Capítulo 3 — O primeiro talento da nova equipe
Terça-feira, 17 de outubro de 2006 — 8:35
Gabriel Montenegro chegou ao escritório antes do horário habitual.
Na mão direita, carregava um copo de café. Na esquerda, uma pasta contendo os documentos financeiros da empresa, que havia levado para casa na noite anterior.
Dormira pouco mais de sete horas, algo que não fazia havia muito tempo em sua primeira vida.
E, curiosamente, sentia-se melhor do que esperava.
Aos cinquenta e dois anos, Gabriel passara a acreditar que o sucesso exigia sacrifícios constantes. Trabalhava até tarde, sacrificava fins de semana e tratava qualquer momento de descanso como uma oportunidade desperdiçada.
No fim, perdera a empresa, afastara-se de pessoas importantes e terminara sozinho.
Agora, aos trinta e dois, não pretendia repetir esse comportamento.
Disciplina era necessária. Exaustão permanente, não.
Entrou no escritório, cumprimentou o porteiro e subiu até o andar onde ficava a Montenegro Soluções Empresariais.
Ao abrir a porta, encontrou Patrícia já trabalhando.
Ela estava diante do computador, com uma planilha aberta e vários documentos organizados ao lado do teclado.
— Bom dia, Patrícia.
A secretária ergueu os olhos.
— Bom dia, senhor Gabriel. O senhor chegou cedo.
— Você também.
— Queria terminar a conferência dos pagamentos antes de começarem as ligações.
Gabriel colocou a pasta sobre a mesa.
— Conseguiu avançar?
— Sim. Separei as despesas em quatro categorias e identifiquei alguns pontos que merecem atenção.
Ela abriu a planilha e girou o monitor ligeiramente na direção dele.
— Primeiro, temos os custos fixos, como aluguel, telefone e serviços contratados. Depois, os custos variáveis, que mudam conforme a quantidade de trabalho. Também separei os gastos extraordinários e os pagamentos cuja documentação ainda preciso conferir.
Gabriel examinou a tela.
Era uma estrutura simples, mas muito melhor do que a organização que ele esperava encontrar depois de apenas um dia de trabalho.
— E as divergências?
— Encontrei três. Duas podem ser reajustes contratuais, mas ainda não localizei os documentos que confirmam isso. A terceira parece ser uma cobrança duplicada.
— Parece?
— Não quero afirmar antes de verificar. O pagamento foi registrado duas vezes, mas pode existir uma nota fiscal diferente que ainda não chegou até mim.
Gabriel sorriu.
— Excelente.
Patrícia pareceu satisfeita, mas continuou explicando.
— Também percebi que alguns contratos estão guardados em pastas diferentes das utilizadas para registrar os pagamentos. Isso torna a conferência mais demorada. Se organizarmos tudo por fornecedor, com uma cópia digital e outra física, será mais fácil encontrar as informações.
Gabriel ficou em silêncio por um instante.
A sugestão parecia banal. Entretanto, era exatamente o tipo de iniciativa que separava uma funcionária que apenas cumpria tarefas de uma profissional capaz de melhorar o funcionamento de uma empresa.
— Faça uma proposta de organização. Não precisa executar tudo sozinha. Quero ver como você estruturaria o processo.
— Certo.
— E, Patrícia...
— Sim?
— Continue questionando os números. Mas sempre diferencie aquilo que você comprovou daquilo que ainda precisa investigar.
Ela assentiu imediatamente.
— Pode deixar.
Gabriel seguiu para sua sala.
A primeira descoberta do dia estava confirmada: Patrícia não precisava apenas de tarefas maiores. Precisava de espaço para pensar.
E ele pretendia lhe dar esse espaço.
9:00 — O visitante
Às nove horas em ponto, Patrícia anunciou a chegada de Caio Nascimento.
O rapaz entrou segurando uma mochila preta, um caderno e um CD gravado com uma etiqueta escrita à mão.
Parecia ter se preparado cuidadosamente para aquela reunião. A camisa estava passada, os cabelos penteados e a mochila, embora antiga, encontrava-se limpa.
— Bom dia, senhor Gabriel.
— Bom dia, Caio. Pode entrar.
O rapaz sentou-se diante da mesa e colocou seus pertences sobre as pernas.
