Capítulo 5 — O nome que Gabriel reconhecia
Quinta-feira, 19 de outubro de 2006 — 7:45
Gabriel Montenegro estava sentado à mesa do café da manhã quando abriu o caderno que vinha utilizando para registrar as oportunidades de sua segunda vida.
Na página da direita, havia nomes de pessoas que conhecera no futuro. Na da esquerda, uma lista de acontecimentos que pretendia aproveitar.
Ele começava a perceber que sua maior vantagem não era simplesmente saber o que aconteceria nos próximos vinte anos.
Era poder agir antes.
Na primeira vida, Gabriel conhecera empresários talentosos quando eles já possuíam empresas consolidadas, equipes experientes e clientes importantes. Naquela época, qualquer parceria exigia negociações complexas, e muitos profissionais que ele admirava já estavam comprometidos com outras organizações.
Agora, poderia encontrar essas pessoas no início da trajetória.
Poderia oferecer oportunidades quando elas ainda precisassem de uma primeira chance.
E, se construísse relações profissionais sólidas desde o começo, talvez algumas das melhores pessoas do mercado escolhessem crescer junto com ele.
Gabriel virou a página.
Júlia Vasconcelos — tecnologia e gestão.
Lembrava-se dela com bastante clareza.
Em 2015, durante um encontro empresarial em São Paulo, Júlia fizera uma apresentação sobre a utilização de sistemas simples para aumentar a produtividade de pequenas empresas. Enquanto outros palestrantes se concentravam em grandes projetos de tecnologia, ela explicara como uma empresa com poucos funcionários poderia economizar horas de trabalho por semana apenas eliminando tarefas repetitivas.
Gabriel ficara impressionado.
Anos depois, soubera que ela havia fundado uma companhia especializada em soluções de gestão. A empresa crescera e passara a atender clientes de diferentes estados.
Na época, Gabriel tentara estabelecer uma parceria com ela, mas as duas empresas tinham prioridades diferentes. Conversaram algumas vezes, trocaram contatos e seguiram seus caminhos.
Ele nunca esquecera uma frase dita por Júlia durante aquele primeiro encontro:
Uma empresa não precisa de tecnologia complicada. Precisa de tecnologia que resolva problemas reais.
Naquele momento, em outubro de 2006, Júlia ainda não era uma empresária conhecida.
E Gabriel pretendia encontrá-la.
Não para lhe contar que conhecia seu futuro. Isso seria absurdo e poderia comprometer a confiança entre os dois.
Ele simplesmente lhe ofereceria uma oportunidade adequada às competências que descobrisse.
Se ela aceitasse, excelente.
Se preferisse outro caminho, Gabriel respeitaria sua decisão.
A Visão da Verdade poderia revelar talentos, mas não transformaria pessoas em propriedade dele.
Gabriel fechou o caderno, terminou o café e se levantou.
Naquele dia, faria duas coisas importantes: iniciaria oficialmente o projeto com a Horizonte Distribuição e começaria a investigação sobre a futura empresária de tecnologia.
E havia uma terceira possibilidade.
Se conseguisse encontrar Júlia, talvez descobrisse que outras pessoas igualmente talentosas estavam trabalhando ao lado dela.
Afinal, grandes profissionais raramente eram os únicos capazes de realizar um bom trabalho.
Às vezes, o verdadeiro talento estava na pessoa que todos os dias trabalhava ao lado deles.
8:20 — A primeira manhã de Caio
Quando Gabriel chegou ao escritório, encontrou Caio diante de um quadro branco, desenhando caixas e setas.
Patrícia estava ao lado dele, segurando uma lista de procedimentos administrativos.
— Bom dia — disse Gabriel.
Os dois se viraram.
— Bom dia, senhor Gabriel — responderam quase ao mesmo tempo.
Gabriel aproximou-se do quadro.
Havia um esquema simples representando o processo comercial da empresa.
O cliente entrava em contato. A empresa registrava a solicitação. Um funcionário preparava a proposta. Gabriel aprovava as condições comerciais. Depois da aceitação, o contrato era registrado e o serviço encaminhado para execução.
Até ali, tudo parecia razoável.
O problema estava nos detalhes.
— Onde vocês registram as propostas que ainda não foram aceitas? — perguntou Gabriel.
Patrícia apontou para uma planilha.
— Nesta tabela. Mas ela não possui uma coluna para a próxima ação.
