Capítulo 6 — A mulher que ainda não conhecia seu próprio valor
Sexta-feira, 20 de outubro de 2006 — 7:15
Gabriel Montenegro chegou ao escritório antes de todos.
O céu ainda estava nublado, e o movimento nas ruas começava a crescer quando ele colocou a pasta sobre a mesa, ligou o computador e abriu o caderno em que vinha registrando suas prioridades.
Na primeira página, havia quatro palavras escritas em letras grandes:
Pessoas. Processos. Capital. Expansão.
Abaixo delas, uma lista de nomes e oportunidades.
Patrícia Almeida: organização, finanças e operações.
Caio Nascimento: tecnologia, programação e automação.
Mariana Costa: qualidade, controle de estoque e melhoria de processos.
Júlia Vasconcelos: uma possível oportunidade no setor de tecnologia, ainda sem identidade confirmada.
E, no topo da lista de clientes, Horizonte Distribuição.
Gabriel passou os olhos pelas anotações e sorriu discretamente.
Na vida anterior, ele teria tentado fazer tudo sozinho. Teria contratado pessoas para executar tarefas sem compreender o potencial delas, confiado informações importantes a quem não merecia e confundido crescimento rápido com crescimento saudável.
Agora, aos trinta e dois anos, tinha algo que nenhum concorrente poderia comprar.
Vinte anos de experiência.
E a oportunidade de começar novamente.
— Vamos ver o que conseguimos construir hoje — murmurou.
Abriu uma planilha e começou a organizar as prioridades do dia. Antes de pensar em novos negócios, precisava transformar as primeiras oportunidades em resultados concretos.
O contrato da Horizonte precisava avançar. Caio deveria apresentar uma primeira estrutura para o sistema interno. Patrícia precisava concluir o levantamento das despesas e começar a organizar os documentos da empresa.
E Gabriel precisava encontrar pessoas capazes de crescer junto com ele.
Não queria simplesmente contratar funcionários.
Queria descobrir talentos antes que o mercado percebesse o valor deles.
1. A primeira descoberta da manhã
Às oito horas, Patrícia entrou no escritório carregando uma pasta azul e um caderno.
— Bom dia, Gabriel.
— Bom dia, Patrícia. Você chegou cedo.
— Eu queria terminar a organização dos contratos antes de começar as tarefas de hoje.
Ela colocou a pasta sobre a mesa dele.
— Separei os documentos por fornecedor, data de renovação e tipo de serviço. Também fiz uma lista dos contratos que precisam ser revisados.
Gabriel abriu a pasta.
O trabalho estava mais organizado do que ele esperava. Cada contrato tinha uma identificação, uma data e uma observação sobre sua finalidade. Os documentos que ainda precisavam de confirmação estavam separados dos que já haviam sido conferidos.
— Você fez tudo isso ontem?
— Comecei ontem à tarde e terminei em casa. Não havia muita coisa para reorganizar depois que estabeleci o padrão.
Gabriel ergueu os olhos.
— Você levou trabalho para casa?
Patrícia pareceu hesitar.
— Levei apenas as anotações. Não achei que fosse um problema.
— Não é uma questão de problema. É uma questão de organização. Se o volume de trabalho exige que você continue depois do expediente, precisamos rever a distribuição das tarefas.
Ela pareceu surpresa.
Na empresa em que trabalhara anteriormente, demonstrar dedicação significava aceitar cada vez mais trabalho sem receber reconhecimento proporcional.
— Eu só queria mostrar que consigo fazer mais — explicou.
— E você está mostrando. Mas não quero que sua dedicação se transforme em uma obrigação de trabalhar além do horário. Vamos avaliar a carga de trabalho, definir responsabilidades e ajustar sua remuneração conforme o cargo evoluir.
Patrícia baixou os olhos para a pasta, escondendo um sorriso.
— Obrigada.
Gabriel apoiou os braços sobre a mesa.
— Agora, quero que você me explique uma coisa. Como decidiu organizar os contratos dessa maneira?
Ela abriu o caderno.
— Percebi que o problema não era apenas encontrar os documentos. Era saber o que fazer depois de encontrá-los. Um contrato pode estar arquivado corretamente e, mesmo assim, causar problemas se ninguém acompanhar a renovação ou verificar se o serviço continua sendo necessário.
— Continue.
— Então pensei em três informações obrigatórias: quem é o responsável pelo contrato, quando ele precisa ser revisado e qual é a próxima ação. Se estiver tudo certo, registramos isso. Se houver alguma dúvida, ela fica visível até ser resolvida.
Gabriel ficou em silêncio por alguns segundos.
Na primeira vida, sua empresa demorara anos para adotar um controle semelhante. Nesse intervalo, perdera dinheiro com serviços esquecidos, contratos renovados sem análise e despesas que ninguém sabia justificar.
Patrícia havia chegado à mesma conclusão em poucos dias.
Ele conhecia o perfil dela graças à Visão da Verdade, mas ver a capacidade se manifestar diante dele era diferente de simplesmente ler números em uma avaliação.
— Patrícia, quero que você transforme essa ideia em um procedimento que possamos usar em todos os contratos da empresa.
— Em todos?