— Trouxe o programa que comentei ontem. Também trouxe algumas anotações para explicar como funciona.
— Ótimo. Antes de começarmos, quero esclarecer uma coisa.
Caio ficou atento.
— Você não precisa tentar me impressionar inventando respostas. Se alguma coisa não funcionar, diga que não funciona. Se houver algo que você ainda não sabe fazer, diga também. Não estou procurando alguém que saiba tudo. Estou procurando alguém capaz de aprender, resolver problemas e trabalhar com responsabilidade.
O rapaz relaxou ligeiramente.
— Entendi.
Gabriel indicou o caderno.
— Então me conte sobre o programa.
Caio abriu o material.
— Comecei porque tinha dificuldade para controlar meus gastos. Eu anotava tudo em papéis, depois tentava passar para uma planilha. Acabava esquecendo alguma coisa e nunca sabia exatamente quanto tinha gastado em cada categoria.
— Então você criou um programa para resolver um problema seu?
— Isso. Primeiro fiz uma versão que só somava as despesas. Depois acrescentei categorias, datas e um relatório mensal. Agora estou tentando fazer com que ele mostre onde gasto mais dinheiro e compare os meses.
— Em qual linguagem você programou?
Caio respondeu.
Gabriel conhecia a linguagem e sabia que, naquele período, era possível construir aplicações úteis com ferramentas relativamente acessíveis. O importante não era a tecnologia mais sofisticada, mas a capacidade de utilizá-la para produzir resultados.
— E como você decidiu quais funções incluir?
— Eu comecei usando o programa. Cada vez que precisava fazer alguma coisa que ele não permitia, anotava. Depois tentava encontrar uma maneira de acrescentar a função sem deixar tudo mais complicado.
Gabriel apoiou as mãos sobre a mesa.
— Você percebe que acabou de descrever um processo de desenvolvimento baseado nas necessidades do usuário?
Caio piscou.
— Eu... nunca pensei nisso dessa maneira.
— Você identifica um problema, constrói uma solução, testa, observa o que falta e melhora. Isso é uma maneira válida de desenvolver produtos.
O rapaz olhou para o próprio caderno, como se estivesse revendo o trabalho que fizera nas noites anteriores.
— Então não estou fazendo tudo errado?
— Não. Mas isso não significa que tudo esteja certo. Vamos examinar o programa.
Gabriel chamou Patrícia, que trouxe um computador disponível no escritório. Caio explicou como abrir o aplicativo e demonstrou as principais funções.
A primeira versão era simples.
A interface não tinha uma aparência particularmente moderna. Alguns campos estavam mal alinhados, e a navegação exigia mais cliques do que seria necessário.
Mas o programa funcionava.
Caio cadastrou algumas despesas, organizou os valores por categoria e gerou um relatório mensal. Em seguida, demonstrou a comparação entre dois períodos.
Gabriel observou com atenção.
— Quanto tempo você levou para construir essa versão?
— Cerca de três semanas, trabalhando à noite. Mas passei muito tempo tentando resolver alguns problemas.
— Quais foram os mais difíceis?
Caio explicou os erros que encontrara, as soluções que tentara e as decisões que tomara para evitar que o mesmo problema voltasse a acontecer.
Gabriel percebeu que o rapaz não se limitava a repetir instruções encontradas em livros. Tentava compreender por que algo funcionava.
Essa característica valia muito.
Uma pessoa que apenas reproduzia soluções conhecidas podia ser útil. Uma pessoa que entendia os princípios por trás delas tinha condições de criar soluções novas.
Gabriel fez uma pergunta:
— Imagine que eu queira utilizar esse sistema para controlar as despesas da minha empresa. O que você precisaria mudar?
Caio pensou por alguns segundos.
— Primeiro, precisaria separar os usuários. O senhor não gostaria que qualquer funcionário pudesse alterar qualquer informação.
— Continue.
— Também teria que controlar quem cadastrou cada despesa, quem aprovou o pagamento e quando a informação foi modificada. E eu faria cópias de segurança para evitar que um problema no computador apagasse os registros.
Gabriel assentiu.
— E se duas pessoas precisassem acessar as mesmas informações?
— Eu teria que mudar a estrutura. Essa versão foi feita para uma única pessoa, então não seria adequado simplesmente instalar em vários computadores e esperar que funcionasse direito.
— Muito bem.