— E como sabemos quando devemos entrar em contato novamente com o cliente?
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Normalmente, lembramos pela agenda ou pelas anotações dos funcionários.
Caio olhou para o quadro.
— Então podemos perder uma oportunidade simplesmente porque ninguém se lembrou de fazer uma ligação.
— Exatamente — respondeu Gabriel.
Ele conhecia aquele problema muito bem. Na primeira vida, perdera contratos porque acreditava que os funcionários se lembrariam dos compromissos mais importantes. Com o crescimento da empresa, algumas oportunidades acabavam esquecidas no meio de dezenas de tarefas.
— Quero que toda proposta tenha um responsável, uma data de acompanhamento e um estado atual — disse Gabriel. — Se estiver aguardando resposta, isso precisa ficar registrado. Se o cliente pedir uma alteração, também.
Caio acrescentou uma nova caixa ao desenho.
— Podemos organizar as propostas em etapas. Recebida, em preparação, enviada, em negociação, aceita ou recusada.
— Muito bom — disse Gabriel. — E não quero que uma proposta seja considerada perdida apenas porque o cliente não respondeu imediatamente.
Patrícia anotou a orientação.
— Podemos definir um procedimento de acompanhamento sem incomodar o cliente — sugeriu ela. — Por exemplo, um primeiro contato alguns dias depois do envio e outro conforme a situação.
— Isso mesmo. O objetivo é manter o relacionamento, não pressionar as pessoas.
Caio fez mais algumas anotações.
Gabriel percebeu que os dois já começavam a pensar de maneira complementar. Patrícia entendia os detalhes administrativos; Caio procurava maneiras de organizar as informações.
Não era necessário que um deles tivesse todas as respostas.
Bastava que ambos estivessem dispostos a construir a solução juntos.
— Quero uma primeira versão desse processo até amanhã — disse Gabriel. — Por enquanto, utilizem uma planilha bem organizada. O sistema informatizado virá depois, quando soubermos exatamente o que precisamos.
Caio assentiu.
— Assim evitamos desenvolver algo que depois precise ser refeito.
— Exatamente.
Gabriel voltou para sua sala com uma sensação agradável.
A empresa ainda não tinha um sistema sofisticado, nem uma equipe numerosa. Mas já começava a corrigir problemas que, na primeira vida, haviam crescido até se tornarem caros e difíceis de resolver.
E agora estava fazendo isso antes que o volume de negócios aumentasse.
Era assim que pretendia continuar.
9:15 — O primeiro contrato começa a produzir resultados
O telefone tocou pouco depois das nove.
Patrícia atendeu, ouviu a pessoa do outro lado e transferiu a ligação para Gabriel.
— Senhor Gabriel, é a Helena Duarte, da Horizonte Distribuição.
Ele pegou o telefone.
— Bom dia, Helena. Tudo bem?
— Tudo ótimo. Estou ligando para confirmar que aprovamos a proposta do diagnóstico inicial. Nosso departamento administrativo está preparando os documentos para formalização.
Gabriel sorriu.
— Excelente. Assim que recebermos a documentação, organizaremos o início do trabalho.
— Gostaria de saber se vocês precisam de alguma informação adicional para começar.
— Seria útil receber uma descrição dos principais processos envolvidos e indicar quais funcionários serão nossos contatos durante o diagnóstico. Não precisamos de todos os documentos imediatamente. Podemos começar com uma reunião de alinhamento e organizar as próximas etapas.
Helena concordou.
— Vou providenciar isso.
Antes de desligar, acrescentou:
— Gabriel, gostei da maneira como você conduziu a reunião. Outros fornecedores tentaram nos vender uma solução completa antes mesmo de entenderem o problema.
— Fico satisfeito que a proposta tenha feito sentido para vocês.
— Fez, sim. Espero que seja o começo de uma boa parceria.
— Também espero.
Gabriel encerrou a ligação e registrou a confirmação.
O primeiro contrato estava praticamente encaminhado, embora a formalização ainda precisasse ser concluída.
Na primeira vida, ele teria comemorado a oportunidade e imediatamente procurado outros clientes.
Agora, decidiu aproveitar o momento para estabelecer uma regra importante: cada contrato bem executado deveria produzir três resultados.
Primeiro, receita.
Segundo, uma melhoria na experiência do cliente.
