Capítulo 4 — O primeiro contrato e o segredo de outubro
Quarta-feira, 18 de outubro de 2006 — 8:10
Gabriel Montenegro estava diante da janela de seu escritório quando percebeu algo que quase o fez rir.
Durante dois dias, concentrara-se em reorganizar a empresa, encontrar talentos e preparar sua primeira oportunidade comercial. Eram medidas importantes, mas representavam apenas uma pequena parte do que poderia fazer.
Ele conhecia o futuro.
Não vagamente. Não por meio de previsões econômicas ou notícias que poderiam estar erradas.
Gabriel se lembrava de acontecimentos que vivera durante vinte anos. Conhecia tendências que surgiriam, empresas que cresceriam, setores que perderiam força e tecnologias que transformariam mercados inteiros.
Em sua primeira vida, precisara descobrir essas mudanças enquanto aconteciam.
Agora, poderia se preparar antes delas.
Pegou uma folha e escreveu no alto:
O que eu sei que vai acontecer?
Ficou alguns segundos pensando.
Não pretendia anotar tudo de uma vez. A memória de vinte anos de acontecimentos era extensa, e ele precisava separar lembranças confiáveis de detalhes que poderiam ter mudado naquela nova realidade.
Alguns eventos dependiam de decisões políticas, outros de milhares de pessoas e outros ainda de circunstâncias imprevisíveis.
Entretanto, existiam tendências tão fortes que seria absurdo ignorá-las.
Gabriel começou a escrever.
— A internet continuará transformando o comércio e os serviços.
— A computação em nuvem ganhará importância crescente.
— Os smartphones mudarão a maneira como as pessoas trabalham, compram e se comunicam.
— Empresas capazes de organizar dados terão vantagens competitivas cada vez maiores.
— O comércio eletrônico crescerá de maneira significativa.
— A automação permitirá que equipes pequenas realizem tarefas que antes exigiam departamentos inteiros.
Ele parou.
A lista parecia simples, mas continha oportunidades suficientes para construir várias empresas.
O erro seria tentar entrar em todos esses mercados imediatamente.
Gabriel precisava escolher uma porta de entrada, gerar dinheiro com a empresa que já possuía e utilizar os lucros para financiar a expansão.
Não queria apostar tudo em uma única ideia.
Queria construir uma estrutura capaz de aproveitar muitas oportunidades.
Na parte inferior da folha, escreveu:
Primeira regra: não preciso ser o primeiro a fazer tudo. Preciso estar preparado quando a oportunidade chegar.
Dobrou a folha e guardou-a em uma pasta reservada para o planejamento estratégico.
Naquele momento, Patrícia bateu à porta.
— Senhor Gabriel, o senhor Augusto Ferraz acabou de chegar.
Gabriel olhou para o relógio.
Eram 8:12.
— Pode recebê-lo. Nossa reunião está marcada para as dez, mas posso conversar com ele alguns minutos antes.
Patrícia assentiu.
Antes de sair, acrescentou:
— O senhor Caio também confirmou que vem às nove para discutir a proposta de trabalho.
— Excelente.
Gabriel voltou a olhar pela janela.
Aquele dia poderia marcar o começo de uma nova fase para a Montenegro.
E, pela primeira vez desde que despertara em 2006, ele sentiu que estava realmente começando a usar a maior vantagem que possuía.
Não apenas para evitar os erros do passado.
Mas para conquistar oportunidades que, na primeira vida, sequer soubera que existiam.
9:00 — Um talento, uma proposta e uma promessa
Caio entrou no escritório pontualmente.
Dessa vez, não trazia apenas o CD com seu programa. Carregava também uma pasta com certificados de cursos, anotações e alguns exemplos de exercícios de programação.
— Bom dia, senhor Gabriel.
— Bom dia, Caio. Dormiu bem?
— Mais ou menos. Fiquei pensando na possibilidade de trabalhar aqui.
Gabriel riu.
— Espero que tenha pensado também nas condições da proposta.
— Pensei. E conversei com o senhor Roberto ontem. Ele disse que posso sair sem problemas, desde que cumpra o aviso combinado e organize a transição do meu trabalho.