Caio pareceu surpreso com a reação positiva.
Gabriel, porém, ainda não havia terminado.
— E como você faria para impedir que alguém alterasse um pagamento depois de ele ter sido aprovado?
O rapaz começou a explicar uma solução baseada em permissões, registros de alterações e separação entre cadastro e aprovação.
Não era uma solução perfeita. Havia questões de segurança, integridade dos dados e arquitetura que precisariam ser estudadas. Mas a direção do raciocínio era promissora.
Gabriel finalmente recostou-se na cadeira.
— Caio, vou ser direto. Você ainda não está preparado para assumir sozinho o desenvolvimento de um sistema empresarial completo. Há coisas que precisa aprender, e não pretendo colocar um projeto importante nas mãos de alguém sem a experiência necessária.
O entusiasmo do rapaz diminuiu um pouco, mas ele continuou ouvindo.
— Entretanto, você demonstrou algo que considero mais difícil de encontrar do que conhecimento técnico: sabe identificar problemas, testar ideias e aprender com os próprios erros.
Gabriel fez uma pausa.
— Quero lhe oferecer uma oportunidade.
Caio endireitou-se na cadeira.
— Que oportunidade?
— Um período inicial de trabalho remunerado, com atividades e objetivos definidos. Você ajudará a mapear os processos da empresa, desenvolver pequenas ferramentas internas e documentar os problemas que encontrarmos. Eu providenciarei as condições de trabalho e definiremos juntos quais conhecimentos você precisará desenvolver.
— O senhor quer me contratar?
— Quero começar com uma experiência profissional séria, formalizada corretamente. Se houver compatibilidade e os resultados forem bons, poderemos estabelecer uma relação de longo prazo.
Caio ficou alguns segundos sem falar.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Por que eu? O senhor poderia procurar alguém com faculdade, experiência e um currículo muito melhor.
Gabriel sorriu.
— Porque o currículo mostra parte do que uma pessoa fez. Seu projeto me mostrou como você pensa. E eu prefiro investir em alguém com potencial real do que escolher apenas a pessoa que sabe apresentar o melhor currículo.
Caio baixou os olhos para o CD que trouxera.
Durante anos, ouvira que precisava de experiência para conseguir experiência. Estudava depois do trabalho, montava programas por conta própria e tentava descobrir como entrar em uma área que parecia sempre exigir algo que ainda não tinha.
Agora, um empresário acabara de analisar seu trabalho e lhe oferecera uma oportunidade concreta.
— Eu aceito — respondeu.
Gabriel ergueu uma sobrancelha.
— Ainda nem conversamos sobre remuneração, horário e condições.
Caio corou.
— Desculpe. É que... eu quero muito essa oportunidade.
— Não precisa se desculpar por demonstrar interesse. Mas vamos fazer tudo corretamente. Você vai conhecer as condições, avaliar a proposta e decidir com tranquilidade.
Gabriel chamou Patrícia e pediu que ela agendasse uma conversa para formalizar os detalhes.
Naquele momento, a Visão da Verdade forneceu uma última observação sobre Caio:
A confiança profissional depositada nele, acompanhada de condições justas e oportunidades reais de aprendizado, tende a produzir um vínculo de lealdade duradouro.
Gabriel não precisava da habilidade para entender o motivo.
Caio não estava apenas procurando um salário.
Estava procurando uma chance de fazer algo que considerava importante.
Gabriel poderia oferecer essa chance sem prometer o impossível.
E, se cumprisse o que acabara de dizer, teria dado início a uma relação profissional com enorme potencial.
10:15 — A primeira contratação estratégica
Depois que Caio saiu para retornar ao trabalho e conversar com o proprietário da loja, Gabriel permaneceu alguns minutos diante do computador.
A primeira peça da estrutura tecnológica começava a tomar forma.
Mas ele não pretendia cometer o erro de transformar um jovem talentoso em responsável por tudo relacionado à informática.
Na vida anterior, contratara profissionais promissores e, em seguida, despejara sobre eles uma quantidade absurda de responsabilidades. Quando os resultados demoravam a aparecer, ficava frustrado. Quando apareciam, aumentava as exigências.
Dessa vez, definiria funções claras.
Caio começaria como assistente de desenvolvimento e automação, com um escopo compatível com suas habilidades. Teria tempo para aprender, acesso aos recursos necessários e metas que pudessem ser avaliadas objetivamente.