Terceiro, conhecimento que pudesse ser utilizado em trabalhos futuros.
Se a Montenegro aprendesse a resolver um problema administrativo de maneira eficiente, poderia aplicar esse conhecimento a outras empresas com necessidades semelhantes.
Com o tempo, isso permitiria criar procedimentos padronizados, reduzir custos e atender mais clientes sem precisar reinventar tudo a cada projeto.
Gabriel anotou a ideia.
Transformar experiências em métodos reutilizáveis.
A pequena empresa começava a construir algo que poderia valer muito mais do que o primeiro contrato.
10:05 — A investigação começa
Depois de revisar os documentos da Horizonte, Gabriel voltou à pasta das pessoas que conhecia do futuro.
Júlia Vasconcelos era a prioridade.
Ele recordava que ela trabalhara com tecnologia e gestão no início da carreira, mas não possuía o endereço atual nem o contato de 2006.
Isso não o impedia de começar.
Abriu uma lista de diretórios empresariais, associações comerciais e instituições de ensino que poderia consultar. Naquela época, boa parte das informações profissionais ainda circulava por meios tradicionais: indicações, eventos, anúncios de emprego, jornais e contatos telefônicos.
Não havia razão para tentar resolver tudo pela internet.
Gabriel pediu a Patrícia que pesquisasse referências públicas ao nome de Júlia Vasconcelos relacionadas a cursos de informática, desenvolvimento de sistemas e gestão empresarial.
— O senhor já conhece essa pessoa? — perguntou ela.
— Conheço o nome dela de uma referência profissional. Quero descobrir se há uma oportunidade de colaboração.
— Ela trabalha com tecnologia?
— Pelo que sei, sim.
Patrícia anotou os dados.
— Vou verificar os registros públicos disponíveis e separar pessoas com nomes semelhantes para evitar confusões.
— Ótimo. Não quero entrar em contato com alguém apenas porque possui o mesmo nome.
Quando Patrícia saiu, Gabriel voltou a pensar na Júlia que conhecera em 2015.
Lembrava-se de sua apresentação, de sua maneira objetiva de explicar problemas e da empresa que fundara anos depois.
Mas uma coisa o intrigava.
Em sua primeira vida, Júlia contara que havia passado por uma fase difícil no início da carreira porque não conseguia encontrar uma empresa que lhe desse liberdade para desenvolver suas ideias.
Gabriel não se lembrava de todos os detalhes. Não sabia qual fora seu primeiro emprego nem quem a ajudara naquela época.
Talvez nem precisasse saber.
Se conseguisse encontrá-la em 2006, poderia oferecer algo que muitas empresas não ofereciam: espaço para experimentar, responsabilidades proporcionais à capacidade e reconhecimento pelo trabalho realizado.
Não prometeria que ela se tornaria uma grande empresária.
Ela não precisava acreditar em uma previsão extraordinária.
Precisava enxergar uma oportunidade concreta.
Gabriel sorriu.
Aquele seria um dos aspectos mais interessantes de sua segunda vida: ele poderia reconhecer o valor de pessoas que ainda não tinham conquistado reconhecimento público.
E, ao fazer isso, poderia ajudá-las a chegar mais longe.
11:30 — O futuro também tinha endereços
Enquanto Patrícia pesquisava, Gabriel abriu o mapa da região e começou a marcar locais que poderiam ser importantes para a expansão da empresa.
Não estava procurando apenas um escritório maior.
Estava pensando em imóveis comerciais, pontos de atendimento e espaços que, no futuro, poderiam se tornar muito mais valorizados.
A lembrança de um endereço específico surgiu em sua mente.
Na primeira vida, conhecera um empresário que comprara uma sala comercial em uma região que, anos depois, se transformara em um importante polo de serviços. Na época da compra, o local não era particularmente disputado. O preço era razoável, e muitos investidores preferiam áreas mais tradicionais.
Anos depois, os valores haviam aumentado consideravelmente.
Gabriel lembrava-se do bairro, da rua e até da fachada do prédio.
Não se lembrava do preço exato em 2006, mas sabia onde poderia começar a procurar.
Pegou o telefone e ligou para uma imobiliária.
— Bom dia. Meu nome é Gabriel Montenegro. Estou procurando salas comerciais pequenas, preferencialmente em regiões com potencial de valorização e acesso razoável para clientes.