— Em todos os nossos contratos e, se o método funcionar, também nos contratos dos clientes. Mas começaremos aqui. Precisamos provar que o processo funciona antes de oferecê-lo a alguém.
Ela já estava fazendo anotações.
— Posso incluir uma lista de conferência para cada revisão?
— Deve incluir. E quero que pense também em quem pode substituir o responsável caso ele esteja ausente.
Patrícia levantou o rosto.
— Você quer criar um sistema em que nenhuma tarefa dependa exclusivamente de uma pessoa?
— Exatamente. Pessoas competentes são importantes. Processos bem construídos impedem que a empresa pare quando uma delas não está disponível.
Ela anotou a frase.
Gabriel reconheceu naquele gesto algo que apreciava: Patrícia não anotava apenas para parecer ocupada. Ela registrava as ideias para transformá-las em ações.
— Outra coisa — disse ele. — Quando a auditoria das despesas estiver concluída, vamos conversar sobre sua função. Se você assumir a coordenação administrativa e financeira, isso será formalizado, com responsabilidades e remuneração compatíveis.
Patrícia respirou fundo.
— Eu nunca tive a oportunidade de trabalhar diretamente com essa área.
— Ainda não. Mas isso não significa que você não possa aprender.
— E se eu cometer algum erro?
Gabriel sorriu.
— Vamos estabelecer controles para detectar os erros antes que causem prejuízos. Você não precisa ser perfeita. Precisa trabalhar com método, aprender e comunicar os problemas quando eles aparecerem.
A resposta pareceu aliviar uma preocupação antiga.
Patrícia saiu da sala com uma tarefa maior do que aquela com que havia entrado, mas também com algo que raramente recebera antes: uma perspectiva clara de crescimento.
Gabriel voltou ao computador.
A primeira promoção da Montenegro Soluções Empresariais ainda não existia oficialmente.
Mas, pela primeira vez, alguém estava sendo preparado para ocupá-la.
2. O sistema que economizaria anos
Às nove e dez, Caio apareceu à porta com um caderno de espiral, algumas folhas impressas e uma expressão que misturava ansiedade e entusiasmo.
— Gabriel, posso mostrar uma coisa?
— Claro. Entre.
Caio colocou os papéis sobre a mesa.
— Eu comecei a pensar no sistema de controle interno. No início, achei que deveria fazer um programa para cadastrar clientes e propostas, mas percebi que ainda não entendemos todos os processos.
Gabriel indicou a cadeira à sua frente.
— Ótimo. O que você fez, então?
Caio abriu o caderno.
Havia desenhado um fluxo simples:
— Cliente entra em contato.
— Oportunidade é registrada.
— Um responsável é definido.
— A proposta é preparada.
— A proposta é enviada.
— Uma data de acompanhamento é estabelecida.
— O resultado é registrado.
Ao lado, havia uma lista de informações necessárias para cada oportunidade.
— Pensei que o sistema deveria começar por isso — explicou Caio. — Se criarmos um cadastro complicado agora, talvez precisemos mudar tudo quando entendermos melhor o trabalho.
Gabriel examinou o desenho.
— Você está certo.
Caio pareceu surpreso com a resposta imediata.
— Está?
— Sim. O pior erro seria automatizar um processo ruim. Primeiro descobrimos como o trabalho deve funcionar. Depois usamos a tecnologia para torná-lo mais rápido e confiável.
Gabriel apontou para uma linha do desenho.
— Aqui, você colocou a data de acompanhamento. Como pretende impedir que uma oportunidade fique esquecida?
— O programa pode destacar as propostas sem atualização há alguns dias.
— Bom começo. Mas não basta destacar. Precisamos saber quem é responsável por cada uma e qual é a ação esperada.
Caio anotou.
— Então cada oportunidade teria um responsável, um status e uma próxima ação.
— Isso. E precisamos registrar o histórico das alterações. Se alguém mudar uma proposta de pendente para concluída, deve ser possível descobrir quando isso aconteceu.
Caio começou a escrever mais rapidamente.
Gabriel percebeu que o rapaz já estava visualizando soluções para os problemas que discutiam.
Era exatamente o tipo de raciocínio que procurava.
Na vida anterior, Gabriel conhecera profissionais que sabiam programar, mas tinham dificuldade para entender o negócio. Outros compreendiam o negócio, mas não conseguiam transformar as necessidades em sistemas úteis.
Caio possuía a combinação promissora dos dois mundos: curiosidade técnica e vontade de compreender o funcionamento das coisas.
A Visão da Verdade confirmou o que Gabriel já observava.
Caio Nascimento
Assistente de Desenvolvimento e Automação
Potencial elevado
Lógica e resolução de problemas
91/100
Aprendizado técnico
94/100
Pensamento sistêmico
89/100
Potencial em desenvolvimento de software
96/100
Talento latente: arquitetura de sistemas administrativos e automação de processos empresariais.
Gabriel fechou mentalmente o perfil.
Não precisava mostrar os números a Caio. Precisava criar as condições para que ele desenvolvesse aquelas capacidades.
— Quero propor uma mudança na sua primeira meta — disse Gabriel.
Caio endireitou a postura.
— Algum problema com o que fiz?
