Agnes não sonhava há muito tempo. Desde que sua alma foi transportada para uma diabrete, seus períodos de descanso eram apenas breves lapsos de inconsciência, frequentemente interrompidos por sobressaltos noturnos e pela fome. O medo visceral e primitivo da morte havia sido o único motor que a manteve sã durante aquele tempo, forçando-a a sobreviver um dia após o outro sem saber o que aconteceria quando o combustível de seu corpo acabasse ou quando ela se tornaria o combustível de alguma besta indizível.
Mas, agora, o cenário era outro. Ela experimentava a vastidão de um voo. Suas asas batiam com uma força majestosa, empurrando o vento para baixo, embora soubesse, com uma clareza alienígena, que não eram tão colossais quanto as da entidade que voava ao seu lado — sua "mãe". A vida aviária parecia transcendentalmente superior a qualquer vida que ela já tivera. Contudo, a experiência era manchada pelo fanatismo da matriarca dourada, que discursava incessantemente sobre o "dever sagrado" e a necessidade imperiosa de "exterminar a praga dos metamorfos" fosse lá o que essa praga significasse para a biologia divina delas.
Como a mente de Agnes nunca havia processado o conceito de uma figura materna real, ela aceitou a doutrinação bizarra com naturalidade aproveitando cada réstia de carinho que a grande ave oferecia. O sonho, ou melhor, a memória residual da carne que ela havia assimilado, dissolveu-se quando a alvorada surgiu na visão da ave. O corpo da fênix era tecido da mais pura luz divina, mas a alvorada arco-íris que despontava no horizonte era tratada pela mãe como uma toxina letal, um "mar profano" cujas ondas aniquilariam qualquer fênix que ousasse banhar-se nele.
A memória alienígena se apagou, e Agnes abriu os olhos.
A consciência retornou com uma clareza cristalina. O novo chassi aviário era infinitamente mais confortável que a biologia corrompida de seu corpo anterior. Ela havia crescido, ostentando agora uma silhueta predatória que lembrava uma harpia dourada e imponente além da sensação constante de estar coberta por um cobertor quente que a deixava confortável.
Mas aqui ainda era o inferno…
O ar fedia a sal e enxofre. Ao focar a visão panorâmica, percebeu que não estava no solo árido, mas sentada sobre a carapaça colossal de um caranguejo que marchava ritmicamente pelas águas escuras de um mar subterrâneo.
Por um segundo, um instinto fantasma a traiu. Ela tentou abrir asas monumentais que não existiam em suas costas, desequilibrando-se de leve.
“Aquele sonho… não era meu” sussurrou Agnes, a voz estridente de seu novo bico ecoando no silêncio úmido.
“Compreendo perfeitamente como se sente pequena, Mayatosh” a voz rascante e ancestral reverberou, soando não como uma interrupção, mas como uma saudação calculada.
O gigantesco caranguejo não parou sua marcha pelas águas.
“Creio que haja a necessidade de nos apresentarmos adequadamente. Eu sou o Mago, o sexto de minha linhagem demoníaca do Sétimo Círculo. Mas pode me chamar de Go.” Os olhos pedunculados do crustáceo giraram em seus eixos com a precisão natural de uma coruja, fixando-se na garota de penas douradas.
Agnes relaxou levemente a postura defensiva. A lógica fria a alertava de que, como não sabia nadar e estava no meio de um oceano escuro, e como o caranguejo teve a educação de se apresentar ela deveria pelo menos tentar ser educada. Ela endireitou o pescoço e tentou seu melhor para responder sem parecer mal educada.
“Sou Agnes. A primeira da minha linhagem, eu acho. Eu não sou daqui do…” Ela interrompeu a própria frase, o cérebro juntando as peças do ambiente, das cinzas mortuárias e do título bizarro do mago. “Pera aí! Nós estamos no Inferno!”
“Haha. Você não é daqui. Uma humana, talvez?” O tom de Go era tão pacato e desprovido de surpresa que Agnes sentiu uma onda repentina de constrangimento.
Sua mente de engenheira começou a tabular os cenários desastrosos. Eu deixei muito óbvio ou isso é comum? Se fosse óbvio, significava que havia uma infestação de humanos perdidos ali. Se fosse comum, ela teria que lidar com a probabilidade perturbadora de que cada besta que abateu para sobreviver era, na verdade, um humano reencarnado sofrendo algum tipo de castigo kármico.
“Não é sua culpa exalar essa essência” continuou Go, poupando-a da espiral de paranoia. “Você exibe a morfologia de uma Mayatosh híbrida de fênix. Essa instabilidade estrutural é incomum, a menos que o hospedeiro possua uma alma intacta. Algo que, via de regra, pertence exclusivamente aos humanos. Ou, claro, a seres tão antigos quanto eu, que vêm reciclando a mesma alma desde tempos imemoriais.” O caranguejo pausou, o ritmo de suas patas criando redemoinhos na água. “Mas, então, como uma alma viva veio parar no 7° círculo?”
“Eu morri e vim pra cá. A rota não é essa? Pelo menos é o que a maioria dos padres prega” Agnes ainda processava as palavras sem sentido das que ela simplesmente achava desnecessárias, enquanto tentava achar um significado pra isso tudo.
O caranguejo silenciou. Ele ergueu sua pinça menor, cuja quitina era entalhada com runas arcanas. As linhas brilharam, projetando uma matriz cartográfica tridimensional no ar úmido. Go a estudou por alguns segundos antes de corrigir ligeiramente sua rota para o nordeste.