A atendente perguntou sobre o orçamento, o tamanho desejado e a finalidade do imóvel.
Gabriel respondeu com cautela.
Não pretendia comprar uma sala imediatamente. Queria conhecer os preços, os custos de manutenção e as condições disponíveis.
— Posso lhe enviar algumas opções — disse a atendente.
— Por favor. Se possível, inclua os valores de condomínio, impostos e outras despesas recorrentes.
Depois de desligar, Gabriel registrou a ligação.
Seu conhecimento do futuro lhe permitia identificar lugares que mereciam atenção. Mas comprar um imóvel exigia dinheiro, análise e uma estratégia coerente com o momento da empresa.
Não usaria o capital de giro da Montenegro para adquirir um ativo apenas porque acreditava que ele se valorizaria.
Primeiro, consolidaria as receitas.
Depois, formaria reservas.
Só então avaliaria investimentos que não prejudicassem a operação.
Era uma decisão menos emocionante do que comprar um imóvel e esperar que seu valor disparasse.
Mas era muito mais inteligente.
E Gabriel pretendia continuar tomando decisões inteligentes.
13:20 — Uma descoberta fora dos planos
Depois do almoço, Gabriel decidiu resolver um assunto pessoal antes de voltar ao escritório.
Precisava comprar alguns materiais para organizar os documentos que levara para casa. Entrou em uma papelaria próxima e começou a comparar pastas, cadernos e etiquetas.
Enquanto escolhia os produtos, percebeu que a funcionária do caixa estava ajudando um senhor a resolver um problema com uma encomenda.
O cliente havia recebido materiais diferentes dos que solicitara. Estava irritado, e a funcionária não se limitou a chamar o gerente.
Primeiro, conferiu o pedido. Depois, localizou o registro da venda, identificou onde ocorrera a troca e explicou ao cliente quais opções estavam disponíveis.
Em seguida, anotou o problema em uma folha separada e pediu que o estoque verificasse se havia mais pedidos semelhantes.
Gabriel observou a cena com interesse.
A funcionária parecia ter pouco mais de vinte anos. Não estava apenas atendendo clientes: estava identificando a causa de um problema e tentando evitar que ele se repetisse.
Quando ela levantou os olhos, a Visão da Verdade foi ativada.
Mariana Costa
24 anos · Atendente de papelaria
Competências identificadas
— Organização de informações: 87/100.
— Atendimento e resolução de problemas: 91/100.
— Raciocínio lógico: 89/100.
— Controle de estoque: 84/100.
— Comunicação: 86/100.
Talento oculto: capacidade para identificar falhas operacionais, organizar fluxos de trabalho e coordenar pequenas equipes.
Perfil: prática, observadora e persistente. Prefere resolver um problema pela raiz a repetir a mesma correção todos os dias.
Intenção atual: conseguir uma posição profissional com melhores perspectivas de crescimento.
Potencial futuro: coordenação administrativa, controle de qualidade e gestão de processos.
Compatibilidade com a Montenegro: elevada para uma futura função administrativa ou operacional, desde que exista uma vaga adequada e treinamento.
Gabriel ficou surpreso.
Mariana não tinha o perfil de uma engenheira de software ou de uma grande executiva. Seu talento era diferente: organização de processos e identificação de falhas.
Era justamente o tipo de habilidade que poderia ajudar uma empresa em crescimento.
Mas Gabriel não faria uma proposta de emprego no meio da papelaria. Não conhecia a situação profissional dela, e a Montenegro ainda precisava definir sua estrutura.
Pagou as compras e esperou até que o atendimento diminuísse.
— Com licença — disse, aproximando-se do balcão. — Posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Você trabalha aqui há muito tempo?
Mariana pareceu desconfiada por um instante, mas respondeu:
— Quase três anos. Por quê?
— Vi como você resolveu o problema daquele cliente. Você identificou a origem da falha e ainda pediu para verificarem se havia outros casos semelhantes.
Ela sorriu discretamente.
— É melhor descobrir logo se existe algum problema no estoque. Se acontecer de novo, o cliente pode acabar voltando irritado.
— Você costuma fazer esse tipo de análise?
— Quando percebo alguma coisa errada, tento entender por que aconteceu. Nem sempre consigo mudar o procedimento, mas pelo menos posso avisar.
Gabriel assentiu.