O primeiro projeto seria pequeno.
Organizar informações dos clientes.
A empresa já possuía dados espalhados em planilhas, pastas e documentos físicos. Isso dificultava localizar históricos de atendimento, acompanhar propostas e verificar quais serviços haviam sido contratados.
Gabriel queria uma base centralizada, com controles de acesso e cópias de segurança.
Nada extravagante.
Mas, se fosse bem executado, o sistema reduziria retrabalho e facilitaria a tomada de decisões.
Ele escreveu no caderno:
Projeto 01 — Organização dos dados comerciais.
— Levantar como as informações eram registradas.
— Identificar duplicidades e campos importantes.
— Definir quem poderia consultar ou alterar cada dado.
— Criar uma primeira versão funcional.
— Testar antes de utilizá-la com informações importantes.
— Documentar o funcionamento para que a empresa não dependesse exclusivamente de uma pessoa.
O último item era especialmente importante.
Gabriel queria que Caio se tornasse indispensável pelo valor que agregava, não porque somente ele conhecia o funcionamento de um sistema que ninguém mais conseguia manter.
Uma boa empresa precisava transformar conhecimento individual em capacidade coletiva.
Ele fechou o caderno.
Agora tinha uma secretária com potencial para coordenar operações, um futuro desenvolvedor com grande aptidão técnica e uma oportunidade comercial em análise.
Em menos de dois dias, sua perspectiva já era muito melhor do que no início da segunda vida.
E ele ainda nem havia começado a procurar talentos de maneira sistemática.
11:40 — Uma proposta inesperada
Patrícia entrou no escritório carregando uma pasta organizada por separadores.
— Concluí a primeira versão do relatório financeiro.
Gabriel indicou a cadeira.
— Vamos ver.
Ela colocou os documentos sobre a mesa e explicou cada seção.
Os gastos fixos estavam separados dos variáveis. Os contratos tinham datas de vencimento e renovação. As cobranças que precisavam de conferência estavam listadas com referências aos documentos correspondentes.
No final, Patrícia incluíra uma página com sugestões.
Gabriel começou a ler.
A primeira era relativamente simples: padronizar a forma como os documentos eram identificados e armazenados.
A segunda tratava do acompanhamento dos contratos.
A terceira chamou sua atenção.
Patrícia havia percebido que a empresa não possuía um procedimento consistente para registrar as horas utilizadas em determinados serviços. Isso tornava difícil calcular o custo real de alguns projetos.
— Como você identificou isso? — perguntou Gabriel.
— Comparei os contratos com os relatórios de serviço. Em alguns casos, o valor cobrado estava registrado, mas não havia informação suficiente para saber quantas horas a equipe tinha utilizado.
— E o que você sugere?
— Criar um registro simples por projeto. Não precisa ser complicado. Data, funcionário responsável, atividade realizada, tempo utilizado e observações. Depois, poderíamos comparar o custo de execução com o valor recebido.
Gabriel sorriu.
A sugestão era excelente.
Uma empresa de serviços que não conhecia o custo real de seus projetos podia faturar bastante e, ainda assim, ganhar pouco.
— Patrícia, você já trabalhou com análise de custos?
— Não profissionalmente. Aprendi algumas coisas durante a faculdade e fiz um curso de contabilidade básica.
— E como chegou a essa conclusão?
Ela apontou para os documentos.
— Estava tentando entender por que alguns serviços pareciam dar muito mais trabalho do que outros, mesmo quando o valor cobrado era parecido.
Gabriel apoiou os braços sobre a mesa.
— Essa é uma pergunta que eu deveria ter feito há muito tempo.
Patrícia sorriu, sem saber exatamente como responder.
— Quero que você desenvolva essa proposta. Converse com os funcionários envolvidos, entenda como eles registram o trabalho atualmente e sugira um processo simples. Não altere os contratos nem os procedimentos oficiais sem minha aprovação.
— Certo.
— E quero que você reserve algum tempo para estudar análise financeira e gestão de operações. Vamos avaliar cursos adequados e organizar isso dentro do seu horário de trabalho.
A expressão dela mudou.
— O senhor está falando sério?
— Absolutamente.
— Eu sempre quis voltar a estudar. Só não sabia se conseguiria conciliar tudo.