— Pelo contrário. Você está tentando construir um sistema. Quero que, antes disso, desenvolva um protótipo simples para o acompanhamento das propostas. Pode ser uma planilha bem estruturada ou um programa básico, desde que resolva o problema.
— Uma planilha primeiro?
— Se for a solução mais rápida, sim. Não estamos tentando impressionar ninguém com tecnologia. Estamos tentando impedir que oportunidades comerciais desapareçam por falta de acompanhamento.
Caio pensou por alguns segundos.
— Posso fazer uma versão inicial até segunda-feira.
— Prepare uma demonstração. Não precisa estar perfeita, mas quero que mostre o fluxo completo e explique quais problemas ela resolve.
— Certo.
— E mais uma coisa: documente as decisões. Se daqui a seis meses precisarmos ampliar o sistema, não quero que dependamos apenas da sua memória.
Caio sorriu.
— Você sabe que isso significa que vou acabar fazendo um sistema muito maior, não sabe?
Gabriel riu.
— Espero que sim. Mas vamos construir uma parte de cada vez.
Quando Caio saiu, Gabriel olhou novamente para o desenho.
Ele sabia que, nos anos seguintes, empresas gastariam fortunas com sistemas de gestão. Muitas pequenas empresas, porém, continuariam utilizando planilhas desorganizadas, anotações em papel e mensagens perdidas.
A oportunidade não era apenas desenvolver um programa.
Era entender um problema comum, resolvê-lo bem e transformar essa solução em um produto que pudesse ser vendido repetidamente.
Gabriel anotou no caderno:
Projeto futuro: sistema de gestão simplificado para pequenas e médias empresas.
Abaixo, escreveu:
Primeiro, usar dentro de casa. Depois, validar com clientes. Só então pensar em comercialização.
Ele não precisava conquistar o mercado inteiro naquele mês.
Precisava dar o primeiro passo na direção certa.
3. Uma oportunidade escondida em um anúncio
Às dez e vinte, Gabriel recebeu uma ligação de Augusto Ferraz.
— Gabriel, bom dia! Espero não estar atrapalhando.
— De maneira nenhuma, Augusto. Alguma novidade sobre a Horizonte?
— Sim. Conversei com a Helena ontem à noite. Ela confirmou que a diretoria gostou da proposta. O departamento administrativo está reunindo os documentos para formalizar o serviço.
— Excelente. Assim que estiver tudo assinado, podemos iniciar o diagnóstico conforme o escopo aprovado.
— Foi exatamente o que eu disse a ela. Aliás, Helena perguntou se vocês teriam capacidade para atender outra empresa do mesmo grupo caso o primeiro trabalho desse certo.
Gabriel apoiou a caneta sobre o caderno.
A pergunta era interessante.
— Qual é o tamanho dessa outra empresa?
— Ainda não tenho os números exatos. Pelo que sei, trabalha com distribuição regional e possui problemas parecidos com os da Horizonte. Controle de estoque, processos administrativos e acompanhamento de pedidos.
Gabriel não demonstrou entusiasmo exagerado.
— Podemos avaliar. Mas prefiro concluir o diagnóstico inicial, entender nossa capacidade real e apresentar uma proposta adequada antes de assumir outro compromisso.
— Imaginei que você responderia assim — disse Augusto, rindo. — Outros empresários já estariam prometendo resolver tudo na semana que vem.
— Prometer é fácil. Entregar é o que constrói uma reputação.
— Concordo. Vou manter você informado.
Antes de encerrar a ligação, Augusto acrescentou:
— E, Gabriel, uma última coisa. Conheço um empresário que está procurando alguém para organizar os controles administrativos de uma pequena transportadora. Não é um contrato tão grande quanto o da Horizonte, mas pode ser interessante.
— Envie os dados. Vamos analisar.
— Perfeito. Até mais.
Gabriel desligou e permaneceu alguns segundos pensando.
Duas oportunidades comerciais em poucos dias. Nenhuma garantia de receita ainda, mas a possibilidade de construir uma carteira de clientes começava a tomar forma.
Na vida anterior, ele teria aceitado tudo imediatamente.
Desta vez, usaria uma regra simples: cada novo contrato precisava ser compatível com a capacidade da equipe, ter um escopo definido e gerar retorno suficiente para justificar o trabalho.
A expansão viria de maneira controlada.
Foi então que Patrícia apareceu à porta.
— Gabriel, encontrei uma coisa que talvez interesse a você.
— Pode entrar.
Ela trazia algumas folhas impressas.
— Estou procurando informações sobre a Júlia Vasconcelos, como você pediu. Encontrei várias pessoas com esse nome, mas ainda não consegui confirmar qual delas é a pessoa que você procura.
— Alguma candidata promissora?
— Uma delas participou de um curso de informática aplicada à administração. Outra aparece em uma lista de participantes de um evento universitário. Mas não encontrei informações suficientes para relacionar nenhuma das duas ao setor de tecnologia empresarial.
Gabriel examinou as folhas.
Não havia nada conclusivo.
Ele lembrava de Júlia como uma empreendedora que, anos depois, apresentaria um software simples para pequenos negócios. Recordava uma conversa em um evento empresarial, uma demonstração de produto e o nome da empresa que ela fundara.
