
Por um momento, pensou em comprar materiais para Caio.
Depois desistiu.
Não queria tratar uma pessoa que mal conhecia como se já fosse parte de sua equipe. Primeiro, avaliaria o trabalho. Em seguida, ofereceria as ferramentas necessárias.
Era assim que pretendia conduzir a empresa: generosidade com responsabilidade, confiança acompanhada de critérios e oportunidades reais para quem demonstrasse capacidade.
Quando chegou ao escritório, encontrou Patrícia diante de uma mesa coberta por documentos.
Ela havia separado as despesas por categoria, identificado os contratos recorrentes e criado uma planilha com os pagamentos dos últimos seis meses.
Gabriel olhou para o relógio.
Ela estava trabalhando na tarefa havia menos de duas horas.
— Já conseguiu organizar tudo isso?
Patrícia levantou a cabeça.
— A primeira parte. Os documentos estavam separados por mês, então reuni os valores em uma única tabela. Também comecei a comparar os pagamentos recorrentes.
— Encontrou alguma coisa?
Ela apontou para uma linha da planilha.
— Três serviços têm cobranças mensais que aumentaram sem que eu encontrasse uma justificativa nos contratos disponíveis. Pode haver alguma explicação, mas acho que vale a pena conferir.
Gabriel aproximou-se.
Ela também havia identificado uma duplicidade em uma despesa administrativa e um contrato cujo prazo de renovação estava próximo.
Nada disso significava que houvesse fraude. Poderia ser apenas desorganização, erro de registro ou um reajuste previsto em algum documento que ainda não tinham localizado.
Mas Patrícia fizera a coisa certa: identificara as divergências sem tirar conclusões precipitadas.
— Excelente trabalho — disse ele.
Ela pareceu genuinamente satisfeita.
— Ainda falta conferir alguns documentos.
— Continue. Não quero que faça isso correndo. Prefiro uma análise correta a uma lista enorme de suspeitas sem fundamento.
— Entendido.
Gabriel puxou uma cadeira e examinou a planilha.
Havia detalhes a melhorar, principalmente na padronização das categorias e na separação entre despesas fixas e variáveis. Nada que não pudesse ser resolvido com treinamento.
O mais importante era que Patrícia já demonstrara iniciativa, raciocínio analítico e cuidado com os fatos.
— Vou lhe fazer uma proposta — disse Gabriel.
Ela deixou a caneta sobre a mesa.
— Estou ouvindo.
— Continue responsável pela minha agenda e pelas tarefas administrativas essenciais durante esta semana. Ao mesmo tempo, quero que conclua a análise financeira. Depois, vamos avaliar uma mudança gradual nas suas responsabilidades.
— Para trabalhar com finanças?
— Talvez. Também quero descobrir se sua capacidade de organização pode ser aproveitada na coordenação das operações. Não precisamos decidir tudo hoje.
Patrícia respirou fundo.
— Eu gostaria muito de tentar.
— Então vamos fazer isso direito. Se precisar de treinamento, a empresa vai avaliar como oferecê-lo. E, se assumir mais responsabilidades de forma permanente, sua remuneração terá de refletir o trabalho realizado.
O rosto dela se iluminou.
— Obrigada, senhor Gabriel.
Ele fez um gesto tranquilo com a mão.
— Ainda não precisa me agradecer. Primeiro, vamos descobrir do que você é capaz.
Patrícia sorriu.
— Acho que o senhor vai se surpreender.
Gabriel tinha certeza de que sim.
14:20 — Uma empresa pequena, uma visão diferente
Naquela tarde, Gabriel passou quase duas horas analisando a situação financeira da Montenegro Soluções Empresariais.
A empresa ainda era modesta. Tinha poucos funcionários, uma carteira limitada de clientes e receitas suficientes para se manter, mas não para sustentar uma expansão agressiva sem planejamento.
Na vida anterior, ele teria começado a buscar novos contratos imediatamente.
Agora, adotaria outra estratégia.
Primeiro, precisava conhecer exatamente o que possuía.
Solicitou a Patrícia uma relação dos clientes ativos, dos contratos em negociação, dos serviços prestados e dos custos associados a cada projeto.
Depois, começou a separar os clientes em três grupos: aqueles que davam lucro e tinham potencial de crescimento, aqueles que precisavam de renegociação e aqueles que consumiam recursos demais para o retorno oferecido.
Não pretendia abandonar clientes por capricho. Queria compreender onde o trabalho da empresa realmente criava valor.
Às três da tarde, chamou Patrícia novamente.
— Quero que prepare uma lista dos nossos dez maiores clientes, com o valor de cada contrato, os serviços prestados e as datas de renovação.
— Certo.
— E mais uma coisa: identifique quais clientes costumam solicitar serviços adicionais. Quero entender se existe alguma necessidade recorrente que ainda não estamos atendendo.