“A teologia mortal é falha, criança. Se você morreu, sua alma deveria ter sido dissipada ou colhida. É assim que a roda gira. Contudo, humanos malignos, apavorados diante do oblívio da morte definitiva, frequentemente trocam o que resta de suas almas degradadas por uma segunda chance na base do abismo.”
Go ergueu seu longo cajado de madeira petrificada. A ponta irradiou um feixe de luz condensada que subiu como um sinalizador fantasmagórico, iluminando a abóbada acima.
“A integridade da sua alma determina seu peso material e sua função no Inferno. A esmagadora maioria desses humanos corrompidos possui almas podres e fragmentadas. O resultado é a reencarnação na forma existencial mais doentia e agoniante que a biologia infernal pode oferecer.”
A luz do cajado iluminou o teto. Devido ao brilho arcano repulsivo do feixe, Agnes pôde enxergar a verdade por trás da cúpula de cipó-raio. Os milhares de "bulbos" que salpicavam o teto não eram frutos vegetais. Eram casulos translúcidos. Dentro de cada um deles, contorciam-se formas etéreas e espectrais, rostos derretidos em um grito eterno, presos em uma gestação de dor ininterrupta, tentando rasgar a membrana de cipó sem sucesso.
“Mas e aquele bulbo gigante?” Agnes estendeu a garra trêmula e apontou para o sol pulsante no horizonte, a estrutura colossal que abrigava um feto alienígena e retorcido.
“Aquele não é gado expiatório. Aquele é um Vigia” O tom de Go baixou, assumindo um respeito lúgubre.
“Existem três deles: o Subterrâneo, o Terreno e o Celeste. O trabalho deles é puramente administrativo. Eles garantem que as encarnações parasitárias continuem sofrendo pelo tempo exato e equivalente ao valor negativo de suas almas. Nada mais, nada menos. A propósito... você está com fome, mocinha?” O caranguejo falou enquanto uma fumaça cheirosa começava a emanar de seu cajado.
Graças ao cheiro emanado do cajado. O estômago de Agnes roncou antes que ela pudesse mentir. O medo de se tornar a ração do mago caranguejo era forte, mas a necessidade metabólica daquele novo corpo exigia calorias. Ela assentiu levemente com o bico.
Go não hesitou. Usando o pesado cajado entalhado como um arpão, ele desferiu um golpe cirúrgico na água negra. Quando recolheu a arma, a ponta perfurava um peixe monstruoso não muito diferente de um tubarão com escamas metálicas e dentes pontiagudos. Com um movimento rápido, o crustáceo separou a cabeça da fera aquática, jogando-a na própria mandíbula cheia de dentes mastigatórios que transformou a cabeça em uma pasta vermelha que escorreu pelas suas mandíbulas, e atirou o corpo decapitado no colo de Agnes.
A destreza a deixou atônita. A pinça que empunhava o cajado era desproporcionalmente menor que a garra principal do mago, e, ainda assim, a física do movimento capturou um predador com o dobro do tamanho atual dela.
“Isso foi... magia?” ela perguntou, antes de usar as garras afiadas como bisturis para fatiar o peixe cru em pedaços engolíveis.
“Atrair a criatura das profundezas foi manipulação arcana. O golpe? Puramente técnica aplicada. Entende a distinção?” Falou o Mago enquanto capturava outro peixe esse que virou uma pasta por inteiro, Agnês estranhou o desperdício, mas não questionou.
Agnes jogou um pedaço da carne na boca. Era paradoxalmente macio, derretendo no bico com um sabor leve e quase adocicado, em absoluto contraste com a brutalidade do ambiente. No entanto, o volume de carne era colossal; ela não comeria nem um terço daquilo antes de ficar cheia.
“Não tenha pressa, criança. Temos uma janela segura de tempo até chegarmos à outra margem da costa.”
“Por que você está fugindo para a outra costa? E por que me deixou pegar carona?” Sua voz soou meio aglutinada devida a sua boca cheia de peixe.
Go pareceu ignorá-la momentaneamente enquanto abatia outro peixe maciço, engolindo-o por inteiro dessa vez. Satisfeito, ele virou os olhos pedunculados para as correntes escuras.
“O Sétimo Círculo tem suas próprias leis de física destrutiva, garota. A chuva mágica e as cinzas que caem ininterruptamente não desaparecem. Toda essa massa líquida e arcana se acumula e desce pelas fendas do continente, formando um tsunami de proporções obliteradoras. Se eu ficar na planície aberta quando a maré de cinzas quebrar, a força cinética e a toxicidade do evento arrancarão as carapaças do corpo. Preciso da geografia da outra costa para que sobrevivam ao impacto.”
Agnes ia questionar como um ser tão grande e resistente como ele morreria afogado por uma onda gigante, mas, ao espiar a borda da carapaça de Go, a ficha caiu. Nadando freneticamente na água negra ao redor das pernas do feiticeiro, dezenas de minúsculos caranguejos lutavam para acompanhar o ritmo da fuga enquanto se deliciavam com a pasta de peixe que flutuava sobre a água. Ele não estava fugindo apenas por si; estava escoltando a prole.
Ela analisou a situação, sentiu o cheiro doce do sangue do peixe e a fome de sua barriga decidindo que suas inúmeras dúvidas sobre o ocultista poderiam esperar. Agnes voltou a devorar sua refeição em silêncio, enquanto a marcha contra o apocalipse iminente continuava.
(Fim do capítulo)