O problema era que suas lembranças não incluíam todos os detalhes da vida dela em 2006.
Poderia haver várias Júlias Vasconcelos. Poderia até estar se lembrando incorretamente de algum detalhe.
— Você fez bem em não tirar conclusões precipitadas — disse ele.
Patrícia pareceu satisfeita.
— Pensei que seria melhor procurar por outras informações. Talvez ela tenha participado de algum projeto, publicado um trabalho ou apareça em alguma comunidade profissional.
— Essa é a direção certa. Mas não quero que você passe o dia inteiro procurando uma pessoa. Dedique um tempo definido à pesquisa e depois volte às tarefas prioritárias.
— Certo.
Gabriel pegou uma folha e anotou algumas pistas de que se lembrava.
— Tente também procurar por projetos de software voltados para pequenos comércios. Talvez encontremos a empresa ou algum produto antes de confirmar o nome.
Patrícia leu as anotações.
— Você acredita que essa pessoa pode se tornar uma parceira importante?
— Acredito que existe uma oportunidade no mercado. Ainda precisamos descobrir quem tem a melhor solução para aproveitá-la.
Ele não queria explicar de onde vinha sua convicção. Não poderia contar que conhecia uma parte do futuro sem parecer completamente absurdo.
— E, se encontrarmos alguém com potencial, o que faremos? — perguntou ela.
— Conversaremos. Conheceremos o trabalho da pessoa. Se houver interesse mútuo, podemos oferecer uma parceria ou uma oportunidade profissional. Não precisamos contratar todo talento que encontrarmos.
Patrícia assentiu.
— Entendi.
Quando ela saiu, Gabriel guardou as folhas em uma pasta.
Júlia continuava sendo uma possibilidade, não uma certeza.
Mas ele já havia aprendido que, muitas vezes, a melhor oportunidade não estava em contratar alguém antes dos outros.
Estava em identificar um mercado antes que os outros percebessem que ele existia.
4. A mulher da papelaria
Pouco depois das onze, Gabriel decidiu sair para resolver duas questões comerciais. Precisava visitar uma agência imobiliária e comprar alguns materiais para o escritório.
Levou consigo uma lista curta de tarefas.
A imobiliária ficava a poucas quadras dali. O estabelecimento tinha uma vitrine com fotografias de salas comerciais, pequenas lojas e imóveis residenciais.
Gabriel foi recebido por um corretor chamado Eduardo.
— Bom dia! Em que posso ajudar?
— Estou procurando informações sobre pequenas salas comerciais. De preferência, imóveis que possam ser usados como escritório e que estejam em regiões com possibilidade de valorização nos próximos anos.
Eduardo sorriu, acostumado a ouvir perguntas semelhantes.
— Temos algumas opções. Você pretende comprar imediatamente?
— Ainda estou avaliando. Quero conhecer os preços, os custos de manutenção e as condições dos imóveis antes de tomar qualquer decisão.
— Certo. Qual é a faixa de investimento?
Gabriel informou um intervalo compatível com sua situação financeira, sem comprometer o capital de giro da empresa.
Eduardo abriu uma pasta e começou a mostrar algumas opções.
Gabriel examinou as fotografias, mas prestou mais atenção aos endereços.
Ele se lembrava de que determinadas regiões comerciais da Grande Vitória se desenvolveriam consideravelmente nos anos seguintes. O crescimento de serviços, a melhoria da infraestrutura e a expansão de atividades empresariais poderiam favorecer alguns pontos.
Não pretendia comprar um imóvel apenas porque se lembrava de que a região ficaria mais valorizada. A valorização dependeria de fatores concretos: localização, liquidez, custos, demanda e condições do mercado.
— Você tem algum imóvel pequeno que esteja há bastante tempo anunciado? — perguntou.
— Tenho dois. Um proprietário está negociando a venda de uma sala que ficou vazia depois que o antigo inquilino encerrou as atividades.
— Por que está vazia?
— Pelo que me disseram, o proprietário prefere vender. A sala precisa de uma pequena reforma, mas o prédio está em condições razoáveis.
Gabriel pediu o endereço e os dados do imóvel.
Não fez nenhuma proposta.
Apenas registrou as informações para comparar depois.
Quando terminou, agradeceu ao corretor e saiu.
No caminho de volta, passou diante de uma papelaria.
Era o mesmo estabelecimento em que encontrara Mariana Costa no dia anterior.
Gabriel entrou para comprar pastas, etiquetas e um caderno de controle.
Mariana estava atendendo um cliente, explicando que um pedido havia sido separado com a quantidade errada.
— O senhor solicitou cinquenta unidades, mas o sistema registrou cinquenta caixas — explicou ela. — Vou corrigir o pedido antes de emitir a nota, para evitar que o senhor receba uma quantidade diferente da solicitada.
— Mas eu fiz o pedido ontem. Ninguém conferiu isso?
— A conferência final deveria ter identificado a diferença. Vou verificar onde ocorreu o erro para evitar que aconteça novamente.
O cliente pareceu satisfeito com a solução.
Gabriel observou a cena sem interferir.