— Meu nome é Gabriel Montenegro. Tenho uma empresa de soluções empresariais. Talvez, em algum momento, eu precise de alguém com facilidade para organizar processos administrativos. Você teria interesse em conversar sobre oportunidades nessa área?
Mariana ficou surpresa.
— Eu nunca trabalhei em uma empresa desse tipo.
— Não estou oferecendo um cargo agora. Só gostaria de saber se você tem interesse em conhecer uma oportunidade, caso surja algo compatível.
Ela pensou por alguns segundos.
— Tenho, sim. Gosto de organizar as coisas, mas aqui não existe muito espaço para avançar. Já sugeri algumas mudanças, só que normalmente a resposta é que sempre fizemos desse jeito.
Gabriel reconheceu a situação.
— Entendo. Se você quiser, pode me deixar um contato profissional. Caso apareça uma oportunidade adequada, podemos conversar.
Mariana anotou seu telefone em um pequeno cartão.
— Obrigada por perguntar.
— Eu que agradeço pela conversa.
Gabriel guardou o cartão na carteira e saiu da papelaria.
Não sabia se Mariana se tornaria funcionária da Montenegro. Talvez ela preferisse permanecer onde estava, ou talvez a vaga adequada só surgisse meses depois.
Mas agora ele conhecia mais uma pessoa com potencial para contribuir.
E aquela descoberta não tinha vindo de um processo seletivo.
Tinha vindo de uma situação cotidiana, de uma pessoa fazendo bem o próprio trabalho.
Gabriel sorriu enquanto caminhava de volta ao escritório.
Era exatamente isso que queria para a empresa: encontrar talentos onde os outros enxergavam apenas cargos comuns.
14:40 — A primeira resposta
Quando Gabriel voltou ao escritório, Patrícia já havia reunido algumas informações sobre Júlia Vasconcelos.
— Encontrei três referências com esse nome — explicou ela. — Uma parece ser de outra região, e a segunda não tem relação com tecnologia. A terceira pode ser a pessoa que o senhor procura, mas ainda precisamos confirmar.
Gabriel aproximou-se da mesa.
— O que você descobriu?
— Há uma referência a uma profissional que participou de um curso de informática e gestão. O registro indica que ela pode ter trabalhado com suporte técnico ou desenvolvimento de sistemas, mas não consegui confirmar o empregador atual.
Gabriel examinou os dados.
Não era suficiente para identificar Júlia com certeza, mas era um ponto de partida.
— Muito bom. Vamos verificar com cuidado. Se encontrarmos um contato profissional, podemos enviar uma mensagem explicando quem somos e perguntando se ela teria interesse em conversar.
Patrícia assentiu.
— Posso continuar procurando.
— Pode. E não precisamos ter uma resposta hoje. Prefiro encontrar a pessoa certa a entrar em contato com alguém errado.
Quando ela voltou ao trabalho, Gabriel sentou-se e examinou a anotação.
Talvez a Júlia que conhecera no futuro já estivesse trabalhando em uma empresa pequena. Talvez estivesse estudando ou procurando uma oportunidade melhor.
Qualquer que fosse a situação, ele tinha uma vantagem considerável: sabia que, anos depois, ela desenvolveria uma carreira importante.
Isso não garantia que trabalhariam juntos.
Mas significava que valia a pena tentar.
Gabriel abriu o caderno e escreveu um novo objetivo:
Construir uma rede de talentos antes que o mercado reconheça seu valor.
Abaixo, acrescentou os nomes de Caio, Mariana e Júlia.
Três pessoas em estágios completamente diferentes.
Um desenvolvedor iniciante.
Uma profissional administrativa que ainda não sabia o quanto poderia crescer.
E uma futura empresária de tecnologia que Gabriel lembrava de conhecer anos depois.
Ele não pretendia colocá-los todos na mesma equipe imediatamente.
Queria encontrar o lugar certo para cada um.
Porque contratar pessoas extraordinárias não significava simplesmente reunir os maiores talentos possíveis.
Significava construir um grupo no qual as habilidades de cada pessoa se complementassem.
16:15 — O primeiro relatório de oportunidades
Antes do fim do expediente, Gabriel reuniu as descobertas do dia.
A Horizonte Distribuição estava preparando a formalização do contrato.
Caio já havia começado a mapear os processos comerciais da Montenegro.
Patrícia avançava na organização financeira e administrativa.
Mariana poderia ser uma candidata para uma futura vaga operacional.
