Sete assentos foram dispostos no epicentro pacífico da Outra Costa, embora apenas um deles merecesse remotamente o título de "cadeira". Tratava-se do trono de ossos polidos e marfim entalhado pertencente a Causel, o Pescador. Sendo um espécime puro da raça orcoide, ele era um xamã colossal, com a pele verde-musgo coberta de tatuagens animistas e escarificações tribais.
Em total contraste com sua aparência brutal, Causel degustava uma taça de vinho rubi com uma elegância letárgica, apreciando a vista do lago artificial repleto de carpas douradas e obesas — uma anomalia ecológica que só poderia existir sob a proteção absoluta daquela cúpula. Ele aguardava a chegada dos outros seis senhores do Mar das Almas.
As águas tranquilas do lago ondularam quando Go, o Sexto de sua linhagem, emergiu em sua forma titânica, acomodando sua carapaça em um espaço designado a ele no lago onde as carpas fizeram o favor de começar a limpar sua carapaça das sujeiras acumuladas durante seu percurso.
“Você trouxe uma mestiça…” A voz do orc soou límpida e polida, desprovida de qualquer rosnado selvagem, lembrando o tom de um nobre avaliando um investimento de risco. “Não devo me preocupar com um oitavo membro em nosso grupo em alguns anos, devo?”
“É apenas uma criança” respondeu o caranguejo, com a impassibilidade de quem relata o clima. “No máximo, ela vai querer subir para a superfície assim que a Grande Onda passar.”
Satisfeito com a garantia do mago, Causel voltou a admirar a paisagem, até que, no zênite da cúpula de vidro, uma passagem se abriu. Sempre havia um tolo no Inferno que achava uma excelente ideia construir palácios logo acima de uma das passagens para dentro da cúpula. Para evitar que insetos adentrassem e comessem seus filhotes, eles resolveram colocar o sol azul abaixo da entrada; as fortalezas e seus habitantes que tentava entrar eram instantaneamente obliteradas em um pó fino e escuro, dissipando-se antes mesmo de tocar a água.
Pela passagem superior, desceu o quarto monarca: O Cinzel. O título derivava de sua habilidade geocinética de erguer terra e esculpir ilhas no Mar das Almas; a esmagadora maioria da fauna terrestre daquele círculo só existia graças às plataformas que ele construía. Mesmo que a Grande Onda aniquilasse suas criações ciclicamente, O Cinzel era um arquiteto incansável.
Além de ser o principal criador da cúpula vítrea que envolve a Outra Costa, se ele quisesse suas construções poderiam facilmente resistir à grande onda.
Sua anatomia, contudo, era um delírio febril. Possuía a estrutura e as asas de uma libélula, mas, no lugar onde deveria estar a cabeça do inseto, erguia-se um torso humanoide masculino em miniatura. Apesar do tamanho minúsculo, o peso de sua alma projetava uma aura multicolorida de trinta metros de diâmetro. Entrar naquele arco-íris era o equivalente mágico a enfiar a cabeça na mandíbula de um crocodilo e rezar para que ela não se fechasse em seu rosto.
O Cinzel pousou suavemente sobre uma flor de lótus flutuante. A planta, em sua simplicidade, operava como uma matriz de espionagem arcana, conectando a mente fofoqueira da quimera à rede de raízes de toda a cúpula. Antes de se dirigir aos colegas, ele preferiu escutar as vibrações do ambiente e ouvir as crianças falando sobre uma tal “convidada dourada”.
Minutos depois, um som pesado de quitina arranhando pedra anunciou o segundo membro e o quarto e sempre último a chegar. O Rei Escorpião, um aracnídeo de proporções abissais que dominava um quadrante inteiro do oceano negro, acomodou-se sobre uma formação rochosa esculpida no formato perfeito de um cogumelo.
“Olá, verme. Olá, Go e Causel” cumprimentou a libélula, ainda com a mente imersa na rede vegetal. O Rei Escorpião bufou, decepcionado, enquanto Go confirmava a matemática óbvia da reunião.
“Apenas nós quatro, pelo visto. Aqueles covardes ainda estão se matando pela Alma Esmeralda” comentou o caranguejo.
“Exato” suspirou o escorpião, o tom vibrando com a exaustão de quem lida com sócios idiotas.
Causel, sem pressa, estalou os dedos. O som propagou uma onda de choque microscópica que cortou o fluxo espiritual da flor, "libertando" O Cinzel de sua rede de espionagem abruptamente.
*Bzzz! Buzz!* A libélula zumbiu em um espasmo de irritação, mas rapidamente recuperou a compostura. “O assunto de hoje é a abertura dos céus... Pelo visto, um Lorde Demônio do Primeiro Círculo acabou de morrer.”
Com essa simples frase, o clima tropical da redoma despencou para um frio cadavérico naquele espaço; e de forma tão literal que até as carpas se aglomeravam abaixo de Go como se pedissem sua proteção.
***
Enquanto os senhores do submundo debatiam a morte de um deus, Agnes se encontrava em uma ilha verdejante e perfumada.
O cheiro doce das frutas e a brisa morna acariciando suas penas douradas a deixavam profundamente paranoica. Após sobreviver por quase dois meses em um estado constante de inanição e terror, a quebra de expectativa daquele ambiente pacífico ativava todos os seus alertas de predador. Durante a viagem no casco de Go, Agnes esperava encontrar uma versão demoníaca e militarizada de Hogwarts, uma fortaleza brutal onde os herdeiros dos líderes infernais fossem treinados.
Em vez disso, ela estava sentada em uma praia de areia branca, terminando de limpar sua "espada de peixe", enquanto um bando de orcs filhotes ria e arremessava folhas secas em sua direção.