Mariana não estava apenas corrigindo o pedido. Ela queria descobrir por que o erro acontecera.
Quando o cliente saiu, ela voltou ao balcão e começou a verificar os registros.
Foi então que percebeu Gabriel.
— Bom dia! Veio buscar mais alguma coisa?
— Vim comprar alguns materiais. Mas fiquei curioso com o problema que você acabou de resolver.
Mariana pareceu um pouco constrangida.
— Foi apenas um erro no pedido.
— Resolver o problema é importante. Descobrir como evitar que ele se repita também é.
Ela olhou para o registro que tinha nas mãos.
— Acho que muita coisa poderia ser evitada se o pedido fosse conferido em duas etapas. Uma pessoa registra a quantidade, e outra confirma antes de separar a mercadoria. O problema é que, nos horários de movimento, todos acabam fazendo tudo ao mesmo tempo.
Gabriel sorriu.
Era exatamente o tipo de resposta que esperava.
— Você já sugeriu isso ao responsável pela loja?
— Algumas vezes. Mas ele acha que seria mais demorado.
— E você acredita que não seria?
— No começo, talvez. Depois, economizaria tempo. Hoje perdemos mais tempo corrigindo pedidos, procurando mercadorias e explicando erros aos clientes do que gastaríamos fazendo uma conferência rápida.
Gabriel não precisou olhar para Mariana para saber que ela tinha capacidade de análise. Ainda assim, quando seu olhar encontrou o dela, a Visão da Verdade se manifestou.
Mariana Costa
24 anos · Atendente de papelaria
Talento em operações
Organização
87/100
Resolução de problemas
91/100
Raciocínio lógico
89/100
Comunicação
86/100
Talentos latentes: controle de qualidade, melhoria contínua, organização de estoque e coordenação de pequenas equipes.
Potencial de desenvolvimento: supervisão operacional e gestão de processos.
O perfil era consistente com o que ele havia observado no dia anterior.
Mariana possuía uma capacidade rara de identificar falhas sem se limitar à correção imediata.
Gabriel percebeu também que ela não tentava impressioná-lo. Falava de maneira simples, concentrada no problema.
— Você gostaria de trabalhar com organização de processos? — perguntou.
Ela pareceu surpresa.
— Como assim?
— Imagine uma empresa que recebe pedidos, organiza documentos, controla mercadorias e precisa reduzir erros. Você gostaria de trabalhar na melhoria dessas atividades?
Mariana ficou em silêncio por um instante.
— Gostaria muito. Eu gosto de descobrir por que as coisas dão errado e encontrar uma maneira de melhorar. Mas nunca trabalhei em uma empresa grande.
— Experiência é importante, mas não é a única coisa que importa. Também precisamos observar a maneira como uma pessoa pensa, aprende e resolve problemas.
Ela apoiou as mãos no balcão.
— O senhor está oferecendo um emprego?
Gabriel sorriu.
— Ainda não. Não tenho uma vaga pronta para oferecer hoje, e não seria correto prometer algo sem definir a função. Mas estou expandindo uma empresa de consultoria administrativa e posso precisar de alguém com suas características.
Mariana não escondeu a esperança.
— Eu gostaria de participar de uma seleção, se surgir uma oportunidade.
— Ótimo. Vou deixar meu contato com você novamente. Se houver uma vaga compatível, entraremos em contato para conversar sobre as condições, as responsabilidades e o salário.
Ele anotou o telefone comercial em um cartão e entregou a ela.
— Enquanto isso, continue observando os processos. Se quiser, anote alguns problemas que você identifica e as soluções que proporia. Não precisa trazer informações confidenciais da loja. Quero apenas conhecer seu raciocínio.
Mariana recebeu o cartão com cuidado.
— Vou fazer isso.
Gabriel comprou os materiais, agradeceu e saiu.
Do lado de fora, parou por alguns segundos para organizar seus pensamentos.
Em menos de uma semana, havia identificado três pessoas com capacidades complementares.
Patrícia poderia cuidar da estrutura administrativa e financeira.
Caio poderia construir ferramentas tecnológicas.
Mariana poderia se tornar uma excelente profissional de operações.
Não precisava contratar Mariana imediatamente. Precisava garantir que, quando a empresa tivesse uma necessidade real, soubesse exatamente quem procurar.
Na primeira vida, ele só percebia talentos depois que outras empresas já os haviam desenvolvido.
Agora, tinha a oportunidade de ajudar a desenvolvê-los desde o começo.
E isso poderia fazer toda a diferença.
5. O contrato ganha forma
Às treze horas, Gabriel voltou ao escritório.
Patrícia estava organizando os documentos em um armário, enquanto Caio revisava o desenho do sistema.
— Alguma novidade? — perguntou Gabriel.
Patrícia se aproximou.
— Recebemos uma mensagem da Helena. Ela informou que os documentos para formalização do contrato estão quase prontos. Também perguntou se podemos realizar uma reunião inicial na segunda-feira, desde que a assinatura seja concluída antes do início dos trabalhos.
— Responda que temos disponibilidade e que aguardaremos a formalização. Podemos reservar o horário, mas não iniciaremos a execução antes de concluir essa etapa.
— Vou responder agora.