— Ótimo. Quero que você saia de lá em bons termos. Nunca se sabe quando vamos precisar de uma boa referência ou de uma parceria.
Caio assentiu.
Gabriel abriu a pasta que Patrícia havia preparado.
A proposta estabelecia as responsabilidades iniciais, a remuneração, a jornada, os recursos de trabalho e os critérios para avaliar os primeiros meses. A contratação seria formalizada de acordo com as regras aplicáveis.
Caio leu cada página cuidadosamente.
— A função é assistente de desenvolvimento e automação? — perguntou.
— Isso mesmo. No começo, você vai mapear processos, desenvolver pequenas ferramentas internas e ajudar a organizar os dados da empresa. Não será responsável sozinho por sistemas críticos.
— E eu poderei continuar estudando?
— Quero que continue. Vamos estabelecer um plano de aprendizado compatível com suas atividades. Conforme demonstrar novas competências, poderemos ampliar suas responsabilidades.
Caio voltou à proposta.
— O salário é maior do que eu ganho atualmente.
— É uma remuneração compatível com a função que estamos oferecendo e com o trabalho esperado. Se suas responsabilidades crescerem de maneira significativa, voltaremos a conversar sobre isso.
O rapaz respirou fundo.
— Eu aceito.
Gabriel estendeu a mão.
— Então seja bem-vindo à Montenegro, Caio.
Os dois apertaram as mãos.
Naquele instante, a Visão da Verdade confirmou que a contratação tinha excelente potencial.
Mas Gabriel percebeu algo além das informações da habilidade: Caio estava genuinamente feliz.
Não porque acreditasse que ficaria rico da noite para o dia, mas porque finalmente teria a oportunidade de trabalhar na área em que desejava construir sua carreira.
— Tenho uma primeira tarefa para você — disse Gabriel.
Caio abriu o caderno imediatamente.
— Pode falar.
— Quero que você examine como registramos nossos clientes, propostas e contratos. Não comece programando. Primeiro, descubra como as informações circulam, quem precisa acessá-las e quais problemas os funcionários enfrentam.
Caio pareceu surpreso.
— O senhor quer que eu estude o funcionamento da empresa antes de desenvolver o sistema?
— Exatamente. Uma ferramenta excelente que resolve o problema errado continua sendo uma ferramenta inútil.
O rapaz anotou a frase.
Gabriel continuou:
— Quero uma proposta inicial até sexta-feira. Não precisa estar perfeita. Quero entender como você pensa, quais problemas identificou e quais soluções recomenda.
— Entendido.
— E lembre-se: se descobrir que uma ideia minha não faz sentido, quero que diga. Não contratei você para concordar comigo. Contratei você para ajudar a empresa a funcionar melhor.
Caio sorriu.
— Acho que vou gostar de trabalhar aqui.
— Essa é a intenção.
Quando o novo funcionário saiu para conhecer os processos administrativos, Gabriel marcou a primeira contratação como concluída em seu planejamento.
Agora havia duas pessoas em quem investir.
Patrícia, com sua capacidade de análise e organização.
Caio, com seu talento para tecnologia e resolução de problemas.
E ambos tinham espaço para crescer.
9:35 — Uma lembrança de vinte anos à frente
Antes da reunião comercial, Gabriel abriu uma nova página do caderno.
Dessa vez, escreveu um nome que não tinha relação direta com o contrato daquele dia:
Júlia Vasconcelos.
A lembrança surgiu com uma clareza inesperada.
Na primeira vida, Júlia se tornara uma das empresárias mais influentes do setor de tecnologia no Brasil. Começara sua carreira trabalhando com soluções de gestão para pequenas empresas, passara por uma empresa de software em expansão e, anos depois, fundara uma companhia especializada em sistemas de automação comercial.
Gabriel a conhecera em 2015, durante um evento empresarial.
Naquela época, Júlia já era reconhecida por sua competência. Os dois haviam conversado brevemente sobre tecnologia, e ela fizera uma observação que ficara gravada em sua memória:
As pequenas empresas não precisam de sistemas complicados. Precisam de sistemas que resolvam problemas reais sem obrigá-las a contratar uma equipe inteira para operá-los.
Agora, em outubro de 2006, Júlia tinha apenas vinte anos.