‘Normalmente, eu estaria furiosa’, pensou Agnes. No entanto, a biologia defensiva de sua casca de fênix reagia ao "ataque" irradiando ondas curtas de calor passivo, incinerando as folhas no ar e transformando-as em uma chuva inofensiva de cinzas brilhantes. As crianças orcs achavam o truque fascinante.
A brincadeira só “perdeu a graça” quando outras raças infantis se juntaram ao grupo. Um filhote de escorpião gigante (minúsculo comparado a Go, mas do tamanho de um cão mastim) decidiu testar a resistência da fênix e arremessou um tronco de madeira direto na cabeça de Agnes.
“Ei! Parem com isso!” ela grasnou, a voz esganiçada e estridente ecoando pela praia.
Em resposta ao estresse, suas penas entraram em combustão espontânea. Uma chama divina e cegante engoliu a garota. Longe de se assustarem, as crianças do inferno saíram correndo em bando, gargalhando histericamente como se tivessem acabado de presenciar a melhor piada do século.
‘Ótimo. Agora eu tô com fome e pegando fogo. Aff’, pensou Agnes, dissipando o fogo enquanto se lembrava da sensação de estar coberta por esse poder. Ela pegou sua espada peixe-espada e marchou em direção às árvores para colher algumas frutas, entediada com a paz passageira enquanto observava as construções macabras das fortalezas de ossos que enchiam o horizonte de vidro.
***
No ponto mais profundo e esmagador do Mar das Almas, O Vigia Subterrâneo pulsava em sua glória carnal e incompreensível.
Se Agnes, em sua jornada infernal, soubesse a verdade sobre aquele ecossistema, sua mente racional teria se fragmentado. A água que enchia o Sétimo Círculo (a mesma que ela bebeu e se banhou) não era H2O puro. Toda a massa líquida vinda dos Bulbos de Penitência era em certo sentido lágrimas.
Cada alma corrompida aprisionada nos bulbos de cipó-raio era torturada por dois métodos contínuos: vivendo em agonia até serem devoradas ou apodrecerem em dor nos casulos e chorando lágrimas de pura dor enquanto os raios sobrenaturais fragmentavam suas formas eternas. Aquela água quente e pura era a destilação física do remorso humano agora sem emoções para torná-la impura.
E O Vigia preparava-se para se alimentar liberando mais de seus cipós para absorver o máximo daquele doce líquido etérico.
As cinzas cósmicas que cobrem toda a superfície do 7° círculo atuavam como um filtro, aglutinando os sentimentos e a miséria remanescentes enquanto o mais puro remorso descia para o mar em um evento de proporções obliteradoras: a Grande Onda. Quando a onda quebrava, O Vigia devorava parte da estrutura metafísica do evento. Após saciar O Vigia, as águas se acalmariam; parte da energia residual faria as centelhas anímicas desabrocharem em almas plenas naqueles com força o suficiente para suportar, enquanto o resto da massa psíquica retornaria ao universo primordial para o ciclo de encarnação humana onde virariam almas novinhas puras, isso por si só formava um ciclo de 1 mês em tempo humano. Era a natureza desse sistema que impedia mortos vivos e fantasmas de existirem no universo do Criador em excesso.
Mas algo incomodava a entidade.
O Vigia não possuía emoções humanas, mas a ordem das coisas estava sendo subvertida. Três dos Sete, autointitulados, Reis do Mar das Almas estavam atrapalhando sua concentração para travar uma guerra estúpida por um mero Cristalzinho verde insignificante. O Vigia não ligava quando eles tentavam escapar do Inferno, nem quando construíram aquele paraíso falso. Mas vê-los agir como falsos deuses por causa de um minério de alma era uma afronta à vontade do criador.
O Vigia os teria aniquilado ali mesmo, mas ele já fez isso tantas vezes que sentia as almas dessas escórias apenas reencarnando em novos filhotes e recomeçando a guerra inútil milhares de ciclos depois. Precisando de intervenção superior para saber o que fazer, a criatura decidiu se comunicar com o Vigia Celeste.
Sendo um vegetal carnoso que por si só se manifesta a partir de propósito e instinto, o Vigia Subterrâneo não possuía cordas vocais, tampouco intelecto para articular palavras. Em vez disso, ele liberou um grito de Vontade — uma onda de choque psíquica e telepática de tal magnitude que fez a própria malha da realidade nos seis círculos do Inferno acima tremer. Foi um evento sísmico não intencional, um espasmo de comunicação bruta que fazia os fracos desabarem e os fortes se levantarem em pânico.
Entidades milenares em todos os círculos ergueram os olhos para o abismo. Ao não identificarem uma ameaça imediata, ignoraram o tremor e voltaram aos seus tormentos.
Todos, exceto um.
“Ora, ora... Minha peça já está no tabuleiro e eu sequer havia notado” sussurrou a voz profunda, que soava como o ranger de falhas tectônicas.
Um dos Doze Reis Demônios, o infame Lorde da Vontade, abriu seus olhos colossais na escuridão de seu próprio cárcere. Preso por correntes continentais forjadas pelo próprio tecido do universo, o demônio de proporções planetárias fixou sua atenção na pequena assinatura de fogo divina vagando pelo Sétimo Círculo. Agnes.
Ela seria a chave de sua fechadura prisional. O catalisador para sua ascensão.
“Eu poderei finalmente pedir perdão…” O lorde riu, um som que fez as placas do seu círculo tremerem. A insanidade e a esperança dançavam em sua mente corrompida. “Deus vai me ouvir. Mesmo que eu precise me arrastar como um verme, eu vou fugir deste Inferno.”
(Fim do capítulo)