Gabriel foi até sua mesa e abriu a pasta da Horizonte Distribuição.
O trabalho estava dividido em três fases:
1. Diagnóstico dos processos administrativos.
2. Identificação de falhas, retrabalho e oportunidades de melhoria.
3. Apresentação de um plano de ação priorizado.
Ele revisou o escopo e acrescentou uma observação: as recomendações seriam fundamentadas nas informações fornecidas pela cliente, e qualquer atividade adicional precisaria ser discutida separadamente.
Não queria que um contrato de diagnóstico se transformasse, sem negociação, em uma obrigação ilimitada de resolver todos os problemas da empresa.
Às quatorze horas, o telefone tocou.
Era Helena Duarte.
— Gabriel, boa tarde. Tudo bem?
— Boa tarde, Helena. Tudo certo. Recebi sua mensagem.
— Ótimo. Estou ligando porque conseguimos avançar com a documentação. Nossa diretoria aprovou o escopo e o departamento responsável está concluindo a revisão do contrato.
— Fico satisfeito em saber.
— Gostaria de confirmar uma coisa antes da assinatura. Nossa equipe está preocupada com a possibilidade de o diagnóstico interromper o trabalho diário. Temos pedidos para processar e não podemos parar as operações.
Gabriel já esperava aquela preocupação.
— Não pretendemos interromper as atividades. A primeira fase será baseada em entrevistas, análise de documentos e acompanhamento dos procedimentos existentes. Se precisarmos observar alguma operação específica, combinaremos o horário com o responsável.
— E se vocês identificarem um problema urgente?
— Vamos separar as constatações por prioridade. Se encontrarmos algo que represente risco imediato ou possa causar prejuízo significativo, comunicaremos a você rapidamente. Mas não faremos alterações nos procedimentos sem sua autorização.
Helena pareceu aliviada.
— Era exatamente isso que eu precisava ouvir. Não quero contratar uma consultoria que chega dizendo que tudo está errado e tenta mudar a empresa inteira em dois dias.
— Nosso objetivo é compreender o funcionamento da empresa antes de recomendar mudanças. Um processo que parece ineficiente pode ter uma razão que ainda não conhecemos.
Houve uma pausa breve.
— Gabriel, posso fazer uma pergunta mais direta?
— Claro.
— Sua empresa é pequena. Como posso ter certeza de que vocês conseguirão entregar o trabalho?
Gabriel não se ofendeu. A pergunta era legítima.
— Você não precisa confiar apenas na minha palavra. Podemos estabelecer entregas verificáveis, prazos e reuniões de acompanhamento. Você saberá o que estamos fazendo, quais informações já analisamos e quais conclusões ainda precisam ser confirmadas.
— E se o trabalho não corresponder ao esperado?
— Teremos os critérios definidos no contrato para avaliar a entrega e corrigir eventuais problemas dentro do escopo acordado. Prefiro estabelecer expectativas realistas a prometer resultados que dependam de fatores fora do nosso controle.
Helena soltou uma pequena risada.
— Você sabe que essa resposta é diferente da maioria das propostas que recebi?
— Espero que seja diferente pelos motivos certos.
— É por isso que estou insistindo para que o contrato seja concluído. Acho que podemos trabalhar bem juntos.
Gabriel sorriu.
— Também acredito nisso, Helena.
Depois de mais alguns minutos, combinaram que a reunião inicial seria reservada para segunda-feira, condicionada à assinatura.
Quando desligou, Gabriel chamou Patrícia.
— Quero que você participe da organização administrativa desse projeto. No início, ficará responsável pelo controle dos documentos, pela agenda e pelo registro das solicitações. Também quero que acompanhe a maneira como organizamos o trabalho.
— Posso preparar um modelo de acompanhamento para a equipe?
— Deve preparar. Inclua responsáveis, prazos, pendências e decisões que precisam ser tomadas.
Patrícia pegou o caderno.
— E os custos?
— Vamos registrar as horas dedicadas, os deslocamentos e qualquer despesa diretamente relacionada ao projeto. Precisamos conhecer o custo real da entrega, não apenas o valor que receberemos.
Ela anotou tudo.
Gabriel estava ensinando a Patrícia uma lição que ele próprio demorara muito a aprender: faturamento não era lucro, e contratos grandes podiam se tornar prejuízos quando mal administrados.
O primeiro projeto da empresa não deveria apenas gerar receita.
Deveria ajudar a construir um método que pudesse ser repetido em dezenas de outros clientes.
6. Uma conversa sobre o futuro
No fim da tarde, Caio voltou à sala de Gabriel.
— Terminei a primeira versão do fluxo comercial.
— Já?
— Não é o programa ainda. Organizei uma planilha com os campos que discutimos e simulei algumas oportunidades. Descobri que precisamos de mais um campo.
Gabriel virou a cadeira.
— Qual?
— Origem da oportunidade. Se um cliente chega por indicação, precisamos saber quem indicou. Se vier de uma ligação, de uma visita ou de outro canal, também precisamos registrar.
Gabriel abriu a planilha.
A estrutura era simples, mas organizada. Havia campos para nome do cliente, serviço solicitado, responsável, etapa da negociação, data de envio da proposta e próxima ação.