Ela anotou tudo.
— Isso é para aumentar as vendas?
— Para aumentar as vendas certas.
Patrícia ergueu os olhos.
Gabriel explicou:
— Se um cliente nos procura repetidamente para resolver o mesmo tipo de problema, talvez exista uma oportunidade de oferecer uma solução mais completa. Não quero vender qualquer coisa para qualquer pessoa. Quero descobrir o que podemos fazer melhor do que os concorrentes.
— Entendi. Vou incluir as solicitações adicionais no levantamento.
— Ótimo.
Quando ela saiu, Gabriel abriu uma nova página do caderno.
Escreveu o nome de Caio, seguido de uma interrogação. Em seguida, anotou Patrícia e desenhou uma seta em direção à palavra operações.
A Visão da Verdade lhe mostrava possibilidades. Mas possibilidades ainda precisavam ser transformadas em resultados.
Ele tinha uma vantagem extraordinária, mas não confundiria potencial com experiência, nem talento com capacidade de executar qualquer tarefa sem preparação.
Patrícia precisaria de treinamento.
Caio precisaria demonstrar suas habilidades.
E a empresa precisaria crescer de maneira sustentável.
A diferença em relação à primeira vida era que Gabriel não precisaria passar anos descobrindo, por tentativa e erro, quais pessoas e quais caminhos mereciam sua atenção.
Poderia concentrar seus recursos onde as chances de sucesso eram muito maiores.
E, para ele, isso tornava o futuro consideravelmente mais promissor.
16:45 — O primeiro sinal
Gabriel estava revisando um contrato quando o telefone tocou.
Patrícia atendeu do outro lado da divisória.
— Montenegro Soluções Empresariais, boa tarde.
Houve uma breve pausa.
— Sim, ele está. Posso saber quem deseja falar?
Outra pausa.
— Entendo. Vou verificar se ele pode atendê-lo.
Ela apareceu à porta poucos segundos depois.
— Senhor Gabriel, é o senhor Augusto Ferraz, da Ferraz Consultoria. Ele disse que vocês conversaram sobre uma possível parceria há algumas semanas.
O nome despertou uma lembrança.
Na vida anterior, Augusto fora um intermediário comercial que apresentava oportunidades de negócios a pequenas empresas. Não era alguém particularmente importante, mas conhecia empresários de vários setores.
Gabriel não tinha motivos para tratá-lo como inimigo. Também não pretendia confiar nele sem avaliar a situação.
— Diga que posso atendê-lo por cinco minutos.
Patrícia voltou à mesa.
O telefone tocou novamente.
— Senhor Gabriel? Aqui é Augusto. Tudo bem?
— Tudo, Augusto. Em que posso ajudá-lo?
— Estou entrando em contato porque surgiu uma oportunidade interessante. Uma empresa está procurando alguém para reorganizar parte de seus processos administrativos. Lembrei-me de vocês.
Gabriel ouviu a proposta.
O projeto era compatível com os serviços que sua empresa já prestava. O contrato não seria gigantesco, mas poderia representar uma boa entrada de receita e abrir caminho para novos clientes.
— Você já tem uma reunião marcada com essa empresa? — perguntou Gabriel.
— Ainda não. Primeiro queria saber se vocês teriam interesse.
— Tenho interesse em conhecer os detalhes. Envie as informações por escrito, incluindo o escopo do serviço, o prazo e os dados da empresa. Depois de analisarmos, podemos marcar uma reunião.
— Perfeito. Posso enviar ainda hoje.
— Ótimo. Aguardo.
Gabriel desligou.
Não havia nada extraordinário naquela conversa. Era uma oportunidade comercial comum.
Mas era exatamente assim que uma empresa deveria crescer: uma boa oportunidade de cada vez, com análise, execução e reputação.
Ele não precisava ganhar milhões naquela semana.
Precisava construir uma organização capaz de ganhar muito mais nos anos seguintes.
E, ao contrário da primeira vida, não pretendia depender exclusivamente da própria capacidade de trabalho. Criaria processos, desenvolveria talentos e transformaria cada boa contratação em uma nova fonte de força para a empresa.
Quando terminou de registrar a ligação, olhou pela janela.
O sol começava a descer sobre a cidade.
Era apenas o primeiro dia.
Patrícia estava revelando capacidades que ele nunca havia explorado. Caio poderia se tornar o responsável por uma área tecnológica inteira. Um novo contrato talvez estivesse a caminho.
E Gabriel ainda tinha milhares de oportunidades para descobrir.
Ele fechou o caderno e sorriu.
Na primeira vida, construíra uma empresa tentando fazer tudo sozinho.
Na segunda, construiria um império encontrando as pessoas certas.
E, desta vez, ele não precisaria esperar vinte anos para começar a vencer.