Trabalhava em uma pequena empresa de suporte técnico e ainda estava longe de ser conhecida.
Gabriel não sabia exatamente onde ela estaria naquele dia, e não pretendia inventar uma certeza que não possuía. Mas lembrava-se de alguns detalhes de sua trajetória inicial: ela havia estudado na região Sudeste e participado, nos anos seguintes, de encontros e cursos relacionados a tecnologia e gestão.
Era suficiente para começar uma busca cuidadosa.
Ele pegou outra folha.
Júlia Vasconcelos — futura empresária de tecnologia.
Abaixo, escreveu:
— Descobrir sua situação profissional atual.
— Verificar se existe uma oportunidade adequada para ela.
— Não tentar contratá-la apenas por causa do futuro que Gabriel conhecia.
— Se houver contato, avaliar suas competências atuais com a Visão da Verdade.
— Oferecer uma oportunidade real, sem promessas exageradas.
Gabriel releu a lista.
A ideia era simples: ele não precisava esperar até 2015 para reconhecer o valor de alguém que só se tornaria conhecida anos depois.
Mas também não queria tratar o futuro como se fosse um roteiro imutável.
As circunstâncias haviam mudado. Suas próprias decisões já estavam alterando o caminho de pessoas ao seu redor.
Talvez Júlia ainda seguisse a mesma carreira.
Talvez escolhesse outro caminho.
De qualquer forma, Gabriel poderia procurá-la e descobrir.
Essa era uma das vantagens mais fascinantes de sua segunda vida: pessoas que ainda eram desconhecidas para o mercado poderiam ser extremamente valiosas para ele.
E ele tinha vinte anos de vantagem para encontrá-las.
10:00 — A reunião comercial
Augusto Ferraz entrou acompanhado de uma mulher de aproximadamente quarenta anos.
— Gabriel, obrigado por nos receber — disse Augusto. — Esta é Helena Duarte, gerente administrativa da Horizonte Distribuição.
Gabriel se levantou para cumprimentá-la.
— Muito prazer, senhora Helena.
Ao olhar para a nova visitante, a Visão da Verdade se manifestou automaticamente.
Helena Duarte
Gerente administrativa · 41 anos
Competências: gestão de processos, organização de equipes, análise de custos e negociação com fornecedores.
Perfil: prática, cuidadosa e orientada a resultados.
Intenção: encontrar uma empresa capaz de organizar os processos internos sem interromper as operações da distribuidora.
Ponto de atenção: já teve experiências ruins com fornecedores que prometeram mudanças rápidas, mas entregaram soluções incompletas.
Potencial de relacionamento: elevado, desde que receba informações claras, prazos realistas e resultados verificáveis.
Gabriel compreendeu imediatamente como deveria conduzir a reunião.
Helena não queria ouvir uma apresentação cheia de palavras sofisticadas. Queria segurança de que a empresa contratada entenderia o negócio e cumpriria o combinado.
Ele os convidou a sentar.
— Augusto me explicou que vocês precisam reorganizar alguns processos administrativos. Gostaria de ouvir de vocês quais são os problemas mais importantes antes de apresentar qualquer solução.
Helena pareceu satisfeita com a pergunta.
— Nossa empresa cresceu bastante nos últimos anos. O problema é que nossos procedimentos não acompanharam o crescimento. Temos informações espalhadas por planilhas, documentos físicos e arquivos que cada departamento mantém por conta própria.
— Isso causa atrasos?
— Atrasos, retrabalho e dificuldade para conferir informações. Às vezes, duas pessoas trabalham sobre versões diferentes do mesmo documento.
Gabriel assentiu.
— E vocês pretendem resolver tudo de uma vez?
— Seria o ideal, mas não podemos parar a operação para reorganizar a empresa.
— Concordo. Na verdade, não recomendo tentar mudar tudo simultaneamente.
Helena se inclinou ligeiramente para a frente.
Gabriel pegou uma folha e desenhou três etapas.
— Primeiro, mapeamos os processos atuais e identificamos os pontos em que as informações se perdem ou são duplicadas. Depois, definimos um procedimento padronizado para os processos prioritários. Por fim, acompanhamos a implantação e corrigimos os problemas encontrados.
— Quanto tempo levaria?