— Não precisamos resolver tudo de uma vez. Primeiro, vamos organizar sua nova função. Depois, definiremos um plano de desenvolvimento.
Patrícia segurou a pasta com um sorriso que tentava, sem muito sucesso, esconder a empolgação.
— Obrigada por confiar em mim.
— A confiança é o começo. O que você fizer com essa oportunidade é o que vai determinar os próximos passos.
Ela assentiu.
Gabriel acrescentou:
— E quero que saiba de uma coisa. Se você descobrir um problema, pode me trazer a informação. Não precisa esconder um erro por medo da minha reação. Prefiro conhecer uma dificuldade cedo e resolvê-la do que descobrir meses depois que alguém deixou de falar sobre ela.
— Isso vale para todos os funcionários?
— Deve valer para todos.
Patrícia deixou a sala com a tarefa de desenvolver o primeiro procedimento formal de controle operacional da empresa.
Gabriel ficou olhando para a porta fechada.
Na primeira vida, ele acreditara que uma boa equipe era formada por profissionais que executavam ordens com eficiência.
Agora, começava a compreender algo mais importante.
Uma boa equipe também era formada por pessoas capazes de perceber o que o próprio chefe não havia percebido.
14:10 — O mapa do futuro
Depois do almoço, Gabriel dedicou a tarde ao planejamento.
Na parede de sua sala, colocou uma folha grande e escreveu o nome da empresa no centro.
Ao redor, desenhou quatro áreas.
Comercial.
Operações.
Finanças.
Tecnologia.
A estrutura atual era pequena demais para justificar departamentos complexos, mas o desenho representava a direção desejada.
A área comercial precisaria conquistar clientes e manter relacionamentos.
As operações deveriam garantir que os serviços fossem executados com qualidade e dentro do prazo.
As finanças precisariam controlar o dinheiro, avaliar custos e apoiar as decisões de investimento.
A tecnologia deveria automatizar tarefas, organizar informações e desenvolver soluções que aumentassem a produtividade.
Gabriel escreveu os nomes das pessoas ao lado das áreas em que poderiam contribuir.
Patrícia apareceu em operações e finanças, ainda em fase de avaliação.
Caio apareceu em tecnologia, condicionado à formalização da contratação.
O espaço comercial permaneceu vazio.
Isso o incomodou um pouco.
A empresa precisava de alguém capaz de vender sem fazer promessas que não pudesse cumprir. Alguém que entendesse as necessidades dos clientes, soubesse negociar e construísse relacionamentos de longo prazo.
Na vida anterior, contratara vendedores que apresentavam números impressionantes nas entrevistas, mas não conseguiam manter uma carteira saudável. Alguns prometiam prazos impossíveis, outros ofereciam descontos sem avaliar os custos e alguns aceitavam qualquer contrato para receber comissões.
Gabriel não pretendia repetir isso.
Pegou uma folha nova e escreveu:
Próximo talento: comercial.
Abaixo, acrescentou:
— Capacidade de ouvir e compreender o cliente.
— Honestidade nas negociações.
— Organização no acompanhamento das propostas.
— Potencial para desenvolver uma equipe.
— Interesse genuíno em resolver problemas, não apenas fechar vendas.
Não precisava encontrar todas essas qualidades em alguém com um currículo perfeito.
Poderia encontrá-las em um profissional experiente, em alguém que estivesse começando ou até em uma pessoa que nunca tivesse trabalhado formalmente com vendas.
A Visão da Verdade lhe permitiria procurar além dos lugares óbvios.
Mas ele também precisaria criar uma oportunidade compatível com a realidade da empresa.
Não adiantava encontrar um talento excepcional se não houvesse trabalho, recursos ou uma função adequada para ele.
Gabriel guardou as folhas em uma pasta.
Naquele momento, o telefone tocou.
Patrícia atendeu, ouviu por alguns segundos e transferiu a ligação.
— Senhor Gabriel, é o Augusto Ferraz. Ele enviou os dados da oportunidade comercial e gostaria de saber se podemos marcar uma reunião para amanhã.
— Pode confirmar às dez horas.
— Certo.
Gabriel abriu o e-mail com as informações recebidas.
A empresa interessada precisava reorganizar processos administrativos, padronizar documentos e melhorar o acompanhamento de algumas atividades internas.