E Júlia Vasconcelos talvez estivesse ao alcance de uma simples mensagem.
Além disso, Gabriel começara a pesquisar imóveis comerciais em uma região que acreditava ter bom potencial de valorização.
Em sua primeira vida, teria considerado tudo isso uma sequência de tarefas sem relação entre si.
Agora, via um padrão.
A empresa precisava de processos melhores. Para isso, precisava de pessoas capazes. Essas pessoas precisavam de oportunidades adequadas. E, à medida que a empresa crescesse, novas áreas surgiriam para aproveitar outros talentos.
O conhecimento do futuro permitiria antecipar quais competências seriam mais valiosas.
A Visão da Verdade permitiria identificar quem possuía essas competências.
E o planejamento transformaria tudo isso em resultados concretos.
Gabriel escreveu no alto da página:
Plano de expansão — outubro de 2006.
Depois, acrescentou:
1. Consolidar os primeiros contratos.
2. Organizar os processos internos.
3. Desenvolver a capacidade tecnológica.
4. Encontrar talentos comerciais e operacionais.
5. Preservar capital para oportunidades futuras.
6. Identificar profissionais promissores antes que se tornem conhecidos.
Releu a lista e assentiu.
Era um começo sólido.
Não precisava construir um império em uma semana.
Precisava garantir que, quando as grandes oportunidades surgissem, sua empresa estivesse pronta para aproveitá-las.
18:00 — Uma lembrança ainda maior
Gabriel estava prestes a sair quando se lembrou de outro acontecimento.
Era uma lembrança de 2010.
Naquela época, uma pequena empresa de tecnologia que quase ninguém conhecia havia começado a crescer rapidamente, oferecendo soluções simples para negócios que não podiam pagar por sistemas complexos. Em poucos anos, conquistara uma carteira de clientes importante e se tornara alvo de aquisição por um grupo maior.
Gabriel não se lembrava de todos os detalhes, mas lembrava-se do nome do fundador e de uma informação particularmente relevante: nos primeiros anos, a empresa tivera dificuldades para encontrar parceiros comerciais que compreendessem seu produto.
A oportunidade não estava apenas em investir dinheiro.
Talvez fosse possível ajudá-la a conquistar clientes.
A Montenegro já estava começando a trabalhar com processos administrativos e automação. Se encontrasse empresas com produtos promissores, poderia construir parcerias comerciais e integrar essas soluções aos serviços que oferecia.
Isso criaria uma nova fonte de receita sem exigir que a Montenegro desenvolvesse todos os produtos internamente.
Gabriel pegou o caderno novamente.
Na página das oportunidades futuras, escreveu:
Parcerias com empresas de tecnologia antes do crescimento acelerado.
Depois, acrescentou uma observação:
Investigar primeiro. Não presumir que todos os acontecimentos se repetirão exatamente como na primeira vida.
Ele fechou o caderno.
Aquela ressalva era importante.
Suas decisões estavam mudando o presente. Algumas pessoas poderiam tomar caminhos diferentes. Empresas poderiam surgir em outras datas. O futuro que conhecia continuava sendo uma vantagem extraordinária, mas não uma garantia absoluta de que cada detalhe aconteceria da mesma forma.
Gabriel aceitou essa possibilidade sem preocupação.
Mesmo que alguns acontecimentos mudassem, ele ainda tinha vinte anos de experiência acumulada, uma capacidade extraordinária de avaliar pessoas e tempo suficiente para adaptar seus planos.
Era mais do que suficiente.
Apagou a luz, fechou a porta e saiu do escritório.
Na rua, o movimento seguia normalmente. Pessoas voltavam para casa, comerciantes encerravam o expediente e carros percorriam as avenidas.
Para todos aqueles que passavam por ele, Gabriel era apenas mais um empresário voltando para casa depois de um dia de trabalho.
Ninguém imaginava que ele já conhecia parte do que aconteceria nas próximas duas décadas.
Ninguém sabia que, naquele momento, ele estava começando a identificar profissionais que poderiam se tornar peças fundamentais de uma grande organização.
E ninguém precisava saber.
Gabriel não queria que o mundo acreditasse em suas previsões.
Queria que o mundo visse os resultados.
Porque, desta vez, quando o futuro chegasse, ele não seria surpreendido por ele.
Seria um dos primeiros a lucrar com as oportunidades que trouxesse.