Caio acrescentara a origem da oportunidade e uma coluna de observações.
— Muito bom — disse Gabriel. — Isso nos permitirá descobrir quais canais trazem os melhores clientes.
— Eu também pensei em criar um painel com o número de propostas abertas, aprovadas e perdidas.
— Podemos fazer isso depois que tivermos dados suficientes. Por enquanto, quero garantir que as informações sejam preenchidas corretamente.
Caio apontou para a tela.
— Foi o que pensei. Se criarmos um painel agora, teremos gráficos bonitos com informações incompletas.
Gabriel riu.
— Você está aprendendo rápido.
O jovem pareceu ganhar confiança.
— Gabriel, posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Por que você está investindo tanto em tecnologia se nossa empresa ainda é tão pequena?
Gabriel fechou a planilha e cruzou os braços.
Era uma pergunta que merecia uma resposta cuidadosa.
— Porque o tamanho da empresa não precisa determinar a qualidade dos seus processos. Uma empresa pequena pode começar organizada e crescer sem precisar reconstruir tudo do zero.
— Mas criar sistemas exige tempo.
— Sim. Por isso precisamos escolher bem o que desenvolver. Não vamos construir um programa gigantesco antes de saber se ele resolve um problema real. Vamos começar com ferramentas simples, medir os resultados e melhorar conforme necessário.
Caio assentiu.
— Entendi.
Gabriel levantou-se e caminhou até a janela.
— Pense no que acontecerá quando tivermos vinte clientes, depois cinquenta, depois cem. Se cada um tiver um método diferente de acompanhamento, a empresa ficará cada vez mais difícil de administrar. Mas, se desenvolvermos bons processos e ferramentas desde o começo, poderemos atender mais clientes sem aumentar os problemas na mesma proporção.
— Você quer construir uma empresa que consiga crescer sem depender de você para tudo.
Gabriel olhou para ele.
— Exatamente.
Caio permaneceu em silêncio por um momento.
— Eu gostaria de ajudar a construir isso.
Gabriel reconheceu a sinceridade na voz do rapaz.
— Então comece fazendo bem o trabalho que está diante de você. Não precisa pensar em cem clientes hoje. Precisa criar uma ferramenta que funcione para os primeiros cinco.
— Certo.
— E, quando perceber uma oportunidade de melhoria, traga a ideia. Quero que você aprenda a identificar problemas, propor soluções e explicar por que elas valem a pena.
Caio sorriu.
— Acho que vou gostar bastante de trabalhar aqui.
— Espero que sim. Quero que esta seja uma empresa em que as pessoas possam crescer junto com o negócio.
O rapaz voltou à sua mesa.
Gabriel observou a movimentação do escritório. Patrícia estava terminando o procedimento de controle de contratos. Caio ajustava a planilha comercial. As tarefas ainda eram pequenas, e os resultados financeiros, modestos.
Mas a estrutura começava a existir.
E, para Gabriel, aquela era uma vitória mais importante do que fechar um contrato enorme sem ter capacidade para executá-lo.
7. O nome que apareceu às dezessete horas
Às dezessete horas, quando Gabriel já estava se preparando para encerrar o expediente, Patrícia apareceu com uma nova folha impressa.
— Gabriel, acho que encontramos uma pista melhor sobre a Júlia Vasconcelos.
Ele voltou a se sentar.
— O que descobriu?
— Ainda não consegui confirmar a identidade dela, mas encontrei uma referência a um pequeno projeto de software administrativo apresentado em um evento local de tecnologia. O registro menciona uma participante chamada Júlia Vasconcelos e descreve um sistema para organizar vendas e despesas de pequenos estabelecimentos.
Gabriel sentiu o coração acelerar.
Não demonstrou a reação.
— Quando aconteceu?
— O registro não informa a data exata da apresentação, mas a página parece estar relacionada a atividades recentes de uma instituição de ensino. Não encontrei o currículo completo da participante.
Ele pegou a folha.
O título do projeto era simples: Controle Fácil — Organização para Pequenos Negócios.
A descrição mencionava cadastro de vendas, despesas, relatórios e controle básico de produtos.
Gabriel leu duas vezes.
Na vida anterior, em 2015, ele conhecera Júlia Vasconcelos em um evento empresarial. Ela apresentara uma solução semelhante, que depois evoluiria para uma plataforma de gestão voltada a pequenos negócios.
A empresa crescera ao longo dos anos, conquistando clientes que não podiam pagar por sistemas empresariais complexos.
Gabriel não se lembrava de todos os detalhes do início daquela trajetória. Não sabia se o projeto mencionado por Patrícia era o mesmo que conhecera anos depois, nem se aquela Júlia era realmente a pessoa certa.
Mas a coincidência era forte demais para ignorar.
— Onde você encontrou isso? — perguntou.
Patrícia explicou o caminho da pesquisa, indicando a instituição e o registro público.
— Não consegui encontrar um telefone profissional. Há apenas uma referência à apresentação.
Gabriel apoiou a folha sobre a mesa.
— Fez um excelente trabalho. Agora precisamos confirmar a identidade antes de qualquer contato.
— Posso procurar informações sobre a instituição e verificar se existe algum canal público para mensagens aos participantes.