Gabriel não respondeu imediatamente.
Na primeira vida, teria sentido a tentação de prometer um prazo curto para impressionar o cliente. Agora, sabia que uma estimativa correta valia mais do que uma promessa ambiciosa.
— Depende da quantidade de processos e da disponibilidade das pessoas envolvidas. Para estabelecer um prazo responsável, precisamos fazer um levantamento inicial. Posso propor uma primeira etapa curta, com entregas bem definidas, e apresentar um cronograma mais completo depois de avaliarmos os resultados.
Helena olhou para Augusto.
— É exatamente o tipo de abordagem que eu estava procurando.
Gabriel continuou:
— Também recomendo que comecemos pelos processos que causam mais retrabalho. Se resolvermos primeiro os problemas mais frequentes, vocês poderão perceber os benefícios antes de avançarmos para as etapas seguintes.
A gerente abriu sua pasta e retirou alguns documentos.
A conversa passou a ser mais concreta. Ela explicou como os pedidos eram registrados, como as informações chegavam ao setor administrativo e quais conferências precisavam ser repetidas.
Gabriel fez perguntas, tomou notas e identificou pontos que mereciam ser examinados durante o levantamento.
A Visão da Verdade não substituía o conhecimento operacional de Helena. Pelo contrário, ajudava Gabriel a compreender suas prioridades e a conduzir a conversa sem perder tempo com propostas inadequadas.
Depois de quase quarenta minutos, ele apresentou uma proposta inicial.
A Montenegro realizaria um diagnóstico dos processos prioritários, entregaria um relatório com as falhas identificadas e apresentaria um plano de reorganização. O trabalho seria remunerado, com escopo e prazo definidos em contrato.
Se a Horizonte aprovasse os resultados, as partes poderiam negociar uma segunda etapa.
Helena leu o documento.
— Gosto da ideia de começar com um diagnóstico. Assim conseguimos entender o que realmente precisa ser feito antes de assumir um projeto maior.
— Exatamente — respondeu Gabriel. — E vocês não ficam obrigados a contratar a segunda etapa se o resultado não atender às expectativas estabelecidas.
Ela voltou a ler a proposta e sorriu.
— Podemos avançar com isso.
Gabriel manteve a expressão tranquila, embora por dentro estivesse satisfeito.
Não era um contrato gigantesco.
Era melhor: um contrato com potencial para abrir uma relação comercial duradoura, gerar uma referência positiva e permitir que a Montenegro demonstrasse a qualidade de seu trabalho.
— Vou solicitar os dados necessários para formalizarmos o acordo — disse Helena.
— Perfeito. Minha equipe entrará em contato para organizar o início do diagnóstico.
Os três se levantaram e trocaram cumprimentos.
Quando a porta se fechou, Gabriel voltou à mesa e anotou:
Primeiro contrato da nova fase — Horizonte Distribuição.
Em seguida, escreveu o valor negociado, as entregas previstas e o prazo acordado.
Era uma vitória pequena em comparação com o império que pretendia construir.
Mas era uma vitória real.
E o melhor era que não precisara enganar ninguém, prometer o impossível ou aceitar condições prejudiciais.
Havia conquistado o contrato oferecendo uma solução adequada para um problema concreto.
Gabriel sorriu.
Se aquele fosse o padrão de crescimento da Montenegro, teria motivos para ficar satisfeito.
11:20 — O que aconteceria antes de todos perceberem
Depois da reunião, Gabriel pediu a Patrícia que organizasse os documentos do novo contrato e reservou alguns minutos para uma tarefa muito diferente.
Abriu a pasta de planejamento estratégico.
Queria transformar suas lembranças do futuro em um calendário de oportunidades.
Não bastava recordar tendências gerais. Precisava identificar acontecimentos que pudessem ser utilizados de maneira prática, começando pelos próximos meses.
Pegou uma folha e dividiu-a em quatro colunas:

Não queria investir dinheiro em qualquer coisa apenas porque acreditava que o futuro lhe daria razão.
Primeiro, precisaria verificar preços, custos, riscos e condições reais.
O conhecimento futuro não eliminava a necessidade de planejamento financeiro.
Mas poderia tornar a pesquisa muito mais eficiente.