Era um projeto perfeitamente alinhado com os serviços da Montenegro.
Ele começou a analisar os detalhes, anotando dúvidas e possíveis soluções.
O valor parecia interessante, mas Gabriel não se deixou levar pela primeira impressão. Precisava confirmar o escopo, o prazo e os recursos necessários para cumprir o contrato.
Se a oportunidade fosse viável, seria um excelente primeiro passo para a nova fase da empresa.
Se não fosse, ele recusaria ou renegociaria.
Afinal, o objetivo não era aceitar todos os contratos.
Era construir uma empresa que crescesse com cada contrato aceito.
16:30 — Uma nova regra
Antes de encerrar o expediente, Gabriel reuniu Patrícia por alguns minutos.
— Quero começar uma mudança na maneira como trabalhamos.
Ela pegou o bloco de anotações.
— Pode falar.
— A partir de agora, toda tarefa importante deve ter um responsável, um prazo e um resultado esperado. Não quero que as pessoas trabalhem sem saber o que precisam entregar, nem que duas pessoas façam a mesma coisa porque ninguém definiu quem cuidaria dela.
Patrícia anotou os pontos principais.
— Também quero que os problemas sejam registrados junto com as soluções. Se descobrirmos que um procedimento está causando retrabalho, precisamos entender por quê e corrigir a causa, não apenas resolver o caso daquele dia.
— Entendi.
— E, quando alguém apresentar uma sugestão, quero que ela seja avaliada. Não significa que todas serão aceitas, mas ninguém deve deixar de contribuir por achar que sua opinião não será ouvida.
Patrícia terminou de escrever.
— Posso começar a preparar um modelo para essas tarefas?
— Sim. Faça uma primeira versão simples. Depois ajustamos conforme a necessidade.
Ela se levantou, mas Gabriel acrescentou:
— E mais uma coisa: não quero que você assuma todo o trabalho de organização sozinha. Se o processo exigir mais pessoas, vamos avaliar a distribuição das responsabilidades.
Patrícia sorriu.
— O senhor está preocupado em não me sobrecarregar?
— Estou preocupado em construir uma empresa que funcione bem. Se eu lhe der dez tarefas novas e continuar exigindo que faça todas as antigas, não estarei desenvolvendo seu potencial. Estarei apenas aumentando sua carga de trabalho.
Ela riu discretamente.
— Acho que vou gostar dessa nova função.
— Espero que sim.
Quando Patrícia saiu, Gabriel conferiu a agenda do dia seguinte.
Às nove horas, formalizaria a proposta para Caio.
Às dez, discutiria o novo contrato com Augusto Ferraz.
À tarde, começaria a revisar o planejamento financeiro para os próximos três meses.
Não era uma agenda extraordinária.
Era apenas o início de uma rotina organizada.
Mas, para Gabriel, havia uma diferença fundamental entre aquela terça-feira e qualquer outro dia de sua primeira vida.
Ele sabia para onde estava indo.
E, desta vez, não pretendia construir o império à custa da própria saúde ou da confiança cega em pessoas que não conhecia.
Construiria com planejamento, talento e decisões conscientes.
18:05 — O próximo passo
Antes de sair, Gabriel voltou à sala e observou o mapa que desenhara na parede.
Quatro áreas.
Duas pessoas com potencial extraordinário.
Uma oportunidade comercial em análise.
E um futuro inteiro pela frente.
A Visão da Verdade não lhe daria clientes automaticamente, não faria os contratos serem cumpridos e não transformaria uma empresa pequena em uma potência de um dia para o outro.
Mas lhe permitiria encontrar as pessoas certas muito antes de qualquer concorrente perceber o valor delas.
Isso mudava tudo.
Gabriel apagou a luz, fechou a porta e caminhou até o elevador.
No dia seguinte, teria a oportunidade de conquistar seu primeiro contrato importante daquela nova vida.
E, se tudo corresse como planejado, a Montenegro Soluções Empresariais deixaria de ser apenas uma pequena prestadora de serviços.
Começaria a se tornar uma empresa construída para crescer.
Gabriel sorriu ao entrar no elevador.
Duas décadas atrás, ele precisara aprender quase tudo da maneira mais difícil.
Agora, cada dia lhe oferecia a possibilidade de avançar com muito mais rapidez.
E ele estava apenas começando.