— Sim. E não precisa se limitar ao nome. Procure o projeto, os responsáveis e eventuais materiais de apresentação. Se encontrarmos a pessoa, quero conhecer o trabalho antes de conversar sobre uma parceria.
Patrícia assentiu.
— Você acha que esse projeto pode ser importante?
Gabriel olhou novamente para o título.
— Acho que o problema que ele tenta resolver é importante. Milhares de pequenos comerciantes precisam controlar suas vendas, despesas e estoques. Muitos não têm dinheiro para contratar um sistema caro, e outros simplesmente não conseguem usar ferramentas complicadas.
— Então existe mercado.
— Existe uma necessidade. Precisamos descobrir se a solução é boa, se a pessoa tem interesse em desenvolver o produto e se podemos construir uma parceria que beneficie os dois lados.
Patrícia sorriu.
— Vou continuar a pesquisa na segunda-feira.
— Perfeito.
Quando ela saiu, Gabriel ficou sozinho com a folha.
Se aquela fosse realmente Júlia, a oportunidade poderia ser muito maior do que contratar uma desenvolvedora talentosa.
Ele poderia ajudar a construir uma empresa de tecnologia desde os primeiros passos.
Sua experiência futura permitia reconhecer problemas que se tornariam cada vez mais relevantes: pequenos negócios precisariam de sistemas simples, relatórios claros, integração entre vendas e estoque e ferramentas que não exigissem conhecimentos técnicos.
Mas Gabriel não queria apenas investir dinheiro.
Queria encontrar uma parceria em que cada lado trouxesse algo valioso.
Júlia poderia trazer o produto e o conhecimento técnico. Caio poderia ajudar na arquitetura, na automação e na evolução do sistema. A Montenegro poderia contribuir com processos empresariais, testes com clientes e acesso ao mercado.
Se a oportunidade se confirmasse, os três poderiam construir algo muito maior do que qualquer um conseguiria sozinho.
Ele pegou o caderno e acrescentou uma nova anotação:
Possível parceria tecnológica — Controle Fácil. Confirmar identidade, estágio do produto, direitos sobre o projeto e interesse da criadora.
Em seguida, escreveu uma última frase:
Não comprar uma promessa. Construir uma oportunidade.
8. O primeiro fim de semana de uma nova vida
Às dezoito horas, Gabriel encerrou o expediente.
Antes de sair, revisou suas anotações.
O contrato da Horizonte estava próximo da formalização. Patrícia havia demonstrado capacidade para assumir responsabilidades maiores. Caio começara a transformar necessidades comerciais em ferramentas práticas. Mariana poderia ser uma futura integrante da equipe, e uma possível empreendedora de tecnologia havia surgido no horizonte.
Nada disso significava que a empresa estivesse rica.
Ainda havia despesas, compromissos e incertezas. O dinheiro precisava ser administrado com cuidado. O crescimento dependeria de execução, não apenas de boas ideias.
Mas Gabriel possuía uma vantagem decisiva: sabia reconhecer caminhos que outras pessoas ainda não conseguiam enxergar.
No sábado, dedicaria algumas horas a organizar sua estratégia de investimentos e pesquisar o mercado imobiliário. No domingo, revisaria os planos da empresa para a semana seguinte.
Não compraria imóveis sem avaliar os números. Não investiria em empresas apenas porque se lembrava de que poderiam crescer. E não contrataria pessoas sem definir suas funções.
O futuro lhe dava pistas.
A disciplina transformaria essas pistas em resultados.
Ao sair do prédio, Gabriel olhou para a rua movimentada.
Naquela mesma data, em sua primeira vida, ele não possuía qualquer empresa. Ainda estava longe de construir o negócio que um dia perderia.
Agora, a Montenegro Soluções Empresariais tinha a possibilidade de se tornar algo maior desde o início.
Ele não precisava repetir os erros antigos para provar que havia mudado.
Precisava apenas tomar decisões melhores, uma após a outra.
E, pela primeira vez desde que despertara em 2006, Gabriel teve a sensação de que não estava simplesmente recuperando o que perdera.
Estava construindo algo que jamais havia conseguido construir antes.
Algo planejado para crescer.
Algo capaz de sobreviver sem depender de uma única pessoa.
Algo que poderia se tornar um império.
Próximo capítulo — Capítulo 7: A primeira vitória financeira
Na segunda-feira, a Montenegro finalmente dará um passo concreto em direção ao seu primeiro contrato.
Enquanto Patrícia prepara a estrutura administrativa para atender à Horizonte Distribuição, Gabriel descobrirá uma oportunidade de economizar dinheiro e aumentar a margem de lucro do projeto.
Caio apresentará uma versão funcional do sistema de acompanhamento comercial, e Gabriel usará seus conhecimentos do futuro para identificar uma nova possibilidade de negócio.
Mas a maior surpresa virá de uma ligação inesperada: a criadora do projeto Controle Fácil poderá estar muito mais perto do que ele imaginava.
E Gabriel começará a perceber que sua maior vantagem não será apenas saber quais empresas vencerão no futuro.
Será saber como ajudá-las a vencer antes que o restante do mercado perceba seu potencial.