Gabriel sabia, por exemplo, que a popularização dos smartphones criaria oportunidades para empresas que desenvolvessem serviços digitais. Também sabia que os negócios precisariam lidar com quantidades cada vez maiores de informações.
A Montenegro poderia se preparar desde já, começando com soluções simples para pequenas e médias empresas.
Com o tempo, talvez desenvolvesse produtos próprios.
E, se encontrasse os profissionais certos, poderia expandir para outros mercados.
Gabriel escreveu uma nova anotação:
Não esperar a tendência se tornar óbvia. Preparar a empresa enquanto ainda é possível crescer com custos menores.
Depois, abriu outra página e escreveu:
Pessoas do futuro.
Ali, começaria a registrar nomes de profissionais que conhecera ao longo da primeira vida, empresários que surgiriam em setores promissores e pessoas que se tornariam especialistas importantes.
Não contrataria todos.
Não faria sentido.
Alguns já estariam comprometidos com outras empresas. Outros poderiam não se adaptar à Montenegro. E alguns talvez nem tivessem interesse em trabalhar para ele.
Mas agora Gabriel poderia encontrá-los antes que se tornassem conhecidos.
Poderia conversar com eles, avaliar suas capacidades atuais e, quando houvesse compatibilidade, oferecer uma oportunidade.
Ele não precisava comprar o futuro.
Precisava chegar primeiro às pessoas e às oportunidades que realmente importavam.
14:15 — Uma decisão que valeria milhões
Naquela tarde, Gabriel recebeu a confirmação de que a Horizonte Distribuição estava preparando a documentação para formalizar o contrato.
A notícia melhorou ainda mais seu humor.
Depois de verificar os compromissos da semana, decidiu que não usaria toda a receita do novo projeto para expandir imediatamente a empresa.
Uma parte seria reservada para os custos de execução. Outra permaneceria como capital de giro. O restante poderia financiar melhorias internas, treinamento e novas oportunidades comerciais.
Essa disciplina parecia simples, mas Gabriel sabia que muitas empresas fracassavam não por falta de clientes, e sim por crescerem mais rápido do que seu caixa permitia.
Ele pretendia fazer o contrário.
Usaria o conhecimento do futuro para escolher boas oportunidades, mas construiria uma base financeira capaz de sustentá-las.
Foi então que uma lembrança particularmente importante surgiu.
Em sua primeira vida, conhecera um empresário chamado Marcelo Tavares, que começara com uma pequena empresa de distribuição e, anos depois, construíra um grupo regional bastante lucrativo.
Gabriel lembrava-se de ter conhecido Marcelo em 2012, durante uma negociação entre as duas empresas.
O que mais recordava não era a fortuna do homem, mas sua maneira de administrar: Marcelo mantinha uma operação enxuta, acompanhava os números pessoalmente e só abria novas unidades depois de validar a rentabilidade das anteriores.
Na época, Gabriel considerara aquela postura excessivamente cautelosa.
Anos depois, quando sua própria empresa enfrentara dificuldades, compreendera o valor daquela disciplina.
Agora, Marcelo ainda estava no início da carreira.
Gabriel não sabia exatamente qual era sua situação naquele outubro de 2006, mas conhecia a região onde começara seu negócio e lembrava-se do nome da empresa.
Isso era suficiente para investigar.
Ele anotou o nome na lista de pessoas a conhecer.
Talvez Marcelo pudesse se tornar um parceiro comercial.
Talvez fosse apenas uma boa fonte de aprendizado.
Ou talvez suas trajetórias nunca se cruzassem novamente.
Gabriel não precisava decidir naquele momento.
Bastava manter a informação registrada e procurar uma oportunidade adequada.
O futuro não era apenas uma lista de acontecimentos que ele poderia prever.
Era também um mapa de pessoas que, em circunstâncias diferentes, poderiam ajudá-lo a construir algo extraordinário.
16:40 — Uma empresa começa a mudar
No fim da tarde, Gabriel reuniu Patrícia e Caio para uma conversa rápida.
Caio havia passado boa parte do dia observando como os documentos circulavam entre os funcionários. Já tinha algumas anotações sobre a maneira como a empresa registrava clientes e propostas.
Patrícia, por sua vez, havia preparado uma primeira versão do modelo de acompanhamento de tarefas.
Gabriel colocou os dois documentos lado a lado.
— Quero que vocês vejam uma coisa — disse ele. — As tarefas de vocês parecem diferentes, mas estão relacionadas.
Caio examinou o modelo de Patrícia.
— Se tivermos um sistema para registrar as tarefas, poderemos acompanhar os prazos sem depender de várias planilhas.
— Exatamente — respondeu Gabriel. — Mas, antes de desenvolver qualquer coisa, precisamos saber quais informações realmente serão úteis.
Patrícia acrescentou:
— Também precisamos definir quem poderá alterar cada registro. Não adianta centralizar os dados se qualquer pessoa puder mudar informações sem deixar histórico.
Caio assentiu.
— Podemos registrar as alterações e identificar o usuário responsável. Vou estudar a melhor maneira de fazer isso sem complicar demais o sistema.
Gabriel observou os dois.
Aquilo era o começo da estrutura que desejava construir: uma pessoa identificando necessidades operacionais e outra procurando formas de resolvê-las por meio da tecnologia.
Nenhum deles precisava saber tudo.
Precisavam colaborar, compartilhar informações e desenvolver suas capacidades.
— Quero que vocês trabalhem juntos na análise — disse Gabriel. — Patrícia ficará responsável por explicar as necessidades administrativas e os controles que considera importantes. Caio avaliará as possibilidades técnicas e apresentará uma proposta.
Ele fez uma pausa.
— Não espero um sistema completo nesta semana. Quero apenas um desenho inicial do processo e uma lista das funcionalidades prioritárias.
Os dois concordaram.
Gabriel acrescentou:
— E, se discordarem sobre alguma solução, quero que discutam os motivos. A melhor ideia deve vencer, independentemente de quem a apresentou.
Patrícia e Caio trocaram um olhar.
Era uma orientação simples, mas estabelecia o tipo de cultura que Gabriel desejava para a empresa.
Uma cultura na qual as pessoas fossem valorizadas por suas contribuições, e não apenas por seus cargos.
Quando a reunião terminou, os dois começaram a discutir como poderiam organizar o trabalho.
Gabriel voltou para sua sala.
Pela primeira vez, a Montenegro começava a funcionar como algo maior do que um pequeno negócio dependente de seu fundador.
Ainda era uma empresa modesta.
Mas já possuía os primeiros elementos de uma organização que poderia crescer muito além de seu tamanho inicial.
18:10 — O império que ainda não existia
Gabriel ficou sozinho no escritório por alguns minutos antes de ir embora.
Abriu a pasta de planejamento e releu as anotações sobre tecnologia, investimentos e pessoas do futuro.
Depois, acrescentou mais uma regra:
Toda oportunidade deve ser avaliada em três dimensões: quanto pode gerar, quanto pode custar e quanto tempo levará para produzir resultados.
O conhecimento futuro poderia indicar onde procurar.
A Visão da Verdade poderia indicar quem merecia atenção.
Mas as decisões continuariam dependendo de uma análise racional.
Ele não queria transformar a segunda vida em uma sucessão de apostas impulsivas. Queria construir uma sequência de conquistas sustentáveis.
Olhou para o mapa das quatro áreas na parede.
Comercial.
Operações.
Finanças.
Tecnologia.
Amanhã, começaria o trabalho com a Horizonte Distribuição. Caio avançaria no levantamento dos processos internos. Patrícia continuaria estruturando os controles administrativos.
E, em paralelo, Gabriel começaria a pesquisar as primeiras pessoas e oportunidades que conhecia do futuro.
Ele não precisava esperar que a empresa se tornasse grande para agir como um empresário de visão.
Precisava tomar boas decisões enquanto ainda era pequeno.
Apagou a luz, fechou a porta e caminhou até o elevador.
Ao sair do prédio, olhou para o céu do início da noite.
Vinte anos atrás, ele havia começado sua trajetória sem saber onde terminaria.
Agora, tinha algo muito mais valioso do que dinheiro ou contatos.
Tinha a experiência de uma vida inteira e a chance de utilizá-la novamente.
E, dessa vez, cada conquista seria apenas o começo da próxima.